Por Pe. Hermes A. Fernandes
Introdução
Poucas obras da literatura universal expressam com tanta profundidade o drama da exclusão social quanto Os Miseráveis, de Victor Hugo. Publicado em 1862, o romance denuncia as estruturas sociais que transformam pessoas pobres em criminosos, mulheres vulneráveis em mercadorias, crianças em vítimas da exploração e a justiça em instrumento de opressão.
Muito mais do que narrar histórias individuais, Victor Hugo revela uma sociedade construída sobre desigualdades que negam a dignidade humana. Seus personagens tornam-se símbolos de milhões de pessoas marginalizadas por sistemas econômicos, políticos e jurídicos que produzem pobreza e exclusão.
Essa denúncia encontra profunda sintonia com o projeto do Reino de Deus anunciado por Jesus nos Evangelhos. A Teologia Latino-Americana, especialmente a partir de Gustavo Gutiérrez, Jon Sobrino, José Comblin, Ignacio Ellacuría e das Conferências Episcopais Latino-Americanas, compreende que Deus manifesta sua predileção pelos pobres porque estes são as primeiras vítimas das estruturas de pecado.
A Leitura Popular da Bíblia, por sua vez, ensina que a Palavra de Deus deve ser lida a partir da vida concreta do povo. A Bíblia deixa de ser apenas objeto de estudo para tornar-se instrumento de libertação. É exatamente essa perspectiva que permite aproximar os dramas de Os Miseráveis da prática libertadora de Jesus.
1. Jean Valjean: quando a sociedade nega a possibilidade de conversão
Jean Valjean é preso por roubar um pedaço de pão para alimentar os sobrinhos famintos. O delito inicial, relativamente pequeno, transforma-se em quase vinte anos de prisão devido às tentativas de fuga. Ao sair do cárcere, encontra portas fechadas, desprezo e desconfiança.
Sua identidade passa a ser determinada por seu passado. A sociedade lhe diz continuamente: “Você nunca deixará de ser um criminoso.” Entretanto, o encontro com o bispo Myriel rompe essa lógica.
Ao ser surpreendido roubando os objetos de prata da casa episcopal, o bispo não apenas o perdoa como lhe entrega também os castiçais de prata, afirmando que aqueles bens lhe pertenciam. Esse gesto muda toda a vida de Jean Valjean.
Na perspectiva da Teologia Latino-Americana, esse episódio recorda que a misericórdia possui força histórica transformadora. A graça não apenas consola; ela recria pessoas e inaugura novas possibilidades de existência.
Jesus realiza exatamente isso.
Os Evangelhos estão repletos de encontros semelhantes:
- Zaqueu (Lc 19,1-10);
- a mulher considerada pecadora (Lc 7,36-50);
- o ladrão crucificado (Lc 23,39-43).
Em nenhum desses casos Jesus reduz a pessoa ao seu pecado. Ele vê uma humanidade que pode florescer.
A Leitura Popular da Bíblia insiste que Deus nunca identifica a pessoa com sua queda, mas com sua possibilidade de vida.
2. Javert: a idolatria da lei sem misericórdia
O inspetor Javert talvez seja um dos personagens mais complexos da literatura. Ele não é corrupto. Não é violento por prazer. Não busca enriquecimento. Seu problema é outro. Ele absolutiza a lei. Para Javert, a lei possui sempre razão. Não importa a história das pessoas. Não importa a fome. Não importa a pobreza. Não importa o sofrimento. Importa apenas a norma.
Sua lógica lembra os fariseus que aparecem frequentemente nos Evangelhos. Jesus enfrenta constantemente uma religiosidade incapaz de enxergar pessoas. Em Mateus 12, por exemplo, Jesus coloca o ser humano acima das interpretações legalistas do sábado. Em João 8, diante da mulher acusada de adultério, Jesus desmonta uma justiça baseada apenas na punição. Na parábola do Bom Samaritano (Lc 10,25-37), sacerdote e levita obedecem às normas religiosas enquanto ignoram o homem caído. O samaritano rompe a lógica legalista. Age segundo a compaixão.
A Teologia Latino-Americana compreende que leis e instituições existem para defender a vida. Quando passam a proteger privilégios em detrimento dos pobres, deixam de expressar a vontade de Deus.
Javert representa justamente essa idolatria institucional. Seu drama consiste em descobrir que a misericórdia desmonta toda sua compreensão do mundo.
3. Fantine: o rosto feminino da pobreza
Fantine talvez seja a personagem mais profundamente crucificada do romance. Abandonada pelo companheiro, perde o emprego por ser mãe solteira. Sem renda, vende seus cabelos. Depois vende seus dentes. Finalmente vende seu corpo.
Cada etapa representa uma sociedade que transforma pobreza em culpa. Ela não escolhe essa condição. É empurrada para ela.
A Teologia Latino-Americana identifica nesse processo o funcionamento das estruturas de pecado. Não basta responsabilizar indivíduos. É necessário perguntar:
- Quem produz a pobreza?
- Quem lucra com ela?
- Quem permanece indiferente diante dela?
Nos Evangelhos, Jesus manifesta constante proximidade das mulheres marginalizadas.
- A hemorroíssa.
- A viúva de Naim.
- A mulher siro-fenícia.
- Maria Madalena.
- A samaritana.
- A mulher encurvada.
Todas elas revelam que o Reino de Deus devolve dignidade às pessoas descartadas. Fantine encontra em Jean Valjean aquilo que deveria encontrar na própria sociedade: compaixão.
4. Cosette: a infância roubada
Cosette representa milhões de crianças exploradas. Ainda pequena torna-se empregada doméstica da família Thénardier. Recebe violência física. Violência psicológica. Negligência. Humilhação. Sua infância lhe é roubada.
Jesus demonstra especial atenção às crianças. Quando os discípulos procuram afastá-las, Jesus declara: “Deixai vir a mim as crianças.” Mais ainda: afirma que o Reino pertence a elas.
Na América Latina, milhões de crianças continuam vivendo realidade semelhante:
- trabalho infantil,
- violência,
- abandono,
- fome,
- ausência de educação,
- exploração sexual.
A Leitura Popular da Bíblia recorda que toda criança explorada continua sendo um clamor dirigido ao coração de Deus.
5. Os pobres não são problema: são lugar da presença de Deus
Talvez a maior contribuição da Teologia Latino-Americana seja afirmar que os pobres não são apenas destinatários da evangelização. Eles tornam-se sujeitos da história da salvação. É exatamente isso que aparece em Mateus 25.
Jesus identifica-se completamente com os marginalizados. “Eu estava com fome…” “Eu estava preso…” “Eu era estrangeiro…” Não se trata apenas de ajudar pobres. Trata-se de encontrar Cristo neles.
Jean Valjean aprende isso lentamente. Cada gesto de solidariedade o torna mais humano. Sua santidade não nasce da fuga do mundo. Nasce do compromisso com quem sofre.
6. A conversão de Jean Valjean e o discipulado de Jesus
Depois do encontro com o bispo, Jean Valjean nunca mais vive para si. Toda sua existência torna-se serviço. Protege Cosette. Ajuda trabalhadores. Socorre desconhecidos. Arrisca a própria vida inúmeras vezes. Essa transformação recorda o discipulado missionário. Jesus nunca separa fé de compromisso. Segui-lo significa colocar a própria vida a serviço dos últimos.
A espiritualidade latino-americana insiste que a verdadeira conversão sempre produz compromisso histórico. Não existe santidade desligada da justiça.
7. A cruz continua presente nas periferias
Os Miseráveis permanece atual porque suas personagens continuam existindo. Jean Valjean está nas pessoas que deixam o sistema prisional e nunca conseguem reconstruir suas vidas. Fantine vive nas mulheres vítimas da pobreza estrutural. Cosette aparece nas crianças exploradas. Javert manifesta-se em instituições incapazes de reconhecer a dignidade humana. Os Thénardier sobrevivem nas estruturas que lucram com a miséria. A cruz continua sendo carregada pelos pobres. Todavia, também continua existindo a esperança da ressurreição.
A Teologia Latino-Americana insiste que Deus age na história através das comunidades organizadas, das pastorais sociais, das Comunidades Eclesiais de Base, dos movimentos populares e de todos aqueles e aquelas que fazem da solidariedade um compromisso permanente.
Conclusão
Ler Os Miseráveis à luz dos Evangelhos é reconhecer que Victor Hugo denuncia uma sociedade que ainda permanece entre nós. A marginalização dos personagens não decorre apenas de escolhas individuais, mas de estruturas que criminalizam a pobreza, exploram os vulneráveis e absolutizam leis sem compaixão.
A Teologia Latino-Americana ajuda-nos a perceber que Jesus não veio apenas oferecer consolo espiritual. Seu anúncio do Reino questiona toda organização social que transforma seres humanos em descartáveis. A Leitura Popular da Bíblia convida as comunidades a reconhecerem, nos rostos de Jean Valjean, Fantine, Cosette e tantos outros “miseráveis” de hoje, a presença do próprio Cristo crucificado.
Ao mesmo tempo, a obra de Victor Hugo recorda que a misericórdia possui força revolucionária. O gesto do bispo Myriel para com Jean Valjean encontra eco na prática de Jesus, que rompe os ciclos de condenação e inaugura caminhos de reconciliação e vida nova. A verdadeira justiça do Evangelho não se reduz ao cumprimento frio da lei, mas manifesta-se como restauração da dignidade humana.
Num mundo ainda marcado por desigualdades, encarceramento em massa, violência contra as mulheres, exploração infantil e exclusão social, Os Miseráveis permanece como um apelo profético. Assim como Jesus caminhou entre os pobres, os doentes, os pecadores e os excluídos, também hoje a Igreja é chamada a caminhar ao lado daqueles que a sociedade insiste em invisibilizar. Somente uma comunidade que une fé, misericórdia e compromisso com a justiça poderá testemunhar, de modo credível, o Reino de Deus anunciado por Cristo.
Bibliografia
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CNBB. Documento 105 – Cristãos Leigos e Leigas na Igreja e na Sociedade.
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CELAM. Documento de Puebla (1979).
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