Por Karina Moreti
Poucos personagens da Sagrada Escritura despertam sentimentos tão intensos quanto Judas Iscariotes. Seu nome atravessou os séculos como símbolo da traição, da infidelidade e da ruptura. Basta pronunciá-lo para que a memória cristã imediatamente recorde as trinta moedas de prata, o beijo no jardim do Getsêmani e a entrega de Jesus às autoridades religiosas. A força dessas imagens foi tão grande que, pouco a pouco, a vida inteira desse discípulo acabou sendo reduzida ao seu momento mais sombrio. A memória cristã conservou a imagem do traidor. Os Evangelhos, porém, preservaram a história de um discípulo que caminhou com Jesus, ouviu sua palavra e participou da missão confiada aos Doze.
Essa constatação nos convida a um exercício de honestidade diante da Palavra de Deus. Os Evangelhos jamais escondem a gravidade da escolha de Judas, tampouco procuram justificar a entrega do Mestre. Ao mesmo tempo, não permitem que sua identidade seja compreendida apenas a partir daquela noite. Antes de conduzir os guardas ao Getsêmani, Judas percorreu as estradas da Galileia com Jesus, ouviu suas parábolas, contemplou seus sinais, participou da missão confiada aos Doze e experimentou, como os demais discípulos, a alegria de anunciar que o Reino de Deus estava próximo (Mc 6,7-13). Sua história começou com um chamado, e não com uma traição. Esquecer esse detalhe significa perder de vista uma das verdades mais profundas da vocação cristã.
Talvez por isso escrever sobre Judas seja um dos maiores desafios da leitura bíblica. A tentação de transformá-lo apenas no “traidor” é tão grande que facilmente deixamos de enxergar o ser humano por trás do personagem. A Escritura, entretanto, nunca reduz uma pessoa ao pior instante de sua existência. Abraão conheceu o medo, Moisés experimentou a insegurança, Davi abusou do poder, Elias desejou a morte, Pedro negou o Mestre e Tomé duvidou da ressurreição. Nenhum deles foi definido exclusivamente por sua queda. A Bíblia prefere narrar suas histórias completas, revelando que a graça de Deus encontra homens e mulheres em sua realidade concreta. Judas faz parte dessa mesma história. Sua vida não pode ser lida para alimentar curiosidade sobre um traidor, mas para recordar que toda vocação permanece envolvida pelo mistério da liberdade humana.
Os Evangelhos oferecem poucas informações sobre a vida de Judas antes de seu encontro com Jesus. Sabemos que era filho de Simão (cf. Jo 6,71; 13,2) e que carregava o sobrenome Iscariotes. A origem desse nome continua sendo objeto de estudo entre os pesquisadores. A interpretação mais aceita afirma que deriva da expressão hebraica ‘Ish-Qeriyyot’, que significa “homem de Queriote”, uma pequena cidade situada ao sul da Judeia (cf. Js 15,25). Se essa hipótese estiver correta, Judas seria o único integrante dos Doze proveniente da Judeia, enquanto os demais discípulos eram galileus. Essa informação, embora não altere o sentido da narrativa evangélica, revela que Jesus reuniu ao seu redor pessoas de diferentes regiões, sensibilidades e experiências de vida. O grupo apostólico não era formado por homens iguais entre si, mas por pessoas que traziam consigo maneiras distintas de compreender a esperança de Israel.
Ainda assim, a biografia de Judas permanece envolta em silêncio. Os Evangelhos não registram sua profissão, sua idade, sua condição econômica nem as circunstâncias de sua vida antes do encontro com Jesus. Além da referência a Simão como seu pai, pouco sabemos sobre sua família ou sobre os caminhos que o conduziram até o Mestre. Esse silêncio não diminui sua importância. Ao contrário, revela uma característica presente em muitas narrativas bíblicas: Deus não chama pessoas porque possuem histórias extraordinárias aos olhos humanos, mas entra na vida de pessoas concretas e transforma seus caminhos. Como aconteceu com tantos homens e mulheres da Escritura, a história de Judas passou a ser marcada pelo encontro com Cristo.
O tempo em que Judas viveu era marcado por profundas tensões políticas, econômicas e religiosas. A Palestina encontrava-se sob o domínio do Império Romano, que mantinha sua autoridade por meio da presença militar, da cobrança de impostos e da colaboração das elites locais. A ocupação romana não representava apenas uma submissão política, mas também aprofundava desigualdades sociais. Muitos camponeses haviam perdido suas terras por causa das dívidas, tornando-se trabalhadores diaristas ou dependentes de grandes proprietários. A concentração das terras nas mãos de poucos, os pesados tributos e a colaboração de parte da aristocracia sacerdotal aumentavam o sofrimento de grande parte da população. Nesse cenário de fragilidade e esperança, crescia a expectativa pela intervenção de Deus na história. As antigas promessas dos profetas alimentavam o sonho de um tempo novo, no qual o Senhor restauraria a dignidade de seu povo, faria justiça aos pobres e estabeleceria definitivamente o seu Reino (Is 11,1-9; Mq 4,1-4).
Entretanto, nem todos imaginavam esse Reino da mesma maneira. Alguns esperavam um rei semelhante a Davi, capaz de derrotar os inimigos de Israel e restaurar sua independência política. Outros aguardavam um sacerdote que purificasse o culto do Templo. Havia ainda quem acreditasse que Deus interviria diretamente na história por meio de um julgamento definitivo. Foi nesse universo de expectativas que Jesus iniciou sua missão, anunciando que o Reino de Deus já estava próximo (cf. Mc 1,14-15). Sua proposta, porém, surpreendeu até mesmo aqueles que decidiram segui-lo. Em vez de convocar um exército, reuniu pescadores, camponeses e trabalhadores simples. Em lugar da violência, proclamou o amor aos inimigos (cf. Mt 5,43-48). Em vez de disputar o poder com Roma, aproximou-se dos pobres, dos pecadores, das mulheres, dos doentes e de todos aqueles que haviam sido colocados à margem da sociedade. O Messias esperado por muitos não correspondia ao Messias que caminhava pelas estradas da Galileia.
A escolha de Judas acontece no mesmo momento em que Jesus chama os demais apóstolos. Marcos narra que, depois de subir à montanha para rezar, Jesus “Jesus subiu ao monte e chamou os que desejava escolher. E foram até ele” (Mc 3,13). Lucas acrescenta que essa decisão foi precedida por uma noite inteira de oração (cf. Lc 6,12-13), revelando que a eleição dos Doze não nasceu de um impulso momentâneo, mas de um profundo discernimento realizado diante do Pai. Entre Pedro e André, Tiago e João, Filipe, Bartolomeu, Mateus, Tomé e os demais, encontrava-se também Judas Iscariotes. Seu nome aparece na mesma lista, recebeu a mesma convocação e participou da mesma missão. Nada nos Evangelhos permite imaginar que sua vocação tenha sido menor ou menos autêntica do que a dos outros discípulos.
Esse detalhe possui enorme importância para a compreensão da história de Judas. Jesus não escolheu um traidor; escolheu um discípulo. Essa afirmação não diminui a gravidade da escolha posterior de Judas, mas impede que sua história seja reduzida ao seu pior momento. O chamado não foi um equívoco nem um acidente da história da salvação. Ao convocar Judas, Cristo fez o que sempre fez ao longo de todo o Evangelho: chamou uma pessoa livre, capaz de responder ao amor de Deus e igualmente capaz de rejeitá-lo. A vocação nunca elimina a liberdade humana. Deus convida, sustenta, acompanha e fortalece, porém jamais substitui a resposta daquele que foi chamado. Judas foi amado antes de ser lembrado pela traição, e essa verdade impede que sua história seja reduzida ao seu desfecho.
Assim, Judas passa a integrar o grupo dos Doze. Seu nome aparece em todas as listas apostólicas (cf. Mt 10,2-4; Mc 3,16-19; Lc 6,14-16; At 1,13), sinal de que sua presença nunca foi escondida pela Igreja nascente, ainda que sua lembrança permanecesse dolorosa. Ele recebeu a mesma confiança oferecida aos demais discípulos e participou da mesma missão. Sua presença entre os Doze revela que Jesus não chamou pessoas perfeitas, mas homens reais, capazes de responder ao amor de Deus com liberdade.
Jesus não chamou os Doze para serem apenas ouvintes de seus ensinamentos. Desde o início, quis que partilhassem sua própria missão. O Evangelho de Marcos afirma que Ele os constituiu “para que estivessem com ele e para enviá-los a pregar, com autoridade para expulsar os demônios” (Mc 3,14-15). O discipulado unia intimidade e missão. Permanecer com o Mestre era a condição para anunciar o Reino; aprender seu modo de viver era o caminho para conduzir outras pessoas até Deus. Cada discípulo precisava, primeiro, deixar-se formar pelo próprio Cristo. Judas participou dessa mesma caminhada. Percorreu as mesmas estradas, ouviu os mesmos discursos, contemplou os mesmos sinais e experimentou o mesmo amor que Jesus oferecia a todos os que o acompanhavam. Também foi enviado, como os demais, de dois em dois às aldeias da Galileia para anunciar a conversão, cuidar dos enfermos e permanecer próximo das famílias que acolhessem a Boa Nova (cf. Mc 6,7-13; Mt 10,5-15; Lc 9,1-6). Nada nos Evangelhos indica que tenha fracassado nessa tarefa ou despertado qualquer suspeita entre os companheiros. Pelo contrário, tudo leva a compreender que exerceu seu ministério como qualquer outro integrante do grupo apostólico. Esse detalhe merece atenção, porque recorda que o seguimento de Jesus não se esgota em um momento isolado. A fidelidade se constrói ao longo da caminhada, entre luzes e fragilidades, em um percurso que exige constante conversão do coração.
O Evangelho de João acrescenta uma informação importante ao afirmar que Judas era responsável pela bolsa comum do grupo (cf. Jo 12,6; 13,29). Embora o evangelista releia esse dado a partir dos acontecimentos da paixão, o próprio fato de exercer essa função revela que lhe havia sido confiada uma responsabilidade relevante. O grupo itinerante de Jesus era sustentado pela partilha de bens oferecida por homens e mulheres que acolhiam sua missão (cf. Lc 8,1-3), e administrar esses recursos significava zelar pela vida cotidiana da comunidade. Não se tratava de uma tarefa secundária, mas de um serviço que exigia responsabilidade e credibilidade diante dos demais discípulos. Esse detalhe torna ainda mais doloroso o desfecho de sua história. Apesar do caminho que lentamente o conduziria ao rompimento, Jesus não lhe retirou essa responsabilidade. O Mestre continuou oferecendo confiança àquele discípulo até o fim, mantendo aberta a possibilidade da fidelidade e da conversão.
Ao narrar a unção de Jesus em Betânia, João apresenta um episódio que permite entrever as tensões que já atravessavam o coração de Judas (cf. Jo 12,1-8). Enquanto Maria derrama um perfume de nardo puro sobre os pés de Jesus, realizando um gesto de amor e reconhecimento, Judas protesta dizendo que aquele perfume poderia ter sido vendido por trezentos denários e o dinheiro distribuído aos pobres. O evangelista observa que essa preocupação não nascia de verdadeira solidariedade, mas porque Judas administrava a bolsa comum e dela retirava o que nela era colocado (cf. Jo 12,6). Essa interpretação pertence ao olhar retrospectivo de João, escrito muitos anos depois da paixão. Ainda assim, a cena revela um contraste profundo entre duas maneiras de compreender a presença de Jesus. Maria responde com generosidade gratuita; Judas mede o gesto pela lógica da utilidade. O Reino de Deus, porém, não pode ser compreendido apenas pelos critérios da eficiência ou do cálculo. Há momentos em que o amor ultrapassa qualquer medida humana.
O episódio de Betânia talvez permita entrever uma tensão interior que os Evangelhos nunca apresentam de maneira totalmente explícita, mas que pode ser percebida ao longo da caminhada de Judas. A Escritura não revela plenamente as motivações que conduziram aquele discípulo à decisão de entregar Jesus. É possível que, como outros seguidores de seu tempo, Judas tenha enfrentado o conflito entre suas próprias expectativas sobre o Messias e o caminho anunciado por Jesus. Muitos esperavam uma intervenção de Deus marcada pela força e pela restauração política de Israel. Jesus, porém, anunciava um Reino que não se estabelecia pela violência ou pelo poder das armas, mas pelo serviço, pela misericórdia, pela proximidade com os pobres e pela entrega da própria vida (cf. Mt 5,43-48; Jo 18,36). Os Evangelhos não afirmam que essa diferença de expectativas tenha sido a causa da traição. Ainda assim, ela ajuda a compreender como o seguimento de Jesus exigia dos discípulos uma profunda transformação de suas próprias esperanças.
Seguir Jesus nunca significou apenas caminhar ao seu lado. Significava permitir que Ele transformasse a maneira de compreender Deus, o próximo e a própria missão. Essa exigência alcançou Pedro, que precisou abandonar o sonho de um Messias triunfante (cf. Mc 8,32-33); alcançou os filhos de Zebedeu, que desejavam os primeiros lugares no Reino (cf. Mc 10,35-45); alcançou todos os discípulos, que discutiam entre si quem era o maior (cf. Lc 22,24-27). Judas não estava sozinho em suas incompreensões. A diferença é que, enquanto os demais se deixaram corrigir pelo Mestre, sua história parece revelar um afastamento progressivo, silencioso e cada vez mais profundo.
Esse episódio não autoriza concluir que Judas tenha decidido trair Jesus naquele instante. A Escritura é muito mais cuidadosa do que nossas conclusões apressadas. O que ela sugere é um processo interior. Ninguém abandona uma vocação de um dia para o outro. As grandes rupturas costumam nascer de pequenos afastamentos que, quando não são reconhecidos, crescem silenciosamente até dominar o coração. O Evangelho deixa entrever que Judas continuava caminhando com Jesus, escutando sua palavra e participando da vida comunitária. Exteriormente, permanecia entre os discípulos; interiormente, porém, algo já começava a se romper.
Essa observação possui enorme importância para a vida cristã. A fidelidade ao chamado não se rompe apenas por grandes decisões. Muitas vezes ela se enfraquece quando o coração deixa de cultivar a escuta da Palavra, quando a lógica do serviço cede lugar ao desejo de poder, quando o seguimento de Jesus passa a ser medido pelos próprios interesses. A história de Judas não foi preservada pelos Evangelhos para alimentar julgamentos contra um homem do passado. Ela permanece viva porque recorda a cada discípulo que ninguém está dispensado da vigilância espiritual. Permanecer próximo de Jesus fisicamente nunca foi suficiente. Era necessário permitir que sua Palavra transformasse continuamente a própria vida.
Enquanto formava os Doze para a missão, Jesus também procurava prepará-los para compreender um Reino que contrariava as expectativas de seu tempo. Repetidas vezes anunciou que subiria a Jerusalém, seria rejeitado pelas autoridades, padeceria, morreria e ressuscitaria ao terceiro dia (cf. Mc 8,31; 9,30-32; 10,32-34). A mensagem, porém, permanecia difícil de acolher. Pedro chegou a repreender o Mestre por falar em sofrimento, ouvindo como resposta uma das palavras mais severas do Evangelho: “Você não pensa as coisas de Deus, mas as coisas dos homens” (Mc 8,33). Essa dificuldade não era exclusiva de Pedro. Atravessava todo o grupo apostólico. Os discípulos esperavam um Messias vitorioso, capaz de restaurar Israel; Jesus, porém, revelava um caminho de serviço, entrega e amor até a cruz. Compreender esse Reino exigia abandonar antigas expectativas para acolher a lógica de Deus.
À medida que Jerusalém se aproximava, tornava-se cada vez mais evidente que Jesus e as autoridades religiosas caminhavam para um confronto inevitável. Sua denúncia contra a exploração dos pobres, sua liberdade diante das tradições e sua autoridade para interpretar a Lei despertavam crescente hostilidade entre os chefes do povo. Os sumos sacerdotes e os anciãos buscavam uma oportunidade para prendê-lo longe da multidão, evitando qualquer reação popular (cf. Mt 26,3-5). Foi nesse contexto que Judas procurou os chefes dos sacerdotes e perguntou: “Quanto me dareis se eu o entregar?” (Mt 26,15). O Evangelho de Mateus afirma que lhe pesaram trinta moedas de prata, valor que recorda a indenização paga por um escravo ferido (cf. Ex 21,32) e evoca a profecia de Zacarias sobre o pastor rejeitado pelo seu próprio povo (cf. Zc 11,12-13). O evangelista não pretende apenas informar uma quantia; deseja mostrar a profundidade do contraste entre o valor que Deus atribui ao ser humano e o preço pelo qual o Filho é negociado.
Não há necessidade de colocar Mateus e Lucas em oposição. Cada comunidade organiza a narrativa segundo sua intenção teológica, destacando aspectos diferentes do mesmo acontecimento.
Ao longo da história, muitos procuraram descobrir a razão exata que levou Judas a tomar essa decisão. Alguns destacaram a questão do dinheiro; outros consideraram a possibilidade de uma profunda incompreensão sobre a missão de Jesus. Lucas ainda apresenta a dimensão do mistério do mal ao afirmar que “Satanás entrou em Judas, chamado Iscariotes” (Lc 22,3). Nenhuma dessas perspectivas, isoladamente, esgota o drama apresentado pelos Evangelhos. A Escritura conserva certo silêncio sobre as motivações mais profundas daquele discípulo.
Mesmo conhecendo o que estava para acontecer, Jesus não afastou Judas da mesa da ceia. Esse detalhe revela uma das mais belas expressões da misericórdia divina em todo o Novo Testamento. Naquela noite, o Mestre reuniu os Doze para celebrar a Páscoa, partiu o pão, ofereceu o cálice e anunciou a nova aliança que seria selada com seu sangue (cf. Mt 26,26-29; Mc 14,22-25; Lc 22,14-20). O Evangelho de João acrescenta um gesto que resume toda a missão de Jesus: levantando-se da mesa, cingiu-se com uma toalha e começou a lavar os pés dos discípulos (cf. Jo 13,1-15). Entre aqueles pés estavam também os de Judas. Aquele que em poucas horas conduziria os guardas ao Getsêmani recebeu o mesmo cuidado, a mesma água e o mesmo serviço humilde dispensados aos demais. Jesus não amou Judas menos do que amou Pedro, João ou Tiago. Sua misericórdia não fazia distinção entre os discípulos.
Durante a refeição, Jesus declarou com tristeza: “Eu lhes garanto: um de vocês vai me trair” (Mt 26,21). A reação dos discípulos é surpreendente. Nenhum deles aponta imediatamente para Judas. Um após outro começam a perguntar: “Senhor, será que sou eu?” (Mt 26,22). Essa cena revela que Judas não era visto pelos companheiros como um estranho infiltrado entre os Doze. Até aquele momento permanecia plenamente integrado ao grupo. Cada discípulo reconhece, antes de suspeitar do outro, a própria fragilidade. Essa atitude constitui uma das mais belas lições do Evangelho. Diante da possibilidade da infidelidade, os discípulos não procuram primeiro um culpado; examinam o próprio coração.
João relata que Jesus ofereceu a Judas um pedaço de pão molhado antes de sua saída da ceia (cf. Jo 13,26). Na cultura semita, esse gesto expressava honra, proximidade e amizade. Mesmo sabendo que a traição estava em curso, Jesus não rompeu a comunhão por iniciativa própria. Até o último instante, Judas continuou sendo tratado como alguém amado. Talvez nenhuma página do Evangelho manifeste de forma tão profunda a gratuidade do amor de Deus. Jesus conhece as sombras presentes no coração humano e, ainda assim, continua oferecendo oportunidades de conversão.
Depois da ceia, Jesus dirigiu-se ao jardim do Getsêmani para rezar. Enquanto enfrentava a angústia daquela noite, Judas aproximou-se conduzindo um grupo armado enviado pelos chefes dos sacerdotes (Mt 26,47-49). O sinal combinado era um beijo. Na cultura judaica do século I, o beijo representava muito mais do que um simples cumprimento. Era um gesto de acolhida, respeito, amizade e confiança. Justamente por isso, a escolha desse sinal torna a cena ainda mais dolorosa. Judas utiliza o gesto da comunhão para identificar aquele que decidiu entregar. O símbolo da amizade transforma-se, naquele instante, no instrumento da ruptura.
A resposta de Jesus, porém, rompe toda expectativa humana. Mateus conserva uma das palavras mais surpreendentes de toda a narrativa da paixão: “Amigo, faça logo o que tem a fazer” (Mt 26,50). Mesmo conhecendo a decisão de Judas, Jesus não o humilha diante da multidão, não o amaldiçoa nem o reduz ao pecado que está cometendo. Continua dirigindo-se a ele com a mesma dignidade que sempre reconheceu em cada pessoa. Há um detalhe que frequentemente passa despercebido nessa cena: aquele que ensinou seus discípulos a amar os inimigos (cf. Mt 5,44) permanece fiel ao próprio ensinamento justamente na hora em que é traído. O Mestre não permite que a infidelidade do discípulo determine sua maneira de amar. Até o último instante, continua oferecendo comunhão àquele que escolheu romper a comunhão. A fidelidade de Jesus revela que o amor de Deus nunca é condicionado pela resposta humana; permanece firme mesmo quando o ser humano se afasta dele.
A prisão de Jesus marcou o desfecho de um caminho que vinha sendo construído silenciosamente. O discípulo que caminhara pelas estradas da Galileia, ouvira as parábolas do Reino, testemunhara curas, repartira o pão com o Mestre e participara da missão dos Doze agora assistia à condenação daquele a quem havia seguido. Somente então os Evangelhos permitem entrever toda a dimensão de sua tragédia. A entrega de Jesus não produziu a vitória que talvez imaginasse alcançar, mas o peso insuportável de uma consciência ferida.
Quando percebeu que Jesus havia sido condenado, Judas foi tomado por um profundo remorso. Somente Mateus conserva esse momento de sua história. O discípulo retorna ao Templo levando consigo as trinta moedas de prata e declara diante dos chefes dos sacerdotes e dos anciãos: “Pequei, entregando à morte sangue inocente” (Mt 27,4). A confissão é breve, porém revela que Judas reconhece a gravidade de sua escolha. Aqueles que haviam se servido de sua decisão, entretanto, recusam qualquer responsabilidade. “E o que temos nós com isso? O problema é seu” (Mt 27,4), respondem as autoridades religiosas. Aquele que imaginava encontrar alguma resposta de seus antigos aliados descobre que o poder jamais oferece acolhida a quem já não lhe é útil. O discípulo permanece sozinho diante do peso de sua própria consciência.
Mateus relata que Judas lançou as moedas no Templo e retirou-se dali, indo enforcar-se (cf. Mt 27,5). O dinheiro da traição, considerado impuro por estar ligado ao sangue de um inocente, não podia ser colocado no tesouro sagrado. Os sacerdotes decidiram utilizá-lo para comprar um campo destinado ao sepultamento de estrangeiros. Desde então, afirma o evangelista, aquele lugar passou a ser conhecido como “Campo de Sangue” (Mt 27,8). A narrativa recorda novamente a profecia de Zacarias (cf. Zc 11,12-13), mostrando que até mesmo a rejeição do Pastor fazia parte do dramático caminho percorrido pelo povo de Deus.
O livro dos Atos dos Apóstolos apresenta o mesmo acontecimento sob outra perspectiva. No discurso de Pedro que antecede a escolha de Matias para ocupar o lugar deixado por Judas, afirma-se que o discípulo adquiriu um campo com o preço de sua injustiça e que ali caiu, rompendo-se pelo meio, de modo que suas entranhas se derramaram. O autor acrescenta que aquele lugar ficou conhecido em Jerusalém, na língua do povo, como Haqel Dama, isto é, “Campo de Sangue” (cf. At 1,18-19). Longe de constituírem simples relatos jornalísticos, Mateus e Lucas escrevem a partir de preocupações teológicas distintas. Mateus concentra sua atenção no remorso de Judas e na responsabilidade das autoridades religiosas. Lucas destaca as consequências públicas da ruptura vivida pelo discípulo e a necessidade de completar novamente o número dos Doze antes do início da missão da Igreja. Ambos concordam em um ponto essencial: a escolha de Judas conduziu a um desfecho profundamente doloroso.
O nome Haqel Dama merece uma atenção especial. Proveniente do aramaico, idioma falado pelo povo da Palestina no tempo de Jesus, significa literalmente “Campo de Sangue”. A tradição preservou essa denominação porque aquele lugar permaneceu associado ao dinheiro da traição e à morte de Judas. Não se trata apenas de uma indicação geográfica. Na linguagem bíblica, os lugares frequentemente conservam a memória dos acontecimentos que neles se realizaram. O Campo de Sangue tornou-se um símbolo da ruptura provocada pela violência, pela injustiça e pela rejeição do Justo. A paisagem guardava aquilo que a história jamais deveria esquecer.
Entretanto, seria um equívoco concluir que o centro dessa narrativa está na maneira como Judas morreu. Os Evangelhos não demonstram curiosidade pelos detalhes de sua morte. O interesse da Escritura permanece voltado para uma realidade muito mais profunda: o drama de um discípulo que deixou de responder ao chamado que havia transformado sua vida. O remorso de Judas mostra que ele reconheceu a gravidade de seu ato. Sua tragédia, porém, parece ter consistido em acreditar que o pecado era maior do que a misericórdia de Deus. O desespero fechou-lhe os olhos para a possibilidade de recomeçar.
Nesse ponto, a comparação com Pedro torna-se inevitável. Os dois receberam o mesmo chamado, caminharam ao lado do mesmo Mestre, ouviram os mesmos ensinamentos, participaram da mesma missão e estiveram presentes na mesma ceia. Ambos experimentaram a própria fragilidade nas horas decisivas da paixão. Judas entregou Jesus às autoridades; Pedro afirmou por três vezes que não o conhecia (cf. Mt 26,69-75). Nenhum dos dois correspondeu plenamente à confiança que havia recebido. Ambos caíram diante do peso de seus limites. A diferença entre eles não está na intensidade do amor de Cristo, pois o Mestre permaneceu fiel aos dois até o fim. A diferença encontra-se na resposta dada depois da queda. Pedro chorou amargamente (cf. Lc 22,62), permaneceu junto da comunidade e deixou-se reencontrar pelo Ressuscitado às margens do lago da Galileia, onde ouviu novamente a pergunta: “você me ama” (cf. Jo 21,15-19). Judas, ao contrário, permitiu que o desespero tivesse a última palavra. Enquanto Pedro deixou que seu pecado fosse alcançado pela misericórdia, Judas permaneceu fechado diante da possibilidade do recomeço. Não foi a gravidade da queda que distinguiu os dois discípulos, mas a confiança — ou a falta dela — no amor que Jesus jamais deixou de oferecer.
Talvez seja essa a maior advertência deixada por sua história. O seguimento de Jesus não se desfaz apenas por causa de um pecado. Ela corre verdadeiro perigo quando o discípulo deixa de confiar na graça que sempre oferece um caminho de retorno. Ao longo de toda a Escritura, Deus se revela como aquele que levanta quem caiu, fortalece quem se tornou fraco e reabre horizontes para quem acredita ter perdido tudo. A história de Judas permanece dolorosa porque recorda que a liberdade humana pode fechar-se até mesmo diante desse amor.
Por isso, reduzir Judas simplesmente ao “traidor” significa empobrecer o testemunho dos Evangelhos. Sua vida permanece como um espelho diante da comunidade cristã. Ela recorda que ninguém está imune às seduções do poder, do orgulho ou da autossuficiência. Recorda igualmente que ninguém permanece fiel apenas por estar fisicamente próximo de Jesus. A perseverança nasce de uma resposta renovada a cada dia à sua Palavra. É preciso renovar diariamente a decisão de permanecer com Ele, permitindo que sua Palavra transforme o coração e conduza cada passo da caminhada. O discípulo não é reconhecido apenas pelo dia em que respondeu ao chamado, mas pela fidelidade com que continua respondendo a esse chamado ao longo de toda a vida.
Judas Iscariotes permanece como um dos maiores mistérios da história da salvação. Os Evangelhos não procuram satisfazer nossa curiosidade nem autorizam julgamentos que pertencem somente a Deus. Preferem conservar diante de nós o rosto de um discípulo chamado, amado e livre. Sua história recorda que nenhuma vocação está imune às fragilidades humanas e que toda fidelidade precisa ser renovada a cada dia. Ao mesmo tempo, anuncia que a misericórdia de Deus nunca deixa de permanecer de braços abertos. Diante desse discípulo incompreendido, a pergunta deixa de ser apenas quem foi Judas. A verdadeira pergunta é outra: como tenho respondido, hoje, ao chamado daquele que continua passando por nossas estradas e dizendo: “Siga-me” (Mt 9,9)?

Karina Moreti: é bacharel em Teologia pela Universidade Católica Dom Bosco (2022) e em Comunicação Social – Jornalismo, pelo Centro Universitário Sagrado Coração (2007). Atualmente é jornalista do Blog Eclesialidade & Missão, e assessora movimentos eclesiais. Tem experiência na área de jornalismo impresso, jornalismo televisivo, jornalismo radiofônico e em jornalismo nas redes sociais e blogs. Em teologia, dedica-se ao estudo das Sagradas Escrituras.
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