Reflexão para Sábado da 25ª Semana do Tempo Comum

Entre a alegria de viver e o mistério da entrega

Comentário de Ecl 11,9–12,8 e Lc 9,43b-45 — Sábado da 25ª Semana do Tempo Comum

Por Pe. Hermes A. Fernandes

A Liturgia Eucarística do sábado da 25ª Semana do Tempo Comum, em 26 de setembro de 2026, propõe uma combinação particularmente significativa: Ecl 11,9–12,8, acompanhado do Sl 89(90), e Lc 9,43b-45. A primeira leitura convida a olhar para a existência humana em sua passagem pelo tempo; o Evangelho, por sua vez, apresenta Jesus anunciando que o Filho do Homem será entregue às mãos dos homens. Entre ambos está uma questão fundamental para a fé: como viver o tempo que nos é dado e para quem colocamos nossa vida a serviço?

1. Eclesiastes: celebrar a vida sem esquecer sua transitoriedade

O texto de Eclesiastes começa com uma exortação surpreendentemente positiva: “Alegra-te, jovem, na tua adolescência” (Ecl 11,9). O autor não demoniza a juventude, seus sonhos, desejos e possibilidades. Pelo contrário, reconhece que a vida é um dom que precisa ser vivido. O jovem é chamado a alegrar-se, a seguir as aspirações do coração e os desejos dos olhos, mas dentro de uma responsabilidade ética: “de tudo isso Deus te pedirá contas”.

Não se trata, portanto, de uma autorização para o individualismo ou para uma existência orientada exclusivamente pelo prazer. A alegria bíblica está ligada à responsabilidade diante de Deus e dos outros. Viver intensamente não significa viver de maneira irresponsável, mas reconhecer que o tempo é precioso e que cada escolha possui consequências.

É nesse horizonte que devemos compreender a expressão repetida pelo Eclesiastes: “vaidade das vaidades”. A palavra não significa simplesmente que tudo é inútil ou sem valor. O termo hebraico hebel evoca a ideia de vapor, sopro, algo fugaz. O autor contempla a existência humana e percebe sua fragilidade: juventude, força, beleza, trabalho, poder e até mesmo a própria vida são realidades passageiras.

O capítulo 12 transforma essa percepção em convite: “Lembra-te do teu Criador nos dias da juventude” (12,1). O ser humano não deve esperar a velhice ou a proximidade da morte para descobrir o sentido de sua existência. A memória do Criador precisa orientar o presente. A longa descrição poética do envelhecimento — o enfraquecimento do corpo, a perda dos sentidos, o silêncio das canções e, finalmente, o retorno do pó à terra — recorda que somos criaturas e não senhores absolutos da vida.

Aqui encontramos uma perspectiva muito próxima da espiritualidade das Comunidades Eclesiais de Base: reconhecer a vida como dom significa também reconhecer que ninguém pode ser descartado. O jovem, o idoso, o trabalhador, a pessoa empobrecida, a mulher marginalizada, a população em situação de rua, o indígena, o quilombola e tantos outros grupos historicamente invisibilizados possuem uma dignidade que não depende de sua produtividade.

2. O tempo da vida como responsabilidade histórica

A Teologia Latino-americana nos ajuda a deslocar a leitura do Eclesiastes de uma reflexão meramente individual sobre a morte para uma pergunta comunitária: o que estamos fazendo com o tempo que Deus nos concede?

Se a vida é breve, não podemos desperdiçá-la na indiferença diante do sofrimento. O reconhecimento da transitoriedade não conduz à fuga do mundo, mas pode despertar uma responsabilidade maior diante da história.

As CEBs aprenderam a ler a Bíblia a partir da vida concreta. A Palavra não é simplesmente objeto de estudo; ela ilumina acontecimentos, conflitos, esperanças e sofrimentos. Por isso, “lembrar-se do Criador” significa também recordar que a criação possui um destino comum e que a vida humana não pode ser organizada pela lógica do descarte.

Nesse sentido, o texto pode interpelar particularmente a juventude. Em uma sociedade que frequentemente transforma jovens em consumidores, mão de obra precarizada ou objetos de disputa ideológica, Eclesiastes recupera sua capacidade de sonhar, escolher e construir. A pastoral juvenil das comunidades precisa oferecer espaços onde os jovens sejam sujeitos da evangelização, e não apenas destinatários de atividades religiosas.

A juventude das periferias, entretanto, enfrenta condições muito diferentes daquelas dos jovens socialmente privilegiados. Violência, desemprego, falta de oportunidades, racismo, ausência de políticas públicas, precarização do trabalho e exclusão digital interferem diretamente em seus projetos de vida. Portanto, celebrar a juventude implica defender concretamente as condições para que ela possa viver.

3. Jesus e o anúncio de uma entrega que os discípulos não compreendem

O Evangelho de Lucas apresenta uma mudança brusca de perspectiva. O povo está admirado com aquilo que Jesus realiza, mas justamente nesse momento ele anuncia: “O Filho do Homem vai ser entregue nas mãos dos homens” (Lc 9,44).

Lucas coloca lado a lado a admiração pelas obras de Jesus e o anúncio de sua entrega. O Messias não será compreendido simplesmente pelo poder de suas ações extraordinárias. Sua identidade será revelada também no caminho da entrega, do sofrimento e da cruz.

A expressão “ser entregue” é central. Jesus não escolhe o caminho da dominação. Seu messianismo não se estrutura pelo poder, pela imposição ou pela violência. Ele assume uma missão solidária com a humanidade e caminha para Jerusalém, onde sua fidelidade ao Reino encontrará a oposição dos poderes de seu tempo.

O mais impressionante, porém, é a reação dos discípulos: “não compreendiam o que Jesus dizia” e tinham “medo de fazer perguntas”.

A incompreensão dos discípulos é também uma crítica às expectativas humanas sobre Deus. Eles contemplam a grandeza de Jesus, mas ainda não conseguem compreender que a verdadeira grandeza do Reino passa pelo serviço e pela entrega. A lógica do Evangelho entra em choque com a lógica do poder.

4. A cruz de Jesus e os crucificados da história

É aqui que a leitura latino-americana pode estabelecer uma relação profunda entre o texto evangélico e a realidade dos pobres.

Jesus é “entregue nas mãos dos homens”. A expressão não pode ser utilizada para justificar passivamente todo sofrimento humano. O Evangelho não apresenta Deus como alguém que deseja a dor dos seus filhos. Ao contrário, Jesus revela um Deus que permanece fiel quando a violência humana se volta contra aquele que anuncia o Reino.

A cruz, portanto, não é glorificação da violência. É denúncia da violência e manifestação da fidelidade de Deus.

Essa perspectiva é decisiva para uma pastoral comprometida com os pobres. O Cristo entregue nos ajuda a reconhecer os muitos homens e mulheres que continuam sendo “entregues” às estruturas de exclusão: pessoas submetidas à fome, à violência, ao desemprego, à exploração do trabalho, à ausência de moradia, ao racismo, à destruição ambiental e às diversas formas de marginalização.

As CEBs são chamadas a não contemplar esses sofrimentos de longe. A Palavra conduz à proximidade, à organização comunitária e à ação transformadora. A fé celebrada na Eucaristia precisa tornar-se compromisso com a vida concreta.

5. Entre Eclesiastes e Lucas: viver o tempo como missão

As duas leituras se iluminam mutuamente.

Eclesiastes recorda: a vida é breve. Lucas revela: a vida de Jesus é oferecida como serviço e entrega.

Assim, a pergunta cristã não é apenas: quanto tempo temos? É também: o que fazemos com o tempo que recebemos?

O Salmo da liturgia interpreta muito bem essa perspectiva: “Ensinai-nos a contar os nossos dias, e dai ao nosso coração sabedoria!”. E termina pedindo: “Tornai fecundo, ó Senhor, nosso trabalho.” Contar os dias não significa simplesmente contabilizar a passagem dos anos, mas aprender a viver cada dia com sabedoria e responsabilidade.

Para as CEBs, isso significa transformar o tempo em missão: organizar a comunidade, visitar os enfermos, acompanhar as famílias vulneráveis, defender crianças e jovens, cuidar dos idosos, fortalecer a participação popular, proteger a Casa Comum, apoiar trabalhadores, acolher migrantes e combater toda forma de exclusão.

A Eucaristia, nesse sentido, não pode terminar no altar. O pão repartido exige uma sociedade na qual o pão seja repartido. O corpo de Cristo celebrado exige compromisso com os corpos feridos de tantos irmãos e irmãs. A memória de Jesus entregue exige que a Igreja não permaneça indiferente diante daqueles que continuam sendo entregues à violência e à exclusão.

6. Uma Igreja que aprende a perguntar

Talvez um dos detalhes mais importantes do Evangelho seja o medo dos discípulos de perguntar. Eles não compreendem Jesus, mas têm medo de aprofundar a questão.

Também hoje uma Igreja verdadeiramente sinodal precisa recuperar a coragem de perguntar, escutar e discernir. As CEBs possuem justamente essa experiência: a comunidade se reúne ao redor da Palavra, partilha a vida, formula perguntas e procura caminhos de ação.

Perguntar significa abrir-se à conversão. Significa reconhecer que nem sempre compreendemos os caminhos de Deus. Significa abandonar respostas prontas quando elas já não conseguem responder ao sofrimento concreto do povo.

Por isso, a liturgia deste sábado apresenta uma provocação profundamente pastoral: não desperdicemos o tempo da vida e não tenhamos medo de compreender o caminho de Jesus.

Eclesiastes convida-nos a celebrar a vida antes que ela passe. Lucas convida-nos a compreender que a vida de Jesus encontra seu sentido na entrega. As CEBs são chamadas a unir essas duas dimensões: celebrar a vida e defendê-la; contemplar Cristo e segui-lo; alimentar-se da Palavra e transformar a realidade.

A existência humana é breve, mas pode tornar-se fecunda. O tempo passa, mas o amor colocado a serviço dos pobres permanece como testemunho do Reino. A verdadeira sabedoria consiste, então, em reconhecer que recebemos a vida como dom e devolvê-la como missão.

“Ensinai-nos a contar os nossos dias, e dai ao nosso coração sabedoria!” Que essa oração se transforme, nas Comunidades Eclesiais de Base, em compromisso concreto para que nenhum ser humano seja considerado descartável e para que o tempo que Deus nos concede seja colocado a serviço da vida, da justiça, da fraternidade e da esperança.


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