A riqueza que se torna poder e o seguimento que se torna partilha
Ez 28,1-10 e Mt 19,23-30 à luz da Teologia Latino-Americana e da Leitura Popular da Bíblia
Por Pe. Hermes A. Fernandes
Nesta terça-feira da 20ª Semana do Tempo Comum os textos de Ez 28,1-10 e Mt 19,23-30 estabelecem uma denúncia profética contra a absolutização da riqueza e do poder. Embora separados por séculos e pertencentes a contextos históricos distintos, ambos revelam uma mesma verdade: quando a riqueza deixa de ser meio para a vida e se transforma em instrumento de dominação, ela passa a ocupar o lugar de Deus. A Teologia Latino-Americana e a Leitura Popular da Bíblia permitem perceber que esses textos não tratam apenas da relação individual com o dinheiro, mas questionam estruturas econômicas, políticas e religiosas que produzem concentração, exclusão e sofrimento.
1. Ez 28,1-10: quando o poder econômico pretende ocupar o lugar de Deus
O livro de Ezequiel está profundamente marcado pela experiência do exílio babilônico. O profeta atua entre os deportados e interpreta os acontecimentos históricos à luz da aliança com Deus. Os capítulos 25–32 reúnem oráculos contra as nações vizinhas de Israel. Ez 28,1-10 dirige-se especificamente ao governante de Tiro, importante cidade fenícia situada junto ao Mediterrâneo e conhecida por sua riqueza comercial e poder marítimo.
O texto denuncia a arrogância do governante: “Seu coração se exaltou e você disse: ‘Eu sou um deus; estou sentado no trono de um deus, no coração dos mares’” (Ez 28,2). A crítica é contundente: “Você é homem, e não deus”. A riqueza acumulada por meio do comércio, associada à sabedoria e à habilidade administrativa, tornou-se motivo de orgulho e autossuficiência. O próprio texto estabelece a relação entre comércio, enriquecimento e soberba: “Por sua sabedoria e inteligência você fez fortuna para si” (cf. Ez 28,4-5).
É importante observar que o profeta não condena simplesmente a inteligência, a capacidade administrativa ou a existência de riqueza. O problema está na transformação da riqueza em poder absoluto e na consequente desumanização. O governante passa a imaginar-se como divindade. A riqueza, que deveria estar submetida ao bem comum, converte-se em instrumento de exaltação pessoal.
A crítica profética possui, portanto, uma dimensão estrutural. Tiro representa uma sociedade cuja prosperidade comercial produz uma elite convencida de sua própria invulnerabilidade. O governante personifica um sistema econômico que acredita poder controlar tudo. O profeta, porém, desmascara essa pretensão: “Você é homem, e não deus” (Ez 28,2.9).
A Leitura Popular da Bíblia pergunta: quem são hoje os que se comportam como deuses porque controlam riquezas, terras, empresas, mercados, recursos naturais ou decisões políticas? A pergunta nos conduz ao presente. A concentração de renda, a especulação financeira, a apropriação de territórios, a exploração do trabalho e a destruição ambiental podem transformar bens que deveriam servir à vida em instrumentos de dominação.
Na perspectiva da Teologia Latino-Americana, a idolatria não se restringe às imagens religiosas. Existe também a idolatria do dinheiro, do mercado, do lucro e do poder. Quando a economia passa a valer mais que a pessoa humana, produz-se uma inversão do projeto de Deus. O ser humano deixa de ser sujeito e passa a ser tratado como recurso, consumidor ou força de trabalho.
Por isso, Ez 28,1-10 é uma palavra de esperança para os pobres: nenhum sistema de poder é eterno e nenhuma riqueza concede ao ser humano o direito de ocupar o lugar de Deus. O profeta anuncia que todo poder absolutizado será confrontado pela justiça divina.
2. Mt 19,23-30: a impossibilidade de conciliar riqueza absolutizada e Reino de Deus
O Evangelho de Mateus apresenta essas palavras de Jesus imediatamente depois do encontro com o homem rico (Mt 19,16-22). O jovem pergunta o que deve fazer para possuir a vida eterna. Jesus o conduz ao centro da questão: não basta cumprir mandamentos; é necessário romper com a lógica da acumulação e colocar os bens a serviço dos necessitados.
Quando o jovem se afasta triste, Jesus afirma aos discípulos: “É difícil para um rico entrar no Reino dos Céus” (Mt 19,23). E acrescenta a imagem conhecida: “É mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no Reino de Deus” (Mt 19,24). O texto emprega deliberadamente uma imagem hiperbólica para expressar uma impossibilidade humana. Não há razão para reduzir a frase a uma suposta pequena porta de Jerusalém; a força do ensinamento está justamente no contraste exagerado.
A reação dos discípulos é reveladora: “Então, quem poderá salvar-se?” (Mt 19,25). A pergunta mostra que eles também haviam sido formados por uma sociedade em que riqueza podia ser interpretada como sinal de bênção e segurança. Jesus desloca radicalmente essa lógica: “Para os seres humanos isso é impossível, mas para Deus tudo é possível” (Mt 19,26).
O problema não é simplesmente ter bens, mas permitir que os bens tenham a pessoa, dominando seu coração e determinando suas relações. O episódio anterior já havia mostrado isso: o homem rico não consegue seguir Jesus porque sua segurança está depositada naquilo que possui.
A promessa feita posteriormente aos discípulos — “todo aquele que tiver deixado casas, irmãos, irmãs, pai, mãe, filhos ou campos por causa do meu nome receberá cem vezes mais” (Mt 19,29) — não deve ser entendida como uma promessa de enriquecimento individual. O horizonte é o surgimento de uma nova comunidade, na qual os vínculos de solidariedade substituem a lógica possessiva e a vida compartilhada torna possível uma nova forma de sociedade. O Evangelho culmina com a inversão: “Muitos que são primeiros serão últimos, e muitos que são últimos serão primeiros” (Mt 19,30).
A lógica do Reino é, portanto, o contrário da lógica da acumulação. Na sociedade marcada pela competição, quem possui mais ocupa o primeiro lugar. No Reino anunciado por Jesus, a grandeza está no serviço, na partilha e na capacidade de colocar a vida do outro acima do próprio privilégio.
3. Uma leitura latino-americana: riqueza para poucos, vida ameaçada para muitos
A aproximação entre Ez 28 e Mt 19 é particularmente fecunda para a Teologia Latino-Americana. O governante de Tiro e o homem rico do Evangelho representam, em contextos diferentes, uma mesma tentação: depositar a segurança da vida naquilo que se possui.
A Bíblia não permite uma espiritualidade que considere a pobreza simplesmente um problema individual e a riqueza apenas uma bênção privada. A tradição profética denuncia a concentração injusta e Jesus questiona uma sociedade na qual a posse de bens impede a solidariedade.
A opção pelos pobres, característica da Teologia Latino-Americana, não significa romantizar a pobreza. Significa reconhecer que Deus escuta o clamor dos que têm sua dignidade negada e chama seu povo a transformar as estruturas que produzem exclusão.
Por isso, a pergunta fundamental para nossas comunidades não deveria ser apenas: “Quanto cada um possui?”, mas: “Para que e para quem servem os bens que Deus colocou nas mãos da humanidade?”
Essa pergunta alcança a economia, a política, as relações de trabalho e também a própria Igreja. Uma comunidade cristã não pode anunciar o Reino enquanto se acomoda diante da fome, da concentração de terras, do desemprego, da exploração, do racismo, da exclusão de populações indígenas, da violência contra os pobres e da destruição da Casa Comum.
A palavra de Ezequiel continua atual quando o mercado se apresenta como absoluto. A palavra de Jesus continua atual quando a riqueza se torna critério de dignidade humana. Ambas nos recordam que a vida não pode ser subordinada ao lucro.
4. Dimensão sociotransformadora e ação pastoral
A Leitura Popular da Bíblia parte da vida, ilumina essa realidade com a Palavra e retorna à vida com compromisso transformador. Assim, Ez 28,1-10 e Mt 19,23-30 não devem permanecer apenas como textos para meditação individual. Eles convocam a comunidade cristã à ação.
Uma pastoral inspirada nesses textos pode assumir pelo menos cinco compromissos:
Primeiro, promover uma educação para o consumo responsável e para a partilha, questionando a cultura do individualismo e da acumulação.
Segundo, fortalecer pastorais sociais e organizações populares que defendam trabalhadores, agricultores familiares, povos indígenas, comunidades tradicionais, migrantes e pessoas em situação de vulnerabilidade.
Terceiro, denunciar profeticamente estruturas econômicas que produzem concentração de renda, exploração do trabalho e destruição ambiental, sem transformar essa denúncia em mera disputa partidária, mas assumindo-a como exigência do Evangelho.
Quarto, colocar os pobres como sujeitos da ação pastoral. Não se trata somente de “fazer algo pelos pobres”, mas de caminhar com eles, escutar sua experiência, reconhecer sua sabedoria e construir processos de transformação juntamente com eles.
Quinto, revisar a própria vida eclesial. A Igreja deve perguntar se seus recursos, patrimônios, estruturas e projetos estão efetivamente a serviço da evangelização e da vida dos pobres. O Evangelho exige uma Igreja que não acumule para si aquilo que falta aos outros.
Conclusão: quando o dinheiro deixa de ser senhor
Ez 28,1-10 e Mt 19,23-30 apresentam uma mensagem profundamente atual: o dinheiro pode ser instrumento de vida, mas torna-se idolatria quando pretende ocupar o lugar de Deus.
O governante de Tiro diz: “Eu sou um deus”. Jesus, por sua vez, mostra que a riqueza pode tornar-se um obstáculo quase intransponível ao Reino. Em ambos os textos, a Palavra desmonta a ilusão da autossuficiência.
Para a Teologia Latino-Americana, essa palavra se transforma em compromisso: Deus não deseja uma sociedade em que poucos acumulam enquanto muitos sobrevivem. O Reino anunciado por Jesus aponta para relações novas, baseadas na partilha, na fraternidade, na justiça e na defesa da vida.
A pergunta que permanece para nossas comunidades é simples e exigente: nossos bens, nossas estruturas e nosso poder estão servindo à vida ou estão servindo a nós mesmos?
Se o dinheiro se torna senhor, os pobres tornam-se invisíveis. Se os bens se tornam instrumentos de partilha, a economia pode tornar-se serviço à vida. E quando a Igreja escolhe caminhar com os últimos, denunciar a idolatria do poder e construir comunidades solidárias, ela anuncia concretamente que “para Deus tudo é possível” (Mt 19,26): é possível vencer a lógica da acumulação e construir, já no presente, sinais do Reino de justiça, fraternidade e vida para todos.
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