Por Pe. Hermes A. Fernandes
A Liturgia Eucarística da Terça-feira da 25ª Semana do Tempo Comum apresenta uma convergência muito significativa entre o Livro de Provérbios e o Evangelho de Lucas. A primeira leitura afirma que praticar a justiça e o direito agrada mais a Deus do que os sacrifícios, enquanto o Evangelho apresenta Jesus afirmando que sua verdadeira família é formada por aqueles que ouvem a Palavra de Deus e a põem em prática. A Palavra, portanto, não pode permanecer apenas no âmbito da escuta religiosa: ela precisa transformar relações, escolhas e estruturas.
Essa perspectiva encontra profunda sintonia com a Teologia Latino-americana e com a experiência das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), nas quais a Bíblia é lida a partir da vida e a vida é iluminada pela Palavra. O encontro entre os dois textos nos conduz a uma pergunta essencial: que tipo de comunidade nasce quando a Palavra de Deus é verdadeiramente escutada e praticada?
1. Provérbios: Deus não se deixa substituir pelo poder nem pelo culto vazio
O Livro de Provérbios reúne diferentes coleções de ensinamentos sapienciais, cuja formação atravessou diferentes períodos da história de Israel. O trecho de Pr 21,1-6.10-13 reúne sentenças sobre o exercício do poder, a justiça, a honestidade, o trabalho, a arrogância e, de maneira particularmente significativa, a relação com o pobre.
O texto começa dizendo: “O coração do rei nas mãos do Senhor é como água corrente; ele o dirige para onde quer” (Pr 21,1). Em uma sociedade em que o rei concentrava grande poder, essa afirmação relativiza a autoridade humana. O soberano não é absoluto. Seu poder está submetido a Deus.
A afirmação ganha força no versículo seguinte: “O homem pensa que o seu caminho é sempre reto, mas é o Senhor quem sonda os corações.” O ser humano pode justificar suas próprias decisões, mas Deus conhece aquilo que está por trás das aparências.
O centro teológico do trecho encontra-se no versículo 3: “Praticar a justiça e o direito é mais agradável ao Senhor do que os sacrifícios.” A sabedoria bíblica não despreza o culto, mas denuncia a tentativa de utilizar o culto para substituir a justiça.
Aqui encontramos uma questão profundamente atual. Uma religião pode multiplicar celebrações, discursos e manifestações externas de fé e, ao mesmo tempo, permanecer indiferente diante do sofrimento humano. Provérbios recorda que Deus não pode ser honrado por uma liturgia que contradiz a justiça exigida na vida cotidiana.
2. “Quem tapa os ouvidos ao clamor do pobre…”
O versículo 13 constitui uma das afirmações mais fortes do texto: “Quem tapa os ouvidos ao clamor do pobre, também há de clamar, mas não será ouvido.” A pobreza não aparece aqui como problema abstrato. Existe um pobre que clama, e existe alguém que pode escolher ouvir ou fechar os ouvidos.
Essa linguagem aproxima Provérbios de toda a tradição bíblica que apresenta Deus como aquele que escuta o clamor dos vulnerabilizados. Desde o Êxodo, o clamor dos pobres e oprimidos ocupa lugar central na experiência de fé de Israel.
A perspectiva da Teologia Latino-americana permite perceber que esse versículo possui uma dimensão social e histórica incontornável. O problema não está apenas na atitude individual de uma pessoa que deixa de ajudar alguém necessitado. Existe também uma dimensão estrutural: que mecanismos sociais produzem pobreza e, depois, tornam invisível o clamor dos pobres?
A pergunta continua atual diante da fome, da falta de moradia, do desemprego, da precarização do trabalho, da violência nas periferias, do racismo, da expulsão de comunidades de seus territórios, das ameaças aos povos indígenas e tradicionais e da destruição da Casa Comum.
A espiritualidade bíblica não permite que a Igreja permaneça indiferente. Escutar o pobre é uma atitude teológica. Fechar os ouvidos ao seu clamor significa contradizer o próprio Deus que escuta.
3. “Minha mãe e meus irmãos são aqueles que ouvem a Palavra de Deus”
No Evangelho de Lucas, a mãe e os irmãos de Jesus procuram aproximar-se dele, mas a multidão impede que cheguem. Quando avisam Jesus, ele responde: “Minha mãe e meus irmãos são aqueles que ouvem a Palavra de Deus e a põem em prática” (Lc 8,21).
É importante compreender o contexto. Lucas acaba de apresentar a parábola do semeador e a explicação sobre a semente como Palavra de Deus (Lc 8,4-15). Em seguida, afirma que a Palavra deve ser colocada no alto, como uma lâmpada que ilumina (Lc 8,16-18). Logo depois vem a afirmação sobre a verdadeira família de Jesus.
A sequência é significativa: escutar a Palavra, acolhê-la e colocá-la em prática é aquilo que constitui a verdadeira pertença à comunidade de Jesus.
Jesus não está desprezando sua mãe nem seus familiares. Pelo contrário, está ampliando radicalmente o conceito de família. A pertença ao projeto de Deus não é determinada pelo sangue, pela posição social ou por privilégios. É construída pela adesão concreta à Palavra.
A família de Jesus é uma comunidade de discípulos e discípulas que escutam e praticam.
4. A Palavra que cria uma nova fraternidade
Quando colocamos os dois textos em diálogo, percebemos uma mensagem muito clara. Provérbios pergunta se estamos praticando a justiça e ouvindo o clamor dos pobres. Lucas revela que aqueles que escutam e praticam a Palavra tornam-se família de Jesus.
Assim, a comunidade cristã não pode ser definida apenas pela frequência às celebrações, pela observância de normas religiosas ou pela identidade cultural. Sua autenticidade aparece na maneira como seus membros se relacionam com os pequenos.
A Palavra que não produz justiça corre o risco de transformar-se em palavra estéril.
É precisamente aqui que a experiência das CEBs oferece uma importante contribuição pastoral. A Leitura Popular da Bíblia parte da vida concreta do povo, confronta essa realidade com a Palavra e retorna à vida com um compromisso renovado. A pergunta não é somente: “O que a Bíblia diz?”, mas também: “O que Deus está nos dizendo através desta Palavra diante da realidade que estamos vivendo?”
Quando uma comunidade lê Pr 21,13 diante de uma família que passa fome, não pode limitar-se a uma reflexão espiritual sobre a caridade. Deve perguntar também pelas causas da fome, pelas responsabilidades coletivas e pelas formas de organização capazes de defender a dignidade humana.
Quando escuta Lc 8,21, a comunidade precisa perguntar: quem estamos reconhecendo como nossa família?
5. As CEBs como família que escuta o clamor
As Comunidades Eclesiais de Base podem ser compreendidas como espaços privilegiados para concretizar essa “família” anunciada por Jesus. Nelas, a fé é vivida em comunidade e a Palavra pode tornar-se instrumento de discernimento da realidade.
A pequena comunidade reunida em torno da Bíblia aprende a perceber que o sofrimento de uma pessoa não é apenas um problema particular. A fome de uma família interpela toda a comunidade. A ausência de moradia questiona a sociedade. A violência contra uma mulher exige defesa da dignidade e transformação das relações. A ameaça a um território indígena ou quilombola convoca ao cuidado da vida e da Casa Comum.
Assim, ouvir a Palavra significa aprender a ouvir os clamores que chegam até nós.
A pastoral sociotransformadora não reduz sua missão à assistência imediata — embora a solidariedade emergencial seja muitas vezes indispensável. Ela procura também fortalecer a organização comunitária, a consciência cidadã, a defesa dos direitos, a participação social e a capacidade dos próprios pobres de serem sujeitos de sua história.
O pobre deixa de ser apenas destinatário da ação pastoral e passa a ser sujeito eclesial e agente de transformação.
6. Do altar para a vida
Há uma ligação profunda entre a primeira leitura e a celebração eucarística. Provérbios afirma que a justiça é mais agradável a Deus do que sacrifícios. Isso não significa que a Eucaristia seja desnecessária, mas que ela não pode ser separada da vida.
A Eucaristia reúne a comunidade para celebrar Cristo que entrega sua vida. Por isso, aquilo que celebramos no altar precisa prolongar-se nas relações sociais.
Não faria sentido comungar o Corpo de Cristo e permanecer indiferente diante do corpo ferido do irmão e da irmã. Não seria coerente proclamar que todos são filhos e filhas de Deus e aceitar estruturas que descartam pessoas.
A verdadeira espiritualidade eucarística conduz à fraternidade.
Nesse sentido, a Liturgia desta terça-feira convida as CEBs a fazerem da Eucaristia um ponto de partida para a missão: celebrar, escutar, discernir e agir.
7. Uma família que transforma a realidade
Provérbios e Lucas convergem, finalmente, em uma mesma exigência: a fé precisa tornar-se prática.
Deus não olha apenas para as palavras religiosas, mas para a justiça praticada. Jesus não chama de sua família simplesmente aqueles que possuem algum vínculo biológico com ele, mas aqueles que escutam a Palavra e a colocam em prática.
A consequência pastoral é profunda: uma comunidade cristã verdadeiramente evangélica precisa ser uma comunidade que ouve os pobres, acolhe os marginalizados, enfrenta as exclusões, denuncia as injustiças e constrói relações de fraternidade.
As CEBs são chamadas a manter viva essa dinâmica: Bíblia na mão, realidade diante dos olhos, comunidade reunida e coração aberto ao Espírito. A Palavra deve sair das páginas das Escrituras e entrar nas casas, nas periferias, nos campos, nas comunidades tradicionais, nos lugares de sofrimento e nos espaços onde a vida está ameaçada.
A pergunta que permanece para esta celebração é simples e exigente: estamos apenas ouvindo a Palavra ou estamos permitindo que ela transforme nossa maneira de viver?
Porque, segundo Jesus, é justamente aí que se reconhece sua verdadeira família. E, segundo a sabedoria de Israel, é justamente na prática da justiça e na escuta do clamor dos pobres que nossa fé demonstra sua autenticidade.
A Palavra de Deus torna-se viva quando é ouvida pelo coração, discernida pela comunidade e praticada na defesa da vida. É assim que a pequena comunidade se transforma em sinal do Reino: uma família onde ninguém é descartado, onde o clamor dos pobres encontra ouvidos atentos e onde a fé se converte em justiça, solidariedade e esperança.
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