“Abram no deserto um caminho para Iahweh; na região da terra seca, aplainem uma estrada para o nosso Deus.!”
(Is 40,3)
Por Karina Moreti
Entre todos os personagens que atravessam a história bíblica, poucos ocupam um lugar tão decisivo quanto João Batista. Ele não é apenas mais um profeta dentro de uma longa tradição; é aquele que marca o limite entre dois tempos. Com ele, encerra-se um período de espera e inicia-se a realização concreta da promessa de Deus na história.
Sua importância não está em obras realizadas ou em estruturas construídas, mas na missão que lhe foi confiada: preparar o caminho do Senhor. Nesse sentido, João não pode ser compreendido isoladamente. Sua identidade é relacional, pois existe em função daquele que vem. Ainda assim, reduzir sua missão a um papel secundário seria ignorar sua força histórica e teológica. Sem ele, o novo tempo não encontra linguagem, nem espaço, nem abertura no coração do povo.
Não é difícil perceber que todos os evangelhos apresentam João Batista como aquele que precede Jesus Cristo. Antes de Jesus, vem João. No entanto, essa anterioridade não indica superioridade, mas missão. João não ocupa o centro; ele o prepara. Sua grandeza está justamente em reconhecer que o Messias esperado não é ele, mas aquele que vem depois.
Situado em um contexto de opressão política e desgaste religioso, João surge fora dos centros de poder, no deserto, convocando o povo a uma conversão que ultrapassa práticas individuais e atinge a própria organização da vida coletiva. Sua palavra não conforta. Ela desinstala! Não reforça estruturas, mas denuncia suas limitações. Por isso, sua presença provoca movimento, gera crise e exige decisão.
Ao mesmo tempo, João encarna uma característica fundamental do agir de Deus na história: ele levanta pessoas que não buscam ocupar o centro, mas preparar outros para ocupá-lo. Sua grandeza está justamente na capacidade de reconhecer o momento de se retirar: “É preciso que ele cresça e eu diminua” (Jo 3,30).
Assim, João Batista não é apenas o último dos profetas. Ele é o sinal de que a história está mudando — e de que Deus continua a agir, não repetindo o passado, mas conduzindo-o ao seu cumprimento. Essa mudança não se manifesta apenas em sua pregação ou em sua presença no deserto, mas já se revela no próprio modo como sua história tem início.
A grande odisseia de João começa no Templo de Jerusalém, centro religioso de Israel e também expressão de um sistema que organizava a vida do povo em suas múltiplas dimensões. Não se tratava apenas de um espaço de culto, e sim de um lugar onde se entrelaçavam religião, poder e economia, sob a condução das elites sacerdotais, muitas vezes em relação direta com o domínio romano. Zacarias, sacerdote da classe de Abias, exerce ali sua função (cf. Lc 1,8-11), inserido numa tradição que, embora legítima em sua origem, já demonstrava sinais de desgaste diante da realidade histórica: dominação estrangeira, tensões sociais e uma prática religiosa que nem sempre conseguia responder às necessidades concretas do povo, especialmente dos mais pobres.
Nesse espaço, Deus volta a falar. A mensagem do anjo — “Não tenha medo, Zacarias! Deus ouviu o seu pedido, e a sua esposa Isabel vai ter um filho” (Lc 1,13) — ultrapassa o âmbito pessoal e indica que Deus retoma sua ação na história concreta do seu povo. No entanto, a reação de Zacarias — “Como vou saber se isso é verdade?” (Lc 1,18) — revela mais do que uma dúvida individual; manifesta a dificuldade de reconhecer o novo agir de Deus mesmo no interior da própria instituição religiosa. Assim, até no Templo, lugar por excelência da presença divina, a Palavra encontra resistência.
É a partir dessa tensão que se compreende o nascimento de João. Seu anúncio acontece no Templo, mas sua formação se dá no deserto (cf. Lc 1,80), revelando um deslocamento significativo. Deus não rompe com a tradição, todavia não se deixa limitar por ela. João nasce vinculado ao ambiente sacerdotal, porém cresce fora dele, tornando-se sinal de que o novo tempo não será conduzido pelas mesmas mediações nem restrito aos mesmos espaços.
Aqui, a comparação com Samuel ilumina a compreensão histórica. Ambos nascem de intervenções divinas em situações de esterilidade feminina — Ana (1Sm 1) e Isabel (Lc 1) —, indicando que Deus inicia sua ação onde a história humana já não produz alternativas. No entanto, enquanto Samuel é formado no Templo, pois ainda era ali que a voz de Deus se manifestava, João é conduzido ao deserto, revelando uma mudança no modo como Deus se comunica com seu povo.
O deserto, portanto, não é apenas cenário, mas lugar teológico. É nele que Israel aprende a confiar em Deus (cf. Dt 8,2-3), que Moisés é chamado (cf. Ex 3), e que Elias reencontra Deus na suavidade da brisa leve, contrariando as tradicionais teofanias sempre revestidas do espetáculo (cf. 1Rs 19,12). João assume esse espaço como lugar de identidade. Com ele, reacende-se a esperança de um novo tempo. Assim como no Primeiro Testamento o deserto foi lugar de encontro e aliança, também agora ele se torna espaço de escuta e transformação. Ali, longe das estruturas que produzem desigualdade, começa a tomar forma um anúncio que alcança especialmente os marginalizados, aqueles cujos clamores já não encontravam resposta nas instituições estabelecidas. Sua vida e sua mensagem nascem ali, longe das estruturas de poder, marcadas pela simplicidade e pela radicalidade.
Essa identidade também se expressa no próprio modo de viver de João. Sua aparência e seus hábitos não são elementos secundários, mas parte integrante de sua missão. O Evangelho segundo Mateus o descreve como alguém que vestia roupa de pelos de camelo, com um cinto de couro, se alimentava de gafanhotos e mel silvestre (cf. Mt 3,4). Tal modo de vida não deve ser compreendido como excentricidade, mas como sinal profético. Ao recusar os padrões de conforto e consumo associados aos centros urbanos e às elites, João rompe visivelmente com um sistema que produzia desigualdade e exclusão. Sua própria existência torna-se denúncia.
O Evangelho de Lucas, por sua vez, não se detém na aparência externa, mas aprofunda o conteúdo de sua missão. Ao descrever sua pregação, apresenta exigências concretas: partilhar com quem nada possui, agir com justiça, abandonar toda forma de exploração e violência (cf. Lc 3,10-14). Dessa forma, o “rosto” de João não se define apenas por sua figura austera, mas pela coerência entre anúncio e prática. Sua palavra se traduz em relações novas, marcadas pela justiça e pela partilha.
Essa radicalidade, no entanto, não é compreendida de forma neutra. O próprio Jesus recorda que João “não comia pão nem bebia vinho”, e ainda assim foi acusado de estar possuído (cf. Lc 7,33). Em contraste, o Filho do Homem, que come e bebe, é chamado de “comilão e beberrão” (cf. Lc 7,34). A comparação revela algo mais profundo do que simples opiniões: evidencia a resistência de uma sociedade que, independentemente da forma assumida, rejeita a proposta de conversão. Seja na austeridade de João, seja na proximidade de Jesus, a presença de Deus na história encontra oposição.
Nesse sentido, a vida de João não é apenas preparação, mas já julgamento. Sua existência desinstala, sua prática confronta, e sua presença obriga a tomar posição. No deserto, não surge apenas um pregador, mas um sinal que expõe as contradições de seu tempo e revela a dificuldade humana de acolher o agir de Deus.
Quando João surge publicamente, sua pregação expressa a exortação: “Convertam-se, porque o Reino dos céus está próximo” (Mt 3,2). Seu chamado não se limita à dimensão individual; atinge o conjunto da vida social e religiosa. Ao dizer “Raça de víboras” (Mt 3,7), ele denuncia práticas que mantêm a aparência de fidelidade, mas não produzem justiça. Seu batismo, realizado no Jordão, torna-se sinal de um recomeço coletivo.
Esse chamado à conversão não se reduz a um gesto individual ou espiritualizado. Trata-se de uma ruptura concreta com tudo aquilo que gera injustiça e nega a vida. Ao confessar seus pecados e entrar nas águas do Jordão, o povo reconhece sua participação em uma realidade marcada por desigualdades e se dispõe a iniciar um novo caminho. A conversão exigida por João é, portanto, compromisso com uma vida coerente com o projeto de Deus, que se manifesta na justiça, na fraternidade e na partilha.
O Jordão carrega uma memória decisiva na história do povo. A libertação iniciada por Moisés, ao conduzir Israel para fora da escravidão do Egito (cf. Ex 14), encontra sua continuidade na travessia do Jordão sob a liderança de Josué (cf. Js 3), quando o povo finalmente entra na terra prometida. A passagem pelas águas marca, portanto, não apenas um deslocamento geográfico, mas a transição para uma nova condição de vida. Ao retomar esse mesmo espaço, João Batista convoca o povo a um novo começo, chamando-o a atravessar novamente — agora não para conquistar uma terra, mas para abrir-se à ação de Deus na história. É nesse mesmo Jordão que Jesus Cristo se apresenta, não apenas para dar continuidade a esse movimento, mas para levá-lo ao seu cumprimento definitivo. Assim como Moisés inicia a libertação e Josué conduz o povo à terra, João prepara o caminho e Jesus realiza plenamente a libertação, dando início a uma vida nova, sob a ação do Reino de Deus.
É nesse contexto que Jesus aparece (cf. Mt 3,13). No encontro com João, ele não se distingue externamente da multidão. O Nazareno se apresenta como parte do povo. Ao pedir o batismo, cria-se uma tensão, pois o rito de João está ligado à conversão. João reconhece isso e reage: “Tu vens a mim? Sou eu quem necessita ser batizado por ti” (Mt 3,14), percebendo que está diante daquele que ultrapassa sua própria missão. A resposta de Jesus — “convém cumprir toda a justiça!” (Mt 3,15) — redefine o gesto. Ao aceitar o batismo, ele não responde a uma necessidade pessoal, mas assume plenamente a condição histórica do povo. Não se coloca acima, mas dentro da realidade humana. O gesto revela solidariedade e inaugura um modo de agir que marcará todo o seu ministério.
O batismo se torna, então, momento de revelação: “os céus foram abertos… E uma voz dos céus disse: “Este é meu Filho Amado, no qual me comprazo” (Mt 3,16-17). A abertura do céu indica que a relação entre Deus e a humanidade é restabelecida de forma nova. O Espírito paira sobre eles, sinalizando o início de uma presença ativa e contínua. A voz confirma a identidade de Jesus, não como restaurador de um sistema, mas como Filho que realiza o projeto de Pai.
Nesse momento, a missão de João encontra seu sentido pleno. Ele não retém o protagonismo, mas aponta: “Eis o Cordeiro de Deus” (Jo 1,29). Sua função é preparar e entregar. Diferente de Samuel, que continua atuando no processo que inaugura, João se retira progressivamente. Seu chamado é de transição, não de permanência.
Essa fidelidade o coloca em confronto com o poder. Ao denunciar Herodes Antipas (cf. Lc 3,19), João expõe uma realidade concreta que fere a vida e rompe relações. Herodes havia se unido a Herodíades, esposa de seu irmão Filipe, em um contexto de ruptura de vínculos e afirmação de poder.
Por isso, João é preso (cf. Lc 3,20). A tradição preservada em Marcos (Mc 6,21-28) permite compreender o desfecho dessa prisão: sua morte ocorre em meio a um banquete, revelando o contraste entre o profeta do deserto e a lógica do poder. Sua execução não é um acidente, mas a tentativa de silenciar uma palavra que ameaçava uma ordem injusta.
O testemunho de Flávio Josefo (Antiguidades Judaicas 18.5.2) confirma essa dimensão histórica ao apresentar João como um homem justo e indicar que sua execução ocorreu por medo de sua influência sobre o povo.
E, no entanto, sua morte não encerra a história — ela a desloca.
Porque, quando a voz se cala, o caminho já está aberto. A prisão e morte de João Batista impulsiona a ação messiânica de Jesus. A partir daí, não se tem mais uma narrativa paralela entre a vida e missão de João e Jesus, como nos apresenta o texto da comunidade lucana. O silêncio do profeta não é derrota, mas transição.
A trajetória de João revela um modo específico da ação de Deus na história. Deus não abandona as instituições, nem se deixa aprisionar por elas. Fala no Templo, conduz ao deserto, age no centro e nas margens.
João torna-se o sinal dessa mudança. Sua vida mostra que Deus continua a agir, conduzindo a história ao seu cumprimento.
Diante dessa trajetória, a pergunta permanece atual: quem é João hoje? Em cada tempo, Deus continua a levantar pessoas que preparam o caminho, que anunciam sua Palavra e apontam para além de si mesmas. Como João, são chamadas a não reter, mas a conduzir; não a ocupar o centro, mas a indicar aquele que é o centro. No anúncio do Evangelho, não há espaço para protagonismos humanos: somos servos, e o Reino não nos pertence.
João preparou o caminho.
Agora, o caminho tem rosto — e é preciso caminhar.

Karina Moreti: é bacharel em Teologia pela Universidade Católica Dom Bosco (2022) e em Comunicação Social – Jornalismo, pelo Centro Universitário Sagrado Coração (2007). Atualmente é jornalista do Blog Eclesialidade & Missão, e assessora movimentos eclesiais. Tem experiência na área de jornalismo impresso, jornalismo televisivo, jornalismo radiofônico e em jornalismo nas redes sociais e blogs. Em teologia, dedica-se ao estudo das Sagradas Escrituras.
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