“Foi o Senhor quem me mandou boas notícias anunciar; ao pobre, a quem está no cativeiro, libertação eu vou proclamar”
(Antífona do Evangelho do Décimo Domingo do Tempo Comum, cf. Lc 4,18)
Por Pe. Hermes A. Fernandes
Concluído o Ciclo Pascal, retornamos ao Ciclo Comum do Ano Litúrgico. Enquanto Ano A, no esquema de três anos em que se divide os evangelhos na Liturgia, temos o Evangelho de Mateus como texto mais presente em nossas Liturgias da Palavra. Neste Décimo Domingo do Tempo Comum, somos chamados a contemplar o Evangelho da comunidade mateana, na perícope Mt 9,9-13.
Contextualizando o Evangelho de Mateus
Desde os tempos do Exílio da Babilônia (de 586 a 538 a.C.), os profetas anunciavam a vinda de um messias justo, que iria restaurar a dignidade de seu povo. A princípio pensava-se em um messias que restaurasse a glória da dinastia davídica. Todavia, o messias galileu revelou uma ousadia maior nos planos de Deus, restaurando a dignidade de toda humanidade. Somos convidados a participar do banquete da vida, sentando-nos à mesa com ele, em condição filial, enquanto família de Jesus. Para resgatar a esperança em tempos de sofrimento pela ocupação romana, a comunidade de Mateus escreve seu Evangelho, resgatando o esperançar que brotava no coração do povo, desde os tempos do Segundo Isaías.
Como dissemos na premissa inicial de nossa contextualização, assim como no tempo do Exílio da Babilônia, nos tempos de Jesus fazia-se imperativo restaurar a esperança. Por este motivo, a comunidade mateana reúne as memórias das palavras e ações de Jesus, organizando-as em um texto que deve sempre ser entendido a partir da perspectiva em que viviam estes seguidores e seguidoras de Jesus. Em 70 d.C. o Império Romano invadiu a Palestina, que já era sua colônia e lhe pagava tributos. Sufocou o movimento judaico revolucionário, tomou Jerusalém e destruiu o Templo. Os judeus tiveram que se dispersar e se reorganizar. As comunidades cristãs, que viviam nas imediações de Jerusalém, já haviam se dispersado. Algumas foram para Pela, no lado oriental do Rio Jordão, outras se espalharam pela Síria e Fenícia. De forma especial, se refugiaram junto à comunidade de Antioquia, na Síria. E foi em Antioquia, por volta do ano 80 d.C., que Mateus escreveu seu Evangelho para essas comunidades que haviam nascido nos recôncavos da Palestina. Diante destas referências históricas, se explicam as preocupações de Mateus e sua comunidade. Ele é um judeu convertido aos ensinamentos de Jesus e se dirige ao mesmo tipo de pessoas. Os destinatários primeiros de seu Evangelho são judeus que aceitaram a Palavra e a Ação de Jesus como caminho para suas vidas.
Neste sentido, a teologia mateana percorre um caminho criativo e profícuo. Primeiro quer mostrar que Jesus e sua ação realizam tudo que o Primeiro Testamento anunciava, pedia e prometia. Depois, que o cristianismo também é ruptura com a religião judaica oficial, cristalizada em formas de vivência religiosa que já estavam muito distantes do projeto de Deus revelado e realizado em Jesus. Finalmente, quer mostrar que as comunidades de seguidores e seguidoras de Jesus não devem ficar fechadas em si mesmas, mas se abrir para todos e todas, levando em todos os tempos e lugares a Palavra e a Ação de Jesus que liberta para a Vida Nova.
Isto posto, compreendendo o contexto e objetivos do Evangelho de Mateus, fica-nos mais fácil entender a perícope mateana presente na liturgia do Décimo Domingo do Tempo Comum, Mt 9,9-13.
Aprofundando
Ao longo da história, a personalidade de Mateus foi referência de um pecador que se arrependeu. Fato é que ele era um publicano. Em razão disso, era duplamente odiado pelos judeus. Vamos entender isso melhor?
Podemos compreender a relação de rejeição aos publicanos, entendendo o contexto histórico em que estavam inseridos. No século I d.C., os publicanos eram os responsáveis por coletar impostos em nome das autoridades romanas. Para entender melhor a atividade de cobrança de impostos no império romano no século I d.C., usaremos um termo moderno, diremos que era uma atividade “terceirizada”. As autoridades romanas firmavam contratos com indivíduos ou grupos, que lhes permitiam cobrança de impostos da população de certa área geográfica. Esses cobradores de impostos, conhecidos como “publicanos”, eram responsáveis por coletar os impostos da população local, devendo entregar às autoridades romanas certo valor previamente fixado pelo estado. Eles estavam autorizados a usar táticas agressivas para realizar essa atividade (ANDRADE, 2025) .
No contrato, os publicanos estavam autorizados pelo império a cobrar dos contribuintes um valor superior ao estipulado e ficar com o excedente para si, isso seria a renda dos publicanos, que se enriqueciam com facilidade. Esse tipo de acordo tornava o processo de coleta de impostos altamente oneroso para o povo. Por isso, os cobradores de impostos eram odiados pelos judeus, porque exploravam o povo, se enriqueciam às custas dos mais pobres e fortaleciam a máquina opressora do império romano (ANDRADE, 2025).
Diante do exposto, podemos identificar que os publicados eram duplamente odiosos aos olhos do povo. Primeiro, por trair aos seus, aliando-se à ocupação romana, os opressores. Segundo, por aumentar o sofrimento gerado pelos tributos, já que podiam cobrar mais que o requerido pelo império, salvando o lucro dos cooptados pelo opressor. Trair seu povo e lucrar com sua desgraça.
O fato de Mateus ser um publicano e receber Jesus em sua casa, irritou profundamente os Fariseus. Isto nos remete à outra perícope do Segundo Testamento, presente no Evangelho de Lucas. Em Lucas 18,9-14 temos a Parábola do Fariseu e do Publicano. Ler este texto em paralelo ao que nos sugere a Liturgia do Décimo Domingo do Tempo Comum (Mt 9,9-13), pode nos ajudar a compreender o Amor de Jesus que liberta, acolhe e nos envia ao encontro dos Excluídos e Marginalizados!
Ao ser notado por Jesus, e até chamado para compor o grupo de seus discípulos, Mateus o convida à sua casa e sua presença é sinal de muita festa. Aquele pregador galileu, afamado em muitos lugares, se dignou entrar em sua casa. Antes, experimentara o ódio e o medo. Ódio de seus conterrâneos e medo que o fez escolher o lado errado na história. Preferiu servir ao opressor e não ser agente de libertação. Mas nunca podemos pensar que é tarde demais, quando se pensa na ação de Jesus! Ninguém está terminantemente perdido. Nem há causas perdidas para sempre. A Justiça e a Luz sempre encontram frestas para agir. E Mateus foi alcançado pela Luz e pôde participar da Justiça de Deus. Esta justiça provoca uma grande festa na casa de Mateus, o pecador, e muitos como ele aproveitaram esta fresta pela qual entrava a Luz e a Justiça e se acotovelavam para estar próximos a Jesus (cf. Mt 9,9-17). Os Fariseus, que se consideravam perfeitos, ficam escandalizados. Jesus explica: “aqueles que têm saúde não precisam de médico, mas sim os doentes” (Mt 9,12). Ironia pura! Os Fariseus precisavam ser curados de seu orgulho. E Jesus arremata sua exortação, citando oportunamente o profeta Oséias: “Quero misericórdia e não sacrifício” (cf. Os 6,6; Mt 9,13a). E confirma a essência de sua messianidade: “De fato, eu não vim para chamar os justos, mas os pecadores” (Mt 9,13b). Jesus não é um juiz impiedoso, mas um conciliador. Não dispersa, ao contrário: agrega a si. Não exclui, ao contrário: chama a si aqueles que todos desprezam, ontem e hoje.
Mt 9,9-13 sob o olhar da Leitura Popular da Bíblia
“Passando adiante, Jesus viu uma comunidade reunida num salão simples da periferia. Havia ali mulheres cansadas depois do trabalho, jovens sem esperança de emprego, idosos esquecidos, mães solo, gente negra marcada pelo preconceito, indígenas expulsos de suas terras, trabalhadores explorados, pessoas desacreditadas pela própria Igreja. E Jesus lhes disse: ‘Venham comigo. Vamos reconstruir a esperança do povo’. E eles se levantaram e começaram a caminhar com ele.
Depois disso, Jesus sentou-se à mesa numa comunidade pobre. A casa era simples, mas cheia de vida. Havia café repartido, pão dividido e muita conversa sobre a vida. Sentaram-se junto dele pessoas consideradas ‘problemáticas’: moradores de rua, dependentes químicos em recuperação, mulheres marginalizadas, gente LGBTQIAPN+ ferida pelo julgamento religioso, militantes sociais perseguidos, jovens desacreditados e trabalhadores humilhados. Também os membros das Comunidades Eclesiais de Base estavam ali, ouvindo e partilhando.
Alguns religiosos conservadores, vendo aquilo, disseram aos coordenadores da comunidade:
— Por que vocês se misturam com esse tipo de gente? Não deveriam defender a doutrina e preservar a Igreja?
Jesus ouviu a pergunta e respondeu:
— Não são os que se julgam puros que mais precisam do Evangelho, mas os feridos da vida. Aprendam, pois, o que significa: ‘Quero misericórdia e compromisso com a justiça, e não sacrifícios vazios’. Eu não vim chamar os perfeitos, mas os que têm fome de dignidade, de pão e de esperança.”
E as comunidades compreenderam que seguir Jesus continua sendo abrir as portas, repartir a mesa e caminhar ao lado dos crucificados da história.
Atualizando
Compreendendo Mt 9,9-13 e seus personagens, somos levados a pensar em quais implicações esta perícope pode ter em nossas vidas.
O fariseu e o publicano são dois paradigmas. Duas formas de ser e agir na Igreja e na sociedade. De um lado temos pessoas que se acham verdadeiros religiosos, testemunhas de virtude. Assim como os fariseus, querem ser os “separados”. Fomentam a ideia de uma classe de pessoas especiais, que caminham sob a sã doutrina, buscam a pureza espiritual, a “renúncia ao mundo”. Estão sempre com o olhar e as mãos voltadas ao alto, bradando: “ou santos ou nada”. Desprezam tudo o que se refere à secularidade, às questões do mundo e da sociedade. Querem uma teologia e uma eclesiologia angélicas, fundamentadas em um dualismo doente. São os cidadãos do céu, os santos e puros. Todavia, são os mesmos que excluem e marginalizam pessoas, tais quais os fariseus. Tratam os que não estão em seu meio como pecadores, hereges, abominações. Elogiam suas pretensas virtudes, apontando aos que estão ao seu redor. Gritam por justificar seu modo de viver, condenando aos que não estão no seu séquito à excomunhão. Quem não está com eles, é herege, impuro, marxista, sacrílego e outras classes de adjetivos vexatórios. Interessante é que confessam-se discípulos e discípulas de Jesus, mas não percebem que no Evangelho dele, do Mestre do Amor, nada há que corrobore tais pensamentos, palavras e ações como próprias ao discipulado. São cristãos e cristãs contra o Cristo. Espalham o que Jesus ajuntou. Pedras de tropeço. Dizem-se anunciadores do Evangelho, vivendo o anti-evangelho. A estes, vale as exortações da iracúndia de Jesus: “Ai de vocês, doutores da Lei e fariseus hipócritas! Vocês são como sepulcros caiados: por fora parecem bonitos, mas por dentro estão cheios de ossos de mortos e podridão! Assim também vocês: por fora, parecem justos diante dos outros, mas por dentro estão cheios de hipocrisia e injustiça.” (Mt 23,27-28).
Diante deste arrogante jeito de ser cristão, símile aos fariseus, a figura do publicano Mateus se faz paradigma positivo. Lembremo-nos ainda de outro publicano e sua humildade na parábola lucana acima citada como paralelo (Lc 18,9-14). Estes exemplos de publicanos nos apontam uma chave de entendimento, pela qual, percebemos que precisamos nos livrar dos complexos de superioridade pelos quais muitas vezes somos tentados. A religião-poder e a religião-prestígio matam nosso compromisso com o Evangelho. Quem busca reconhecimento por suas virtudes, valendo-se delas como autorreferencialidade, esquece-se de que não são nossos méritos que nos qualificam na condição de discípulos e discípulas de Jesus. Tal qual o Cristo, precisamos escolher o último lugar e nos colocar na condição de servos (cf. Mc 10,45). Por isso, vivamos nossa vida evangelizando a partir de Jesus Cristo e na força do Espírito Santo, como Igreja discípula, missionária e profética; animada por uma espiritualidade Pascal, alimentada pela Palavra de Deus e pela Eucaristia, à luz da evangélica opção preferencial pelos pobres, para que todos tenham vida, rumo ao Reino Definitivo. Tudo isso com humildade e ternura, “pois quem se eleva será humilhado, e quem se humilha será elevado” (Lc 18,14).
Referências
ANDRADE, Aíla Luzia Pinheiro de. Como compreender a atividade dos publicanos e por que eles eram tão odiados?. In: https://www.fiquefirme.com.br/20-como-compreender-a-atividade-dos-publicanos-e-por-que-eles-2025, acesso em 27/05/2026.
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