Reflexão para Sexta-feira da 25ª Semana do Tempo Comum

Há um tempo para transformar a realidade: seguir o Cristo que assume o caminho dos pobres

Comentário à Liturgia Eucarística da Sexta-feira da 25ª Semana do Tempo Comum — Ecl 3,1-11 e Lc 9,18-22

Por Pe. Hermes A. Fernandes

A Liturgia da Palavra da Sexta-feira da 25ª Semana do Tempo Comum aproxima dois textos aparentemente muito diferentes: o poema sobre os tempos da vida, de Eclesiastes 3,1-11, e a profissão de fé de Pedro seguida do primeiro anúncio da paixão, em Lucas 9,18-22. Na liturgia de 25 de setembro de 2026, essas duas leituras são efetivamente propostas juntas.

Lidos a partir da Teologia Latino-americana e da experiência das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), os textos nos convidam a perguntar: que tempo é este que estamos vivendo? E que significa reconhecer Jesus como o Cristo quando o caminho do Messias passa pelo sofrimento, pela rejeição e pela solidariedade com os pequenos?

A Palavra não nos permite uma espiritualidade alienada da história. Ela nos chama a discernir os sinais dos tempos e a assumir, como comunidade de discípulos e discípulas, a responsabilidade de transformar aquilo que pode e deve ser transformado.

1. Eclesiastes: discernir o tempo em que vivemos

Eclesiastes 3,1-11 começa com uma afirmação conhecida: “Tudo tem seu tempo. Há um momento oportuno para tudo que acontece debaixo do céu.” Segue-se um poema construído por pares de contrários: nascer e morrer, plantar e colher, destruir e construir, chorar e rir, procurar e perder, calar e falar, amar e odiar, guerra e paz.

O texto não deve ser interpretado simplesmente como uma defesa de que tudo está predeterminado e que nada podemos fazer. Ao contrário, o autor está refletindo sobre os limites da existência humana. O ser humano não domina completamente o tempo nem consegue compreender o princípio e o fim da ação de Deus. O próprio texto pergunta: “Que proveito tira o trabalhador de seu esforço?” (Ecl 3,9).

Aqui aparece uma questão profundamente social. Quem determina o tempo de quem? Há pessoas que têm tempo para viver, estudar, descansar e sonhar, enquanto outras são obrigadas a gastar toda a sua existência na luta pela sobrevivência. Há crianças cujo tempo é roubado pelo trabalho infantil; famílias cujo tempo é consumido pela insegurança alimentar; trabalhadores submetidos à precarização; pessoas em situação de rua cujo presente é marcado pela exclusão; povos indígenas e comunidades tradicionais que enfrentam a destruição de seus territórios.

Por isso, a leitura latino-americana de Eclesiastes não pode transformar o “há um tempo para tudo” numa justificativa religiosa para a passividade. Não podemos chamar de vontade de Deus aquilo que é resultado da injustiça humana. Há um tempo para calar, mas também há um tempo para falar. Há um tempo para derrubar e outro para construir. Há um tempo para a guerra e outro para a paz.

As CEBs são chamadas justamente a realizar esse discernimento comunitário: qual é o tempo de nossa comunidade? Quem está sofrendo? Quem está sendo excluído? Que estruturas precisam ser transformadas? Que palavra precisa ser pronunciada? Que muro precisa ser derrubado? Que esperança precisa ser reconstruída?

O texto termina afirmando que Deus fez tudo “no tempo oportuno”, mas que o ser humano não consegue abarcar integralmente a obra divina. Isso exige humildade, discernimento e esperança. Não somos donos da história, mas somos responsáveis dentro dela.

2. “E vós, quem dizeis que eu sou?”

É nesse horizonte que encontramos o Evangelho. Jesus está rezando quando pergunta aos discípulos: “Quem diz o povo que eu sou?” Surgem diferentes respostas: João Batista, Elias ou algum dos antigos profetas. Então Jesus aprofunda a pergunta: “E vós, quem dizeis que eu sou?” Pedro responde: “O Cristo de Deus.”

A pergunta de Jesus continua sendo dirigida às comunidades cristãs. Não basta repetir títulos cristológicos. Não basta afirmar que Jesus é o Messias. É preciso perguntar qual Messias reconhecemos e seguimos.

O problema é que Pedro ainda precisa compreender o significado daquilo que acabou de professar. Por isso, imediatamente depois da confissão, Jesus anuncia que o Filho do Homem deverá sofrer, ser rejeitado, ser morto e ressuscitar.

Lucas apresenta, assim, uma ligação fundamental: reconhecer Jesus como Cristo significa aceitar o caminho do serviço, da entrega e da solidariedade com aqueles que sofrem.

O Messias de Jesus não aparece identificado com os mecanismos de poder. Ele será rejeitado precisamente pelos grupos que representam poderes religiosos e sociais de seu tempo: anciãos, sumos sacerdotes e doutores da Lei. A cruz revela o conflito entre o projeto do Reino e as estruturas que produzem exclusão.

Por isso, uma cristologia verdadeiramente encarnada não pode permanecer apenas no nível das fórmulas. Dizer que Jesus é o Cristo implica reconhecer sua presença nos crucificados da história.

3. Entre o “tempo” de Eclesiastes e o caminho de Jesus

Existe uma profunda aproximação entre as duas leituras.

Eclesiastes nos ensina a discernir o tempo. Lucas nos mostra como agir dentro do tempo.

Jesus não ignora a realidade concreta. Ele sabe que existe um caminho de sofrimento, rejeição e morte. Entretanto, não foge dele. Sua ressurreição revela que a última palavra não pertence à violência nem à morte.

Essa perspectiva é fundamental para a espiritualidade das CEBs. A comunidade cristã não está fora da história. Ela está dentro dela, compartilhando as dores e esperanças do povo.

Por isso, diante da fome, é tempo de partilhar.
Diante da exclusão, é tempo de acolher.
Diante do racismo, é tempo de denunciar.
Diante da violência contra as mulheres, é tempo de proteger e transformar estruturas.
Diante da destruição da Casa Comum, é tempo de cuidar e resistir.
Diante da concentração de riqueza, é tempo de discutir justiça social.
Diante do abandono dos pobres, é tempo de fazer da solidariedade uma prática concreta.

Há um tempo para falar quando o silêncio protege a injustiça. Há um tempo para construir quando a realidade produz ruínas. Há um tempo para costurar quando a sociedade está fragmentada. Há um tempo para a paz quando a violência se torna normalizada.

4. As CEBs e o compromisso com os pobres

A opção pelos pobres não é um acréscimo sociológico ao Evangelho. Ela nasce da própria maneira como Jesus realiza sua missão. O Cristo reconhecido por Pedro é aquele que caminha em direção à cruz, não aquele que procura privilégios.

As CEBs, portanto, são chamadas a ser comunidades onde a Palavra de Deus seja lida a partir da vida e para a transformação da vida. A Bíblia não deve ser utilizada para justificar a resignação dos pobres, mas para alimentar sua esperança, sua consciência, sua organização e sua participação na construção de uma sociedade mais justa.

Isso significa recuperar uma pastoral que escute os clamores concretos do povo: o trabalhador desempregado, a família sem moradia, a pessoa em situação de rua, o migrante, o refugiado, a população encarcerada, os povos indígenas, as comunidades quilombolas, os camponeses, as mulheres vítimas de violência, as crianças vulneráveis e todos aqueles que permanecem nas periferias econômicas e sociais.

A comunidade que celebra a Eucaristia não pode terminar sua celebração indiferente ao sofrimento existente ao redor do altar. O pão repartido sobre a mesa eucarística exige que também sejam repartidos o pão, a terra, a dignidade, a justiça, a solidariedade e a esperança.

Nesse sentido, a Eucaristia torna-se memória viva do Cristo que entrega a própria vida. A comunidade que comunga o Corpo de Cristo é chamada a reconhecer esse mesmo Cristo nos corpos feridos pela fome, pela violência, pelo abandono e pela exclusão.

5. Que Cristo estamos anunciando?

A pergunta de Jesus continua ecoando: “E vós, quem dizeis que eu sou?”

As CEBs precisam responder não apenas com palavras, mas com sua própria prática. Se Jesus é o Cristo, então nossa fé precisa assumir o caminho do serviço. Se Jesus é o Cristo, os pobres não podem ser considerados destinatários passivos de caridade, mas sujeitos da história e da evangelização. Se Jesus é o Cristo, a Igreja não pode viver indiferente diante das estruturas que produzem morte.

A Liturgia desta sexta-feira nos coloca, portanto, diante de uma dupla tarefa: discernir o tempo e assumir o caminho.

Eclesiastes nos pergunta em que tempo estamos vivendo.
Jesus nos pergunta quem acreditamos que Ele é.
A resposta cristã acontece quando essas duas perguntas se encontram.

Este é o tempo de reconhecer os sinais de Deus na história. É tempo de falar, construir, cuidar, organizar, defender a vida, proteger os vulneráveis e caminhar com os pobres. É tempo de superar uma fé desencarnada e recuperar a dimensão profética do Evangelho.

Porque reconhecer Jesus como o Cristo não significa apenas saber quem Ele é. Significa seguir seus passos.

E, para quem vive a espiritualidade das Comunidades Eclesiais de Base, seguir Jesus significa continuar caminhando com o povo, lendo a Palavra a partir da vida, celebrando a esperança e transformando, pela força do Evangelho, aquilo que ainda precisa ser transformado.

Há um tempo para tudo. E talvez o nosso tempo seja precisamente o tempo de escolher a vida, a justiça, a fraternidade e a esperança.


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