Por Pe. Hermes A. Fernandes
Introdução
Em muitas comunidades católicas, a Crisma tornou-se, infelizmente, o “sacramento da despedida”. Não são poucos os jovens que, após receberem a confirmação, afastam-se da vida comunitária, encerrando um percurso que deveria, na verdade, apenas começar. Essa realidade revela um problema pastoral profundo: a compreensão reduzida da Crisma como um rito de passagem, uma exigência familiar ou um requisito para exercer determinados serviços na Igreja.
A Teologia Latino-americana convida a se recuperar o significado original deste sacramento. A Crisma não representa o término da iniciação cristã, mas o início de uma existência missionária. O Espírito Santo não é concedido para que o cristão permaneça confortável em sua espiritualidade privada, mas para impulsioná-lo ao compromisso histórico com o Reino de Deus.
Num tempo marcado pelo individualismo, pela cultura do consumo, pela indiferença diante do sofrimento humano e pela crescente virtualização das relações, a Crisma precisa ser compreendida como um envio profético. Confirmados pelo Espírito, os jovens tornam-se sujeitos ativos da evangelização e da transformação social.
O Espírito Santo na tradição bíblica
Desde o Antigo Testamento, o Espírito de Deus aparece como força que suscita libertação, coragem e justiça.
Os profetas recebem o Espírito para denunciar as estruturas de opressão, defender os pobres e anunciar uma nova esperança. Não se trata de um dom reservado ao âmbito religioso, mas de uma força que transforma a história.
No Novo Testamento, essa perspectiva alcança sua plenitude.
No batismo de Jesus, o Espírito o unge para anunciar a Boa Nova aos pobres, libertar os cativos e devolver esperança aos marginalizados (cf. Lc 4,18-19). Em Pentecostes, os discípulos deixam o medo e tornam-se testemunhas públicas do Evangelho.
O Espírito Santo nunca conduz ao isolamento.
Sempre conduz à missão.
Sempre conduz ao encontro.
Sempre conduz à construção da comunidade.
Receber o Espírito significa assumir responsabilidade pela vida do mundo.
A Crisma como plenitude da iniciação cristã
A tradição da Igreja compreende a Crisma como o sacramento que confirma e fortalece os dons recebidos no Batismo.
Não se trata de uma espécie de “Batismo mais forte”, mas do envio definitivo para a missão. O Espírito confirma o cristão para que sua fé amadureça na vida concreta. Por isso, a confirmação não pode ser reduzida a um momento emocional da celebração. Ela inaugura uma nova etapa.
O jovem deixa de ser apenas destinatário da ação pastoral para tornar-se protagonista da missão da Igreja. Essa mudança de perspectiva exige profunda conversão pastoral. Durante décadas, muitas comunidades trataram os jovens como “futuro da Igreja”.
Entretanto, o Evangelho revela algo diferente. Os jovens não são apenas futuro. São Igreja hoje. São discípulos missionários hoje. São presença do Espírito hoje.
A contribuição da Teologia Latino-americana
A Teologia Latino-americana recorda constantemente que a ação de Deus acontece dentro da história. Não existe separação entre fé e vida. Entre espiritualidade e compromisso. Entre oração e justiça.
Autores como José Comblin insistiram que o Espírito Santo não forma cristãos acomodados, mas homens e mulheres livres, capazes de transformar a realidade segundo o projeto do Reino. A missão da Igreja não consiste simplesmente em conservar estruturas. Sua missão é anunciar vida onde existe morte.
Esperança onde existe desesperança. Justiça onde prevalece a exclusão. A Crisma, portanto, não confirma pessoas para ocupar bancos nas igrejas. Confirma discípulos para ocupar os espaços da sociedade: a praça, a escola, a universidade, o mundo do trabalho, os movimentos sociais, apolítica, a cultura, as periferias.
É ali que o Espírito deseja agir!
O protagonismo juvenil: uma urgência pastoral
Uma das maiores urgências da pastoral latino-americana consiste em devolver aos jovens o protagonismo eclesial. Durante muito tempo, eles foram convidados apenas para executar tarefas previamente definidas pelos adultos. Pouco participaram dos processos de discernimento. Pouco foram escutados. Pouco influenciaram as decisões pastorais. No entanto, uma Igreja verdadeiramente sinodal reconhece que o Espírito fala também através da juventude.
Os jovens possuem perguntas novas. Sensibilidades novas. Linguagens novas. Capacidade criativa extraordinária. Quando encontram espaço para participar, renovam a vida das comunidades. A Crisma deveria marcar exatamente esse momento. Não o encerramento da catequese. Mas a inauguração da participação efetiva na missão da Igreja.
Uma comunidade madura não pergunta apenas:
“Quando o jovem vai receber a Crisma?”
Pergunta sobretudo:
“Depois da Crisma, qual missão ele assumirá?”
Uma crítica necessária: espiritualidade sem compromisso
A Teologia Latino-americana também oferece uma crítica importante às formas de espiritualidade que se tornam alienantes. Existe sempre o risco de reduzir a fé a práticas devocionais, celebrações bem organizadas e intensa religiosidade, mas sem consequências concretas para a vida.
O Evangelho rejeita essa separação. Jesus jamais separou oração e compromisso. Contemplação e justiça. Liturgia e solidariedade.
A Igreja existe para continuar sua missão. Ser Igreja significa tornar visível o Reino de Deus nas relações humanas. Significa lutar contra toda forma de violência. Contra o racismo. Contra a fome. Contra o desemprego. Contra a destruição da natureza. Contra todas as estruturas que negam dignidade aos filhos e filhas de Deus.
Uma espiritualidade que não produz compromisso social corre o risco de transformar-se em mero intimismo religioso. A Crisma, ao contrário, envia para uma espiritualidade encarnada.
O desafio da cultura digital
Outro desafio decisivo é a crescente virtualização da vida. Jamais a humanidade esteve tão conectada tecnologicamente. E, paradoxalmente, tão solitária. As redes sociais oferecem inúmeras possibilidades de comunicação. Entretanto, frequentemente substituem relações profundas por contatos superficiais.
Os jovens passam horas diante das telas. Consomem milhares de informações. Mas muitas vezes carecem de experiências reais de comunidade. A Igreja não pode simplesmente condenar o mundo digital. Seria um erro. Ela precisa evangelizar também esse ambiente.
Ao mesmo tempo, deve recordar que nenhuma experiência virtual substitui o abraço da comunidade, a celebração da Eucaristia, o serviço aos pobres, a convivência fraterna e a construção coletiva da esperança.
A fé cristã é profundamente encarnada. Ela acontece entre pessoas concretas. Entre histórias reais. Entre comunidades que caminham juntas. A Crisma deve recordar ao jovem que o Espírito não cria apenas perfis digitais. Forma discípulos presentes na história.
Uma Igreja em saída
O Documento de Aparecida recorda que todo batizado é discípulo missionário. Essa afirmação ganha especial força na Crisma. O jovem confirmado não recebe um diploma religioso. Recebe uma missão. É chamado a ser presença cristã onde muitos já perderam a esperança. A evangelização não acontece apenas dentro dos templos.
Ela acontece nas escolas.
Nas universidades.
Nos bairros.
Nas redes sociais.
Nos espaços culturais.
Nos movimentos populares.
Na defesa dos direitos humanos.
Na promoção da paz.
Na construção de uma sociedade mais justa e solidária.
Ali o Espírito continua realizando Pentecostes.
Conclusão
Redescobrir a Crisma à luz da Teologia Latino-americana significa devolver-lhe seu caráter profundamente missionário. O Espírito Santo não é concedido para alimentar uma religiosidade intimista, mas para formar homens e mulheres capazes de transformar a realidade segundo o projeto libertador de Jesus Cristo.
Numa sociedade marcada pelo individualismo, pela indiferença diante dos vulneráveis, pela lógica do consumo e pelo isolamento produzido pela virtualização das relações, a Igreja precisa oferecer aos jovens muito mais do que encontros catequéticos.
Precisa confiar-lhes responsabilidades.
Escutá-los.
Formá-los.
Enviar-lhes em missão.
A Crisma inaugura esse novo tempo.
É o momento em que a comunidade declara sua confiança na juventude e reconhece que o Espírito continua renovando a Igreja através dela.
Quando nossos jovens compreendem que foram ungidos não apenas para participar das celebrações, mas para testemunhar o Evangelho na construção de uma sociedade mais humana, fraterna e justa, a Crisma deixa de ser um ponto de chegada.
Torna-se o primeiro grande passo de uma vida inteira dedicada ao seguimento de Jesus, à construção do Reino de Deus e ao serviço generoso aos pobres, aos esquecidos e a todos aqueles que esperam sinais concretos de esperança.
Colaborou com este vídeo: Verbo Filmes
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