Reflexão para Quarta-feira da 15ª Semana do Tempo Comum – (Mateus 11,25-27)

Mateus 11,25-27: A revelação do Reino aos pequeninos

Por Pe. Hermes A. Fernandes

Introdução

O Evangelho de Mateus apresenta Jesus como o Messias que inaugura o Reino de Deus por meio de uma nova prática de justiça, misericórdia e fraternidade. No capítulo 11, os conflitos entre Jesus e as autoridades religiosas tornam-se cada vez mais evidentes. Após denunciar as cidades da Galileia que permaneceram indiferentes aos sinais do Reino (Mt 11,20-24), Jesus eleva uma oração de louvor ao Pai:

“Eu te louvo, Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e entendidos e as revelaste aos pequeninos. Sim, Pai, porque assim foi do teu agrado. Tudo me foi entregue por meu Pai. Ninguém conhece o Filho senão o Pai, e ninguém conhece o Pai senão o Filho e aquele a quem o Filho o quiser revelar.” (Mt 11,25-27)

À primeira vista, trata-se de uma oração de caráter profundamente espiritual. Entretanto, quando lida a partir da realidade latino-americana, ela adquire enorme densidade histórica e política. O texto proclama que Deus rompe a lógica das elites e revela seu projeto libertador justamente aos pequenos, aos pobres e aos humildes.

A Leitura Popular da Bíblia compreende que essa passagem não é uma exaltação da ignorância, mas uma denúncia das estruturas que utilizam o conhecimento para excluir, dominar e justificar privilégios.

Contexto histórico e literário

Mateus escreve para comunidades que enfrentavam tensões profundas com setores do judaísmo oficial após a destruição de Jerusalém no ano 70. Muitos cristãos provinham das camadas populares da Palestina e da Síria, convivendo com perseguições, pobreza e exclusão religiosa.

No contexto do Evangelho, os “sábios e entendidos” representam aqueles que acreditavam possuir o monopólio da interpretação da Lei. Eram especialistas religiosos que, frequentemente, colocavam o peso das normas acima da misericórdia.

Já os “pequeninos” (em grego népioi) não significam apenas crianças. A palavra designa aqueles que não possuem prestígio social, político ou religioso. São os simples, os humildes, os pobres e todos aqueles cuja única segurança está em Deus.

Mateus apresenta um contraste marcante:

  • de um lado, os especialistas que conhecem a Lei, mas rejeitam Jesus;
  • de outro, os pobres que reconhecem nele a presença do Reino.

Esse contraste percorre todo o Evangelho.

A oração de louvor: um Deus que inverte a lógica do mundo

Jesus inicia sua oração com uma ação de graças: “Eu te louvo, Pai…” O verbo utilizado indica alegria profunda diante da maneira como Deus conduz a história. O motivo do louvor surpreende: “…porque escondeste estas coisas aos sábios e entendidos e as revelaste aos pequeninos.” Não significa que Deus queira esconder sua verdade de alguém.

Na linguagem bíblica, Deus respeita a liberdade humana. Os poderosos tornam-se incapazes de acolher a revelação justamente porque estão fechados em sua autossuficiência. Os pequenos, ao contrário, permanecem abertos. A revelação não depende da quantidade de conhecimentos acumulados.

Ela nasce da disponibilidade do coração.

Quem são os “sábios” denunciados por Jesus?

A Teologia Latino-Americana chama atenção para o aspecto estrutural dessa crítica. Os “sábios” representam todos os sistemas que legitimam a desigualdade.

São:

  • os poderes religiosos que absolutizam normas;
  • os poderes econômicos que naturalizam a pobreza;
  • os poderes políticos que governam para poucos;
  • os sistemas culturais que silenciam os pobres.

Na América Latina, esse texto denuncia todas as formas de colonialismo, racismo, patriarcalismo e concentração de riqueza. O Evangelho não condena sistematicamente o conhecimento. Condena-o quando ele deixa de servir à vida.

Os pequeninos como lugar teológico

A Teologia da Libertação afirma que os pobres são lugar privilegiado da revelação de Deus. Não porque sejam moralmente superiores. Mas porque sua realidade permite enxergar aquilo que os privilégios frequentemente escondem.

Os pobres conhecem:

  • a fome;
  • a violência;
  • a exclusão;
  • a insegurança;
  • a solidariedade cotidiana.

É nesse chão da vida que Deus continua falando. Por isso, a Leitura Popular da Bíblia sempre parte da experiência concreta das comunidades. Primeiro vem a vida. Depois vem o texto. E então o texto ilumina novamente a vida.

“Tudo me foi entregue por meu Pai”

O versículo 27 aprofunda a identidade de Jesus. Mateus apresenta uma relação única entre Pai e Filho. Jesus conhece plenamente o Pai porque participa de sua própria vida. Entretanto, esse conhecimento não permanece fechado. Ele é comunicado. A missão de Jesus consiste precisamente em revelar o rosto verdadeiro de Deus. Não o Deus do medo. Nem o Deus do castigo. Mas o Deus da misericórdia. Essa afirmação possui enorme importância pastoral.

Durante séculos, muitos discursos religiosos apresentaram um Deus distante e severo. Jesus revela exatamente o contrário. Quem conhece Jesus conhece um Deus que caminha junto dos pobres.

A revelação como compromisso histórico

Conhecer Deus não significa possuir informações religiosas.

Na Bíblia, conhecer significa entrar em comunhão. Quem conhece o Pai participa também de seu projeto. E qual é esse projeto? A construção do Reino. Por isso, a verdadeira espiritualidade nunca pode ser separada do compromisso social.

Não existe encontro autêntico com Deus quando permanecemos indiferentes:

  • à fome;
  • ao desemprego;
  • ao racismo;
  • à destruição ambiental;
  • à violência contra mulheres;
  • aos povos indígenas;
  • às populações negras;
  • aos migrantes;
  • aos trabalhadores explorados.

A revelação transforma a história.

A Leitura Popular da Bíblia

Nas comunidades eclesiais de base, essa passagem costuma suscitar perguntas fundamentais:

  • Quem são hoje os sábios?
  • Quem são hoje os pequeninos?
  • Quem tem acesso à palavra?
  • Quem é silenciado?
  • Quem interpreta a Bíblia?
  • Quem decide os rumos da Igreja?

Essas perguntas ajudam a romper interpretações individualistas. A Palavra torna-se instrumento de libertação. O pequeno grupo de reflexão transforma-se em espaço onde todos podem falar. Todos podem interpretar. Todos podem aprender.

A comunidade torna-se escola do Reino.

A dimensão sociotransformadora

Na América Latina, milhões continuam vivendo as mesmas situações encontradas pelos pequeninos do Evangelho.

São eles:

  • moradores das periferias;
  • trabalhadores sem direitos;
  • povos indígenas;
  • quilombolas;
  • agricultores familiares;
  • pessoas em situação de rua;
  • migrantes;
  • mulheres vítimas de violência;
  • crianças vulnerabilizadas;
  • idosos abandonados.

O Reino continua sendo revelado em seus rostos. Não porque sofram. Mas porque Deus escolhe caminhar com eles. A Igreja torna-se fiel ao Evangelho quando faz a mesma opção.

Pistas pastorais

Mateus 11,25-27 inspira diversas ações pastorais.

Em primeiro lugar, convida a fortalecer as pequenas comunidades de reflexão bíblica, onde os pobres possam ler a Palavra a partir de sua própria realidade.

Em segundo lugar, desafia a formação de lideranças que unam competência teológica e profunda inserção nas realidades populares. O conhecimento da fé deve estar a serviço da comunhão e da transformação social, e não da criação de novas formas de elitismo religioso. Também incentiva a presença missionária junto às periferias urbanas e rurais, reconhecendo que a evangelização passa pelo encontro com aqueles que sofrem e pela escuta de suas histórias.

Além disso, o texto convoca a Igreja a fortalecer as pastorais sociais — como a Pastoral da Criança, a Pastoral da Saúde, a Pastoral Carcerária, a Comissão Pastoral da Terra, o Conselho Indigenista Missionário e tantas outras iniciativas — como expressões concretas da revelação do Reino entre os pequeninos. Por fim, recorda que toda ação evangelizadora deve estar comprometida com a promoção da justiça, da paz, da defesa da Casa Comum e da dignidade humana.

Conclusão

Mateus 11,25-27 revela um dos aspectos mais belos do Evangelho: Deus não se deixa aprisionar pelos centros de poder, pelos privilégios ou pela autossuficiência humana. Seu Reino floresce entre os pequeninos, aqueles que permanecem disponíveis para acolher sua Palavra e transformar a realidade segundo a lógica do amor.

A Teologia Latino-Americana reconhece nessa passagem a confirmação da opção preferencial pelos pobres. Não se trata de uma escolha excludente, mas da manifestação da pedagogia divina, que começa pelos mais vulneráveis para anunciar a todos um caminho de justiça, reconciliação e vida plena.

A Leitura Popular da Bíblia mostra que a revelação continua acontecendo nas comunidades simples, nas periferias urbanas, nos assentamentos, nas aldeias indígenas, nos quilombos, nas ocupações e em tantos outros espaços onde homens e mulheres mantêm viva a esperança apesar das dificuldades. É nesses lugares que o Evangelho ganha corpo, inspira resistência e fortalece a construção de relações mais fraternas.

Seguir Jesus, portanto, significa aprender a olhar o mundo a partir dos pequeninos. Quem deseja conhecer verdadeiramente o Pai deve caminhar com aqueles que o próprio Cristo chamou de bem-aventurados, colaborando para que a Igreja seja cada vez mais uma comunidade pobre com os pobres, servidora da vida, comprometida com a justiça do Reino e sinal da esperança de Deus na história.


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