Reflexão para Quarta-feira da 12ª Semana do Tempo Comum – (Mateus 8,28-34)

Mateus 8,28-34 à luz da Leitura Popular da Bíblia: Jesus atravessa as fronteiras da exclusão e devolve dignidade aos marginalizados

Por Pe. Hermes A. Fernandes

O relato de Mateus 8,28-34 é um dos textos mais provocativos do Evangelho. Após acalmar a tempestade no mar, Jesus chega à região dos gadarenos, território predominantemente pagão, onde encontra dois homens possuídos por demônios que viviam entre os túmulos. O encontro culmina com a expulsão dos espíritos impuros para uma manada de porcos, que se precipita no mar. A reação final da população é surpreendente: em vez de acolher Jesus, pedem que ele deixe a região.

À primeira vista, a narrativa parece concentrar-se apenas em um exorcismo extraordinário. Entretanto, à luz da Leitura Popular da Bíblia, esse episódio revela uma profunda denúncia das estruturas de exclusão e um anúncio da libertação integral que o Reino de Deus oferece aos pobres, marginalizados e descartados da sociedade.

O contexto histórico e literário

O Evangelho de Mateus e sua comunidade foi escrito para comunidades que viviam em meio a conflitos religiosos, sociais e políticos. A Palestina estava submetida ao domínio do Império Romano, cuja presença se fazia sentir tanto pela violência militar quanto pela exploração econômica.

Depois de narrar o acalmar da tempestade (Mt 8,23-27), Mateus apresenta Jesus atravessando o lago para chegar a um território estrangeiro. A travessia não é apenas geográfica, mas simbólica. Jesus ultrapassa fronteiras religiosas, culturais e sociais para levar a Boa-Nova àqueles considerados impuros e indignos.

Na lógica do Reino de Deus, não existem territórios proibidos nem pessoas definitivamente excluídas.

A região dos gadarenos: uma periferia religiosa

Os gadarenos habitavam uma região da Decápole, marcada pela forte influência da cultura greco-romana. A criação de porcos, proibida pela Lei judaica (Lv 11,7), revela que se trata de um ambiente predominantemente gentílico.

Para muitos judeus daquele tempo, esse era um território impuro. Mas exatamente ali Jesus decide desembarcar. Essa escolha possui enorme significado pastoral. O Reino de Deus começa justamente onde muitos acreditavam que Deus não estivesse presente.

A Leitura Popular da Bíblia convida a reconhecer que Deus continua atravessando as fronteiras que os seres humanos insistem em construir.

Hoje essas fronteiras assumem novas formas:

  • as periferias urbanas;
  • as comunidades rurais abandonadas;
  • as favelas;
  • os presídios;
  • as ocupações populares;
  • as aldeias indígenas ameaçadas;
  • os acampamentos de migrantes;
  • as populações em situação de rua.

É nesses lugares que Cristo continua chegando.

Os dois homens entre os túmulos

Mateus menciona dois endemoninhados, enquanto Marcos e Lucas apresentam apenas um. A presença de duas testemunhas reforça juridicamente a veracidade da narrativa segundo a tradição judaica.

Esses homens vivem entre os túmulos. Na mentalidade judaica, o contato com cadáveres tornava uma pessoa ritualmente impura. Os túmulos simbolizam o espaço da morte, da exclusão e da ruptura das relações sociais.

Eles não moram em casas.

Não convivem com famílias.

Não participam da comunidade.

São pessoas completamente isoladas.

Sua violência não é apenas resultado de uma possessão individual.

Ela expressa uma existência profundamente desumanizada.

A Leitura Popular da Bíblia percebe que muitas pessoas continuam vivendo “entre os túmulos”.

São aqueles que a sociedade considera irrecuperáveis.

Os dependentes químicos abandonados.

As pessoas em sofrimento psíquico sem acesso ao cuidado adequado.

Os encarcerados esquecidos.

As vítimas da violência urbana.

Os moradores de rua.

Os desempregados de longa duração.

Os jovens sem perspectivas.

Os idosos abandonados.

Os refugiados.

Todos aqueles cuja dignidade parece enterrada antes mesmo da morte física.

O significado dos demônios

Na linguagem bíblica, os demônios não representam apenas realidades espirituais individuais. Frequentemente simbolizam forças que escravizam pessoas e comunidades.

Na perspectiva da Leitura Popular, esses espíritos também podem representar sistemas que produzem morte:

  • a pobreza estrutural;
  • o racismo;
  • o machismo;
  • a violência institucional;
  • o tráfico de pessoas;
  • a exploração econômica;
  • a corrupção;
  • a destruição ambiental;
  • o individualismo que rompe os laços comunitários.

Essas forças retiram das pessoas sua humanidade, fazendo-as viver como se estivessem mortas em vida. Jesus enfrenta exatamente essas estruturas. Sua missão consiste em restaurar a vida plena.

Os porcos e a crítica ao sistema dominante

O episódio dos porcos sempre provocou dificuldades de interpretação. Entretanto, vários estudiosos observam que a manada possui forte valor simbólico. O porco era considerado animal impuro. Além disso, a criação em larga escala sugere uma atividade econômica ligada ao mundo romano.

Alguns intérpretes recordam que uma das legiões romanas utilizava o javali como símbolo militar, o que permite enxergar uma crítica indireta ao poder imperial. Sem afirmar que essa seja a única interpretação possível, é importante perceber que Mateus apresenta uma libertação que atinge também estruturas econômicas. Quando Jesus devolve dignidade aos excluídos, interesses financeiros são afetados.

O Reino de Deus nunca é neutro diante das injustiças. Ele questiona sistemas que lucram às custas do sofrimento humano.

A reação da população

O final da narrativa é surpreendente.

Toda a cidade sai ao encontro de Jesus.

Mas não para agradecê-lo.

Pedem que ele vá embora.

Por quê?

Porque a libertação dos dois homens trouxe prejuízo econômico.

A comunidade prefere preservar seus interesses financeiros a acolher a restauração da dignidade humana.

Essa continua sendo uma das grandes tentações da sociedade contemporânea.

Quantas vezes o lucro vale mais que a vida?

Quando trabalhadores são explorados.

Quando populações inteiras são expulsas de seus territórios.

Quando a natureza é devastada em nome do crescimento econômico.

Quando políticas públicas deixam de atender os mais pobres para proteger privilégios.

Quando vidas humanas tornam-se secundárias diante do mercado.

A pergunta permanece atual:

O que vale mais?

Os porcos ou as pessoas?

O lucro ou a dignidade humana?

Jesus responde claramente por sua prática.

Uma leitura sociotransformadora

A Leitura Popular da Bíblia entende que esse texto não trata apenas de uma libertação espiritual. É um chamado à transformação da realidade. Cristo continua atravessando fronteiras para encontrar aqueles que vivem nas margens da sociedade. Sua presença questiona todas as formas de exclusão. Ele rompe preconceitos religiosos. Rompe barreiras culturais. Rompe fronteiras econômicas. Rompe mecanismos que condenam pessoas ao abandono. Por isso, seguir Jesus significa comprometer-se com uma sociedade onde ninguém seja tratado como descartável.

A evangelização não pode limitar-se ao anúncio verbal. Ela exige compromisso concreto com a defesa da vida.

A dimensão pastoral

Esse Evangelho oferece importantes inspirações para a ação pastoral.

Antes de tudo, recorda que a Igreja deve estar presente nas periferias existenciais e geográficas, indo ao encontro daqueles que normalmente permanecem invisíveis. Também desafia as comunidades a superar preconceitos, acolhendo pessoas marcadas por diferentes formas de sofrimento, sem reduzi-las à sua condição social, psicológica ou econômica.

A narrativa convida ainda a fortalecer pastorais voltadas à saúde mental, ao acompanhamento de pessoas dependentes de álcool e outras drogas, ao cuidado com encarcerados, moradores de rua, migrantes e todas as vítimas da exclusão.

Além disso, impulsiona a Igreja a denunciar estruturas econômicas que produzem pobreza e morte, lembrando que o Evangelho possui inevitáveis consequências sociais.

Por fim, incentiva as comunidades cristãs a colocar sempre a dignidade humana acima de qualquer interesse econômico, político ou institucional.

Conclusão

Mateus 8,28-34 revela um Jesus que atravessa fronteiras para encontrar aqueles que haviam sido expulsos da convivência humana. Sua presença devolve dignidade aos que viviam entre os túmulos e denuncia uma sociedade que frequentemente valoriza mais seus bens do que a vida das pessoas.

À luz da Leitura Popular da Bíblia, esse Evangelho continua ecoando nas periferias da América Latina. Ele recorda que Cristo permanece presente onde há sofrimento, exclusão e abandono. Seu Reino nasce quando os descartados recuperam seu lugar na comunidade e quando a dignidade humana se torna o critério fundamental da vida social.

Assim, a missão da Igreja consiste em continuar essa travessia iniciada por Jesus: sair de seus espaços seguros, aproximar-se dos “túmulos” do mundo contemporâneo, romper as barreiras da exclusão e anunciar, com palavras e ações, que ninguém está definitivamente condenado à morte social. Onde a vida é restaurada, ali o Reino de Deus já começou.


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