Entre a Batina, o Barrete e o Evangelho: quando a estética ocupa o lugar da missão

Por Pe. Hermes A. Fernandes

Há uma questão que talvez precisemos formular com coragem: para que serve vestir-se de padre quando se está ausente da missão de Jesus?

Nos últimos tempos, percebe-se em determinados ambientes eclesiais um movimento de resgate de antigas formas de vestimenta clerical: batinas, barretes, faixas, capas, rendas, sobrepelizes e outros elementos que fizeram parte da história da liturgia e da identidade sacerdotal. Não há, em si mesmo, nada de errado em valorizar a tradição. A Igreja possui uma rica herança litúrgica, artística, simbólica e espiritual que merece ser conhecida e respeitada.

O problema começa quando os panos passam a falar mais alto que o Evangelho.

Quando a roupa deixa de ser sinal e passa a ser identidade; quando o símbolo substitui o significado; quando a estética ocupa o lugar da ética; quando a aparência clerical passa a valer mais do que a vida entregue ao povo, podemos estar diante de uma perigosa inversão: uma verdadeira “teologia dos panos”, na qual se multiplicam os sinais exteriores enquanto se empobrece o conteúdo interior da fé.

Não se trata de uma crítica à batina, ao barrete ou a qualquer legítima expressão litúrgica e indenitária do Ministério Ordenado. Trata-se de se perguntar o que esses sinais significam e, sobretudo, se aquilo que exteriormente anunciam encontra correspondência na vida daquele que os utiliza.

1. A roupa pode identificar o padre, mas não pode fabricar o pastor

A veste clerical pode dizer à sociedade: “este homem é um sacerdote”. Mas ela não pode dizer, por si mesma, que aquele sacerdote é discípulo de Jesus.

O Evangelho nunca apresentou Jesus como alguém preocupado em construir uma identidade religiosa a partir de roupas diferenciadas. Ao contrário, sua identidade foi reconhecida pela maneira como viveu: aproximando-se dos pobres, tocando os excluídos, acolhendo pecadores, curando enfermos, confrontando estruturas de opressão, denunciando a hipocrisia religiosa e anunciando o Reino de Deus.

Jesus não pediu aos discípulos que fossem reconhecidos pela quantidade de sinais religiosos que carregassem, mas pelo amor. “Nisto todos conhecerão que sois meus discípulos: se tiverdes amor uns pelos outros” (Jo 13,35).

O verdadeiro distintivo do discípulo é, portanto, uma existência configurada ao Evangelho.

Um padre pode usar uma batina impecavelmente engomada e, ao mesmo tempo, permanecer distante das periferias. Qualquer ministro ordenado pode usar barrete, cruz, anéis, rendas e outros símbolos e, entretanto, não possuir tempo para escutar uma mãe que não sabe como alimentar seus filhos. Pode falar longamente sobre doutrina e devoções e permanecer indiferente diante de quem perdeu sua casa, seu emprego, sua terra ou sua dignidade.

Nesse caso, não estaremos diante de um problema de vestimenta. Estaremos diante de um problema de testemunho. De identidade cristã.

O Concílio Vaticano II recorda que o presbítero é constituído para exercer seu ministério “a favor dos homens (da humanidade)” e que os sacerdotes, enviados por Cristo, devem dedicar-se ao serviço desta humanidade.

Portanto, a pergunta fundamental não é: “como está vestido o padre?”. A pergunta é: “a quem ele está servindo?”

2. A “teologia dos panos” e o esquecimento do Evangelho

Quando a religião começa a ser medida pela aparência, facilmente se desenvolve uma espécie de espiritualidade da exterioridade.

Tudo precisa parecer sagrado: roupas, objetos, títulos, gestos, cerimônias, ornamentos, devoções, imagens, insígnias. E, entretanto, pode faltar aquilo que deveria dar sentido a tudo isso: a conversão do coração e o compromisso com o Reino de Deus. E o Reino de Deus é Justiça, Paz e Alegria, fundamentadas no Amor.

É possível ter muita religião e pouca misericórdia, conforme denunciou o profeta Oseias e depois Jesus (cf. Mt 9,9-13). É possível defender minuciosamente as rubricas e ignorar o sofrimento humano. É possível conhecer todos os detalhes de uma celebração e desconhecer o rosto dos pobres que vivem ao redor da igreja. É possível multiplicar devoções e diminuir a solidariedade. É possível falar constantemente de “tradição” e esquecer que a grande tradição cristã é o seguimento de Jesus. É possível vestir-se como sacerdote e se viver muito pouco como pastor. Essa contradição não é pequena. Ela atinge o próprio centro do Evangelho.

O Papa Francisco recordou que a Igreja não pode reduzir sua mensagem a aspectos secundários, desarticulados do núcleo essencial do cristianismo: o amor salvífico de Deus manifestado em Jesus Cristo.

A tradição litúrgica tem valor quando conduz ao mistério celebrado. O símbolo tem valor quando aponta para uma realidade maior. A veste tem valor quando expressa uma identidade que se traduz em serviço.

Quando, porém, o símbolo passa a valer por si mesmo, ele corre o risco de transformar-se em ornamento vazio.

3. O empobrecimento intelectual também é uma forma de clericalismo

Há outro fenômeno que merece atenção: o enfraquecimento da formação teológica e intelectual em determinados setores da vida eclesial.

A teologia, enquanto reflexão crítica sobre a fé, nunca foi inimiga da espiritualidade. Pelo contrário. Uma fé que não pensa pode tornar-se facilmente manipulável. Uma espiritualidade sem discernimento pode transformar-se em sentimentalismo. Uma devoção sem reflexão pode ser capturada pelo fundamentalismo.

A Tradição Cristã sempre incentivou o exercício racional.

Pensaram os Padres da Igreja. Pensaram Agostinho, Tomás de Aquino, Teresa de Ávila, João da Cruz, Edith Stein, Congar, Lubac, Rahner, Gustavo Gutiérrez, Jon Sobrino e tantos outros. Pensaram os grandes Concílios. Pensou o Vaticano II.

A inteligência não é inimiga da fé. A inteligência é uma das formas pelas quais a fé procura compreender aquilo que crê.

Por isso, é preocupante quando a teologia é substituída por respostas prontas; quando a reflexão é substituída pelo dogmatismo; quando a exegese é substituída por frases de efeito; quando a leitura crítica da realidade é substituída por explicações religiosas simplistas.

Uma Igreja que deixa de estudar pode tornar-se uma Igreja vulnerável à manipulação ideológica. E aqui está uma das grandes tarefas das Comunidades Eclesiais de Base: ler a Bíblia, ler a realidade e colocar ambas em diálogo.

Não basta saber repetir doutrinas. É necessário perguntar: o que o Evangelho significa diante da fome? Diante do racismo? Diante da violência? Diante da migração? Diante da devastação ambiental? Diante do desemprego? Diante agressões aos povos indígenas? Diante das mulheres vítimas de violência? Diante dos moradores das periferias e em situação de rua?

A fé precisa pensar porque a realidade precisa ser discernida.

4. Quando a devoção ocupa o lugar da missão

Não há oposição necessária entre devoção e compromisso social. Uma devoção autenticamente cristã deveria conduzir ao seguimento de Jesus.

O problema aparece quando as devoções passam a funcionar como substitutas da conversão. Pode-se rezar muito e amar pouco. Pode-se falar muito de santos e esquecer-se dos pobres. Pode-se multiplicar procissões e não visitar quem sofre. Pode-se defender determinada forma de piedade e não possuir misericórdia. Pode-se carregar inúmeras medalhinhas – entre outros penduricalhos – e não carregar a dor dos irmãos.

O Evangelho não condena a religiosidade. Jesus, porém, denuncia uma religião que se preocupa com exterioridades e negligencia “as coisas mais importantes” da justiça, da misericórdia e da fidelidade (cf. Mt 23,23).

É precisamente aqui que a estética precisa reencontrar a ética.

A beleza litúrgica pode elevar o coração. A solenidade pode ajudar a comunidade a entrar no mistério. A tradição pode alimentar a identidade cristã. Mas tudo isso perde sua finalidade quando não conduz ao amor concreto.

A liturgia que não desemboca na vida corre o risco de tornar-se espetáculo. E o sacerdote que sai da sacristia, entendendo ter cumprido seu dever até que retorne à sacristia, talvez esteja perdendo o caminho da missão.

5. O Evangelho não combina com a vaidade clerical

Outro problema é o perigo de transformar o ministério em palco para a autorreferencialidade.

Há sacerdotes — e aqui não cabe generalizar — que parecem mais preocupados com sua imagem do que com sua missão. A roupa precisa ser impecável, a fotografia precisa produzir determinada imagem, os objetos religiosos precisam ser cuidadosamente exibidos, os títulos precisam aparecer, os ambientes precisam comunicar status.

Porém, Jesus lavou os pés dos discípulos. O contraste é enorme.

O sacerdócio cristão não é uma carreira de distinção social. É uma vocação ao serviço.

O documento conciliar Presbyterorum Ordinis apresenta o presbítero precisamente nessa perspectiva: configurado a Cristo e enviado para servir os homens. Por isso, quanto maior a quantidade de sinais de poder, maior deveria ser a humildade do ministro.

Quanto mais solene a veste, maior deveria ser a disponibilidade. Quanto mais elevado o título, maior deveria ser a capacidade de ajoelhar-se diante do sofrimento humano. Quanto mais rica a celebração, maior deveria ser a solidariedade com os que nada possuem.

Do contrário, corre-se o risco de transformar o ministério em uma espécie de estética do poder religioso.

6. A tentação da identificação com projetos políticos incompatíveis com o Evangelho

Também merece reflexão a aproximação de alguns setores do clero com projetos e discursos associados à extrema direita política.

Não se trata aqui de afirmar que todo sacerdote que se identifica com determinada corrente política tenha necessariamente abandonado o Evangelho. A realidade política é complexa, e a consciência dos cidadãos não pode ser substituída pela autoridade religiosa.

Mas existe uma questão teológica incontornável: qualquer projeto político precisa ser confrontado com o Evangelho, e não o Evangelho adaptado ao projeto político.

Quando discursos políticos cultivam desprezo pelos pobres, hostilidade aos migrantes, intolerância, racismo, violência, autoritarismo ou desumanização dos adversários, o cristão precisa exercer discernimento crítico.

A fé não pode ser utilizada para sacralizar projetos de poder. Tampouco pode o padre transformar o altar em palanque.

A Igreja não existe para batizar ideologias. Sua missão é anunciar Jesus Cristo.

E Jesus não se identificou com os poderosos de seu tempo. Identificou-se com os pequenos, os doentes, os pecadores, os pobres e os excluídos.

A Evangelii Gaudium insiste no vínculo inseparável entre a fé e os pobres. Afirma que eles são destinatários privilegiados do Evangelho.

Por isso, diante de qualquer posicionamento político, a pergunta cristã deveria ser: o que isso produz na vida dos mais vulneráveis?

7. O verdadeiro “traje” do presbítero

Talvez seja necessário recuperar uma antiga verdade cristã: existe uma veste que nenhum alfaiate pode confeccionar. É a veste do serviço.

Paulo fala de “revestir-se de Cristo” (cf. Rm 13,14). A verdadeira configuração sacerdotal não acontece primeiro diante do espelho, mas diante do Evangelho.

O presbítero precisa revestir-se de compaixão, humildade, mansidão, justiça, misericórdia e disponibilidade.

Diante disso, podemos questionar: pode usar batina? Pode usar barrete? Pode celebrar com solenidade? Antes de se responder, é preciso ter clareza de que nenhuma dessas coisas pode substituir o essencial: o ministro ordenado precisa parecer-se com Jesus. E Jesus é o Bom Pastor. O Bom Pastor conhece suas ovelhas. Caminha com elas. Procura a perdida. Cuida da ferida. Defende a vida. Não abandona o rebanho quando chega o perigo. O presbítero precisa assumir a identidade daquele a quem diz seguir: Jesus. E, convenhamos, ele mesmo – o Senhor – teceu sérias críticas aos fariseus em razão do excessivo apego por símbolos, posição, privilégios (cf. Mt 23,5).

O Papa Leão XIV, ao recordar a vocação sacerdotal, insistiu que a missão não pode ser vivida a partir da autorreferencialidade, mas segundo a lógica da escuta e do serviço. Esse é o critério fundamental. Não basta parecer padre. É preciso ser pastor.

8. Das Comunidades Eclesiais de Base pode nascer outra resposta

As Comunidades Eclesiais de Base nos recordam que a Igreja não começa nos ornamentos, mas na comunidade reunida em torno da Palavra, da vida e da missão.

Ali, a Bíblia é lida a partir da realidade. Ali, a fé encontra a vida. Ali, o sofrimento do povo torna-se lugar teológico. Ali, a Palavra de Deus não é simplesmente explicada: é confrontada com a realidade e transforma-se em compromisso.

A Teologia Latino-americana sempre insistiu nessa relação entre fé e prática. Não basta perguntar o que o texto bíblico significa. É preciso perguntar o que Deus está nos chamando a fazer diante da realidade que o texto ilumina.

Por isso, talvez a pergunta mais importante para um padre não seja “como devo me vestir?”, mas: onde estão os pobres que precisam de mim? Quem está sofrendo e espera minha presença? Quem foi excluído da comunidade? Quem precisa ser defendido? Quem precisa ser ouvido? Onde a Casa Comum é destruída pela ação predatória da busca desenfreada pelo lucro? Onde estão os pequenos com os quais Jesus se identifica? É ali que se encontra a verdadeira missão sacerdotal.

Conclusão: menos penduricalhos, mais Evangelho

Não precisamos destruir a tradição para recuperar o Evangelho. Precisamos colocar cada coisa no seu devido lugar. Nenhum tecido ou objeto litúrgico pode ocupar o lugar de Jesus e seu Evangelho. Nenhum ornamento pode substituir a misericórdia. Nenhum título pode substituir o serviço. Nenhuma devoção pode substituir a solidariedade. Nenhuma estética pode substituir a ética. Nenhuma ideologia pode substituir o Evangelho. Nenhuma aparência de santidade pode substituir uma vida entregue aos irmãos.

A questão não é acabar com vestes antigas. É impedir que elas se tornem mais importantes que aquilo que simbolizam. Porque, no fim, o povo não precisa apenas de padres de aparência identificável. Precisa de pastores comprometidos com seus rebanhos. Precisa de homens de Deus capazes de sair de suas sacristias e entrar nas periferias da existência. Precisa de ministros que estudem, pensem, escutem, acompanhem e defendam a vida. Precisa de sacerdotes que não tenham medo de sujar a batina no caminho dos pobres.

Uma Igreja revestida de tecidos, mas despida de misericórdia, pode até impressionar aos olhos. Mas uma Igreja revestida de Cristo transforma vidas.

E talvez seja justamente essa a grande reforma de que precisamos: não uma reforma dos tecidos, mas uma reforma do coração; não uma restauração da aparência sacerdotal, mas uma renovação da missão; não mais uma “teologia dos panos”, mas o retorno ao Evangelho de Jesus Cristo, o Bom Pastor.

Como recorda a Evangelii Gaudium: a Igreja é chamada a sair de si mesma e aproximar-se especialmente daqueles que sofrem, dos pobres e dos esquecidos.

No final, a pergunta permanece, simples e incômoda: de que adianta vestir-se como sacerdote se a vida já não testemunha Jesus, o Bom Pastor?


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