Reflexão para o 26º Domingo do Tempo Comum

Entre o dizer e o fazer: conversão, serviço e compromisso com os pobres

Por Pe. Hermes A. Fernandes

A Liturgia da Palavra do 26º Domingo do Tempo Comum nos coloca diante de uma questão fundamental para a vida cristã: onde se manifesta verdadeiramente a nossa fidelidade a Deus? Nas palavras que pronunciamos ou nas opções concretas que fazemos? Na aparência religiosa ou no compromisso efetivo com a justiça? No reconhecimento verbal de Deus ou na disposição de colocar a própria vida a serviço do seu projeto?

As três leituras da Liturgia convergem para uma mesma perspectiva: Deus não se deixa aprisionar por aparências religiosas. A fé verdadeira manifesta-se em uma existência transformada, capaz de abandonar caminhos de injustiça, assumir a lógica do serviço e colocar-se concretamente a favor da vida. Essa perspectiva encontra uma ressonância particularmente profunda na experiência das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), onde a Palavra de Deus é lida a partir da vida e retorna à vida como chamado à conversão pessoal, comunitária e social.

1. Ezequiel: a justiça de Deus e a possibilidade de recomeçar

Ez 18,25-28 precisa ser compreendido no contexto do exílio babilônico. O povo experimentava uma profunda crise de identidade e procurava explicações para sua situação. Surge então a acusação: “A conduta do Senhor não é correta”. O profeta responde deslocando a questão: não é Deus quem deve ser responsabilizado pela injustiça; é necessário olhar para a própria conduta.

O eixo do capítulo 18 de Ezequiel é a responsabilidade pessoal diante de Deus. O profeta rompe com uma compreensão fatalista segundo a qual alguém estaria definitivamente condenado por causa do passado ou da situação de seus antepassados. O justo pode abandonar a justiça; o pecador pode converter-se. Portanto, o passado não precisa determinar definitivamente o futuro.

Há aqui uma concepção profundamente dinâmica da conversão. O ímpio que abandona a maldade e passa a praticar “o direito e a justiça” encontra a vida. A justiça bíblica não é simplesmente uma abstração jurídica: significa restabelecer relações segundo a vontade de Deus, respeitando a dignidade e os direitos do outro.

Para a Teologia Latino-americana, essa passagem oferece uma chave importante. Conversão não pode ser reduzida a uma experiência meramente individual e intimista. Se Deus chama à justiça, a conversão precisa alcançar as relações sociais que produzem exclusão, pobreza e sofrimento.

Assim, uma comunidade cristã não pode proclamar a conversão enquanto permanece indiferente diante da fome, da falta de moradia, do desemprego, da violência, do racismo, da exploração dos trabalhadores, da marginalização dos povos indígenas, da destruição ambiental ou de qualquer forma de violação da dignidade humana.

O profeta nos lembra que sempre existe possibilidade de mudança. Tanto o indivíduo quanto uma comunidade e até estruturas sociais podem ser chamados à conversão. A misericórdia de Deus não é conivência com a injustiça; é a possibilidade de abandonar a injustiça para escolher a vida.

2. Filipenses: a kénosis de Cristo como caminho de uma Igreja servidora

Se Ezequiel apresenta a conversão como mudança concreta de caminho, Paulo mostra em Fl 2,1-11 qual deve ser o modelo dessa transformação: Jesus Cristo.

A primeira parte da perícope apresenta uma exortação à comunidade de Filipos para que viva “o mesmo amor”, a unidade, a humildade e a preocupação com o outro. Paulo combate a competição, a vanglória e a busca de interesses particulares.

Em seguida aparece o conhecido hino cristológico de Fl 2,6-11. O centro da passagem está na kénosis: Cristo, embora estivesse na condição divina, não se agarrou ao privilégio de sua condição, mas “esvaziou-se”, assumiu a condição de servo e percorreu o caminho da obediência até a morte de cruz. Estudos sobre a passagem destacam justamente a relação entre o despojamento de Cristo e o serviço à humanidade.

Aqui encontramos uma das mais importantes consequências pastorais do texto: o poder cristão não pode ser compreendido segundo a lógica da dominação.

Jesus não revela um Deus que se impõe pela força. Revela o Deus que se aproxima, serve, toca os feridos, acolhe os excluídos e entrega a própria vida. A grandeza cristã passa pelo caminho do serviço.

Essa perspectiva possui enorme importância para as CEBs. Uma Igreja que se inspira na kénosis de Cristo não pode organizar sua vida exclusivamente a partir da manutenção de privilégios, da autoridade ou da autopreservação institucional. Ela é chamada a estar junto dos últimos, partilhando suas lutas, esperanças e sofrimentos.

A opção pelos pobres, portanto, não é um elemento secundário da missão cristã. Ela nasce da própria maneira como Cristo revelou Deus. O Senhor que “se esvazia” é o mesmo que se coloca do lado daqueles que a sociedade frequentemente considera sem importância.

Nas CEBs, isso significa transformar a Palavra em participação, solidariedade e ação comunitária: círculos bíblicos, visitas às famílias, defesa dos direitos, organização popular, cuidado com os enfermos, atenção às pessoas em situação de rua, defesa dos trabalhadores, dos povos indígenas, das comunidades quilombolas e das populações ameaçadas pela destruição da Casa Comum.

3. Mateus: o Reino pertence àqueles que transformam o “não” em prática

O Evangelho de Mt 21,28-32 apresenta dois filhos. Um diz que não irá trabalhar na vinha, mas depois se arrepende e vai. O outro responde afirmativamente, porém não cumpre aquilo que prometeu. Jesus então pergunta: “Qual dos dois fez a vontade do pai?”

A resposta é evidente: aquele que efetivamente foi trabalhar.

A parábola aparece no contexto do confronto de Jesus com os sumos sacerdotes e anciãos do povo, depois de sua entrada em Jerusalém. O problema colocado por Jesus é a distância entre a profissão religiosa e a prática concreta.

A vinha simboliza o campo onde a vontade de Deus deve ser realizada. O verdadeiro filho não é aquele que simplesmente diz “sim”, mas aquele que transforma sua resposta em ação.

É então que Jesus pronuncia uma afirmação desconcertante: publicanos e prostitutas precedem aqueles que se consideravam religiosos no Reino de Deus. Não porque Jesus aprove todas as suas condutas anteriores, mas porque essas pessoas acolheram o chamado à conversão anunciado por João Batista, enquanto aqueles que se julgavam justos permaneceram fechados à mudança.

O Evangelho, portanto, não glorifica o pecado; denuncia a autossuficiência religiosa. O problema não está em ter errado e mudar de caminho. O problema está em considerar-se tão correto que já não se reconhece a necessidade de conversão.

Essa palavra possui uma força especial para nossas comunidades. Podemos participar da liturgia, conhecer a Bíblia, rezar, cantar, assumir ministérios eclesiais e, ainda assim, dizer “sim” a Deus somente com os lábios.

O critério de Jesus é outro: a fé precisa tornar-se prática.

4. Das comunidades reunidas ao compromisso com os excluídos

As três leituras podem ser lidas conjuntamente como um itinerário:

Ezequiel: é possível mudar de caminho.

Filipenses: o caminho de Jesus é o despojamento e o serviço.

Mateus: a verdadeira resposta a Deus manifesta-se nas ações.

É justamente aqui que a espiritualidade das CEBs encontra uma fecunda inspiração. A Leitura Popular da Bíblia parte da vida concreta do povo, ilumina essa realidade com a Palavra e retorna à realidade com um compromisso transformador.

Por isso, diante dessas leituras, a pergunta não pode ser apenas: “O que este texto significa para mim?”. É necessário perguntar também: “Que realidade Deus está nos chamando a transformar?”

Quem são hoje aqueles que, como os publicanos e prostitutas do Evangelho, são considerados indignos, pecadores ou descartáveis? São os moradores das periferias, as pessoas em situação de rua, os desempregados, os trabalhadores explorados, os migrantes, os refugiados, os povos indígenas, as comunidades quilombolas, os camponeses ameaçados, as mulheres vítimas de violência, as crianças submetidas à fome e tantos outros que permanecem nas margens de uma sociedade desigual.

O compromisso pastoral das CEBs deve nascer do encontro dessas pessoas com o rosto misericordioso de Deus. Não se trata simplesmente de “fazer caridade” aos pobres, mas de caminhar com eles, reconhecer sua dignidade, ouvir sua voz e participar de processos que busquem superar as causas da exclusão.

A fé eucarística não pode terminar no templo. A mesa do altar precisa conduzir às mesas onde falta pão. A comunhão celebrada precisa transformar-se em comunhão de vida. O Corpo de Cristo recebido na Eucaristia precisa ser reconhecido também no corpo ferido dos pobres e excluídos.

Conclusão: um “sim” que se torna caminho

O 26º Domingo do Tempo Comum nos confronta com uma pergunta simples e exigente: qual é o nosso “sim” a Deus?

Ezequiel nos recorda que sempre podemos mudar de caminho. Filipenses apresenta Cristo como aquele que se despoja e assume a condição de servo. Mateus mostra que não basta dizer “Senhor, Senhor”: é necessário fazer a vontade do Pai.

Para as CEBs, essa Palavra se transforma em chamado à conversão e à missão. Não basta proclamar a opção pelos pobres; é necessário caminhar com os pobres. Não basta defender a dignidade humana; é necessário enfrentar aquilo que a nega. Não basta falar de justiça; é necessário praticá-la. Não basta anunciar o Reino; é necessário colaborar para que sinais desse Reino já aconteçam na história.

A Eucaristia deste domingo nos envia, portanto, para a vinha do mundo. Ali estão os pobres, os marginalizados, os excluídos e todos aqueles cuja dignidade continua sendo negada. É ali que somos chamados a transformar nossas palavras em gestos, nossa fé em compromisso e nossa oração em serviço.

O verdadeiro “sim” cristão não é apenas aquele que os lábios pronunciam, mas aquele que a vida confirma.


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