OS DOIS LADOS DA CRUZ

Por Genildo Santana

Toda moeda tem dois lados. Há que se ver “o outro lado da moeda”. Discos tinham dois lados. Há que se “virar o disco”. A cruz de Jesus também tem dois lados.

Nenhum teólogo descreveu a morte e a ressurreição de Jesus como Jon Sobriño, Jesuíta e teólogo de El Salvador. Em seu livro, Jesus, o Libertador, lançado em 1992, ele fala sobre a morte de Jesus. Jon Sobriño reflete sobre a morte de Jesus nos capítulos VII, VIII, IX e X.

No Capítulo VII ele faz a pergunta: Por que matam Jesus? E no capítulo VIII, outra pergunta: Por que Jesus morre? Em resumo, afirma o notório teólogo salvadorenho, que matam Jesus porque questionou os pecados de uma sociedade, porque desafiou o Império romano, cujo imperador César era um deus. “Foi uma luta de dois deuses”, diz o teólogo

Aqui há uma clara distinção entre predestinação (segundo se afirma que Deus enviou cristo para morrer na Cruz, como destino inevitável) e Livre-Arbítrio (no qual se diz que Jesus aceitou livremente sua missão e suas consequências: Prisão, tortura, zombaria, cruz, morte). Predestinação e Livre-Arbítrio são temas caros a Santo Agostinho.

Mataram Jesus porque denunciou a exploração, a escravidão de um povo. Mataram Jesus porque fez uma opção pelos pobres de Israel, pelos oprimidos. A morte de Jesus foi uma morte de cunho político mesmo. Jesus passou por um julgamento religioso e um julgamento político. Mataram Jesus porque não compactuou com o pecado estrutural, com um sistema de opressão, promovido pelo Império Romano.

E Jesus morreu porque se manteve fiel ao projeto de Deus. Não se acovardou. Poderia ter fugido, negado. Não o fez, porém. E mais: Tinha consciência de sua própria morte. Até pediu ao Pai para livrá-Lo de tamanha dor. Ao lado do pedido, no entanto, reafirmou que, mesmo ciente do que poderia Lhe acontecer, faria a vontade do Pai, e não a sua própria. Foi uma escolha consciente e não pré-determinada.

E continua Jon Sobriño, dizendo nos capítulos IX e X que, Jesus, ao ser crucificado, foi o próprio Deus que se viu na cruz. Que o sofrimento de Cristo era o sofrimento de Deus. E do povo de Deus. Jesus conflui, em seu sofrimento, o sofrer divino e humano. No capítulo X, Sobriño faz uma ligação do sofrimento de Jesus, que é, afinal, o sofrimento do próprio Deus, com o sofrimento do Povo Crucificado na América Latina.

E, utilizando das categorias atribuídas a Cristo, afirma que o povo que sofre na América Latina é crucificado como o Servo Sofredor, que esse povo crucificado é um povo-mártir, que no povo crucificado está a presença do Cristo crucificado.

Pois bem. O belo da Semana Santa não está em todo o sofrimento que ela evoca, em tamanha paixão de Cristo, como celebramos na Sexta Santa. A beleza está na promessa de RESSURREIÇÃO, a ser celebrado no sábado, o Sábado de Aleluia.

E o que é esse Mito da Ressurreição? É a promessa de outra vida. Dessa vez, junto de Deus, de onde não se volta mais a esse plano terreno, nem se morre mais. É a promessa de vida eterna, junto do eterno de Deus. Quem vê alma (penada ou não) em todo canto, aparições de mortos em todo lugar, não crê em Ressurreição. Os que assim fazem creem na Reencarnação, assim como os Espíritas. E o que é esse Mito da Reencarnação? A promessa de continuação da vida, em sucessivas etapas, a atingir-se um grau de perfeição. Porém, essas sucessivas etapas de vida não se dão no Paraíso, no Éden, mas no plano terreno mesmo, no plano espacial e temporal humano mesmo.

Essa ideia reencarnacionista é, pois, em teoria, anticristã, uma vez que o centro do Cristianismo é a Ressurreição, a promessa de continuidade da vida, no plano de Deus. No entanto, dizia muito sabiamente o professor Chico Pereira: “seria o mundo diferente, porém, se os cristãos imitassem ao menos Chico Xavier”.

A cruz tem, simbolicamente, dois lados. Num, está Cristo pregado. N’outro, está vazio. Como que a dizer que Cristo está e não-está ali. Está morto, mas, ao virar a cruz, não o vemos: RESSUSCITOU.

Lembramos o padre Zezinho que, numa de suas mais belas canções, Um Certo Galileu, composta em 1975, findou a canção com a ideia da morte nos últimos veros, que dizem:

E mataram a Jesus de Nazaré
E no meio de ladrões puseram sua cruz
Mas o mundo ainda não ama este Jesus
Que tinha tanto amor.

Alertado, tempos depois, por teólogos e bispos, trouxe à sua canção, a ideia da Ressurreição, pondo os seguintes versos:

Vitorioso, ressucitou
E após 3 dias, à vida Ele voltou
Ressucitado, não morre mais
Está bem junto ao Pai
Pois ele é o filho eterno
Mas Ele vive em cada lar
E onde se encontrar um coração fraterno
Proclamamos que Jesus de Nazaré
Glorioso e triunfante, Deus conosco está
Ele é o Cristo, é a razão da nossa fé
E um dia voltará.

NINGUÉM SE DIGA CRISTÃO, NEM ESTE ESCRIBA, SE CRISTO NÃO É SEU REFERENCIAL NAS AÇÕES DO DIA-A-DIA.

BOA PÁSCOA A TODOS.

Colaborou: Teologia Nordeste


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