Por Pe. Hermes A. Fernandes
O Mês Missionário nos convida, todos os anos, a renovar a consciência de que a Igreja existe para a missão. Entretanto, à luz da Teologia Latino-americana, falar de missão não significa simplesmente pensar em deslocamentos geográficos, em atividades religiosas ou na conquista de novos espaços para a Igreja. A missão nasce do próprio coração do Evangelho e se concretiza quando a comunidade cristã assume, no meio da história, o compromisso com a vida, com a dignidade humana, com a justiça, com a paz e com a Casa Comum.
Em nossa realidade latino-americana, marcada por profundas desigualdades sociais, pela pobreza, pelo racismo, pela violência, pelas migrações, pela exploração do trabalho, pela devastação ambiental e por tantas formas de exclusão, não podemos compreender a missão cristã como uma realidade desligada da vida concreta do povo. O Deus revelado em Jesus Cristo é o Deus que escuta o clamor dos seus filhos e filhas e se coloca ao lado daqueles que têm sua dignidade ameaçada.
1. A missão nasce do Deus que escuta o clamor dos pobres
A tradição bíblica apresenta um Deus que não permanece indiferente diante do sofrimento humano. O livro do Êxodo revela um Deus que escuta o clamor do povo, vê sua opressão e desce para libertá-lo (cf. Ex 3,7-10). A missão, portanto, não começa simplesmente com uma iniciativa humana; ela nasce da iniciativa de Deus que deseja vida e liberdade para seu povo.
Jesus assume essa missão de maneira definitiva. Na sinagoga de Nazaré, apresenta seu programa missionário anunciando a Boa-Nova aos pobres, a libertação aos cativos, a recuperação da vista aos cegos e a liberdade aos oprimidos (cf. Lc 4,16-21).
É justamente aqui que a Teologia Latino-americana encontra uma de suas intuições fundamentais: a missão da Igreja não pode ser indiferente à realidade dos pobres e excluídos. Evangelizar significa anunciar Jesus Cristo e, ao mesmo tempo, participar da construção de relações sociais nas quais a vida seja respeitada e promovida.
A opção preferencial pelos pobres não é uma estratégia pastoral entre tantas outras. Ela brota do próprio Evangelho. Os pobres não são apenas destinatários da missão; são também sujeitos da evangelização, portadores de uma experiência de Deus e protagonistas da transformação de suas comunidades e de sua própria história.
2. Uma Igreja missionária não pode viver distante da realidade
Existe sempre o risco de uma Igreja que fala muito sobre missão, mas pouco escuta a realidade. A missão, porém, exige presença. Exige proximidade. Exige capacidade de caminhar com as pessoas e de reconhecer nelas a presença de Deus.
As Comunidades Eclesiais de Base constituem, nesse sentido, uma expressão profundamente latino-americana de uma Igreja missionária. Reunindo-se em torno da Palavra de Deus, da oração, da partilha da vida e da ação comunitária, elas procuram fazer com que o Evangelho se torne força transformadora da realidade.
A missão acontece na comunidade, na periferia, no campo, nas ocupações urbanas, nas comunidades indígenas e quilombolas, entre os trabalhadores, nas universidades, nas escolas, nos hospitais, nos presídios, entre os migrantes, junto às pessoas em situação de rua e em tantos outros lugares onde a vida clama por cuidado e esperança.
Por isso, o missionário não é alguém que chega levando Deus a quem supostamente não o possui. Deus já está presente na história do povo. O missionário chega para escutar, discernir, dialogar, testemunhar e caminhar junto. A missão é encontro, e não imposição; diálogo, e não dominação; serviço, e não poder.
3. Evangelizar é cuidar da vida
A Teologia Latino-americana nos ajuda a compreender que a fé cristã possui uma dimensão profundamente histórica. Não existe verdadeira espiritualidade cristã quando a fé permanece indiferente diante do sofrimento humano.
Jesus não apenas falou sobre o Reino de Deus. Ele aproximou-se dos doentes, alimentou os famintos, acolheu os excluídos, tocou os considerados impuros, dialogou com mulheres, aproximou-se dos pecadores e restituiu dignidade àqueles que haviam sido colocados à margem.
Por isso, a missão da Igreja precisa continuar tocando as feridas do nosso tempo.
Quando uma família não possui moradia digna, a missão cristã precisa estar presente.
Quando uma criança passa fome, a missão não pode permanecer indiferente.
Quando trabalhadores são explorados, quando mulheres sofrem violência, quando jovens são vítimas da exclusão ou quando comunidades inteiras são ameaçadas pela destruição ambiental, o Evangelho precisa tornar-se presença concreta.
A missão também passa pelo cuidado da Casa Comum. A destruição das florestas, a contaminação das águas, a mineração predatória, o avanço das mudanças climáticas e a expulsão de comunidades tradicionais atingem principalmente os mais pobres. Por isso, defender a criação significa também defender os seres humanos que dependem diretamente dela para sobreviver.
4. Missionários de uma Igreja sinodal
O Mês Missionário de 2026 pode ser uma oportunidade para aprofundarmos uma Igreja que aprende a caminhar com o povo. A missão não pode ser compreendida apenas como tarefa de padres, religiosos, religiosas ou agentes pastorais especializados. Pelo Batismo, todo cristão participa da missão de Jesus.
Uma Igreja missionária é uma Igreja que escuta.
Escuta a Palavra de Deus.
Escuta o grito dos pobres.
Escuta os povos originários.
Escuta as mulheres.
Escuta a juventude.
Escuta os trabalhadores.
Escuta as comunidades.
Escuta também os clamores da Casa Comum.
Essa escuta não significa passividade. Pelo contrário, conduz ao discernimento e à ação. A comunidade que escuta o sofrimento do povo é chamada a perguntar: o que o Evangelho nos pede diante desta realidade?
Assim, a missão deixa de ser apenas um conjunto de atividades e transforma-se em um modo de ser Igreja.
5. A missão acontece também dentro de casa
É importante lembrar que o desafio missionário não está somente fora das estruturas eclesiais. A própria Igreja precisa permanentemente deixar-se evangelizar.
Uma Igreja missionária precisa superar o clericalismo, o autoritarismo, o individualismo e todas as formas de exclusão que contradizem a fraternidade anunciada por Jesus.
Precisa abrir espaços para a participação efetiva dos leigos e leigas, valorizar o protagonismo das mulheres, acolher a juventude e reconhecer os diferentes carismas suscitados pelo Espírito Santo.
O Espírito não pertence a um grupo. Ele sopra onde quer (cf. Jo 3,8). Por isso, a missão exige uma Igreja aberta à novidade de Deus, capaz de reconhecer sua presença onde muitas vezes não estamos acostumados a procurá-la.
6. Missionários da esperança
Em uma sociedade marcada por tantas divisões, o testemunho missionário precisa recuperar a força da esperança cristã.
Mas a esperança bíblica não é fuga da realidade. Não significa esperar passivamente que Deus resolva aquilo que somos chamados a transformar. A esperança cristã é uma força que nos coloca a caminho.
É a esperança dos pobres que lutam por sua dignidade.
É a esperança das comunidades que se organizam.
É a esperança dos trabalhadores que defendem seus direitos.
É a esperança dos povos indígenas que protegem seus territórios.
É a esperança das comunidades tradicionais que preservam seus modos de vida.
É a esperança da juventude que sonha com um mundo diferente.
É a esperança daqueles que, mesmo diante das dificuldades, continuam acreditando que outro mundo é possível porque o Reino de Deus já está germinando entre nós.
7. Uma missão que se faz serviço
O verdadeiro missionário não procura ocupar o centro. Procura servir.
Jesus mostrou isso ao lavar os pés dos discípulos (cf. Jo 13,1-15). O gesto revela que a autoridade cristã somente encontra sua legitimidade quando se transforma em serviço.
Por isso, celebrar o Mês Missionário significa perguntar às nossas comunidades: a quem estamos servindo? Quem está ficando de fora? Quais são os rostos que ainda não conseguimos enxergar? Quais sofrimentos não estamos ouvindo?
A missão começa quando permitimos que essas perguntas nos incomodem.
A Igreja missionária não pode limitar-se a conservar aquilo que já existe. Ela precisa sair ao encontro das periferias existenciais e sociais, atravessar fronteiras, aproximar-se daqueles que foram esquecidos e anunciar, por palavras e atitudes, que ninguém está fora do amor de Deus.
Conclusão: “Eis-me aqui, envia-me!”
O Mês Missionário de 2026 pode ser vivido como um grande chamado à conversão missionária. Não uma missão compreendida como proselitismo ou conquista, mas como testemunho do amor de Deus no meio da história.
O profeta Isaías pergunta: “Quem enviarei?” E responde: “Eis-me aqui, envia-me!” (Is 6,8).
Hoje, essa mesma pergunta chega às nossas comunidades.
Quem estará disposto a caminhar com os pobres?
Quem estará disposto a defender a vida?
Quem estará disposto a cuidar da Casa Comum?
Quem estará disposto a ouvir os que não têm voz?
Quem estará disposto a construir pontes em uma sociedade marcada por divisões?
Quem estará disposto a fazer da Igreja uma verdadeira comunidade de discípulos e discípulas missionários?
A missão não é apenas partir para algum lugar distante. É aprender a enxergar o próximo que Deus coloca diante de nós.
Na perspectiva da Teologia Latino-americana, ser missionário é colocar os pés no chão da realidade, abrir os olhos para os sinais dos tempos, iluminar a história com a Palavra de Deus e transformar a fé em compromisso concreto com a vida.
Que nossas comunidades possam renovar sua vocação missionária. Que a Palavra se torne vida, que a Eucaristia se transforme em compromisso e que nossas celebrações nos conduzam às ruas, às periferias, aos campos, às comunidades e aos lugares onde o povo sofre e espera.
Porque uma Igreja verdadeiramente missionária não pergunta apenas “onde estão aqueles que precisam de nós?”. Ela pergunta, sobretudo: “onde Deus está nos esperando para servir, amar e defender a vida?”
E, diante desse chamado, que possamos responder com toda a Igreja: “Eis-me aqui, envia-me!”
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