Reflexão para Quarta-feira da 25ª Semana do Tempo Comum – Memória Litúrgica de São Pio de Pietrelcina

Por Pe. Hermes A. Fernandes

Na quarta-feira da 25ª Semana do Tempo Comum, a Igreja celebra a memória de São Pio de Pietrelcina e proclama Pr 30,5-9 e Lc 9,1-6. A liturgia aproxima dois textos que, embora pertencentes a contextos históricos e literários diferentes, convergem numa questão fundamental para a experiência da fé: de que precisamos para viver e anunciar o Reino de Deus? A resposta bíblica não aponta para acúmulo, prestígio ou poder, mas para a confiança em Deus, a sobriedade, a verdade, a partilha e uma missão realizada junto ao povo

À luz da Teologia Latino-americana e da experiência das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), esses textos podem ser lidos como um convite a uma Igreja despojada, próxima dos pobres e comprometida com a transformação das estruturas que produzem exclusão.

1. “Não me dês pobreza nem riqueza”: a sabedoria de uma vida com o necessário

O texto de Provérbios 30,5-9 pertence à coleção atribuída a Agur, apresentada no capítulo 30 do livro. O autor inicia afirmando: “A Palavra de Deus é comprovada. Ele é um escudo para os que nele se abrigam”. A Palavra não é apresentada como discurso abstrato, mas como fundamento seguro para a existência.

A oração que segue é extremamente significativa: “não me dês pobreza nem riqueza, mas concede-me o pão que me é necessário”. O sábio reconhece dois perigos: a riqueza pode produzir autossuficiência — “Quem é o Senhor?” — enquanto a indigência pode empurrar uma pessoa para situações desesperadoras, inclusive o roubo.

Uma leitura superficial poderia transformar esse texto numa defesa de uma suposta neutralidade diante da pobreza. Entretanto, a perspectiva bíblica não glorifica a miséria. O pedido pelo “pão necessário” revela justamente que a vida digna necessita da satisfação das necessidades fundamentais.

Aqui encontramos uma aproximação importante com a Teologia Latino-americana: o problema não é simplesmente possuir ou não possuir bens, mas uma sociedade na qual alguns acumulam excessivamente enquanto outros são privados do necessário para viver. O pão cotidiano, na tradição bíblica, nunca é apenas questão individual. O “pão nosso” ensinado por Jesus envolve comunidade, partilha e justiça.

Por isso, as CEBs podem ouvir Provérbios como uma denúncia simultânea de dois caminhos: a idolatria da riqueza e a naturalização da pobreza. A primeira transforma o dinheiro em senhor; a segunda aceita como normal que pessoas sejam privadas de alimento, moradia, trabalho, saúde, terra e dignidade.

A oração do sábio pode, então, ser atualizada: que ninguém precise viver na miséria; que ninguém transforme a abundância em instrumento de dominação; que todos tenham acesso ao necessário para uma vida digna.

2. Jesus envia os Doze: o Reino acontece no caminho

No Evangelho de Lucas 9,1-6, Jesus convoca os Doze e lhes confere autoridade para enfrentar os poderes que desumanizam, curar as doenças e anunciar o Reino de Deus. O texto une inseparavelmente evangelização, cura e libertação.

A missão não consiste simplesmente em transmitir uma doutrina. Os discípulos são enviados para anunciar o Reino e, ao mesmo tempo, curar os enfermos. A Boa-Nova possui, portanto, uma dimensão concreta: ela alcança corpos, relações, comunidades e condições de vida.

Essa perspectiva é particularmente significativa para a caminhada das CEBs. A evangelização não pode ser reduzida ao espaço interno do templo. A missão acontece no caminho, nas casas, nas periferias, nos campos, nas comunidades rurais, nos territórios indígenas e quilombolas, nos lugares onde vivem aqueles que frequentemente permanecem invisíveis para a sociedade.

O mandato de Jesus é igualmente marcado pelo despojamento: “Não leveis nada para o caminho: nem cajado, nem sacola, nem pão, nem dinheiro, nem mesmo duas túnicas”.

Não se trata de uma romantização da pobreza. Jesus não manda seus discípulos promoverem a miséria. O gesto possui uma profunda dimensão missionária: o anúncio do Reino não pode estar subordinado à segurança proporcionada pelo dinheiro, pelo prestígio ou pelo poder.

O missionário deve depender também da hospitalidade do povo. Entra nas casas, permanece com as pessoas, estabelece relações e compartilha a vida. A missão deixa de ser uma ação realizada “sobre” o povo e passa a ser uma caminhada com o povo.

É justamente aí que a experiência das CEBs encontra uma chave fundamental. A comunidade cristã não é apenas destinatária da evangelização: ela é sujeito da missão.

3. Uma Igreja que não acumula, mas partilha

Colocados lado a lado, Provérbios e Lucas apresentam uma crítica profunda à lógica da acumulação.

Provérbios pede o pão necessário. Lucas apresenta discípulos que partem sem pão, dinheiro ou recursos acumulados. Em ambos os casos aparece uma espiritualidade de sobriedade e confiança, contraposta à lógica de colocar a segurança da vida na posse de bens.

Para as CEBs, isso significa recuperar uma Igreja pobre e próxima dos pobres. Não uma Igreja que simplesmente “ajuda os pobres”, mantendo-os como eternos destinatários de assistência, mas uma Igreja que reconhece neles sujeitos da história, da fé e da transformação social.

A opção pelos pobres, nessa perspectiva, não é mero sentimento de compaixão. É uma opção pastoral que exige escutar os clamores concretos do povo e participar de sua busca por vida digna.

Assim, a comunidade pode perguntar: Quem são hoje aqueles que não possuem sequer o “pão necessário”?

São as pessoas que passam fome; famílias sem moradia adequada; trabalhadores submetidos à precarização; desempregados; migrantes e refugiados; população em situação de rua; comunidades ameaçadas por grandes empreendimentos; povos indígenas e comunidades tradicionais atingidos pela destruição de seus territórios; mulheres vítimas de violência; crianças e jovens privados de oportunidades.

O Evangelho de Lucas conduz a comunidade até essas realidades.

4. A missão das CEBs: anunciar, curar e transformar

O texto de Lucas não separa anúncio e ação. Os discípulos anunciam o Reino e curam. A missão possui uma dimensão espiritual e uma dimensão social inseparáveis.

Por isso, uma comunidade que celebra a Eucaristia e escuta esses textos é chamada a perguntar se sua pastoral está realmente alcançando aqueles que mais sofrem.

Uma pastoral inspirada nesses textos pode assumir algumas atitudes concretas:

  • escutar o território, identificando as situações de pobreza, violência, fome, desemprego e exclusão;
  • fortalecer círculos bíblicos e grupos de reflexão, nos quais a Palavra seja lida a partir da vida concreta;
  • promover ações de solidariedade que não se limitem ao assistencialismo, mas busquem direitos e cidadania;
  • aproximar-se das famílias vulnerabilizadas e das pessoas que vivem nas periferias;
  • defender a dignidade dos trabalhadores e das populações tradicionais;
  • cuidar da Casa Comum, compreendendo que a destruição ambiental atinge especialmente os pobres;
  • formar cristãos e cristãs para uma participação consciente na vida social;
  • fortalecer redes entre CEBs, pastorais sociais e movimentos populares comprometidos com a vida.

Desse modo, a comunidade passa da simples pergunta “o que podemos dar aos pobres?” para uma pergunta mais evangélica: “como podemos caminhar com os pobres na construção de uma sociedade na qual ninguém seja privado do necessário?”

5. São Pio de Pietrelcina e uma espiritualidade encarnada

A memória de São Pio de Pietrelcina, celebrada neste dia, ilumina a liturgia com a dimensão da participação na paixão de Cristo e do serviço como expressão da misericórdia. A oração litúrgica recorda justamente sua participação na cruz de Cristo e a renovação das maravilhas da misericórdia por meio de seu ministério.

Essa memória ajuda a perceber que a espiritualidade cristã não pode ser separada do sofrimento humano. Contemplar Cristo crucificado significa também reconhecer Cristo presente nos crucificados da história.

Para as CEBs, isso significa não fugir das dores do mundo. A comunidade cristã é chamada a estar onde a vida está ameaçada. Sua espiritualidade nasce da Palavra, alimenta-se da Eucaristia e se concretiza na solidariedade, na defesa da vida e na busca da justiça.

A verdadeira missão não é levar Deus a lugares onde supostamente Ele não está. É reconhecer Deus já presente na vida do povo, especialmente onde a dignidade humana é ameaçada, e colaborar para que a vida possa florescer.

Conclusão: pão, Palavra e caminho

Pr 30,5-9 nos coloca diante do desejo pelo pão necessário e de uma existência libertada tanto da autossuficiência produzida pela riqueza quanto da desumanização provocada pela miséria. Lc 9,1-6 mostra Jesus enviando seus discípulos sem acumulação de recursos, para anunciar o Reino, curar os enfermos e caminhar junto às pessoas.

A Palavra proclamada nesta quarta-feira da 25ª Semana do Tempo Comum apresenta, assim, uma Igreja que não acumula para si, mas se coloca a caminho.

É a Igreja das CEBs quando abre suas portas e suas casas; quando lê a Bíblia a partir da vida; quando escuta o grito dos pobres; quando denuncia as estruturas que geram exclusão; quando partilha o pão; quando cuida da Casa Comum; quando transforma a misericórdia em compromisso e quando compreende que anunciar o Reino significa trabalhar para que todos tenham vida e a tenham em abundância.

A Eucaristia, portanto, não termina no altar. O pão recebido torna-se compromisso com o pão que falta na mesa de tantos. A Palavra escutada torna-se palavra praticada. E a comunidade reunida torna-se comunidade enviada.

A missão continua no caminho: anunciar o Reino, curar as feridas e caminhar com os pobres, para que a vida prevaleça sobre tudo aquilo que a ameaça.


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