Junho: os santos que caminharam com os pobres e anunciaram esperança

Por Karina Moreti

Junho chegou e, com ele, uma das tradições mais queridas do nosso povo. As festas juninas ocupam ruas, comunidades e famílias com cores, partilha e encontro. Mas por trás das fogueiras e celebrações existe algo que muitas vezes passa despercebido: os três santos lembrados neste mês carregam histórias profundamente ligadas aos pobres, aos esquecidos e às pessoas que viveram tempos de opressão.

São João, São Pedro e Santo Antônio não pertencem ao mesmo período histórico nem tiveram a mesma missão. Ainda assim, existe um fio que une suas trajetórias: os três compreenderam que Deus não se revela primeiro nos centros de poder, mas no meio do povo e dentro da história.

Entre eles, São João ocupa um lugar singular porque sua história aparece diretamente nos Evangelhos. Seu nascimento já nasce cercado de esperança. Filho de Zacarias e Isabel, um casal já idoso (cf. Lc 1,5–25), João surge como sinal de que Deus continua agindo quando tudo parece encerrado. Mais tarde, quando Maria visita Isabel, o Evangelho narra que João ainda no ventre se alegra diante da presença daquele que viria inaugurar o Reino de Deus (cf. Lc 1,39–45).

João cresce longe dos centros religiosos e políticos. Não escolhe Jerusalém, nem o templo, nem os espaços de prestígio. O deserto se torna sua escola e também seu lugar teológico. Ali, entre gente simples, começa sua missão. Quando inicia sua pregação, anuncia: “Preparai o caminho do Senhor” (Lc 3,4). Mas preparar o caminho não significava apenas realizar ritos religiosos. João denuncia desigualdades, questiona abusos dos poderosos e convida o povo a reorganizar a vida a partir da justiça. Aos que tinham duas túnicas, pede que repartam; aos cobradores de impostos, que não explorem; aos soldados, que abandonem a violência (cf. Lc 3,10–14). Seu anúncio toca diretamente a vida concreta dos pobres.

Essa postura o coloca em confronto com o poder político do seu tempo. João denuncia o governo de Herodes e não silencia diante da injustiça. Por isso é preso e posteriormente morto (cf. Mc 6,17–29). Sua história mostra que preparar os caminhos de Deus significa assumir o risco de permanecer ao lado dos vulneráveis.

A festa de São João acontece em junho porque a tradição cristã preservou o dia 24 como memória do seu nascimento. Diferentemente da maioria dos santos, João é celebrado pelo nascimento porque sua própria chegada já anunciava que Deus estava visitando seu povo.

Se João representa a voz profética, Pedro representa o caminho percorrido no meio do povo. Pescador da Galileia, região marcada por forte exploração econômica e pesada tributação, Pedro conhecia o cansaço do trabalho e a instabilidade da vida (cf. Mt 4,18–20; Lc 5,1–11). Seu chamado acontece justamente ali, no cotidiano dos trabalhadores.

Pedro não era perfeito. Os Evangelhos não escondem suas fragilidades. Foi impulsivo, teve medo, negou Jesus (cf. Lc 22,54–62). Ainda assim, Jesus não o reduz ao seu fracasso, mas o chama para continuar.

Ao longo da caminhada, Pedro aprende algo decisivo: seguir Jesus significa aproximar-se dos pequenos. Depois da ressurreição, quando Jesus pergunta por três vezes: “Tu me amas?” (Jo 21,15–19), a resposta não se traduz em poder, mas em cuidado: “Apascenta minhas ovelhas.” Liderar, no Evangelho, não é ocupar lugar de honra; é sustentar vidas.

Mais tarde, no livro dos Atos, Pedro aparece entrando na casa de estrangeiros, acolhendo os que antes eram excluídos e compreendendo que Deus não faz distinção entre pessoas (cf. At 10,34–35). Sua trajetória mostra uma Igreja que nasce aprendendo a romper fronteiras.

Sua memória é celebrada em 29 de junho. A tradição cristã uniu nesse dia o testemunho de Pedro e Paulo, ambos associados ao martírio durante as perseguições em Roma.

Santo Antônio, por sua vez, pertence a outro contexto histórico, mas sua vida guarda surpreendente proximidade com João Batista e Pedro. Nascido em Lisboa por volta de 1195 com o nome de Fernando, viveu num período de crescimento urbano, aumento das desigualdades e transformação econômica na Europa medieval.

Ainda jovem, dedicou-se ao estudo das Escrituras e depois ingressou entre os franciscanos, inspirado pelo testemunho daqueles que entregavam a vida anunciando o Evangelho. Desejava partir em missão para o norte da África, mas uma doença o obrigou a retornar. O fracasso dos seus planos abriu um caminho inesperado.

Antônio se tornou pregador e formador. Percorreu cidades inteiras anunciando o Evangelho e chamando atenção para situações concretas de injustiça. Seus sermões criticavam a concentração de riquezas, denunciavam práticas econômicas abusivas e defendiam os mais pobres. Não era um pregador distante do sofrimento humano. Falava para trabalhadores, gente endividada, pessoas comuns que buscavam sobreviver.

Foi justamente dessa proximidade com os pobres que nasceu, séculos depois, sua fama de santo casamenteiro. Na Europa medieval, especialmente entre famílias mais pobres, o casamento muitas vezes dependia de recursos financeiros para a formação do dote, o que impedia muitas mulheres de constituírem família ou as colocava em situação de grande vulnerabilidade social. A tradição cristã preservou relatos de Antônio ajudando discretamente pessoas em dificuldade econômica para que pudessem se casar com dignidade.

Com o tempo, a memória dessas ações concretas atravessou gerações e Santo Antônio passou a ser invocado por aqueles que buscavam um relacionamento, um casamento ou alguém com quem construir uma vida. Antes de ser associado ao encontro amoroso, Antônio ficou conhecido como alguém que defendia o direito dos pobres de formar família e viver com dignidade.

Talvez por isso sua imagem continue tão próxima do povo até hoje. A tradição popular transformou Antônio no santo dos casamentos, mas sua história parece dizer algo ainda mais profundo: amar também é um direito que não deveria depender da riqueza.

Sua festa acontece em 13 de junho, data de sua morte, em 1231.

Celebrar os santos juninos talvez seja recordar algo que atravessa séculos: Deus continua chamando pessoas comuns para preparar caminhos, sustentar comunidades e defender a dignidade humana.

João nos lembra que anunciar Deus exige coragem para denunciar aquilo que produz morte e exclusão.

Pedro nos recorda que ninguém está pronto, mas todos podem recomeçar e aprender a cuidar.

Antônio nos ensina que a fé só se torna verdadeira quando se aproxima das dores concretas do povo. Ou seja, que fé e compromisso com os pobres caminham juntos.

Talvez por isso esses santos permaneçam tão vivos na memória popular. Não porque realizaram feitos impossíveis, mas porque escolheram permanecer ao lado daqueles que quase nunca ocupam o centro da história.

No fundo, junho nos devolve uma pergunta que continua aberta: em um tempo de desigualdades, cansaço e tantas vidas invisibilizadas, de que lado queremos estar?

Porque Deus continua passando pela história. E, como tantas vezes antes, parece continuar acendendo sua esperança primeiro entre os pequenos.


Karina Moreti: é bacharel em Teologia pela Universidade Católica Dom Bosco (2022) e em Comunicação Social – Jornalismo, pelo Centro Universitário Sagrado Coração (2007). Atualmente é jornalista do Blog Eclesialidade & Missão, e assessora movimentos eclesiais. Tem experiência na área de jornalismo impresso, jornalismo televisivo, jornalismo radiofônico e em jornalismo nas redes sociais e blogs. Em teologia, dedica-se ao estudo das Sagradas Escrituras.


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