A urgência de retomar os sonhos do Papa Francisco para a Amazônia, para a Igreja e para a Casa Comum
Por Pe. Hermes A. Fernandes
Há documentos da Igreja que não podem ser simplesmente arquivados. Há processos eclesiais que, depois de sua conclusão formal, continuam abertos porque as perguntas que os fizeram nascer permanecem vivas. É o caso do Sínodo Especial para a Região Pan-Amazônica, realizado em Roma entre 6 e 27 de outubro de 2019, e da Exortação Apostólica Pós-Sinodal Querida Amazônia, publicada pelo Papa Francisco em 2 de fevereiro de 2020.
Retomar hoje Querida Amazônia não significa voltar ao passado. Significa recuperar um caminho de escuta, discernimento, participação e compromisso que continua extremamente atual. A própria Exortação afirma que não pretende substituir nem repetir o Documento Final do Sínodo, mas oferecer uma reflexão que ajude a promover uma recepção “harmoniosa, criativa e frutuosa” de todo o caminho sinodal. Francisco, inclusive, apresenta oficialmente o Documento Final e convida a Igreja a lê-lo integralmente.
Por isso, quando se fala em resgatar Querida Amazônia, não se trata apenas de reler um texto do pontificado de Francisco. Trata-se de recuperar uma metodologia eclesial: escutar os povos, reconhecer os seus clamores, discernir comunitariamente e buscar novos caminhos para a Igreja e para uma ecologia integral.
1. A Amazônia não é apenas um território
Um dos grandes méritos do processo sinodal foi romper com uma compreensão meramente geográfica da Amazônia. A Amazônia é território, floresta, rios, biodiversidade, mas é também povo, cultura, espiritualidade, memória, resistência e vida.
Francisco fala de uma Amazônia que envolve nove países e afirma que sua preocupação com essa região interessa ao mundo inteiro. A Amazônia, portanto, torna-se uma espécie de espelho no qual a humanidade pode reconhecer os dramas provocados por um modelo de desenvolvimento que ameaça simultaneamente a natureza e as populações mais vulneráveis.
Essa compreensão permanece necessária.
Não existe defesa da floresta que possa ignorar os povos que nela vivem. Da mesma forma, não existe verdadeira defesa dos povos amazônicos que possa ignorar a destruição dos rios, das florestas e dos ecossistemas dos quais dependem.
Por isso, Querida Amazônia insiste na inseparabilidade entre questão social e questão ecológica. Francisco rejeita um conservacionismo preocupado apenas com o bioma e indiferente aos povos amazônicos.
É precisamente aqui que encontramos uma das contribuições fundamentais da ecologia integral: a defesa da Casa Comum precisa caminhar junto com a defesa da dignidade humana.
2. Os quatro sonhos de Francisco
O núcleo da Exortação está estruturado em quatro grandes sonhos: um sonho social, um sonho cultural, um sonho ecológico e um sonho eclesial.
O primeiro é o sonho de uma Amazônia que lute pelos direitos dos pobres, dos povos originários e dos últimos, fazendo com que sua voz seja ouvida e sua dignidade promovida.
O segundo é o sonho de uma Amazônia capaz de preservar sua riqueza cultural e sua diversidade.
O terceiro é o sonho de uma Amazônia que cuide de sua beleza natural, de seus rios e de suas florestas.
O quarto é o sonho de comunidades cristãs capazes de se encarnar na realidade amazônica e oferecer à Igreja novos rostos, com traços amazônicos.
Esses quatro sonhos não podem ser separados. Não há sonho ecológico sem sonho social; não há evangelização sem cultura; não há Igreja viva quando os povos concretos são tratados apenas como destinatários passivos de decisões tomadas longe deles.
Essa perspectiva é particularmente importante para as Comunidades Eclesiais de Base e para as pastorais sociais. A Igreja não está diante da realidade como uma espectadora. Ela está dentro da realidade, caminhando com o povo e procurando discernir nela os sinais do Reino.
3. O grito dos pobres e o grito da Terra
O primeiro capítulo de Querida Amazônia fala de injustiça, crime, interesses colonizadores, exploração madeireira, mineração e expulsão de povos indígenas, ribeirinhos e afrodescendentes. Francisco afirma que essas situações provocam um clamor que “brada ao céu”.
Essa linguagem não é meramente ambientalista. É profundamente bíblica.
A Bíblia conhece o clamor dos escravizados no Egito, o clamor dos pobres, o clamor das viúvas, dos órfãos e dos estrangeiros. Deus escuta o clamor de seu povo e envia Moisés para iniciar um caminho de libertação.
Por isso, a defesa da Amazônia não pode ser reduzida a uma questão técnica. Ela possui uma dimensão ética, social, política, espiritual e teológica.
Quando uma comunidade perde seu território, não perde apenas uma propriedade. Perde parte de sua memória, de sua cultura, de sua espiritualidade e de suas condições de sobrevivência.
Quando um rio é destruído pela contaminação, não se destrói apenas água. Atinge-se a vida de comunidades inteiras.
Quando uma floresta é devastada, não desaparecem apenas árvores. Desaparecem espécies, modos de vida, referências culturais e possibilidades de futuro.
Por isso, defender a Casa Comum é também uma forma concreta de professar a fé no Deus da vida.
4. Cuidar das raízes sem transformar cultura em folclore
O segundo sonho de Querida Amazônia é cultural. Francisco fala da necessidade de cuidar das raízes, promover o encontro intercultural e proteger culturas ameaçadas.
Essa dimensão merece ser retomada com particular atenção.
Existe uma tentação de transformar os povos originários em peças de museu, símbolos folclóricos ou imagens decorativas utilizadas em celebrações e eventos. Entretanto, respeitar uma cultura significa reconhecer sua capacidade de pensar, interpretar, criar, decidir e participar.
Francisco alerta que promover a Amazônia não significa colonizá-la culturalmente. O verdadeiro processo educativo deve cultivar sem desenraizar, promover sem invadir e fazer crescer sem destruir identidades.
Essa afirmação possui consequências eclesiais profundas.
A evangelização não pode significar simplesmente transportar modelos prontos de um lugar para outro. A Igreja precisa aprender a reconhecer que o Evangelho pode adquirir rostos culturais diversos, sem perder sua centralidade em Jesus Cristo.
É uma questão que interessa não somente à Amazônia. Também as comunidades indígenas, quilombolas, ribeirinhas, camponesas, periféricas e urbanas possuem histórias, linguagens e experiências que precisam ser acolhidas pela Igreja.
5. O sonho ecológico: uma Igreja que escuta a Casa Comum
O terceiro sonho é ecológico. Francisco apresenta a Amazônia como uma realidade marcada pela água, pelos rios, pelas florestas e pela extraordinária diversidade da vida. Ao mesmo tempo, fala do “grito da Amazônia” e da necessidade de educação e mudança de hábitos.
A ecologia integral não pode ser confundida com uma simples campanha de preservação ambiental.
Ela questiona nosso modo de produzir, consumir e organizar a economia. Questiona uma lógica que transforma tudo em mercadoria e considera a natureza apenas como matéria-prima disponível para exploração.
Por isso, resgatar Querida Amazônia significa também recuperar a pergunta fundamental: que modelo de sociedade estamos construindo?
A resposta não pode ficar restrita à Amazônia.
O que acontece na floresta amazônica está relacionado com a economia global, com o consumo, com a mineração, com o agronegócio, com a energia, com os mercados e com as escolhas políticas e sociais realizadas em diferentes partes do planeta.
A Amazônia, portanto, não é problema “dos amazônidas”. É responsabilidade de toda a humanidade.
6. O sonho eclesial: uma Igreja com rosto amazônico
Talvez seja justamente o quarto sonho que mais necessite ser retomado em nossos debates eclesiais.
Francisco deseja comunidades cristãs vivas, capazes de encarnar o Evangelho na realidade amazônica. Fala de inculturação, liturgia, ministérios, formação sacerdotal, participação das mulheres, comunidades e diálogo ecumênico e inter-religioso.
Aqui aparece uma compreensão de Igreja que não pode ser reduzida à presença ocasional do ministro ordenado.
Uma Igreja viva é aquela capaz de reconhecer os dons que o Espírito Santo suscita no povo de Deus. É uma Igreja que forma comunidades, fortalece lideranças, valoriza a participação dos leigos e das mulheres e cria condições para que as comunidades possam celebrar, evangelizar, servir e testemunhar.
Francisco chega a pedir aos bispos, especialmente aos da América Latina, maior generosidade no envio de pessoas com vocação missionária para a Amazônia e propõe uma revisão profunda da formação dos presbíteros para que adquiram atitudes e capacidades necessárias ao diálogo com as culturas amazônicas.
Esse aspecto continua sendo uma provocação para toda a Igreja.
7. Por que retomar agora?
Retomar Querida Amazônia significa perguntar por que tantos temas discutidos no processo sinodal ainda precisam ser retomados, aprofundados e colocados em prática.
A pandemia de Covid-19, que atingiu o mundo logo após a publicação da Exortação, interrompeu muitos processos pastorais e sociais. Isso torna ainda mais importante recuperar a memória daquele caminho sinodal.
Não podemos permitir que o Sínodo para a Amazônia se transforme apenas em uma lembrança histórica.
O Sínodo foi uma experiência de escuta do povo de Deus. E a sinodalidade perde seu sentido quando escutamos as pessoas apenas para depois arquivar aquilo que foi ouvido.
Resgatar Querida Amazônia significa, portanto, recuperar o compromisso com uma Igreja que escuta antes de falar, discerne antes de decidir e caminha com aqueles que historicamente tiveram sua voz silenciada.
8. Das páginas do documento à vida das comunidades
As Comunidades Eclesiais de Base podem desempenhar papel fundamental nesse processo.
É possível retomar Querida Amazônia nas rodas bíblicas, nos círculos de reflexão, nos encontros das pastorais sociais, nas assembleias comunitárias e nos processos de formação.
Mas não basta estudar o documento.
É necessário perguntar:
Quem são hoje os pobres cuja voz não está sendo ouvida?
Quais povos estão ameaçados pela perda de seus territórios?
Quais rios, nascentes e florestas estão sendo destruídos?
Que culturas estão desaparecendo?
Que mulheres sustentam silenciosamente nossas comunidades?
Quais jovens estão abandonando nossas comunidades por falta de perspectivas?
Que modelo econômico está produzindo exclusão?
Que Igreja estamos construindo diante dessa realidade?
Essas perguntas fazem com que Querida Amazônia deixe de ser um documento do passado e se transforme novamente em instrumento de discernimento pastoral.
9. A Amazônia como profecia para toda a Igreja
A grande contribuição do processo amazônico talvez esteja justamente em mostrar que a Amazônia não é apenas uma região que precisa receber a atenção da Igreja. Ela também tem algo a ensinar à Igreja.
Ensina que os pobres possuem voz.
Ensina que os povos originários possuem sabedoria.
Ensina que a natureza não é objeto descartável.
Ensina que uma Igreja pode assumir rostos diferentes sem deixar de ser Igreja.
Ensina que a missão nasce da proximidade.
Ensina que a evangelização precisa caminhar com a defesa da vida.
E ensina que a sinodalidade não pode ser apenas uma palavra bonita utilizada nos documentos eclesiais: precisa tornar-se método permanente de viver a fé.
Por isso, recuperar Querida Amazônia é recuperar um sonho.
Não um sonho ingênuo, distante da realidade, mas um sonho que nasce do clamor dos pobres, da beleza da criação e da esperança do Evangelho.
Francisco conclui sua Exortação invocando Maria como Mãe da vida e pedindo que ninguém mais se sinta dono da obra de Deus.
Talvez essa seja uma das melhores sínteses do caminho amazônico.
A Casa Comum não nos pertence como propriedade absoluta. A vida não é mercadoria. Os povos não são obstáculos ao desenvolvimento. A floresta não é apenas recurso econômico. E a Igreja não existe para si mesma.
Resgatar Querida Amazônia é, portanto, deixar que o clamor da Amazônia volte a incomodar nossa consciência cristã.
É voltar a ouvir o grito da Terra e o grito dos pobres.
É retomar a coragem profética.
É fortalecer as comunidades.
É defender os povos originários.
É cuidar da Casa Comum.
É permitir que o Evangelho adquira novos rostos.
E, sobretudo, é compreender que um processo sinodal só estará verdadeiramente concluído quando aquilo que foi escutado começar a transformar a vida.
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