Por Karina Moreti
Poucas experiências transformam tão profundamente a vida de uma mulher quanto a chegada da puberdade. A infância começa a se despedir quase sem que se perceba. O corpo muda, novas responsabilidades surgem e a primeira menstruação anuncia que uma nova etapa da existência teve início. Para muitas meninas, esse momento é marcado por dúvidas, inseguranças e descobertas. A alegria de crescer convive com o medo do desconhecido, enquanto o próprio corpo passa a revelar uma realidade que até então lhes era estranha.
No mundo bíblico, porém, essa transformação possuía um significado ainda mais profundo. A primeira menstruação não representava apenas o amadurecimento biológico, mas uma mudança na própria condição social da menina. A partir daquele momento, ela ingressava na idade núbil e passava a ser considerada apta para o casamento e para a maternidade. Embora fosse vista como preparada para essa nova etapa, a decisão sobre seu futuro raramente lhe pertencia. Na maior parte das vezes, eram as famílias que definiam seu casamento, enquanto ela começava a experimentar as expectativas, responsabilidades e limites impostos às mulheres naquela sociedade.
Além dessa nova condição social, o próprio corpo feminino tornava-se objeto das prescrições de pureza ritual previstas na Lei. Durante o período menstrual, a mulher permanecia em estado de impureza ritual (cf. Lv 15,19-24). É importante compreender essas normas dentro do universo religioso de Israel. Elas não expressavam um juízo moral sobre a mulher nem significavam pecado ou castigo divino. Faziam parte da maneira como o povo compreendia a santidade e organizava sua vida litúrgica. Ainda assim, suas consequências eram profundamente concretas. Tudo aquilo sobre o qual a mulher se deitasse ou se sentasse tornava-se ritualmente impuro, e quem entrasse em contato com ela deveria passar pelos ritos de purificação. O mesmo corpo que trazia em si o dom de gerar a vida tornava-se, todos os meses, motivo de um afastamento temporário da participação cultual da comunidade.
Essa situação tornava-se muito mais dolorosa quando o sangramento não cessava. O livro do Levítico determina que a mulher acometida por um fluxo contínuo de sangue permanecia ritualmente impura durante todo o tempo em que durasse a hemorragia (cf. Lv 15,25-30). A enfermidade deixava de ser apenas um problema físico para tornar-se uma experiência permanente de exclusão. O sofrimento atingia todas as dimensões da existência: o corpo, as relações familiares, a convivência social e a participação religiosa. Abraçar alguém, ser abraçada, aproximar-se do culto ou simplesmente viver a vida comunitária tornava-se extremamente difícil. O corpo destinado a transmitir a vida acabava transformado, aos olhos da sociedade, em motivo de separação.
É exatamente nesse universo que Marcos situa uma das narrativas mais belas e delicadas de seu Evangelho (cf. Mc 5,21-43). Diante do leitor aparecem duas mulheres unidas por um mesmo número: doze anos. Uma sofria por doze anos em razão de uma hemorragia incessante. A outra acabara de completar doze anos e está entrando na fase da vida em que seu corpo começaria justamente a experimentar as transformações da puberdade. Enquanto uma convive com um corpo que nunca deixa de sangrar, a outra prepara-se para descobrir um corpo que começará a sangrar. Marcos aproxima essas duas histórias para revelar que Deus visita a vida humana em todas as suas etapas, tanto quando ela parece começar quanto quando parece esgotar-se.
O número doze dificilmente aparece por acaso. Na tradição bíblica, ele recorda as doze tribos de Israel e simboliza a totalidade do povo da Aliança. Ao unir essas duas mulheres pelo mesmo número, Marcos sugere que ambas representam um povo inteiro que necessita ser restaurado. Em Jesus, Deus visita um Israel ferido e inaugura um novo tempo de esperança. Os mesmos doze anos que marcaram o sofrimento de uma mulher assinalam o início da vida adulta da outra. Em ambas, Deus prepara um recomeço.
Antes mesmo de narrar qualquer milagre, Marcos convida seus leitores a contemplarem essas duas histórias. O evangelista sabe que somente quando compreendemos o peso que aquelas mulheres carregavam em seus corpos é que podemos perceber a profundidade dos gestos de Jesus. Seus milagres nunca acontecem no vazio. Eles nascem dentro da história concreta das pessoas, precisamente no lugar onde a dor parecia ter a última palavra. É justamente ali que Deus começa a chamar.
Naquele dia, Jesus havia retornado à margem do mar da Galileia, e uma numerosa multidão reuniu-se novamente ao seu redor (cf. Mc 5,21). Entre aqueles que o procuravam encontrava-se Jairo, um dos chefes da sinagoga. Sua posição lhe conferia grande respeito na comunidade, pois era responsável pela organização das celebrações, pela guarda das Escrituras e pelo cuidado da vida religiosa local. Contudo, toda autoridade desaparece diante do sofrimento de um pai. Sua única filha, uma menina de doze anos, encontrava-se gravemente enferma. O homem que costumava conduzir a assembleia religiosa agora se lança aos pés de Jesus e suplica que vá até sua casa impor as mãos sobre ela, para que possa viver.
Jesus acolhe seu pedido e começa a caminhar em direção à casa de Jairo. Tudo parece indicar que a narrativa seguirá diretamente para o encontro com a menina. Entretanto, Marcos interrompe o caminho de maneira surpreendente. Essa interrupção não é um simples recurso literário. Ela constitui o próprio coração da mensagem que o evangelista deseja anunciar.
Em contraste com Jairo, cujo nome, posição social e prestígio são cuidadosamente apresentados, surge uma mulher completamente anônima. Marcos não informa sua origem, sua família, sua profissão nem sua idade. Tudo o que sabemos é que ela sofre de uma hemorragia havia doze anos. Enquanto Jairo é identificado por sua função na sinagoga, ela é identificada apenas por sua enfermidade. Enquanto um homem respeitado aproxima-se de Jesus à vista de todos, ela procura alcançá-lo silenciosamente, escondida entre a multidão. O evangelista aproxima duas histórias profundamente diferentes para revelar que, diante de Jesus, a dignidade de uma pessoa jamais depende de seu lugar na sociedade.
É significativo que Marcos não revele o nome dessas duas mulheres. Uma permanece conhecida apenas por sua enfermidade; a outra, apenas pela idade. Em contraste, Jairo tem seu nome preservado e ocupa um lugar de destaque na comunidade. O evangelista desmonta, desde o início da narrativa, a lógica das aparências. Diante de Jesus, o nome, o prestígio e a posição social não determinam o valor de uma pessoa. Antes que o mundo reconhecesse aquelas mulheres, Deus já conhecia suas histórias. O chamado divino não nasce da fama nem do reconhecimento humano, mas do olhar daquele que conhece cada pessoa em sua dignidade mais profunda.
A condição daquela mulher ia muito além da enfermidade física. Marcos faz questão de informar que ela havia sofrido muito nas mãos de diversos médicos, gastado tudo o que possuía e, em vez de melhorar, sua situação apenas se agravara (cf. Mc 5,26). Em poucas linhas, o evangelista descreve uma vida consumida por perdas sucessivas. A doença desgastara seu corpo. Os tratamentos haviam consumido seus recursos. As prescrições de pureza ritual limitaram sua convivência com a comunidade. Restava-lhe apenas a dor de quem já não encontrava esperança em lugar algum.
Nada indica que aquela mulher tivesse sido convidada a aproximar-se de Jesus. Ao contrário, tudo parecia recomendar que permanecesse escondida. Segundo as prescrições do Levítico, seu contato tornava ritualmente impuros aqueles que a tocassem. Caminhar entre a multidão significava correr o risco de transmitir aos outros a condição que a excluía da vida religiosa. Ainda assim, ela vence o medo. Aproxima-se discretamente por trás de Jesus e estende a mão em direção a barra de seu manto.
Aquele gesto possui uma força extraordinária. Durante doze anos, seu corpo havia sido motivo de afastamento. Durante doze anos, talvez ela própria tivesse evitado qualquer contato para não provocar constrangimento, rejeição ou medo. Agora, pela primeira vez, ousa tocar alguém. Seu gesto nasce de uma fé silenciosa, alimentada pela esperança de que bastaria tocar as vestes de Jesus para recuperar a vida que lhe havia sido roubada. O medo cede lugar à confiança. A mão que durante tantos anos conheceu apenas a solidão torna-se o instrumento de uma esperança que se recusa a morrer.
No mesmo instante em que seus dedos tocaram o manto de Jesus, a hemorragia cessou. Marcos narra esse momento com impressionante sobriedade: “A hemorragia parou imediatamente. E a mulher sentiu no corpo que estava curada da doença.” (Mc 5,29). Não há palavras solenes, gestos grandiosos nem qualquer manifestação espetacular. Tudo acontece no silêncio de um toque. Pela primeira vez em doze anos, aquela mulher percebe que seu corpo já não é lugar de sofrimento, mas sinal de uma vida que começa a ser restaurada.
O evangelista, porém, deixa claro que a cura física não constitui o ponto mais alto da narrativa. Na verdade, ela prepara um encontro ainda mais profundo. Jesus percebe imediatamente que uma força havia saído dele. Interrompe o caminho, volta-se para a multidão e pergunta: “Quem foi que tocou na minha roupa?” (Mc 5,30).
A pergunta parece absurda aos olhos dos discípulos. Pessoas comprimiam Jesus por todos os lados. O contato era inevitável. “Estás vendo a multidão que te aperta e ainda perguntas: ‘quem me tocou?’” (Mc 5,31). Eles enxergam apenas um toque físico. Jesus, porém, distingue um toque que nasceu da fé. Muitos esbarravam nele; somente uma pessoa havia colocado nele toda a sua esperança.
Jesus continua olhando ao redor até encontrar aquela mulher. Não porque desconhecesse quem havia sido curada, mas porque desejava oferecer-lhe algo que nenhuma cura física poderia alcançar. Se ela partisse naquele instante, levaria consigo um corpo restaurado, mas continuaria escondida diante da comunidade. Permaneceria conhecida apenas como a mulher que sofrera uma hemorragia. O Senhor não permite que ela volte para casa carregando apenas um milagre. Ele quer devolver-lhe também a dignidade que lhe fora roubada.
Percebendo que já não podia permanecer invisível, a mulher aproxima-se “com medo e tremendo” (Mc 5,33), prostra-se diante de Jesus e conta toda a verdade. Essa breve expressão de Marcos encerra uma profunda beleza. Ela não relata apenas o toque. Conta sua história. Conta doze anos de sofrimento, as tentativas frustradas de cura, os recursos perdidos, a solidão, os olhares de reprovação e o peso de viver continuamente marcada pela exclusão. Durante anos, sua enfermidade havia falado por ela. Agora, pela primeira vez, é ela mesma quem toma a palavra.
É precisamente nesse momento que acontece o verdadeiro milagre da narrativa. Antes de devolver-lhe uma missão, Jesus devolve-lhe a voz. Antes de restaurar plenamente sua vida, restitui-lhe a condição de pessoa diante da comunidade. Até então, ninguém perguntara quem ela era. Sua identidade havia sido reduzida à doença. Diante de Jesus, porém, ela deixa de ser definida pelo sofrimento e volta a ser reconhecida por aquilo que sempre foi: uma filha amada de Deus. Então Jesus pronuncia uma das palavras mais belas de todo o Evangelho: “Minha filha, sua fé curou você. Vá em paz e fique curada dessa doença.” (Mc 5,34).
Ao chamá-la de filha, Jesus faz infinitamente mais do que utilizar uma expressão de afeto. Durante doze anos, aquela mulher havia sido identificada pela enfermidade, pela exclusão e pela impureza ritual. Agora, sua identidade já não nasce da doença, mas da relação que Jesus estabelece com ela. O primeiro chamado que Deus dirige àquela mulher consiste justamente em devolver-lhe aquilo que o sofrimento havia roubado: sua pertença. Antes de confiar qualquer missão, Deus faz com que ela descubra novamente que pertence à sua família. Toda vocação começa quando alguém volta a acreditar que é amado por Deus.
Durante muito tempo, aquela mulher acreditou que sua história terminava na enfermidade. Jesus revela que nenhuma dor possui a última palavra sobre uma vida. Deus não chama pessoas por causa de suas feridas nem as reduz aos seus fracassos. Ele chama a partir da história concreta que cada pessoa viveu, restaurando sua dignidade e abrindo um futuro novo. A mulher que chegara escondida parte reconhecida diante de toda a comunidade.
O milagre, portanto, não consiste apenas na interrupção da hemorragia. A verdadeira cura acontece quando Jesus restitui aquilo que a doença havia roubado: sua voz, sua identidade, sua paz e seu lugar entre o povo de Deus. A salvação anunciada por Jesus alcança toda a existência humana. Cura o corpo, restaura o coração, reconstrói as relações e devolve à pessoa a certeza de que sua vida continua sendo lugar da graça. Enquanto Jesus ainda falava com aquela mulher, chegam alguns mensageiros da casa de Jairo trazendo uma notícia devastadora: “Sua filha morreu. Por que você ainda incomoda o Mestre?” (Mc 5,35).
As palavras são duras. Aos olhos daqueles homens, tudo havia terminado. Enquanto Jesus permanecera falando com a mulher, a menina morrera. O tempo parecia ter vencido. A esperança parecia ter chegado tarde demais. A morte pronunciava-se como a última palavra sobre aquela história. É impossível não imaginar o que se passava no coração de Jairo. O pai que havia saído de casa alimentando a esperança de ver a filha curada agora escuta que já não existe motivo para continuar caminhando. A dor transforma-se em silêncio. O caminho que antes conduzia à esperança parece conduzir apenas ao luto. No entanto, Jesus não permite que o desespero determine o rumo da história. Antes mesmo que Jairo consiga responder aos mensageiros, o Mestre dirige-lhe uma das mais belas exortações de todo o Evangelho: “Não tenhas medo; apenas tem fé!” (Mc 5,36).
Essa breve frase estabelece uma profunda ligação entre as duas narrativas. A mulher aproximou-se de Jesus sustentada apenas pela fé. Agora, Jairo é convidado a permanecer na mesma atitude. Marcos mostra que tanto a enfermidade quanto a morte colocam o ser humano diante da mesma decisão: deixar-se dominar pelo medo ou confiar naquele que possui autoridade sobre a vida.
Jesus prossegue o caminho e não permite que a multidão o acompanhe. Leva consigo apenas Pedro, Tiago e João, além do pai e da mãe da menina (cf. Mc 5,37-40). Ao chegar à casa, encontra um ambiente marcado pelo choro, pelos lamentos e pela agitação daqueles que já haviam aceitado a morte como realidade definitiva. Diante da cena, Jesus pronuncia palavras que parecem incompreensíveis: “Por que essa confusão e esse choro? A criança não morreu. Ela está apenas dormindo” (Mc 5,39). Os presentes reagem com zombaria. Para eles, a morte já havia encerrado qualquer possibilidade de esperança. Aquilo que Jesus anuncia parece absurdo diante da evidência dos fatos.
Depois de fazer todos saírem, Jesus entra no quarto acompanhado apenas pelos pais da menina e pelos três discípulos. O ambiente agora é de profundo silêncio. Diante daquele corpo sem vida, o Mestre realiza um gesto surpreendente. Toma a menina pela mão e pronuncia, em aramaico, as palavras que a Igreja conservou com especial reverência desde os primeiros tempos: “Talita cúmi”, que quer dizer: “Menina,eu lhe digo — levante-se!“ (Mc 5,41).
Marcos preserva as palavras originais de Jesus, como faz também em outras passagens do Evangelho, como “Efatá” (Mc 7,34) e “Abba” (Mc 14,36). Ao conservar o idioma falado por Jesus, o evangelista aproxima seus leitores da cena, como se ainda fosse possível ouvir a voz do Mestre rompendo o silêncio da morte. Não se trata apenas da recordação de um milagre, mas da memória viva daquele cuja palavra continua comunicando vida.
Imediatamente, a menina levantou-se e começou a caminhar. Marcos faz questão de recordar que ela tinha doze anos (cf. Mc 5,42), retomando o elo invisível que une sua história à da mulher curada da hemorragia. O número que antes simbolizava sofrimento e espera transforma-se agora em sinal de um novo começo. Diante daquele acontecimento, todos ficam profundamente admirados.
O último gesto de Jesus, porém, talvez seja um dos mais delicados de toda a narrativa. Depois de devolver a menina à vida, ordena que lhe deem de comer (cf. Mc 5,43). O milagre não termina na emoção daquele instante. A menina não foi chamada para viver distante da realidade cotidiana, mas para retomá-la. O alimento confirma que sua vida foi verdadeiramente restaurada. Aquele corpo, antes vencido pela morte, volta a participar da mesa da família, dos gestos simples e da existência comum. O Deus revelado por Jesus não devolve apenas a vida; devolve também a possibilidade de continuar vivendo.
É significativo que a menina não pronuncie uma única palavra durante toda a narrativa. Outros falam por ela: o pai suplica, os mensageiros anunciam sua morte, os pranteadores lamentam seu fim, Jesus ordena que ela se levante. Sua resposta acontece através dos passos que volta a dar. O Evangelho recorda que Deus nem sempre responde às nossas dores por meio de discursos. Muitas vezes responde devolvendo-nos a capacidade de caminhar.
O chamado daquela menina começa com um verbo simples: “levanta-te.” O verbo empregado por Marcos é o mesmo que, mais tarde, será utilizado para anunciar a ressurreição de Jesus. Antes que pudesse escrever sua própria história, a morte parecia tê-la interrompido. Jesus, porém, devolve-lhe o futuro. Deus não a chama para ocupar um lugar de prestígio nem para realizar feitos extraordinários. Chama-a, antes de tudo, para voltar a viver. Há momentos em que a maior vocação que Deus confia a uma pessoa é simplesmente levantar-se e recomeçar.
As duas narrativas encontram-se unidas por um gesto profundamente humano: o toque. Na primeira, é a mulher quem rompe o medo e estende a mão para tocar Jesus. Na segunda, é o próprio Jesus quem toma a iniciativa e segura a mão da menina. Segundo as prescrições da Lei, tanto a mulher acometida por um fluxo contínuo de sangue quanto o cadáver tornavam ritualmente impuro quem os tocasse (cf. Lv 15,19-30; Nm 19,11-13). Jesus, porém, inverte completamente essa lógica. Ele não recebe a impureza; comunica vida. Não se afasta da fragilidade humana; aproxima-se dela para restaurá-la. Onde a religião enxergava motivos para o afastamento, Cristo faz nascer um encontro. O Reino de Deus não se constrói pela exclusão, mas pela misericórdia que devolve às pessoas sua dignidade.
Marcos aproxima duas mulheres separadas pela idade, pela história e pela condição social. Uma carregava no corpo doze anos de sofrimento; a outra acabava de completar doze anos e via sua vida interrompida antes mesmo de começar. Uma aproximou-se de Jesus escondida pela vergonha. A outra já não podia aproximar-se, porque a morte a havia silenciado. Uma tocou o Senhor na esperança de encontrar a cura. A outra foi tocada por Ele para voltar à vida. Uma escutou: “Filha, tua fé te salvou.” A outra ouviu: “Menina, eu te digo, levanta-te.” Em ambas as histórias, Jesus não realiza apenas um milagre; restitui aquilo que parecia definitivamente perdido.
Talvez seja esse o aspecto mais profundo de toda a narrativa. Antes de confiar qualquer missão, Deus restaura a pessoa. Antes de despertar uma vocação, devolve-lhe a dignidade. A mulher que durante doze anos fora conhecida apenas por sua enfermidade reencontra sua identidade ao ser chamada de filha. A menina que parecia destinada ao silêncio da morte reencontra o futuro quando é chamada a levantar-se. Em ambas, o chamado de Deus começa pela restauração da vida.
Esse é um traço constante ao longo de toda a história da salvação. Deus não espera que a vida esteja organizada para chamar alguém. Não exige que todas as feridas estejam curadas nem que o passado tenha sido apagado. Ele entra na história concreta das pessoas, toca aquilo que parece irrecuperável e faz nascer um novo começo. Foi assim com Abraão, Moisés, Rute, Davi, Maria, Pedro, Levi e tantos outros. O chamado divino nunca parte de uma existência perfeita, mas da misericórdia que transforma a própria história em lugar de encontro com Deus.
Ainda hoje, muitas pessoas carregam feridas invisíveis. Algumas convivem com enfermidades do corpo; outras, com dores da alma. Há quem viva marcado pela exclusão, pelo preconceito, pela solidão ou pelo sentimento de já não possuir lugar na comunidade. O Evangelho continua anunciando que Cristo atravessa as multidões para encontrar aqueles que aprenderam a viver escondidos pela dor. Continua entrando nas casas onde todos acreditam que a esperança morreu. Continua estendendo a mão para quem já não encontra forças para levantar-se.
A mulher sem nome voltou para casa reconhecida como filha. A menina sem nome voltou a caminhar pela casa de seus pais. Nenhuma delas recebeu um título, um cargo ou uma missão extraordinária. Receberam algo maior: a possibilidade de viver novamente. É assim que Deus continua chamando ao longo da história da salvação. Seu primeiro chamado não é para realizar grandes obras, mas para restaurar aquilo que o sofrimento tentou destruir. Antes de enviar, Deus levanta. Antes de pedir que caminhemos com Ele, segura nossa mão e nos coloca novamente de pé. Talvez seja essa a boa notícia que Marcos deseja deixar gravada no coração de seus leitores. O chamado de Deus nem sempre começa com uma voz vinda do céu ou com uma missão extraordinária. Muitas vezes, ele começa quando Cristo pronuncia uma única palavra sobre uma vida ferida. À mulher esquecida, Ele diz: “Filha.” À menina vencida pela morte, Ele diz: “Levanta-te.” Entre essas duas palavras encontra-se o coração do Evangelho. Deus continua chamando homens e mulheres a partir da própria história, devolvendo-lhes a dignidade, restaurando sua esperança e fazendo florescer a vida exatamente onde o mundo imaginava haver apenas sofrimento e morte.

Karina Moreti: é bacharel em Teologia pela Universidade Católica Dom Bosco (2022) e em Comunicação Social – Jornalismo, pelo Centro Universitário Sagrado Coração (2007). Atualmente é jornalista do Blog Eclesialidade & Missão, e assessora movimentos eclesiais. Tem experiência na área de jornalismo impresso, jornalismo televisivo, jornalismo radiofônico e em jornalismo nas redes sociais e blogs. Em teologia, dedica-se ao estudo das Sagradas Escrituras.
Deixe um comentário