Reflexão para Segunda-feira da 14ª Semana do Tempo Comum – (Mateus 9,18-26)

Mateus 9,18-26: A vida que vence a exclusão e a morte

Por Pe. Hermes A. Fernandes

O Evangelho de Mateus 9,18-26 apresenta duas narrativas profundamente entrelaçadas: a ressurreição da filha de um chefe da comunidade e a cura de uma mulher que sofria de hemorragia havia doze anos. Mateus reduz bastante o relato encontrado em Marcos (Mc 5,21-43), tornando-o mais direto e concentrando a atenção no poder vivificador de Jesus. Entretanto, por trás da simplicidade da narrativa, encontra-se uma profunda denúncia das estruturas religiosas e sociais que produziam exclusão e morte.

A técnica literária de inserir uma história dentro da outra não é casual. Ambas se iluminam mutuamente. De um lado, está uma menina de doze anos que acaba de morrer; do outro, uma mulher que sofre uma hemorragia há doze anos. O número doze, frequentemente associado às doze tribos de Israel, sugere que toda a comunidade está adoecida. Não são apenas duas pessoas necessitadas, mas o próprio povo que experimenta a morte e a exclusão provocadas por um sistema incapaz de gerar vida.

O chefe mencionado por Mateus é um dirigente da sinagoga. Trata-se de alguém pertencente à estrutura religiosa oficial, normalmente ligada às autoridades que frequentemente se opunham à atuação de Jesus. O fato de este homem prostrar-se diante do Mestre representa um gesto de enorme significado. Quando as instituições já não conseguem oferecer vida, torna-se necessário buscar em Jesus um novo caminho. O poder religioso, por si só, não consegue vencer a morte.

Ao longo do caminho até a casa do chefe, ocorre um encontro que interrompe a caminhada. Uma mulher aproxima-se discretamente por trás de Jesus e toca a borda de seu manto. Segundo a Lei de Moisés (Lv 15,25-30), uma mulher com fluxo contínuo de sangue era considerada ritualmente impura. Durante doze anos ela viveu excluída da convivência social, religiosa e familiar. Sua doença não provocava apenas sofrimento físico; produzia também isolamento, pobreza e humilhação.

Na sociedade judaica daquele tempo, a pureza ritual funcionava como um importante mecanismo de organização social. Pessoas consideradas impuras eram afastadas do culto, da vida comunitária e, muitas vezes, da economia local. A religião acabava legitimando formas de exclusão que recaíam especialmente sobre os mais pobres, os doentes, as mulheres e todos aqueles considerados “imperfeitos”.

A atitude da mulher rompe completamente essa lógica. Ela atravessa a multidão, desafia as normas religiosas e toca Jesus. Segundo a mentalidade vigente, seria ela quem transmitiria impureza ao Mestre. Contudo, acontece exatamente o contrário: não é a impureza que contamina Jesus; é a vida de Jesus que elimina aquilo que produzia exclusão.

Quando Jesus se volta para ela e afirma: “Coragem, filha! A tua fé te salvou”, realiza algo muito maior do que uma simples cura física. Pela única vez em Mateus, Jesus chama alguém de “filha”. A mulher, durante anos reduzida à condição de impura, recupera sua dignidade, sua identidade e seu lugar na comunidade. Ela deixa de ser definida pela doença para ser reconhecida como membro da família de Deus.

A fé apresentada aqui não consiste numa crença abstrata ou numa simples aceitação intelectual de doutrinas. É uma confiança que leva à ação. A mulher arrisca tudo para recuperar sua vida. Sua coragem torna-se expressão concreta de esperança.

Ao chegar à casa do chefe, Jesus encontra os flautistas e a multidão que já realizavam os ritos funerários. A morte parecia definitiva. Jesus, porém, afirma que a menina não está morta, mas dorme. Os presentes zombam dele, revelando a dificuldade humana em acreditar que Deus pode transformar situações aparentemente irreversíveis.

Jesus toma a menina pela mão. Esse gesto também possui enorme significado. O contato com um cadáver tornava qualquer pessoa ritualmente impura (Nm 19,11-16). Mais uma vez, Jesus rompe as barreiras da pureza ritual. A vida vale mais do que qualquer norma religiosa. Em Jesus, a santidade não consiste em evitar o contato com os considerados impuros; consiste em aproximar-se deles para restaurar sua dignidade.

A menina levanta-se. O verbo utilizado por Mateus é o mesmo empregado posteriormente para falar da ressurreição de Jesus. O evangelista deseja mostrar que a força da ressurreição já está presente na missão de Cristo. Sempre que alguém recupera sua dignidade, vence a exclusão ou reencontra a esperança, a ressurreição já começa a acontecer na história.

A Leitura Popular da Bíblia convida-nos a perceber que essas duas mulheres continuam presentes em nossos dias. A mulher com hemorragia representa todos aqueles e aquelas que vivem invisibilizados pelas estruturas sociais: pessoas em situação de pobreza, moradores de rua, migrantes, povos indígenas expulsos de seus territórios, comunidades quilombolas, mulheres vítimas da violência, pessoas negras marcadas pelo racismo, idosos abandonados, pessoas com deficiência, população LGBTQIAPN+ submetida à discriminação, dependentes químicos tratados apenas como problema de segurança pública, trabalhadores precarizados e tantos outros cuja dignidade é diariamente negada.

A menina morta simboliza comunidades inteiras que parecem perder a esperança diante das diversas formas de violência estrutural. São bairros esquecidos pelo poder público, populações sem acesso à saúde, educação e moradia digna, jovens vítimas da violência urbana, famílias destruídas pela fome, pela desigualdade e pelo desemprego. São vidas consideradas descartáveis por uma sociedade organizada segundo a lógica do lucro e da exclusão.

Jesus interrompe seu caminho para encontrar quem sofre. O Reino de Deus nunca passa apressadamente pelos pobres. Ele para, escuta, acolhe e devolve dignidade. Sua prática denuncia qualquer religião que coloque normas acima da vida humana.

A Igreja é chamada a continuar essa mesma missão. Seu compromisso não pode limitar-se aos espaços litúrgicos ou às práticas sacramentais. Ela é enviada às periferias geográficas e existenciais, onde vivem aqueles que carregam as marcas da exclusão. Evangelizar significa tocar as feridas do povo, lutar por justiça, promover direitos, defender a vida ameaçada e construir comunidades verdadeiramente acolhedoras.

A Leitura Popular da Bíblia recorda que Deus continua realizando sua obra libertadora por meio da ação organizada do povo. Cada comunidade eclesial de base, cada pastoral social, cada grupo de solidariedade, cada movimento popular comprometido com os direitos humanos torna-se expressão concreta da mão de Jesus que levanta quem foi derrubado pelas injustiças da história.

Mateus 9,18-26 proclama que nenhuma exclusão é definitiva e nenhuma morte possui a última palavra. O Cristo que deixa a mulher tocar seu manto e que segura a mão da menina continua caminhando entre os pobres, chamando sua Igreja a romper barreiras, superar preconceitos e construir uma sociedade onde todos tenham vida, dignidade e participação.

Enquanto houver pessoas consideradas impuras, descartáveis ou invisíveis, este Evangelho continuará convocando as comunidades cristãs a escolherem, sem hesitação, o lado da vida. Porque o Deus revelado por Jesus não se manifesta na preservação dos privilégios religiosos, mas na restauração da dignidade daqueles que o mundo insiste em deixar à margem.


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