Qohélet: a Sabedoria que desvela as Injustiças e convoca à Solidariedade

Por Pe. Hermes A. Fernandes

1. Introdução: a vida sob o sol e a busca de sentido

O Livro de Eclesiastes, conhecido pelo nome hebraico Qohélet, integra a literatura sapiencial de Israel. Sua voz é singular porque não oferece respostas fáceis diante dos conflitos da existência. Ao contrário, questiona as certezas estabelecidas, denuncia as ilusões humanas e convida a discernir o sentido da vida em meio às contradições da história. Lido à luz da Teologia Latino-americana, esse livro torna-se uma importante chave para compreender a realidade dos pobres, dos trabalhadores explorados, dos povos indígenas e de todos aqueles cuja dignidade é negada por estruturas sociais injustas.

Qohélet provavelmente alcançou sua forma final no século III a.C., durante o período helenístico, quando a sociedade judaica experimentava transformações culturais, econômicas e políticas. A palavra hebraica hebel, tradicionalmente traduzida como “vaidade”, significa literalmente algo semelhante a vapor, sopro ou neblina: uma realidade passageira, difícil de apreender. A expressão “vaidade das vaidades, tudo é vaidade” (Ecl 1,2) não significa necessariamente que nada tenha valor, mas evidencia a fragilidade dos projetos humanos e a impossibilidade de controlar plenamente a existência.

Essa percepção não conduz obrigatoriamente ao pessimismo. Ela questiona a pretensão de acumular riquezas, poder e prestígio como se fossem garantias de felicidade. Para uma leitura pastoral comprometida com os pobres, Qohélet ajuda a desmascarar uma sociedade que mede o valor das pessoas pelo que possuem, enquanto torna invisível o sofrimento daqueles que produzem a riqueza sem usufruir de seus frutos.

2. A exploração do trabalho e a desigualdade social (Ecl 2,18-23; 4,1-3)

Qohélet observa que o ser humano pode trabalhar intensamente, acumular bens e, ao final, deixar tudo para alguém que não participou de seu esforço (Ecl 2,18-23). A crítica atinge a ilusão de que a riqueza acumulada assegura sentido duradouro à vida. O trabalho, que deveria favorecer a realização humana, transforma-se em fonte de ansiedade quando subordinado à competição, à ganância e à acumulação.

A denúncia torna-se ainda mais contundente em Ecl 4,1: “Vi todas as opressões que se cometem debaixo do sol”. O autor contempla as lágrimas dos oprimidos e reconhece a ausência de quem os console, enquanto o poder permanece nas mãos dos opressores. Não se trata de uma reflexão abstrata: Qohélet percebe a violência das relações sociais e a vulnerabilidade de quem não dispõe de poder para defender seus direitos.

A Teologia Latino-americana encontra nessa passagem um ponto de convergência com a opção preferencial pelos pobres. A pobreza não pode ser tratada simplesmente como destino inevitável ou resultado exclusivo de escolhas individuais. Ela também é produzida por mecanismos econômicos e políticos que concentram a terra, exploram o trabalho e restringem o acesso aos bens necessários à vida.

Nesse horizonte, as Comunidades Eclesiais de Base são chamadas a promover a leitura comunitária da Palavra, relacionando a experiência cotidiana dos trabalhadores com a denúncia bíblica da opressão. A Comissão Pastoral da Terra, por sua vez, encontra nesse texto um fundamento para acompanhar camponeses, agricultores familiares, posseiros, quilombolas e comunidades ameaçadas pela concentração fundiária, pelo trabalho escravo contemporâneo e pela violência no campo.

A ação pastoral exige mais do que assistência emergencial: implica fortalecer a organização popular, defender os direitos trabalhistas, apoiar a agricultura familiar e denunciar as estruturas que transformam pessoas em instrumentos de lucro.

3. A terra, a Casa Comum e os povos indígenas (Ecl 3,1-8; 5,9-11)

O conhecido poema de Ecl 3,1-8 afirma que existe um tempo para cada coisa: nascer e morrer, plantar e arrancar, chorar e rir, calar e falar. O texto reconhece os ritmos e os limites da existência humana. Entretanto, não deve ser interpretado como justificativa para a passividade diante das injustiças, como se a opressão precisasse ser simplesmente aceita porque teria seu tempo determinado.

O poema convida ao discernimento: há momentos em que é necessário plantar, reconstruir e curar; há circunstâncias em que se torna indispensável arrancar aquilo que destrói, denunciar o que oprime e romper o silêncio cúmplice. Na realidade latino-americana, esse discernimento inclui a defesa dos territórios tradicionais, das florestas, das águas e das condições de vida das futuras gerações.

Em Ecl 5,9-11, Qohélet reflete sobre a relação entre a terra, o trabalho e os interesses econômicos, observando que até o rei depende do cultivo do campo. A passagem recorda que a produção da riqueza está vinculada ao trabalho humano e aos recursos da terra, ainda que os benefícios sejam distribuídos desigualmente.

Essa perspectiva dialoga com a ecologia integral, que reconhece a ligação entre a degradação ambiental e a exclusão social. A destruição de territórios indígenas, o desmatamento, a contaminação dos rios e a expansão predatória de atividades econômicas atingem especialmente aqueles que dependem diretamente da terra para sua sobrevivência física, cultural e espiritual.

O Conselho Indigenista Missionário é chamado, nesse contexto, a testemunhar a dignidade dos povos originários, acompanhar suas lutas territoriais e defender seu direito à existência, à cultura e à autodeterminação. As CEBs e a CPT, em comunhão com esses povos, podem construir alianças que respeitem o protagonismo indígena e reconheçam que a terra não é apenas mercadoria, mas território de vida, memória, identidade e relação com o sagrado.

A sabedoria de Qohélet, embora não apresente uma formulação moderna dos direitos indígenas ou da ecologia integral, oferece elementos para questionar a arrogância humana, a exploração ilimitada e a ilusão de que a acumulação econômica pode justificar a destruição da vida.

4. A religião, a justiça e a responsabilidade ética (Ecl 5,1-6; 12,13-14)

Qohélet também questiona uma religiosidade marcada pela superficialidade. Em Ecl 5,1-6, recomenda prudência diante de Deus e adverte contra palavras e promessas irresponsáveis. A verdadeira relação com o sagrado não se sustenta na multiplicação de discursos, mas exige coerência entre aquilo que se professa e a maneira como se vive.

Essa advertência interpela uma pastoral que, por vezes, corre o risco de separar a celebração da vida concreta do povo. A liturgia, a oração e a leitura bíblica devem alimentar a conversão pessoal e comunitária, tornando a Igreja mais sensível ao clamor dos empobrecidos. Não basta proclamar a dignidade humana no altar se, fora dele, permanecemos indiferentes à fome, ao despejo, ao racismo, à violência contra os indígenas e à destruição da Casa Comum.

O livro conclui afirmando: “Teme a Deus e observa seus mandamentos, porque este é o dever de todo ser humano” (Ecl 12,13). O temor de Deus, na tradição bíblica, não significa submissão servil, mas reverência, responsabilidade e reconhecimento dos limites humanos diante do Criador. O versículo seguinte recorda que Deus julga as ações humanas, inclusive aquelas realizadas secretamente (Ecl 12,14).

Essa conclusão não elimina as tensões presentes no livro, mas convida a uma vida responsável. À luz do Evangelho, essa responsabilidade deve ser discernida em favor da vida, da justiça e da misericórdia. A fé não pode servir de legitimação para privilégios ou de justificativa espiritual para a resignação dos oprimidos.

5. Das comunidades à transformação da realidade

A contribuição de Qohélet para a pastoral latino-americana não está em oferecer um programa político pronto, mas em educar o olhar para reconhecer a transitoriedade dos poderes humanos, denunciar a opressão e buscar uma vida mais solidária. Sua sabedoria confronta tanto a idolatria da riqueza quanto a indiferença religiosa diante do sofrimento.

As CEBs podem transformar essa leitura em círculos bíblicos, nos quais a Palavra seja confrontada com as experiências das periferias urbanas, das famílias sem moradia, dos trabalhadores precarizados e das comunidades privadas de direitos. A CPT pode articular a reflexão bíblica à defesa da terra, à formação de lideranças e à proteção das comunidades rurais ameaçadas. O CIMI pode contribuir para que a Igreja caminhe com os povos indígenas, respeitando suas culturas, sua espiritualidade e suas lutas por território e dignidade.

Essa prática requer escuta, formação política e bíblica, participação popular, incidência pública e compromisso com políticas que garantam alimentação, moradia, saúde, educação, trabalho digno e proteção ambiental. Requer, igualmente, que as comunidades eclesiais examinem suas próprias estruturas, superem preconceitos e partilhem recursos com aqueles que mais necessitam.

Conclusão

Qohélet ensina que a vida não pode ser reduzida à acumulação de bens, à busca de prestígio ou à ilusão de domínio absoluto sobre a história. Ao contemplar as lágrimas dos oprimidos, questionar a exploração do trabalho e recordar os limites humanos, o sábio oferece uma contribuição relevante à Teologia Latino-americana.

Lido a partir das CEBs, da CPT e do CIMI, o livro convoca a Igreja a não se acomodar diante das injustiças. A sabedoria bíblica torna-se fecunda quando ajuda o povo a compreender sua realidade, fortalecer sua esperança e organizar ações transformadoras. Diante dos pobres, marginalizados e excluídos de ontem e de hoje, a fé é chamada a tornar-se solidariedade concreta, defesa da dignidade humana e compromisso com a justiça.

Se tudo é sopro quando se transforma em pretensão de poder absoluto, a vida compartilhada, o cuidado com a Casa Comum e a luta pela dignidade de cada pessoa constituem caminhos concretos de fidelidade a Deus. A sabedoria de Qohélet nos recorda que não somos senhores da vida, mas responsáveis por cultivá-la, protegê-la e partilhá-la.


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