Deus nos chama a partir da história – Parte 33: Mateus, quando Deus chama um condenado

Por Karina Moreti

Ao longo da história da salvação, Deus escolheu pastores, profetas, reis, pescadores e mulheres para realizar sua obra. Entre todos esses chamados, poucos surpreendem tanto quanto o de Mateus. Condenado pelo olhar de sua própria sociedade e considerado pecador público por causa de sua profissão, ele jamais seria apontado como alguém capaz de tornar-se discípulo de Jesus. No entanto, é justamente nele que Deus revela que sua misericórdia ultrapassa os julgamentos humanos. Enquanto os homens dividem as pessoas entre justos e pecadores, dignos e indignos, Deus contempla cada vida como uma história aberta à sua graça.

Para compreender a força desse encontro, é necessário voltar à Palestina do século I. Desde o ano 63 a.C., quando Jerusalém foi conquistada pelo general romano Pompeu, a terra de Israel passou a viver sob o domínio do Império Romano. Embora algumas regiões fossem administradas por governantes locais, como Herodes Antipas, a autoridade suprema permanecia nas mãos de Roma. O poder imperial sustentava-se por meio da presença militar, da organização política e, sobretudo, de um pesado sistema tributário que recaía sobre a população. Agricultores, pescadores, artesãos e comerciantes precisavam entregar parte significativa do fruto de seu trabalho para manter a máquina administrativa do império, financiando soldados, obras públicas e a própria estrutura de ocupação.

Os tributos incidiam sobre praticamente todos os aspectos da vida econômica. Havia impostos sobre a produção agrícola, sobre a pesca, sobre a circulação de mercadorias, sobre a utilização de estradas, pontes e portos, além das taxas alfandegárias cobradas nas fronteiras entre diferentes territórios. Para um povo formado, em sua maioria, por pequenos proprietários rurais e trabalhadores pobres, esse sistema frequentemente produzia endividamento, perda das terras familiares e aprofundamento das desigualdades sociais. A opressão política manifestava-se diariamente no momento em que cada trabalhador precisava entregar parte de seu sustento ao poder estrangeiro.

Roma, porém, não realizava toda essa arrecadação diretamente. Em muitas regiões do império, o direito de cobrar determinados impostos era concedido a particulares mediante contratos de arrendamento. O governo estipulava quanto deveria receber, e o responsável pela cobrança comprometia-se a entregar essa quantia aos cofres imperiais. Tudo aquilo que fosse arrecadado acima do valor estabelecido constituía seu lucro. Embora esse sistema fosse considerado legal pelas autoridades romanas, criava um ambiente favorável a cobranças abusivas, extorsões e enriquecimento às custas da população. Nem todo cobrador de impostos agia de forma desonesta, porém a própria estrutura incentivava práticas que facilmente se confundiam com exploração.

Foi nesse contexto que surgiram os publicanos, os cobradores de impostos mencionados nos Evangelhos. Para o povo judeu, eles representavam muito mais do que simples funcionários administrativos. Eram vistos como colaboradores da dominação romana, homens que enriqueciam servindo ao império que ocupava a terra de Israel. A rejeição era tão intensa que os Evangelhos frequentemente unem as expressões “publicanos e pecadores” para designar pessoas consideradas excluídas da convivência religiosa (Mt 9,11; Mc 2,16; Lc 5,30). Essa associação não significa que todos os publicanos fossem igualmente corruptos ou moralmente condenáveis. Revela, sobretudo, a maneira como eram percebidos pela sociedade e por parte das lideranças religiosas, que os consideravam impuros e indignos da comunhão com o povo de Deus.

Entre esses homens encontrava-se aquele que o Evangelho de Mateus identifica como Mateus (Mt 9,9). Marcos e Lucas narram o mesmo episódio chamando-o de Levi (Mc 2,14; Lc 5,27), identificação tradicionalmente compreendida pela Igreja como referência à mesma pessoa. A existência de dois nomes não era incomum na Palestina do século I, onde muitos judeus eram conhecidos por diferentes designações em ambientes familiares, religiosos ou administrativos. Mais importante do que o nome utilizado é o fato de que os três Evangelhos descrevem exatamente o mesmo acontecimento: um cobrador de impostos sentado em sua coletoria, surpreendido pelo chamado de Jesus.

O nome Mateus deriva do hebraico Mattityahu, “dom de Yahweh” ou “presente de Deus”. À luz da tradição cristã, esse significado adquire um profundo valor simbólico: aquele que muitos consideravam um traidor torna-se, pela graça de Deus, um verdadeiro dom para a Igreja.

Levi exercia sua atividade em um telônio, nome dado ao posto de arrecadação de impostos instalado junto às estradas, às pontes, aos portos e às entradas das cidades. O termo grego utilizado pelos Evangelhos é τελώνιον (telṓnion), designando a coletoria ou a mesa onde eram cobrados os tributos. Era ali que se recolhiam as taxas sobre mercadorias, peixes, animais, embarcações e cargas transportadas pelas principais rotas comerciais da Galileia. Cafarnaum, onde ocorre o chamado de Levi, ocupava uma posição estratégica às margens do lago da Galileia e situava-se próxima às fronteiras entre os territórios de Herodes Antipas e Herodes Filipe, além de importantes caminhos comerciais que ligavam a Galileia à Síria e à Decápole. Por esse posto passavam diariamente pescadores trazendo o fruto de seu trabalho, agricultores conduzindo suas colheitas, mercadores transportando seus produtos e viajantes vindos de diferentes regiões. Quase todos precisavam interromper a viagem diante da mesa do cobrador para pagar os tributos exigidos pelas autoridades.

O telônio simbolizava, portanto, muito mais do que um simples escritório de arrecadação. Era um dos lugares onde a dominação romana se tornava visível e concreta. Cada moeda entregue recordava ao povo que Israel permanecia submetido ao poder estrangeiro. Cada cobrança alimentava a sensação de injustiça e fazia crescer o ressentimento contra aqueles que colaboravam com esse sistema. Sentado atrás de sua mesa, Levi desfrutava de estabilidade financeira e de certa influência econômica. Em contrapartida, carregava o peso do desprezo coletivo. Diariamente, convivia com os olhares de reprovação, com a desconfiança e com o isolamento provocados por sua profissão. Aos olhos de muitos, sua história já estava definida. Poucos imaginariam que Deus pudesse olhar para um homem naquela condição e enxergar nele um futuro discípulo.

É justamente nesse cenário que o Evangelho apresenta um dos encontros mais surpreendentes da vida pública de Jesus. Enquanto Levi permanece sentado em seu telônio, exercendo a profissão pela qual era condenado, Jesus aproxima-se e lhe dirige um chamado extremamente simples: “Segue-me” (Mt 9,9). Não há exigência prévia de conversão, nem um discurso sobre seu passado, nem qualquer condição estabelecida antes do convite. O olhar de Cristo alcança aquele homem antes que qualquer mudança exterior aconteça. Jesus enxerga, onde muitos viam apenas um pecador, alguém capaz de responder ao Reino de Deus.

Deus chamou Levi no telônio. O lugar onde muitos viam apenas um pecador tornou-se o lugar onde Deus viu um discípulo. O espaço marcado pela cobrança de impostos transformou-se no cenário de uma vocação. É assim que Deus conduz a história da salvação: Ele não espera que a vida esteja perfeita para chamar alguém. Ele entra na história concreta das pessoas e faz dela o lugar onde sua graça inaugura um novo começo.

A resposta de Levi é imediata. Lucas registra que ele, “deixando tudo, levantou-se e o seguiu” (Lc 5,28). A brevidade da narrativa não diminui a profundidade da decisão. Ao abandonar o telônio, Levi não estava simplesmente mudando de profissão. Rompia com uma posição economicamente segura, afastava-se de um sistema que lhe garantia estabilidade financeira e assumia a incerteza própria de quem decide caminhar atrás de Jesus. Diferentemente dos pescadores, que poderiam retornar às redes, dificilmente um publicano recuperaria sua antiga função depois de abandoná-la. Seu gesto representa uma ruptura concreta com toda uma forma de compreender a própria existência.

O Evangelho de Lucas acrescenta um detalhe de enorme riqueza teológica. Depois de aceitar o chamado, Levi “preparou em casa um grande banquete para Jesus. Estava aí numerosa multidão de cobradores de impostos e outras pessoas sentadas à mesa com eles” (Lc 5,29). Esse banquete não constitui um episódio secundário da narrativa. Ao contrário, representa a primeira consequência visível do encontro com Jesus. Antes de iniciar qualquer missão pública, Levi abre sua casa. Antes de ensinar alguém, oferece hospitalidade. Rompe definitivamente com seu passado, convida seus antigos companheiros para conhecer aquele que transformara sua vida. O discípulo recém-chamado não rompe com seu passado por meio do desprezo; transforma-o em oportunidade de encontro com Jesus.

Não deixa de ser significativo que o primeiro gesto de Levi depois de seguir Jesus não seja um sermão nem uma profissão pública de fé. Ele prepara uma mesa. Aquele que durante anos recebera pessoas para cobrar impostos agora as reúne para apresentar-lhes o Cristo. O espaço antes marcado pela lógica da arrecadação transforma-se em lugar de comunhão. A mesa deixa de servir ao império para servir ao Reino de Deus.

Na cultura judaica, sentar-se à mesma mesa significava muito mais do que compartilhar uma refeição. A mesa era sinal de comunhão, acolhida, amizade, confiança e reconhecimento mútuo. Ao reunir publicanos, homens e mulheres considerados pecadores e o próprio Jesus em um mesmo banquete, Levi realiza um gesto profundamente simbólico. A casa que antes servia de ponto de encontro para pessoas marginalizadas transforma-se em espaço onde a misericórdia de Deus começa a reunir aqueles que a sociedade insistia em manter separados. Não surpreende, portanto, que a presença de Jesus naquela mesa despertasse a indignação dos fariseus e dos escribas, zelosos pela observância da Lei e das tradições de pureza ritual. Para eles, partilhar a mesa significava reconhecer aquelas pessoas como membros de um mesmo círculo de convivência, rompendo as fronteiras que separavam os considerados justos dos tidos como pecadores. Por isso perguntam aos discípulos: “Por que o mestre de vocês come com os cobradores de impostos e os pecadores?” (Mt 9,11). Aos olhos desses líderes religiosos, Jesus ultrapassava um limite que jamais deveria ser transposto. Aos olhos do próprio Jesus, porém, era justamente naquela mesa que o Reino de Deus começava a revelar a profundidade de sua misericórdia.

A resposta de Jesus revela um dos fundamentos de toda a sua missão. O Evangelho registra que ele declara: “Os que têm saúde não precisam de médico, e sim os doentes. Ide aprender o que significa: ‘As pessoas que têm saúde não precisam de médico, mas só as que estão doentes’. “Porque eu não vim para chamar justos, e sim pecadores” (Mt 9,12-13). Essas palavras não constituem uma novidade absoluta. Elas retomam aquilo que Deus já havia anunciado por meio do profeta: “pois eu quero amor e não sacrifícios” (Os 6,6). Jesus mostra que a verdadeira fidelidade ao Senhor nunca se limitou ao cumprimento exterior de práticas religiosas. Deus deseja um coração capaz de amar, acolher e restaurar a vida. Quando o culto perde a misericórdia, perde também seu sentido mais profundo.

Essas palavras não significam que existam pessoas que realmente não precisem da graça de Deus. A Escritura afirma que “todos pecaram e estão privados da glória de Deus” (Rm 3,23). A diferença está na capacidade de reconhecer essa realidade. Enquanto Levi sabe exatamente quem é e conhece as contradições de sua própria história, muitos dos que criticam Jesus acreditam já possuir toda a justiça necessária. A doença denunciada por Jesus não é apenas o pecado; é a incapacidade de admitir a necessidade de conversão. Quem se considera plenamente saudável dificilmente procura um médico. Quem acredita já possuir toda a verdade fecha o coração à ação transformadora de Deus.

Nesse sentido, Levi torna-se um exemplo de humildade. O Evangelho não registra qualquer tentativa de justificar sua profissão ou defender seu passado. Ele simplesmente escuta o chamado, levanta-se e segue Jesus. Sua conversão começa no momento em que permite que Cristo entre em sua história exatamente como ela é, com suas ambiguidades, seus erros e suas possibilidades. O discipulado não nasce da perfeição. Nasce da disposição de deixar que Deus conduza uma vida que parecia não ter mais futuro.

É significativo que Jesus encontre Levi sentado no telônio e que o Evangelho destaque que ele se levantou para segui-lo (Mt 9,9; Lc 5,28). Esse movimento ultrapassa a descrição física. Levantar-se significa abandonar uma lógica de vida centrada no acúmulo de riquezas e iniciar um caminho fundamentado na confiança. O homem que permanecia atrás de uma mesa cobrando impostos passa a caminhar pelas estradas da Galileia anunciando o Reino de Deus. A mesa do telônio, símbolo da exploração e da exclusão, dá lugar à mesa do discipulado, onde todos são convidados a experimentar a misericórdia do Pai.

Segundo a antiga tradição da Igreja, esse mesmo Levi é o evangelista Mateus. A transformação é profundamente simbólica. Aquele que antes registrava valores, mercadorias e tributos passa a registrar as palavras e os gestos de Jesus. As mãos acostumadas a calcular impostos tornam-se instrumentos para escrever um Evangelho destinado a anunciar que o Reino de Deus está próximo. O homem que um dia foi considerado indigno converte-se em testemunha da Boa-Nova que continua sendo proclamada ao longo dos séculos.

Há ainda um detalhe que merece nossa atenção. O chamado de Mateus acontece em Cafarnaum, cidade que se tornou um dos principais centros da atividade de Jesus na Galileia. Foi ali que o Mestre ensinou nas sinagogas, realizou curas, acolheu multidões e anunciou que o Reino de Deus estava próximo. Não é por acaso que Levi é chamado naquele lugar. Deus entra na história exatamente onde a vida acontece. O chamado não surge em um ambiente isolado da realidade, distante dos conflitos sociais ou das tensões políticas. Ele acontece no meio das estradas, dos mercados, das casas, dos locais de trabalho, das alegrias e das contradições humanas. A vocação cristã nasce no interior da história.

Essa verdade permanece atual. Ainda existem muitos “telônios” espalhados pelo mundo. Alguns são construídos pelo desejo de riqueza a qualquer preço. Outros se manifestam na busca incessante por poder, prestígio ou reconhecimento. Existem telônios erguidos pelo medo, pela culpa, pela indiferença, pelo preconceito ou pelas estruturas sociais que continuam excluindo homens e mulheres considerados indignos. Em cada um desses lugares, o Evangelho recorda que Jesus continua passando. Seu chamado não espera que a pessoa organize primeiro a própria vida para somente depois aproximar-se de Deus. É o encontro com Cristo que inaugura o caminho da transformação.

A história de Mateus revela, portanto, uma das maiores esperanças do Evangelho. Deus não define ninguém pelo peso de seu passado, pela opinião da sociedade ou pelos rótulos impostos ao longo da vida. Enquanto muitos enxergavam apenas um publicano condenado pelo desprezo coletivo, Jesus viu um discípulo. Enquanto a religião de seu tempo levantava barreiras para separar os puros dos impuros, Cristo aproximou-se daquele homem e lhe dirigiu um convite que mudaria para sempre sua existência: “Segue-me” (Mt 9,9).

Ao contemplarmos essa história, somos convidados a fazer uma pergunta que atravessa os séculos. Em qual “telônio” estamos sentados? Quais seguranças, interesses, medos ou ambições nos impedem de levantar e seguir Jesus? O Evangelho não nos convida, em primeiro lugar, a julgar a vida de Mateus. Convida-nos a reconhecer as nossas próprias fragilidades. É justamente quando abandonamos a ilusão de sermos autossuficientes que nos tornamos capazes de ouvir a voz daquele que continua chamando homens e mulheres a partir da história.

O Evangelho nunca informa o que aconteceu com o antigo telônio depois que Levi se levantou. Talvez isso seja intencional. A mesa dos impostos torna-se mesa de partilha, porque, naquele instante, começa uma nova história. O lugar onde muitos enxergavam apenas exploração torna-se o cenário de uma esperança inesperada.

Deus não chamou Levi apesar do telônio. Chamou-o exatamente ali. O lugar onde muitos viam apenas condenação tornou-se o lugar onde nasceu uma vocação. Ali, o que era símbolo de opressão e exclusão transforma-se no espaço onde a misericórdia de Deus começa a escrever uma nova história.


Karina Moreti: é bacharel em Teologia pela Universidade Católica Dom Bosco (2022) e em Comunicação Social – Jornalismo, pelo Centro Universitário Sagrado Coração (2007). Atualmente é jornalista do Blog Eclesialidade & Missão, e assessora movimentos eclesiais. Tem experiência na área de jornalismo impresso, jornalismo televisivo, jornalismo radiofônico e em jornalismo nas redes sociais e blogs. Em teologia, dedica-se ao estudo das Sagradas Escrituras.

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