Por Pe. Hermes A. Fernandes
Introdução
A presença de grupos identificados com a ultradireita no interior do catolicismo constitui um dos fenômenos mais desafiadores para a Igreja contemporânea. Não se trata simplesmente de reconhecer que católicos podem ter diferentes opções políticas — o pluralismo político é legítimo e faz parte da liberdade dos fiéis. A questão teológica começa quando determinadas posições políticas passam a ser apresentadas como se fossem expressão necessária da fé católica e, simultaneamente, assumem atitudes, discursos e práticas que contradizem valores centrais do Evangelho.
Por isso, a premissa deste texto deve ser formulada com precisão: não é correto afirmar que todo católico de direita ou conservador nega o Evangelho; porém, quando a ultradireita transforma nacionalismo, autoritarismo, exclusão social, xenofobia, racismo, culto ao poder, desprezo pelos pobres ou violência política em virtudes, ela entra em profunda contradição com valores fundamentais do Evangelho.
A Teologia Latino-Americana oferece uma chave privilegiada para esse discernimento. Desde Medellín e Puebla, a Igreja latino-americana compreendeu que a fé cristã não pode permanecer indiferente diante da pobreza, da injustiça e das estruturas que produzem exclusão. A opção preferencial pelos pobres tornou-se um critério de autenticidade da evangelização. Puebla chegou a qualificá-la como um dos sinais da autenticidade evangelizadora da Igreja.
A pergunta decisiva, portanto, não é: “A qual lado político pertence determinado cristão?” A pergunta é: “Que projeto de sociedade está sendo defendido e ele corresponde ao projeto do Reino de Deus anunciado por Jesus?”
1. O Evangelho não pode ser colocado a serviço de um projeto de poder
Um dos riscos mais graves da ultradireita religiosa consiste em transformar o cristianismo em instrumento de legitimação política. A cruz de Cristo deixa, então, de ser sinal de entrega e passa a funcionar como símbolo de identidade ideológica; o nome de Jesus é utilizado para dividir a sociedade entre “bons cidadãos” e “inimigos”; e a fé passa a ser medida pela adesão a determinado projeto político.
Entretanto, Jesus não anunciou um partido, uma nação, uma raça ou uma civilização superior. Anunciou o Reino de Deus.
O Evangelho rompe precisamente com a lógica de uma religião utilizada para legitimar privilégios. Jesus aproxima-se dos pobres, enfermos, pecadores, estrangeiros, mulheres, crianças e pessoas socialmente desprezadas. Sua prática não consiste em proteger os poderosos contra os vulneráveis, mas em revelar que Deus escuta o clamor dos pequenos.
É significativo que a Evangelii Gaudium vincule explicitamente a fé em Cristo à preocupação com os pobres e marginalizados. O Papa Francisco afirmou que a comunidade cristã deve ser instrumento de Deus para a libertação e promoção dos pobres e que é necessário ouvir o seu clamor.
Desse modo, quando uma corrente política utiliza a religião para proteger estruturas de privilégio e, simultaneamente, despreza os pobres, há uma inversão do Evangelho: Jesus passa a ser utilizado para justificar aquilo que Ele mesmo combateu.
2. A opção pelos pobres como critério de discernimento
A Teologia Latino-Americana realizou uma contribuição decisiva à compreensão cristã da realidade ao afirmar que Deus não é indiferente à história dos pobres.
A opção preferencial pelos pobres não significa transformar os pobres em instrumentos de uma ideologia. Significa reconhecer que, diante de uma sociedade marcada pela desigualdade, o discípulo de Jesus não pode permanecer neutro diante da injustiça.
Essa perspectiva possui fundamento bíblico. O Deus do Êxodo escuta o clamor dos escravizados; os profetas denunciam os que acumulam riquezas enquanto exploram os pobres; Maria proclama que Deus derruba os poderosos de seus tronos e eleva os humildes; Jesus proclama bem-aventurados os pobres e identifica-se com os famintos, sedentos, estrangeiros, nus, enfermos e presos.
Na escatologia de Mateus 25, Jesus não pergunta pelos títulos religiosos, pela posição social ou pela ideologia política dos seus seguidores. Pergunta se alimentaram o faminto, acolheram o estrangeiro, vestiram o nu e visitaram o enfermo e o encarcerado.
Aqui encontramos um critério fundamental para avaliar qualquer projeto político apresentado como cristão: o que ele faz pelos pobres?
A Evangelii Gaudium é inequívoca ao afirmar que a preocupação com os pobres deriva da fé em Cristo e que a inclusão social dos pobres constitui uma das grandes questões para o futuro da humanidade.
Assim, uma espiritualidade que fala incessantemente de Deus, mas considera os pobres um problema, os migrantes uma ameaça, os moradores das periferias como suspeitos, os trabalhadores vulneráveis como descartáveis ou as políticas sociais como simples desperdício; precisa ser submetida a sério discernimento evangélico.
3. Quando o “inimigo” substitui o próximo
Outro elemento recorrente da ultradireita é a construção permanente de inimigos. A sociedade é dividida entre “nós” e “eles”: patriotas contra traidores, cidadãos de bem contra criminosos, cristãos contra inimigos da fé, nacionais contra estrangeiros, pessoas “de família” contra aqueles considerados moralmente desviantes.
O Evangelho, porém, apresenta uma lógica radicalmente diferente.
Jesus não apenas manda amar aqueles que nos amam. Ele ordena: “Amai os vossos inimigos e rezai por aqueles que vos perseguem” (Mt 5,44).
O cristianismo não elimina o conflito social, nem exige ingenuidade diante da injustiça. A tradição profética denuncia o mal. Mas denunciar estruturas injustas é diferente de transformar seres humanos em inimigos absolutos.
A lógica evangélica não permite desumanizar o outro.
É justamente nesse ponto que a Teologia Latino-Americana, particularmente em sua dimensão pastoral, oferece uma contribuição importante: o conflito precisa ser compreendido a partir da realidade concreta dos pobres e das estruturas que produzem exclusão. A fé não pode ser utilizada para alimentar ódio social.
A Fratelli Tutti chama atenção para formas políticas que instrumentalizam as populações vulneráveis e critica projetos incapazes de construir uma sociedade aberta e inclusiva.
O cristianismo não é uma religião do medo. É a religião da fraternidade.
4. Autoritarismo e Evangelho são incompatíveis
A ultradireita pode apresentar-se como defensora da ordem, da autoridade e da tradição. Esses valores, isoladamente, não são incompatíveis com o cristianismo. O problema surge quando “ordem” significa submissão cega, quando “autoridade” significa concentração absoluta de poder e quando “tradição” é utilizada para impedir justiça e transformação social.
Algo recorrente nos discursos e ações da ultradireita é a cultura do letígio. Jesus não estabeleceu seu Reino pela violência.
Quando os discípulos desejam responder com violência, Jesus os repreende. Quando Pilatos representa o poder imperial, Jesus não transforma sua missão em uma guerra de conquista. Sua autoridade nasce do serviço.
O modelo cristão de autoridade está sintetizado nas palavras: “Quem quiser ser o primeiro, seja o servo de todos” (Mc 10,44).
Aqui reside uma inversão fundamental: para Jesus, o poder não se legitima pelo domínio, mas pelo serviço.
Consequentemente, um cristão pode defender posições políticas conservadoras, mas não pode transformar o autoritarismo em virtude cristã. Pode defender a ordem, mas não uma ordem construída sobre a opressão. Pode valorizar a tradição, mas não uma tradição utilizada para perpetuar injustiças.
A pergunta cristã diante do poder deve ser sempre: “A quem esse poder serve?”
5. O Evangelho contra a cultura do descarte
A sociedade contemporânea produz aquilo que o Papa Francisco chamou de “cultura do descarte”. Pessoas são avaliadas segundo sua produtividade, utilidade econômica ou capacidade de consumo.
Nesse contexto, os pobres, desempregados, migrantes, moradores de rua, idosos abandonados e trabalhadores precarizados correm o risco de ser tratados como excedentes humanos.
A Evangelii Gaudium denuncia precisamente uma economia de exclusão e desigualdade na qual o mais forte pode engolir o mais fraco. O documento relaciona essa lógica à cultura do descarte e afirma que a pessoa humana não pode ser tratada como objeto de consumo.
A Teologia Latino-Americana pergunta, diante disso: quem está pagando o preço do desenvolvimento?
Não basta celebrar crescimento econômico. É necessário perguntar quem se beneficia, quem trabalha, quem lucra, quem perde sua terra, quem é expulso, quem passa fome e quem é condenado à periferia.
Por isso, uma concepção cristã da economia precisa colocar a pessoa acima do lucro e o bem comum acima do interesse particular.
Quando a ultradireita transforma a defesa irrestrita do mercado em princípio quase religioso, enquanto relativiza a responsabilidade social diante da pobreza, ela entra em tensão com a tradição bíblica e com a Doutrina Social da Igreja.
6. A defesa da vida precisa ser integral
Outro ponto particularmente importante é a instrumentalização do tema da vida.
A defesa da vida desde a concepção constitui dimensão legítima e importante da ética cristã. Contudo, a Teologia Latino-Americana insiste que a defesa da vida precisa ser integral.
Não é coerente defender o nascituro e permanecer indiferente diante da criança que passa fome; defender a vida antes do nascimento e ignorar a mãe abandonada; condenar a violência contra o embrião e relativizar a violência contra mulheres, negros, indígenas, pobres e moradores das periferias.
A Evangelii Gaudium apresenta a defesa da vida nascente juntamente com a defesa de outros direitos humanos e da dignidade de toda pessoa.
O Evangelho não permite selecionar quais vidas merecem proteção. A vida do pobre também é sagrada. A vida do migrante também é sagrada. A vida do indígena também é sagrada. A vida do trabalhador explorado também é sagrada. A vida da mulher vítima de violência também é sagrada. A vida do condenado também é sagrada. A vida do inimigo também é sagrada.
Portanto, a defesa cristã da vida precisa ser integral, ou corre o risco de transformar-se em bandeira ideológica.
7. A ultradireita religiosa e a tentação da idolatria
A questão mais profunda talvez seja espiritual. Toda vez que uma identidade política ocupa o lugar que pertence a Cristo, surge uma forma de idolatria.
Quando “Deus, Pátria e Família” é interpretado de tal maneira que a pátria se torna superior ao Evangelho, a família é definida segundo critérios de exclusão e Deus é convocado para legitimar determinado projeto político, a fé corre o risco de ser subordinada à ideologia.
O cristão não pode dizer: “Meu partido acima de tudo.” Nem: “Minha nação acima de tudo.” Nem: “Meu líder acima de tudo.”
O primeiro mandamento permanece: “Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração” (Dt 6,5). E imediatamente Jesus confirma: “Amarás o teu próximo como a ti mesmo” (Lv 19,18).
A política pode ser instrumento de serviço ao bem comum. Nunca pode tornar-se objeto de culto.
8. A resposta da Teologia Latino-Americana: conversão, comunidade e transformação
A crítica à ultradireita católica não deve significar a criação de uma “esquerda católica” que simplesmente reproduza a mesma lógica de instrumentalização religiosa.
A Teologia Latino-Americana oferece algo mais exigente: discernimento evangélico a partir da realidade dos pobres.
A Leitura Popular da Bíblia pergunta:
Onde está Deus nesta realidade?
Quem está sofrendo?
Quem está sendo excluído?
Quem se beneficia da situação?
Que estruturas produzem essa realidade?
O que a Palavra de Deus exige de nós?
Que ação comunitária pode transformar essa situação?
Essa metodologia desloca o centro da discussão. A questão não é descobrir qual ideologia possui Deus como aliado. A questão é colocar nossas ideologias sob o julgamento do Evangelho.
As Comunidades Eclesiais de Base podem exercer papel fundamental nesse processo. Nelas, a Bíblia é lida a partir da vida concreta e a vida é iluminada pela Palavra. O pobre não é apenas objeto da ação pastoral: torna-se sujeito da interpretação bíblica, da comunidade e da transformação social.
Conclusão: não basta dizer “Senhor, Senhor”
A premissa dessa reflexão pode ser resumida numa afirmação: quando a ultradireita católica abraça o autoritarismo, a exclusão, o desprezo pelos pobres, a xenofobia, o racismo, a violência, o culto ao líder ou a submissão da fé a um projeto político, ela nega valores fundamentais do Evangelho que afirma defender.
Não porque a Igreja deva escolher um partido ou uma ideologia, mas porque nenhum projeto político pode ocupar o lugar de Jesus Cristo.
O critério último do cristianismo continua sendo o Evangelho. E o Evangelho coloca no centro os pobres, os pequenos, os excluídos, os que sofrem e aqueles que a sociedade considera descartáveis.
Por isso, a Igreja latino-americana é chamada a recuperar uma pergunta simples e profundamente subversiva: “Onde estão os pobres?”
Se estão à margem, a Igreja deve aproximar-se. Se estão com fome, a Igreja deve repartir o pão. Se estão sofrendo violência, a Igreja deve denunciar a violência. Se estão sendo expulsos de suas terras, a Igreja deve defender a justiça. Se estão sendo tratados como inimigos, a Igreja deve recordar a fraternidade. Se estão sendo descartados, a Igreja deve proclamar que cada vida é sagrada.
E se o nome de Jesus estiver sendo utilizado para justificar exatamente o contrário, será necessário repetir a advertência do próprio Evangelho: “Nem todo aquele que me diz: ‘Senhor, Senhor!’ entrará no Reino dos Céus, mas aquele que põe em prática a vontade de meu Pai” (Mt 7,21).
A grande questão, portanto, não é saber quem grita mais alto o nome de Jesus. É saber quem vive como Jesus.
A autenticidade cristã não se comprova pelo discurso religioso, pela bandeira política, pelo nacionalismo ou pela defesa abstrata da moralidade. Ela se comprova na misericórdia, na justiça, na fraternidade, na defesa dos vulneráveis e na disposição de servir.
Como recordou Francisco, a opção pelos pobres não é um adereço ideológico: está no centro do Evangelho.
Nesse sentido, a tarefa da Igreja não é batizar a ultradireita nem demonizar automaticamente quem se identifica com posições conservadoras. Sua missão é muito mais radical: evangelizar também a política, submetendo todo poder humano ao senhorio de Cristo e ao critério do amor, da justiça e da dignidade humana.
Uma Igreja fiel ao Evangelho não pode ser Igreja dos poderosos contra os pobres. Deve ser, como sonhou a tradição latino-americana, Igreja pobre e dos pobres, comprometida com a vida e com a transformação das estruturas que produzem morte e exclusão.
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