Por Pe. Hermes A. Fernandes
1. Introdução: a unidade como exigência do Evangelho
Publicada por São João Paulo II em 25 de maio de 1995, a Encíclica Ut Unum Sint constitui um dos documentos mais significativos do magistério católico contemporâneo sobre o ecumenismo. Seu ponto de partida é a oração de Jesus: “Que todos sejam um” (Jo 17,21). Para a Encíclica, a divisão entre os cristãos contradiz a vontade de Cristo, constitui um escândalo para o mundo e prejudica a missão evangelizadora da Igreja.
À luz da Teologia Latino-Americana, entretanto, essa afirmação pode ser aprofundada. A unidade cristã não pode ser compreendida apenas como superação de divergências doutrinais ou institucionais. Ela precisa ser interpretada a partir da vida concreta dos povos, especialmente dos pobres, dos excluídos e daqueles que sofrem as consequências das estruturas de injustiça. O ecumenismo, portanto, não é somente uma questão intraeclesial: é uma exigência do compromisso com o Reino de Deus.
A pergunta fundamental passa a ser: que unidade Deus deseja para os cristãos em um continente marcado pela pobreza, pela desigualdade, pela violência e pela exclusão?
2. Ut Unum Sint e a conversão das Igrejas
Um dos méritos da Encíclica está em não reduzir o ecumenismo ao diálogo entre instituições. João Paulo II insiste na necessidade de conversão interior, reconhecendo que as divisões históricas entre os cristãos também estão relacionadas ao pecado, ao orgulho, à incapacidade de perdoar e à tendência de condenar o outro. A unidade exige, portanto, renovação espiritual e reforma permanente das próprias comunidades.
Essa perspectiva aproxima-se profundamente da Teologia Latino-Americana. Uma Igreja comprometida com a libertação precisa começar sua própria conversão perguntando-se se suas estruturas, linguagens e práticas realmente correspondem ao Evangelho.
Não basta pedir que os outros cristãos se aproximem da Igreja Católica. É necessário que a própria Igreja se deixe evangelizar pelo Evangelho e também pelos dons presentes em outras comunidades cristãs. A Encíclica reconhece explicitamente a ação do Espírito Santo nas demais Igrejas e Comunidades Eclesiais e convida os cristãos a descobrirem as riquezas espirituais presentes uns nos outros.
Na perspectiva latino-americana, isso significa abandonar toda forma de triunfalismo eclesial. A unidade não nasce da afirmação de que um grupo possui tudo e os outros nada possuem. Ela nasce da humildade de reconhecer que o Espírito de Deus é maior do que nossas fronteiras institucionais.
3. A unidade a partir dos pobres
A Teologia Latino-Americana introduz uma chave decisiva: a realidade dos pobres. Se a Igreja é chamada a ser sinal do Reino, sua unidade deve ser construída a partir daqueles que estão nas periferias da sociedade. Isso permite uma leitura sociopastoral de Ut Unum Sint: não existe verdadeiro ecumenismo quando cristãos permanecem divididos diante do sofrimento dos pobres.
Católicos, ortodoxos, anglicanos, luteranos, metodistas, presbiterianos, batistas, pentecostais e outras comunidades cristãs podem possuir diferenças teológicas reais. Entretanto, essas diferenças não deveriam impedir a colaboração diante da fome, da violência, do racismo, da destruição ambiental, da exploração dos trabalhadores, das migrações forçadas e da exclusão social.
A própria Encíclica afirma que as relações ecumênicas não devem limitar-se ao conhecimento mútuo, à oração e ao diálogo teológico. Elas exigem colaboração prática nos campos pastoral, cultural, social e no testemunho do Evangelho. Segundo o documento, a cooperação entre os cristãos torna mais luminoso o rosto de Cristo Servo e constitui verdadeiro caminho em direção à unidade.
Aqui encontramos uma das contribuições mais fecundas para a realidade latino-americana: o ecumenismo pode ser vivido como práxis de libertação.
Quando cristãos de diferentes tradições se unem para defender uma comunidade ameaçada de despejo, proteger um povo indígena, acolher migrantes, combater a fome, defender trabalhadores ou cuidar da Casa Comum, tornam visível uma unidade que não depende da uniformidade.
4. Do ecumenismo espiritual ao ecumenismo da vida
A Encíclica apresenta a oração pela unidade como “alma” do movimento ecumênico. A oração comum permite que cristãos de diferentes tradições reconheçam uma fraternidade mais profunda do que suas divisões históricas.
Entretanto, na perspectiva da Teologia Latino-Americana, a espiritualidade precisa conduzir à prática. A oração que pede “que todos sejam um” precisa desembocar em uma vida comunitária que enfrente aquilo que destrói a fraternidade humana.
Por isso, podemos falar de um ecumenismo da vida.
Não basta rezar juntos se continuamos indiferentes à morte dos pobres. Não basta realizar celebrações ecumênicas se permanecemos silenciosos diante da violência. Não basta organizar encontros entre representantes das Igrejas se nossas comunidades continuam incapazes de acolher aqueles que vivem nas periferias.
A unidade cristã deve tornar-se visível na defesa da vida.
Nesse sentido, o ecumenismo encontra uma profunda afinidade com a opção preferencial pelos pobres. Os pobres podem tornar-se lugar privilegiado de encontro entre cristãos, porque a dor humana desafia todas as divisões confessionais. Diante de uma criança com fome, de uma família sem moradia ou de uma comunidade ameaçada, as Igrejas são convocadas a reconhecer que possuem uma missão comum.
5. Ecumenismo e compromisso com a transformação social
A Ut Unum Sint afirma que a cooperação entre cristãos constitui também um testemunho comum diante do mundo. Isso possui enorme importância para a América Latina.
Historicamente, diferentes comunidades cristãs estiveram presentes nas lutas pela justiça social, pela democracia, pelos direitos humanos e pela defesa dos povos empobrecidos. Mártires e testemunhas de diferentes tradições cristãs demonstraram que a fidelidade ao Evangelho pode ultrapassar fronteiras confessionais.
A unidade cristã precisa, portanto, ser colocada a serviço da transformação da sociedade. Algumas prioridades pastorais podem concretizar essa perspectiva:
Primeiro, criar redes ecumênicas de defesa dos pobres e dos direitos humanos.
Segundo, fortalecer ações conjuntas diante das emergências sociais: fome, migração, violência, desemprego, população em situação de rua e desastres ambientais.
Terceiro, promover uma espiritualidade ecumênica da Casa Comum, unindo diferentes Igrejas na defesa da criação.
Quarto, desenvolver círculos ecumênicos de leitura popular da Bíblia, nos quais comunidades de diferentes tradições possam ler a Palavra a partir da realidade dos pobres.
Quinto, superar o proselitismo e substituí-lo pelo testemunho comum. A pergunta não deveria ser “como trazer o outro para minha Igreja?”, mas “como podemos juntos testemunhar Jesus Cristo diante de um mundo ferido?”
6. O ministério da unidade e o serviço
Um dos temas mais importantes da Encíclica é a reflexão sobre o ministério do Bispo de Roma e seu serviço à unidade dos cristãos. São João Paulo II reconhece que a questão do primado constitui um dos pontos mais delicados do diálogo ecumênico e convida os responsáveis das Igrejas a procurar, juntos, formas de exercer esse ministério que possam ser reconhecidas por todos.
À luz da Teologia Latino-Americana, essa reflexão pode ser enriquecida pela categoria do serviço.
A autoridade cristã não encontra sua legitimidade no poder, no prestígio ou na superioridade institucional, mas na capacidade de servir. O primado, assim compreendido, deve ser ministério de comunhão, reconciliação e defesa dos vulneráveis.
A pergunta decisiva para toda autoridade eclesial é, portanto: ela serve à comunhão ou alimenta divisões? Aproxima os pobres ou protege privilégios? Constrói pontes ou ergue muros? Essa perspectiva permite compreender a unidade não como centralização, mas como comunhão na diversidade.
7. Conclusão: “que todos sejam um” para que o mundo creia
Ut Unum Sint permanece profundamente atual porque recorda que a unidade dos cristãos não é uma questão secundária. Ela pertence ao próprio coração da missão de Cristo. A divisão contradiz o testemunho do Evangelho; a comunhão, ao contrário, torna visível a reconciliação oferecida por Deus.
A Teologia Latino-Americana ajuda a aprofundar essa compreensão ao perguntar: unidade para quê?
A resposta não pode ser simplesmente “para que as Igrejas estejam juntas”. A unidade existe para que o mundo creia, e o mundo ao qual somos enviados é o mundo concreto dos pobres, dos excluídos, dos povos violentados, dos trabalhadores explorados, dos migrantes, das vítimas da violência e de uma Casa Comum ameaçada.
Assim, o verdadeiro ecumenismo não consiste apenas em diminuir nossas diferenças. Consiste em unir nossas forças para que a vida prevaleça sobre a morte.
A oração de Jesus — “que todos sejam um” — torna-se, então, uma convocação à conversão pastoral e social. Católicos e demais cristãos são chamados a construir uma unidade que se manifeste na defesa da dignidade humana, na solidariedade com os pobres, na promoção da justiça, no cuidado da criação e na resistência a tudo aquilo que desfigura o rosto humano.
A unidade cristã somente será plenamente evangélica quando puder ser reconhecida pelos pobres como uma boa notícia.
Em uma América Latina marcada por tantas divisões sociais e religiosas, Ut Unum Sint pode ser recebida como um chamado a uma Igreja menos preocupada com suas fronteiras e mais comprometida com suas pontes; menos voltada para a defesa de identidades e mais aberta ao encontro; menos preocupada em vencer disputas e mais disposta a servir.
Que os cristãos sejam um, para que o mundo creia; e que essa unidade seja reconhecida, sobretudo, pelos pobres, porque nela encontram acolhida, defesa, esperança e vida.
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