Reflexão para Quinta-feira da 25ª Semana do Tempo Comum

Quando tudo parece se repetir: a Palavra de Deus diante de uma realidade que precisa mudar

Por Pe. Hermes A. Fernandes

A liturgia da Quinta-feira da 25ª Semana do Tempo Comum coloca diante de nós dois textos que, à primeira vista, parecem falar de realidades bastante diferentes. De um lado, o Eclesiastes contempla a repetição dos ciclos da natureza e questiona o sentido do trabalho humano: “Vaidade das vaidades, tudo é vaidade”. De outro, o Evangelho de Lucas apresenta Herodes perplexo diante da ação de Jesus e perguntando: “Quem é esse homem, sobre quem ouço falar essas coisas?”. Contudo, quando lidos a partir da realidade dos pobres e das Comunidades Eclesiais de Base, os dois textos estabelecem um diálogo profundamente provocador: o mundo pode parecer condenado à repetição, mas o Evangelho suscita uma novidade que incomoda os poderes estabelecidos.

1. “Tudo é vaidade”: o olhar crítico do Eclesiastes

O livro do Eclesiastes, também conhecido como Qohelet (Coélet), apresenta uma das vozes mais questionadoras da literatura sapiencial bíblica. O autor observa a existência humana “debaixo do sol” e pergunta pelo sentido de todo o esforço realizado. O termo tradicionalmente traduzido por “vaidade” corresponde ao hebraico hebel, que possui o sentido de vapor, sopro, neblina, algo fugaz e difícil de segurar.

Portanto, o texto não deve ser reduzido a um convite ao pessimismo ou à ideia de que nada possui valor. Qohelet está realizando uma crítica à pretensão humana de encontrar segurança absoluta no trabalho, na acumulação, no poder e nas realizações pessoais. Tudo aquilo que parece permanente é atravessado pela transitoriedade.

O autor observa a natureza: o sol nasce e se põe; o vento circula; os rios correm para o mar e retornam ao seu curso. Há um movimento contínuo e aparentemente repetitivo. Por isso afirma: “O que foi, será; o que aconteceu, acontecerá: não há nada de novo debaixo do sol” (Ecl 1,9).

Lido criticamente, esse versículo provoca uma pergunta social e política: por que tantas estruturas de sofrimento continuam se repetindo?

Há povos que continuam sendo expulsos de suas terras. Trabalhadores continuam submetidos à precarização. Famílias continuam sem moradia adequada. Pessoas continuam passando fome enquanto enormes riquezas são acumuladas. Povos indígenas e comunidades tradicionais continuam enfrentando ameaças. Mulheres continuam enfrentando violência e discriminação. A Casa Comum continua sendo devastada em nome de um modelo econômico que transforma a criação em mercadoria.

Nesse sentido, a expressão “não há nada de novo debaixo do sol” pode ser escutada pelas CEBs como uma denúncia: há situações que se repetem porque existem estruturas que produzem a repetição da injustiça.

A leitura popular da Bíblia, característica das Comunidades Eclesiais de Base, não se limita a perguntar o que o texto significava no passado. Pergunta também: onde está essa Palavra acontecendo hoje? Quem são os personagens do texto em nossa realidade? Que situações precisam ser transformadas?

Qohelet nos ajuda a perceber que não basta celebrar a passagem do tempo. É necessário perguntar o que, de fato, mudou na vida dos pobres.

2. A repetição da história e a novidade de Jesus

É precisamente nesse ponto que o Evangelho de Lucas oferece uma chave importante de interpretação.

Herodes, o tetrarca, ouve falar de tudo o que está acontecendo e fica perplexo. Ele escuta diferentes interpretações sobre Jesus: alguns dizem que João Batista ressuscitou; outros falam de Elias; outros, ainda, de algum antigo profeta. Herodes, então, pergunta: “Quem é esse homem, sobre quem ouço falar essas coisas?” E Lucas acrescenta: “E procurava ver Jesus” (Lc 9,7-9).

Não é uma pergunta neutra.

Herodes está inserido no universo do poder político. Pouco antes, João Batista havia sido morto. Agora, a atuação de Jesus começa a despertar inquietação. O Evangelho não apresenta Herodes como alguém simplesmente interessado em conhecer espiritualmente Jesus. Sua pergunta nasce da perplexidade diante de algo que está acontecendo e que ele não consegue controlar.

Jesus não aparece no Evangelho como alguém que simplesmente reproduz o passado. Embora sua missão esteja profundamente enraizada na história de Israel — na Lei, nos profetas e na esperança dos pobres —, nele essa tradição ganha uma força renovadora.

Jesus anuncia o Reino de Deus, acolhe os excluídos, aproxima-se dos doentes, toca os marginalizados, come com pecadores e envia os discípulos para anunciar e realizar a Boa-Nova. Sua presença torna-se uma pergunta dirigida aos poderes de seu tempo.

É significativo que Herodes queira “ver” Jesus. O poder quer compreender aquilo que está surgindo. Mas existe uma diferença fundamental entre ver Jesus e seguir Jesus.

Também hoje podemos contemplar Jesus, falar sobre Jesus, construir discursos sobre Jesus e, entretanto, permanecer distantes da prática do Evangelho.

3. Quando a religião se acostuma com a repetição

Aqui encontramos uma provocação particularmente importante para a vida das comunidades cristãs.

Existe o risco de transformarmos a fé em repetição: repetir palavras, cerimônias, discursos, costumes e estruturas sem perguntar se a vida dos pobres está sendo transformada.

Podemos repetir celebrações sem compromisso com aqueles que passam fome. Podemos falar de fraternidade sem enfrentar as causas da exclusão. Podemos defender a dignidade humana em nossos documentos e permanecer indiferentes diante de pessoas que vivem sem trabalho, moradia ou acesso aos direitos fundamentais.

A Palavra de Deus, entretanto, não foi dada para legitimar a repetição das injustiças.

A Teologia Latino-Americana recorda que a fé cristã precisa ser lida a partir da realidade concreta dos pobres. A pergunta fundamental não é apenas: “O que este texto significa?”. É também: “O que este texto exige de nós diante da realidade em que vivemos?”

Nesse sentido, Eclesiastes e Lucas se encontram de maneira muito profunda.

Eclesiastes nos ajuda a perceber que a história humana pode transformar-se num círculo vicioso. Lucas apresenta Jesus como presença que rompe esse círculo e provoca uma decisão.

4. As CEBs como espaço de discernimento e transformação

As Comunidades Eclesiais de Base podem acolher esses textos como um convite a olhar a realidade com os olhos da fé.

A comunidade cristã não pode simplesmente constatar que “sempre foi assim”. Essa expressão pode ser uma das formas mais perigosas de naturalização da injustiça.

Sempre foi assim a pobreza?

Sempre foi assim a concentração da terra?

Sempre foi assim a fome?

Sempre foi assim a violência contra as mulheres?

Sempre foi assim a destruição da natureza?

Sempre foi assim a exclusão dos povos indígenas, negros e comunidades tradicionais?

Não. Muitas dessas situações são produzidas historicamente por escolhas humanas, relações econômicas, estruturas sociais e decisões políticas.

Por isso, aquilo que foi construído historicamente também pode ser transformado historicamente.

As CEBs são chamadas a recuperar a pedagogia de Jesus: ver, ouvir, discernir, organizar-se e agir. A Palavra lida comunitariamente precisa conduzir à vida. A Bíblia aberta sobre a mesa da comunidade precisa encontrar-se com a realidade daqueles que sofrem.

Nesse processo, o pobre não deve ser tratado apenas como destinatário da ação pastoral. Ele é sujeito da evangelização, portador de experiência, sabedoria e esperança. A comunidade aprende a ler a Bíblia a partir da vida e, simultaneamente, aprende a interpretar a própria vida à luz da Palavra.

5. “Quem é esse homem?” — a pergunta que permanece

A pergunta de Herodes atravessa os séculos: “Quem é esse homem?”

Para a fé cristã, Jesus não pode ser reduzido a um personagem religioso do passado. Ele é aquele que revela o rosto misericordioso de Deus e convoca seus discípulos para uma prática concreta de amor, justiça e serviço.

Por isso, a pergunta de Herodes precisa transformar-se, para nós, em outra: que Jesus estamos procurando?

Um Jesus domesticado, que não incomoda ninguém?

Um Jesus utilizado para justificar privilégios?

Um Jesus reduzido à devoção individual?

Ou o Jesus dos Evangelhos, que se coloca do lado dos pequenos, aproxima-se dos excluídos e anuncia que o Reino de Deus está entre nós?

A resposta não pode ser apenas verbal. Ela precisa aparecer na prática pastoral.

Se a Eucaristia celebra o Cristo entregue pela vida do mundo, nossas comunidades precisam tornar visível essa entrega no cuidado com os que têm a vida ameaçada. A mesa eucarística não pode ser separada das mesas onde faltam pão, justiça, trabalho, moradia e dignidade.

6. Uma pastoral que interrompa os ciclos da exclusão

A liturgia desta Quinta-feira da 25ª Semana do Tempo Comum pode tornar-se, assim, um chamado à conversão pastoral.

É preciso identificar aquilo que continua se repetindo em nossas comunidades e na sociedade e perguntar: o que podemos fazer para interromper esses ciclos?

Uma pastoral inspirada nesses textos deverá fortalecer as visitas às famílias vulnerabilizadas, a defesa dos direitos sociais, a solidariedade com trabalhadores e desempregados, o cuidado com migrantes e refugiados, a defesa dos povos indígenas e comunidades tradicionais, a proteção das mulheres e crianças vítimas de violência e o compromisso com a Casa Comum.

Também precisa valorizar os grupos bíblicos, a Leitura Orante da Palavra, os círculos bíblicos e os espaços comunitários de escuta. A fé precisa formar mulheres e homens capazes de discernir os sinais dos tempos e agir diante deles.

A pergunta de Herodes não pode terminar numa curiosidade: “Quem é esse homem?”. Ela precisa conduzir ao encontro com Jesus e, consequentemente, ao compromisso com aqueles aos quais Jesus dedicou sua missão.

Conclusão: não aceitar que “sempre foi assim”

Eclesiastes nos ensina a desconfiar das falsas seguranças. Tudo aquilo que o ser humano pretende tornar absoluto é passageiro. Lucas, por sua vez, apresenta Jesus como uma presença que provoca perplexidade porque algo novo está acontecendo.

Entre os dois textos surge uma pergunta fundamental para as CEBs: quando a história parece repetir seus ciclos de sofrimento, onde estamos colocando nossa vida?

Podemos simplesmente assistir à repetição da pobreza, da violência, da exclusão e da destruição da Casa Comum. Ou podemos assumir a missão de Jesus e participar da construção de uma história diferente.

A Palavra proclamada nesta Eucaristia nos recorda que não basta lamentar que “não há nada de novo debaixo do sol”. O Evangelho nos chama a colaborar para que haja novidade na história.

Que nossas comunidades sejam lugares onde a Palavra se transforma em compromisso; onde a Eucaristia se transforma em solidariedade; onde a fé se transforma em defesa da vida; e onde os pobres, marginalizados e excluídos não sejam apenas objeto de caridade, mas sujeitos de uma Igreja que caminha com eles.

Porque seguir Jesus é permitir que, em meio a uma história marcada por tantas repetições, Deus continue fazendo nascer a novidade do Reino entre os pequenos, os pobres e todos aqueles que lutam por vida e dignidade.


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