“Louvado sejas, meu Senhor, pela nossa irmã, a mãe Terra.”
Por Pe. Hermes A. Fernandes
Celebrar São Francisco de Assis, no dia 4 de outubro, é muito mais do que recordar uma figura admirável da história da Igreja. É permitir que sua vida e seu testemunho questionem o modo como estamos vivendo nossa relação com Deus, com os pobres, com as pessoas e com toda a Criação. Francisco de Assis continua sendo uma inspiração particularmente atual para uma Igreja que deseja caminhar com os pequenos, defender a vida ameaçada e cuidar da Casa Comum.
Para as Comunidades Eclesiais de Base, a memória de São Francisco pode ser compreendida a partir de uma espiritualidade encarnada na realidade. A fé não acontece distante da vida. Deus se revela no clamor dos pobres, na beleza da Criação, na luta das comunidades, na solidariedade entre os irmãos e irmãs e na resistência daqueles que defendem a terra, a água, as florestas e os territórios ameaçados.
1. Francisco de Assis: uma opção por uma vida simples
Francisco nasceu em uma sociedade marcada por profundas desigualdades. Filho de uma família economicamente privilegiada, experimentou uma transformação radical ao encontrar-se com Jesus Cristo e, particularmente, com os pobres e marginalizados de seu tempo.
Sua conversão não consistiu apenas em modificar algumas práticas religiosas. Francisco mudou seu modo de viver, de relacionar-se com as pessoas e de compreender os bens materiais. Escolheu a simplicidade, a fraternidade e a partilha.
Aqui encontramos uma primeira aproximação com a Teologia Latino-americana: o Evangelho não pode ser reduzido a uma espiritualidade individualista. O encontro com Jesus produz consequências concretas na maneira como organizamos nossa existência e como nos relacionamos com os que sofrem.
Francisco compreendeu que seguir Jesus significava aproximar-se daqueles que a sociedade colocava à margem. Sua opção pela pobreza não foi desprezo pela vida, mas uma forma de romper com a lógica da acumulação e recuperar a fraternidade como fundamento das relações humanas.
Essa perspectiva continua extremamente atual. Em nossas periferias urbanas e rurais, encontramos famílias que lutam diariamente por moradia, alimentação, trabalho digno, saúde, educação, segurança, água potável e condições mínimas de existência. A espiritualidade franciscana nos pergunta: como podemos falar de Deus sem ouvir o clamor dessas pessoas?
As CEBs são chamadas a transformar essa pergunta em compromisso pastoral.
2. O pobre e a Criação pertencem à mesma Casa Comum
Uma das grandes contribuições da espiritualidade franciscana é perceber que não existe verdadeira fraternidade humana quando destruímos a Criação.
Francisco chama o sol de irmão, a lua de irmã, a água de irmã, o fogo de irmão e a terra de mãe. Não se trata simplesmente de uma linguagem poética. Existe aí uma profunda compreensão espiritual: a Criação não é propriedade absoluta do ser humano. Somos parte dela.
Essa intuição encontra uma expressão contemporânea na ecologia integral, apresentada pelo Papa Francisco na Laudato Si’. A ecologia integral reconhece que a crise ambiental e a crise social estão profundamente relacionadas. Os problemas da terra, da água, do clima, da biodiversidade e dos territórios são também problemas humanos.
Por isso, quando uma comunidade perde sua fonte de água por causa da contaminação, não estamos diante apenas de um problema ambiental. Quando uma população é expulsa de seu território, existe uma questão social, econômica, cultural e espiritual. Quando povos indígenas, comunidades tradicionais, camponeses ou moradores das periferias sofrem os efeitos da degradação ambiental, a Igreja não pode permanecer indiferente.
A CNBB tem ressaltado justamente essa dimensão da espiritualidade de São Francisco: seu testemunho não conduz somente a pequenas ações ambientais, mas a uma mudança no modo de viver, conviver e relacionar-se, inclusive questionando modelos econômicos que produzem impactos sociais e ecológicos.
3. As CEBs e a espiritualidade do “irmão” e da “irmã”
Francisco não compreendia a vida a partir do isolamento. Ele descobriu a fraternidade.
Essa dimensão possui enorme importância para as Comunidades Eclesiais de Base. A palavra “comunidade” já contém uma dimensão profundamente evangélica: ninguém caminha sozinho.
Nas CEBs, a fé é celebrada na casa das pessoas, nas pequenas comunidades, nos círculos bíblicos, nas celebrações da Palavra, nas rodas de conversa, nos mutirões e nas iniciativas solidárias. A Bíblia é lida a partir da vida e a vida é iluminada pela Palavra.
Nesse sentido, São Francisco nos ajuda a recuperar uma pergunta essencial: Quem são hoje nossos irmãos e irmãs?
São os moradores das periferias esquecidas.
São as pessoas em situação de rua.
São os trabalhadores que vivem da informalidade.
São as famílias sem moradia digna.
São os povos indígenas e comunidades tradicionais que defendem seus territórios.
São os agricultores familiares.
São aqueles que sofrem com a fome e o desemprego.
São as mulheres vítimas de violência.
São as crianças e jovens privados de oportunidades.
São também os rios, as florestas, os animais e toda a Criação que sofre as consequências de um modelo predatório de desenvolvimento.
A fraternidade franciscana amplia o horizonte da comunidade: o outro não é ameaça, concorrente ou estranho; é irmão e irmã.
4. “Louvado sejas”: uma espiritualidade de gratuidade
O Cântico das Criaturas nasce de uma espiritualidade de gratidão.
Francisco não olha para a Criação simplesmente como algo que pode ser utilizado. Ele contempla, agradece e louva. Sua espiritualidade recupera a capacidade de maravilhar-se diante da vida.
Isso é profundamente contracultural em uma sociedade marcada pelo consumismo. A cultura do consumo ensina que felicidade significa possuir cada vez mais. Francisco ensina que a felicidade pode nascer da gratuidade, da simplicidade, da fraternidade e da comunhão.
A espiritualidade das CEBs pode recuperar essa dimensão contemplativa sem abandonar o compromisso social. Contemplar a Criação é também defendê-la. Louvar a Deus pela água significa lutar para que todos tenham acesso à água. Agradecer pela terra significa defender aqueles que nela trabalham e vivem. Louvar pela vida significa posicionar-se ao lado daqueles cuja vida está ameaçada.
Assim, oração e ação não são realidades separadas.
5. São Francisco e a opção pelos pobres
A pobreza evangélica de Francisco possui uma força profética que continua interpelando a Igreja.
A Teologia Latino-americana recorda que Deus escuta o clamor dos pobres e que a missão cristã exige uma Igreja próxima daqueles que vivem situações de exclusão. A opção preferencial pelos pobres não significa excluir os demais; significa reconhecer que, diante da desigualdade e da injustiça, o Evangelho exige que a Igreja esteja particularmente próxima daqueles cuja dignidade é negada.
Francisco fez isso de maneira radical.
Ele não apenas falou sobre os pobres. Aproximou-se deles. Tocou suas feridas. Compartilhou sua vida. Tornou-se pobre com os pobres.
Essa experiência pode iluminar a pastoral das CEBs. Não basta realizar atividades “para” os pobres. É necessário caminhar com os pobres, reconhecendo-os como sujeitos da evangelização, da organização comunitária e da transformação social.
As comunidades de base não devem ser apenas espaços onde pessoas recebem assistência. Elas são chamadas a ser espaços onde os pobres podem falar, organizar-se, celebrar sua fé, interpretar a realidade à luz da Palavra e participar ativamente da construção do Reino de Deus.
6. Francisco diante da crise da Casa Comum
O mundo contemporâneo apresenta desafios que Francisco de Assis jamais poderia ter imaginado em sua dimensão atual: mudanças climáticas, destruição de florestas, poluição das águas, perda da biodiversidade, mineração predatória, desperdício, produção excessiva de resíduos e uma cultura de consumo que transforma pessoas e natureza em objetos.
A Igreja no Brasil tem insistido que a ecologia integral precisa relacionar a defesa da Criação com a defesa da vida humana. A experiência das CEBs, especialmente através do método ver, julgar e agir, oferece um caminho pastoral concreto para essa tarefa.
Ver: observar o que está acontecendo no território. Quem está sofrendo? O que está acontecendo com a água? Com os rios? Com a terra? Com as florestas? Com as famílias?
Julgar: iluminar essa realidade pela Palavra de Deus e pelo ensinamento da Igreja. O que o Evangelho nos pede diante dessa situação? Que projeto de sociedade corresponde ao Reino de Deus?
Agir: organizar respostas comunitárias. Defender os territórios, promover educação ambiental, combater o desperdício, fortalecer a agricultura familiar, apoiar os povos tradicionais, cuidar das nascentes, desenvolver ações solidárias e participar dos espaços onde se discutem as políticas públicas que afetam a vida das comunidades.
Assim, a ecologia deixa de ser apenas um tema e torna-se dimensão da missão evangelizadora.
7. Uma Igreja que caminha com os pobres e com a Terra
São Francisco pode ajudar as CEBs a recuperar uma Igreja simples, próxima e missionária.
Uma Igreja que não tenha medo de estar nas periferias.
Uma Igreja que escute antes de falar.
Uma Igreja que reconheça a sabedoria dos pobres.
Uma Igreja que valorize os povos originários e as comunidades tradicionais.
Uma Igreja que defenda a água, a terra e a biodiversidade.
Uma Igreja que denuncie tudo aquilo que ameaça a vida.
Uma Igreja que celebre a Criação não como objeto de consumo, mas como dom de Deus.
A espiritualidade franciscana nos recorda que fraternidade e ecologia não podem ser separadas. A CNBB já destacou essa compreensão ao relacionar São Francisco, a Laudato Si’, o cuidado da Casa Comum e a defesa dos pobres e pequenos.
Talvez seja essa uma das grandes mensagens de Francisco para as CEBs de nosso tempo: não podemos cuidar da Terra sem cuidar dos pobres, nem defender os pobres sem defender a Terra.
8. Celebrar Francisco é assumir uma missão
Celebrar São Francisco de Assis no dia 4 de outubro significa, portanto, muito mais do que admirar sua figura.
Significa perguntar o que sua vida provoca em nós.
Diante de uma sociedade marcada pelo individualismo, Francisco nos chama à fraternidade.
Diante da cultura do descarte, chama-nos à simplicidade.
Diante da destruição ambiental, chama-nos ao cuidado da Casa Comum.
Diante da pobreza e da exclusão, chama-nos à proximidade.
Diante da indiferença, chama-nos à compaixão.
Diante da concentração dos bens, chama-nos à partilha.
Diante de uma fé desencarnada, chama-nos a uma espiritualidade que toca a realidade concreta.
É por isso que São Francisco continua tão próximo da caminhada das Comunidades Eclesiais de Base. Ele nos ensina que o Evangelho precisa ganhar corpo na história. A fé precisa tornar-se fraternidade. A oração precisa transformar-se em compromisso. A contemplação precisa gerar cuidado. E o amor a Deus precisa manifestar-se no amor aos irmãos, às irmãs e à Criação.
Que São Francisco de Assis ajude nossas comunidades a cantar novamente o “Louvado sejas” não apenas com os lábios, mas com a própria vida.
Que nossas CEBs sejam comunidades de irmãos e irmãs, de portas abertas, de mesa partilhada, de Bíblia na mão e os pés no chão da realidade.
Que saibamos escutar o grito dos pobres e o grito da Terra.
E que, seguindo os passos do Pobrezinho de Assis, possamos anunciar um Evangelho que não separe Deus da vida, a fé da justiça, a espiritualidade da solidariedade, nem a humanidade da Casa Comum.
Louvado sejas, meu Senhor, por nossa irmã Terra, pelos pobres que nos evangelizam, pelas comunidades que resistem e por toda vida que somos chamados a cuidar.
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