“Eu quero, isto sim, é ver brotar o direito como água e correr a justiça como riacho que não seca.”
(Am 5,24)
Por Pe. Hermes A. Fernandes
A política como expressão do amor ao próximo
À medida que o Brasil se aproxima das eleições de 2026, torna-se urgente recuperar uma verdade frequentemente esquecida: a política é uma das mais elevadas formas de serviço ao bem comum. Infelizmente, décadas de escândalos, polarizações, discursos de ódio e interesses particulares produziram um profundo desencanto na população. Muitos passaram a enxergar a política apenas como espaço de corrupção, privilégios e disputas pelo poder.
Entretanto, a tradição bíblica e a Teologia Latino-Americana convidam-nos a olhar para a política de maneira diferente. Ela não é, em sua essência, um problema; ela é uma dimensão indispensável da vida humana em sociedade. Quando orientada pela ética e pela justiça, torna-se instrumento de libertação, promoção da dignidade humana e construção da paz.
O reencantamento da política começa justamente quando ela deixa de ser compreendida como mera disputa eleitoral para ser reconhecida como serviço ao povo.
O Deus da vida e a opção pelos pobres
Desde o Êxodo, Deus revela-se como aquele que escuta o clamor dos oprimidos (Ex 3,7-8). Os profetas denunciam governantes injustos que exploram os pobres e acumulam riquezas à custa do sofrimento do povo (Am 5,11-15; Is 10,1-2; Mq 3,1-4). Essa tradição alcança sua plenitude em Jesus de Nazaré, que inaugura sua missão anunciando a Boa Nova aos pobres, a libertação dos cativos e a restauração da dignidade dos excluídos (Lc 4,16-21).
A Teologia Latino-Americana compreendeu profundamente essa dimensão da Revelação. A chamada “opção preferencial pelos pobres”, assumida pelo episcopado latino-americano desde Medellín (1968), não significa exclusão de ninguém, mas um critério evangélico para discernir a presença do Reino de Deus na história.
Nesse sentido, toda ação política deve ser constantemente interrogada:
- Quem são os beneficiados por determinada decisão?
- Ela promove a dignidade dos mais vulneráveis?
- Contribui para diminuir as desigualdades?
- Defende a vida em todas as suas dimensões?
Essas perguntas não pertencem a uma ideologia, mas ao próprio Evangelho.
A política como construção do bem comum
A Doutrina Social da Igreja afirma que o bem comum consiste no conjunto das condições sociais que permitem às pessoas e às comunidades desenvolverem plenamente sua dignidade. Isso significa que a política não pode reduzir-se à defesa de interesses particulares ou corporativos. Seu verdadeiro objetivo é promover condições para que toda pessoa tenha acesso à educação, saúde, moradia, trabalho digno, alimentação, segurança, cultura, liberdade religiosa e participação democrática.
Quando políticas públicas fortalecem esses direitos, tornam-se expressão concreta da justiça social.
Por outro lado, quando direitos fundamentais são fragilizados, especialmente daqueles que possuem menos recursos para defender-se, toda a sociedade sofre as consequências.
A ética como fundamento da vida pública
O desencanto político nasce, em grande parte, da ruptura entre poder e ética.
A Bíblia insiste que quem exerce autoridade deve fazê-lo como servidor (Mc 10,42-45). Jesus rompe completamente com a lógica da dominação: governar significa servir.
A Teologia Latino-Americana retoma essa perspectiva ao afirmar que toda autoridade deve ser exercida em favor da vida.
Por isso, o discernimento ético permanece essencial na participação política. A honestidade administrativa, a transparência, a responsabilidade com os recursos públicos, o combate à corrupção, o respeito às instituições democráticas e a promoção da justiça são elementos indispensáveis para qualquer projeto comprometido com o bem comum.
Mais do que promessas eleitorais, importa considerar a coerência entre discurso e prática, a capacidade de diálogo, o respeito à dignidade humana e o compromisso efetivo com a vida da população.
Os direitos sociais como expressão da dignidade humana
A Constituição brasileira reconhece diversos direitos sociais que expressam exigências fundamentais da dignidade da pessoa humana.
Na perspectiva cristã, esses direitos não podem ser compreendidos apenas como concessões do Estado, mas como exigências da própria justiça.
A Teologia Latino-Americana insiste que fé e vida não podem ser separadas. Defender políticas que garantam condições dignas de existência significa colaborar com o projeto libertador de Deus.
Quando milhões de pessoas enfrentam fome, desemprego, exclusão, violência ou ausência de acesso a serviços essenciais, a missão evangelizadora também é interpelada.
Como recordava Dom Hélder Câmara: “Quando dou comida aos pobres, chamam-me de santo. Quando pergunto por que eles são pobres, chamam-me de comunista.”
A provocação permanece atual: a fé cristã não se limita à assistência; ela também convida à transformação das estruturas que produzem exclusão.
Reencantar a política é reconstruir a esperança
A descrença generalizada na política favorece justamente aqueles que desejam uma sociedade menos participativa.
A democracia necessita de cidadãos conscientes, críticos e comprometidos.
Reencantar a política significa recuperar a esperança de que mudanças são possíveis por meio da participação responsável da sociedade.
Isso implica:
- cultivar uma consciência ética antes das eleições;
- buscar informações confiáveis sobre propostas e trajetórias públicas;
- rejeitar discursos que promovam violência, desinformação ou desumanização;
- valorizar o diálogo e o respeito entre pessoas com diferentes posições;
- acompanhar e fiscalizar a atuação dos representantes eleitos durante todo o mandato.
O voto não encerra a participação política; ele inaugura uma responsabilidade contínua.
A missão das comunidades cristãs
As comunidades eclesiais são chamadas a formar consciências, não a relativizar o senso crítico, alienando a liberdade dos fiéis. Inspiradas pela Leitura Popular da Bíblia, podem favorecer espaços de reflexão comunitária onde a Palavra de Deus dialogue com a realidade concreta das famílias, dos trabalhadores, dos povos indígenas, das populações negras, dos migrantes, das mulheres, dos jovens e de todos aqueles que vivem situações de vulnerabilidade.
Mais do que indicar preferências partidárias, a missão pastoral consiste em ajudar os cristãos a discernirem, à luz do Evangelho, quais valores devem orientar sua presença na sociedade. E, como disse Dom Pedro Casaldáliga, “na dúvida, fique do lado dos pobres”.
Uma Igreja comprometida com o Reino de Deus não permanece indiferente diante da pobreza, da exclusão ou das injustiças. Ela anuncia a esperança e promove a participação cidadã responsável, sempre respeitando a autonomia da esfera política e a liberdade de consciência dos fiéis.
Conclusão
As eleições de 2026 representam mais um momento significativo da vida democrática brasileira. Independentemente das preferências políticas de cada cidadão, permanece o desafio de fortalecer uma cultura política fundada na ética, na responsabilidade pública, no respeito à dignidade humana e na busca do bem comum.
À luz da Teologia Latino-Americana, participar da vida política significa reconhecer que a fé cristã possui uma dimensão histórica e social. O seguimento de Jesus impulsiona os cristãos a promoverem justiça, solidariedade e cuidado com os mais vulneráveis, contribuindo para uma sociedade em que a dignidade de cada pessoa seja respeitada.
Reencantar a política é recuperar a convicção de que ela pode voltar a ser espaço de serviço, diálogo e construção coletiva. Quando orientada pela ética, pela participação cidadã e pelo compromisso com o bem comum, a política torna-se um caminho privilegiado para promover a justiça e fortalecer a esperança de um país mais fraterno, inclusivo e solidário.
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