Por Pe. Hermes A. Fernandes
A Constituição Federal assegura a todos os brasileiros a liberdade de consciência, de crença e de culto. Trata-se de um dos pilares da democracia e da convivência civilizada. Entretanto, os frequentes episódios de intolerância religiosa que têm marcado o Brasil revelam uma preocupante distância entre aquilo que está garantido pela lei e a realidade vivida por milhares de pessoas.
Nos últimos anos, comunidades das religiões de matriz africana têm sido alvo recorrente de ataques. Terreiros são depredados, objetos sagrados destruídos, lideranças religiosas ameaçadas e fiéis constrangidos a esconder sua fé. Esses episódios não podem ser reduzidos a simples atos de vandalismo. São crimes motivados pelo preconceito e pelo racismo religioso, que procuram atingir não apenas os espaços de culto, mas também a identidade, a história e a memória de comunidades que contribuíram decisivamente para a formação cultural e espiritual do Brasil.
A violência, porém, não se limita às religiões de matriz africana. Também os povos indígenas têm visto suas casas de reza — lugares onde se preservam a espiritualidade, a tradição e a relação com o sagrado — serem atacadas ou destruídas. A agressão a esses espaços representa mais do que a destruição de um patrimônio material; significa uma tentativa de silenciar culturas ancestrais que continuam lutando pelo direito de existir com dignidade.
Outra expressão preocupante dessa intolerância atinge as benzedeiras e os benzedores tradicionais. Homens e mulheres que, ao longo de gerações, colocaram seus dons a serviço do cuidado, da oração e do acolhimento, frequentemente enfrentam o desprezo, a ridicularização e, em alguns casos, a perseguição. Seus saberes populares, que fazem parte do patrimônio imaterial brasileiro, merecem reconhecimento e respeito, jamais discriminação.
Esses fatos exigem uma reflexão profunda da sociedade. A diversidade religiosa não constitui uma ameaça; ao contrário, representa uma riqueza cultural e humana que fortalece a democracia. Nenhuma tradição religiosa perde sua identidade quando reconhece o direito da outra de existir. A verdadeira fé não nasce da imposição, mas da liberdade.
Infelizmente, parte da intolerância contemporânea tem sido alimentada por discursos que demonizam outras experiências religiosas, transformando diferenças de crença em justificativa para a violência. Quando isso acontece, a religião deixa de ser caminho de encontro com Deus para tornar-se instrumento de exclusão e de ódio. Trata-se de uma grave deformação da própria experiência religiosa.
Como cristão, não posso deixar de recordar que o centro do Evangelho é o amor. Jesus jamais ensinou seus discípulos a perseguir quem pensava diferente. Ao contrário, aproximou-se dos excluídos, dialogou com estrangeiros, rompeu preconceitos e fez do amor ao próximo a marca essencial de seus seguidores. A Primeira Carta de João resume essa verdade de maneira admirável: “Quem não ama não conhece a Deus, porque Deus é amor” (1Jo 4,8).
Essa afirmação possui enorme força para os dias atuais. Quem agride um terreiro, destrói uma casa de reza indígena, ridiculariza uma benzedeira ou ameaça qualquer pessoa por causa de sua fé não está defendendo Deus. Está apenas utilizando o nome de Deus para justificar práticas incompatíveis com aquilo que toda autêntica religião deveria promover: a vida, a dignidade humana e a paz.
É igualmente importante reconhecer que combater a intolerância religiosa não significa relativizar as diferenças entre as tradições de fé. Cada comunidade possui sua própria identidade, suas convicções e sua maneira de compreender o sagrado. O que a democracia exige é algo muito mais simples e, ao mesmo tempo, mais profundo: o respeito à dignidade de cada pessoa e ao direito de professar sua religião sem medo.
Nossa solidariedade deve dirigir-se às comunidades de matriz africana, aos povos indígenas, às benzedeiras e benzedores tradicionais e a todas as vítimas da intolerância religiosa. Sua dor interpela toda a sociedade, independentemente da religião que cada cidadão professa. Quando um grupo religioso é atacado, a liberdade de todos fica ameaçada.
Ao mesmo tempo, é necessário repudiar com firmeza os autores desses crimes e exigir das autoridades a investigação rigorosa e a responsabilização dos culpados. A impunidade fortalece o preconceito e estimula novas violências. Defender a liberdade religiosa é defender o Estado Democrático de Direito.
O Brasil foi construído pela contribuição de povos indígenas, africanos, europeus, asiáticos e de tantas outras matrizes culturais e espirituais. Nossa identidade nacional é plural. Atacar essa diversidade significa empobrecer o país e negar parte de sua própria história.
Que as diferentes tradições religiosas contribuam para construir pontes, e não muros; diálogo, e não hostilidade; fraternidade, e não exclusão. Afinal, nenhuma religião honra verdadeiramente a Deus quando transforma o amor em ódio e a fé em violência.
Se Deus é amor, como proclama a tradição cristã, então toda forma de intolerância religiosa representa uma contradição daquilo que a própria religião deveria testemunhar ao mundo. O caminho da fé nunca poderá passar pela destruição do outro, mas sempre pela promoção da justiça, da liberdade e da paz.
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