Reflexão para Sexta-feira da 11ª Semana do Tempo Comum

Por Pe. Hermes A. Fernandes

O texto de Mateus 6,19-23 encontra-se no coração do chamado “Sermão da Montanha” e integra uma seção em que Jesus orienta seus discípulos sobre a relação entre Deus, os bens materiais e o sentido da vida. Convido a você, leitor e leitora de nosso blog, a contemplar esta perícope do Evangelho de Mateus com profundidade. Este texto não é apenas um ensinamento espiritual, mas um convite à conversão profunda do olhar, do coração e das práticas concretas da vida cristã.

1. A Palavra: leitura e exegese do texto

O trecho pode ser dividido em duas partes:

a) Os tesouros na terra e no céu (Mt 6,19-21)

“Não ajunteis para vós tesouros na terra, onde a traça e a ferrugem destroem, e onde os ladrões arrombam e roubam. Ao contrário, ajuntai para vós tesouros no céu (…). Pois onde está o teu tesouro, aí estará também o teu coração.”

Jesus não condena os bens materiais em si mesmos. O verbo grego utilizado para “ajuntar” (thēsaurízō) significa acumular, armazenar riquezas como garantia de segurança. O problema denunciado por Jesus é a lógica da acumulação que faz do dinheiro e dos bens o fundamento da existência.

Na Palestina do século I, marcada por profundas desigualdades sociais, grandes proprietários de bens se enriqueciam enquanto camponeses perdiam suas terras e eram submetidos a pesados tributos. Nesse contexto, a palavra de Jesus possui forte dimensão profética: ela questiona uma economia baseada na concentração de riqueza e na exclusão dos pobres.

O contraste entre “terra” e “céu” não significa oposição entre mundo material e espiritual. Na linguagem bíblica, o “céu” representa a esfera de Deus, seus valores e seu projeto de vida. Acumular tesouros no céu significa investir a própria vida em tudo aquilo que promove justiça, solidariedade, misericórdia e fraternidade.

Jesus conclui com uma afirmação decisiva:

“Onde está o teu tesouro, aí estará também o teu coração.”

Na tradição bíblica, o coração não é apenas o lugar dos sentimentos, mas o centro das decisões, dos desejos e das escolhas fundamentais. O tesouro revela aquilo que realmente governa a vida da pessoa.

b) A lâmpada do corpo (Mt 6,22-23)

“A lâmpada do corpo é o olho. Se o teu olho é sadio, todo o teu corpo ficará iluminado.”

À primeira vista, esta imagem parece desconectada do tema anterior. Porém, no contexto bíblico, o “olho” representa a forma como a pessoa vê e interpreta a realidade.

A expressão traduzida por “olho sadio” (haplous) também pode significar “generoso”, “simples”, “sem duplicidade”. Já o “olho doente” (ponēros) pode significar “olho mau”, expressão frequentemente associada à avareza, inveja e egoísmo.

Assim, Jesus contrapõe dois modos de olhar:

  • o olhar generoso, que reconhece a dignidade do próximo e partilha seus bens;
  • o olhar egoísta, que vê tudo a partir da posse, do lucro e do interesse pessoal.

A luz ou as trevas não vêm de fora; nascem da maneira como a pessoa olha o mundo. Quem vê a realidade com os olhos da generosidade torna-se luz. Quem se deixa dominar pela ganância mergulha nas trevas.

2. Reflexão: o que Deus nos diz hoje?

Refletindo a fundo, a pergunta fundamental é: o que esta Palavra diz à nossa vida?

Vivemos numa sociedade marcada pelo consumismo, pela competição e pela ilusão de que a felicidade pode ser comprada. Somos constantemente estimulados a acumular: dinheiro, bens, status, seguidores, poder e prestígio.

O Evangelho nos convida a examinar nossos tesouros.

  • O que ocupa nossos pensamentos?
  • O que determina nossas decisões?
  • O que consideramos indispensável para sermos felizes?

Jesus não pede desprezo pela vida material, mas liberdade diante dela. O discípulo é chamado a usar os bens sem se tornar escravo deles.

O texto também nos interpela sobre nosso modo de olhar os pobres. Muitas vezes, a sociedade enxerga os empobrecidos como problema, ameaça ou fracasso. O olhar de Jesus é diferente: ele vê nos pobres sujeitos da ação de Deus e destinatários privilegiados do Reino.

A pergunta torna-se inevitável:

Nosso olhar é iluminado pela compaixão ou obscurecido pela indiferença?

3. A oração: resposta à Palavra

A oração que brota deste texto pode ser um pedido de conversão:

“Senhor, liberta nosso coração da idolatria da riqueza. Ensina-nos a reconhecer que o verdadeiro tesouro está no amor, na justiça e na solidariedade. Purifica nosso olhar para que vejamos os pobres não como objeto de assistência, mas como irmãos e irmãs em quem tua presença se manifesta.”

4. A contemplação: assumir o olhar de Jesus

A contemplação leva o discípulo a enxergar o mundo com os olhos de Cristo.

Jesus olha para os pobres, os doentes, os excluídos e os pecadores não com julgamento, mas com misericórdia. Seu olhar gera vida, dignidade e esperança.

Contemplar este Evangelho significa deixar que o olhar de Jesus transforme nosso próprio olhar.

Quando isso acontece, os pobres deixam de ser invisíveis. Suas dores passam a nos interpelar. Seus sofrimentos tornam-se também nossas preocupações.

5. Compromisso pastoral e transformação social

Uma leitura orante de Mateus 6,19-23 não termina na oração; ela conduz à ação.

Mateus 6,19-23 desafia as comunidades cristãs a testemunharem uma economia do Reino, fundada na partilha e não na acumulação.

Isso implica:

  • fortalecer pastorais sociais e iniciativas de solidariedade;
  • apoiar organizações populares que lutam por moradia, terra, trabalho e dignidade;
  • promover uma educação para o consumo consciente;
  • incentivar práticas comunitárias de partilha dos bens;
  • desenvolver uma espiritualidade comprometida com a justiça social.

À luz da Leitura Popular da Bíblia, o “tesouro no céu” não é uma recompensa individual para depois da morte. É a construção, já neste mundo, de relações mais humanas e fraternas, nas quais os pobres ocupam lugar central, conforme o projeto de Deus.

Conclusão

Mateus 6,19-23 é um chamado à conversão do coração e do olhar. Jesus nos convida a discernir onde colocamos nossa segurança e quais valores orientam nossa existência. O discípulo que acumula tesouros do Reino aprende a viver na lógica da partilha, da solidariedade e da justiça.

Na perspectiva das comunidades que situam seu viver ao redor da Palavra de Deus; este Evangelho nos conduz a uma espiritualidade encarnada: um coração livre da idolatria do dinheiro, olhos iluminados pela compaixão e mãos comprometidas com a transformação da realidade dos pobres. Assim, a luz de Cristo não permanece apenas dentro de nós, mas torna-se sinal do Reino de Deus no meio do mundo.


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