O Sacramento da Unção dos Enfermos à luz da Teologia Latino-americana

Por Pe. Hermes A. Fernandes

Introdução

O Sacramento da Unção dos Enfermos ocupa um lugar privilegiado na missão evangelizadora da Igreja, pois manifesta a ternura de Deus diante da fragilidade humana. Muito além de um rito reservado ao momento da morte, este sacramento celebra a presença do Cristo sofredor e ressuscitado junto daqueles que experimentam a enfermidade, a dor e os limites da existência.

A Teologia Latino-americana, especialmente a partir da Conferência de Medellín (1968), aprofundada por Puebla (1979), Santo Domingo (1992) e Aparecida (2007), convida a compreender este sacramento em uma perspectiva integral. A doença não pode ser interpretada apenas como um problema individual, mas também como consequência das estruturas sociais, econômicas, políticas e culturais que produzem pobreza, exclusão e morte.

Assim, a Unção dos Enfermos torna-se um sinal profético da Igreja samaritana, que se aproxima dos feridos da história para anunciar que Deus continua caminhando com os crucificados do mundo.

1. Fundamentação Bíblica

Jesus, médico das pessoas e da sociedade

Os Evangelhos apresentam Jesus constantemente junto aos doentes. Curar faz parte de sua missão messiânica.

“Percorria Jesus toda a Galileia… curando toda enfermidade e toda doença entre o povo” (Mt 4,23).

Essas curas possuem uma dimensão muito mais profunda do que a simples recuperação física. Elas representam a chegada do Reino de Deus, onde toda forma de sofrimento começa a ser vencida.

Jesus cura:

  • os leprosos excluídos;
  • os cegos marginalizados;
  • os paralíticos abandonados;
  • as mulheres consideradas impuras;
  • os pobres esquecidos pela sociedade.

Em todos esses casos, a cura significa também reinserção social, recuperação da dignidade e restauração das relações humanas.

Na perspectiva latino-americana, as curas de Jesus denunciam as estruturas que produzem sofrimento e exclusão.

A compaixão como expressão do Reino

Os Evangelhos utilizam frequentemente o verbo grego splagchnízomai, que significa “ser profundamente movido pelas entranhas”. Jesus sente compaixão. Essa compaixão não é mero sentimento. Ela produz ação. A cura nasce da misericórdia.

É justamente essa misericórdia que continua sendo celebrada no Sacramento da Unção dos Enfermos.

Tiago 5,14-15

O principal fundamento sacramental encontra-se na Carta de Tiago:

“Alguém dentre vós está doente? Chame os presbíteros da Igreja; estes façam oração sobre ele, ungindo-o com óleo em nome do Senhor.”

Observam-se alguns elementos fundamentais:

  • a iniciativa parte do enfermo;
  • toda a comunidade participa;
  • o presbítero representa a Igreja;
  • a oração acompanha a unção;
  • Deus é quem realiza a salvação.

O texto fala de cura, perdão dos pecados e fortalecimento espiritual. Não há oposição entre medicina e fé. Ambas cooperam na promoção da vida.

2. A Evolução Histórica do Sacramento

Nos primeiros séculos, a unção era amplamente celebrada como sacramento de cura.

Ao longo da Idade Média, porém, passou progressivamente a ser identificada como “Extrema-Unção”, isto é, um rito administrado quase exclusivamente aos moribundos.

O Concílio Vaticano II recuperou sua compreensão original.

A Constituição Sacrosanctum Concilium afirma que este sacramento destina-se aos fiéis que começam a correr perigo por doença grave ou velhice.

O Catecismo da Igreja Católica reforça essa compreensão ao afirmar que a Unção pode ser recebida sempre que o fiel enfrenta uma enfermidade séria ou agravamento significativo de sua condição. Essa renovação litúrgica encontra grande sintonia com a Teologia Latino-americana, pois devolve ao sacramento seu caráter de celebração da vida, da esperança e do cuidado comunitário.

3. A Doença na Perspectiva Latino-americana

A Teologia da Latino-americana amplia a compreensão da enfermidade. Nem toda doença é apenas biológica. Existem enfermidades produzidas pelas estruturas psíquicas e sociais.

Pode-se falar em:

  • doenças provocadas pela fome;
  • doenças decorrentes da falta de saneamento;
  • doenças relacionadas ao trabalho precário;
  • sofrimento psíquico causado pela exclusão;
  • abandono de idosos;
  • dependência química;
  • violência doméstica;
  • racismo;
  • destruição ambiental.

Nesse sentido, a doença possui também causas históricas.

Como lembra Gustavo Gutiérrez, Deus deseja uma libertação integral, que alcança todas as dimensões da existência humana.

A enfermidade torna-se, muitas vezes, consequência do pecado social.

4. A Unção dos Enfermos como Sacramento da Esperança

A esperança cristã não consiste em negar a dor. Consiste em descobrir que Deus permanece presente dentro dela.

A unção proclama que:

  • ninguém sofre sozinho;
  • Deus não abandona seus filhos;
  • a comunidade permanece próxima;
  • Cristo compartilha o sofrimento humano.

O óleo torna-se sinal da presença consoladora do Espírito Santo. Não elimina automaticamente a doença. Fortalece a pessoa para atravessar sua enfermidade.

A esperança sacramental transforma-se em resistência diante da cultura do descarte.

5. O Bom Samaritano como Ícone da Unção

A parábola do Bom Samaritano (Lc 10,25-37) constitui uma das melhores interpretações da Unção dos Enfermos.

O samaritano:

  • aproxima-se;
  • toca;
  • derrama óleo;
  • trata as feridas;
  • paga as despesas;
  • permanece responsável pela recuperação.

A Igreja é chamada a fazer o mesmo. Celebrar a unção sem assumir o cuidado cotidiano seria reduzir o sacramento a um rito vazio.

A pastoral da saúde torna-se continuação da ação sacramental.

6. Dimensão Comunitária do Sacramento

A enfermidade frequentemente produz isolamento. O sacramento rompe esse isolamento. A Igreja reúne-se ao redor do enfermo. O ministro ordenado representa toda a comunidade. A oração manifesta que ninguém pertence apenas a si mesmo. A pessoa enferma continua sendo membro ativo do Corpo de Cristo. Mesmo fragilizado, o doente continua evangelizando por seu testemunho de fé.

7. A Opção Preferencial pelos Pobres

Na América Latina, a maioria das enfermidades graves encontra-se profundamente relacionada à pobreza.

Milhões de pessoas sofrem:

  • ausência de hospitais;
  • dificuldade de acesso a medicamentos;
  • falta de atendimento especializado;
  • abandono social;
  • violência urbana;
  • insegurança alimentar.

Celebrar a Unção dos Enfermos exige denunciar essas realidades. Não basta administrar o sacramento. É necessário transformar as condições que produzem sofrimento.

A unção torna-se denúncia profética contra toda estrutura que mata.

8. A Pastoral da Saúde como Continuação do Sacramento

A pastoral da saúde realiza concretamente aquilo que o sacramento anuncia.

  • Ela visita.
  • Escuta.
  • Consola.
  • Leva a Eucaristia.
  • Promove campanhas de prevenção.
  • Defende políticas públicas.
  • Luta pelo Sistema Único de Saúde.
  • Promove saúde integral.

A Teologia Latino-americana insiste que evangelizar também significa cuidar da vida. Não existe separação entre espiritualidade e compromisso social.

9. A Espiritualidade da Unção

O sacramento conduz à espiritualidade da confiança.

O enfermo descobre que:

  • continua amado por Deus;
  • sua dignidade permanece intacta;
  • sua vida possui sentido;
  • sua dor não tem a última palavra;
  • Cristo ressuscitado caminha ao seu lado.

A espiritualidade da unção não glorifica o sofrimento. Procura vencê-lo mediante a solidariedade, a medicina, a ciência, a oração e a fraternidade.

Conclusão

A Teologia Latino-americana oferece uma leitura profundamente renovadora do Sacramento da Unção dos Enfermos. Ela supera uma visão restrita, centrada apenas na preparação para a morte, e resgata seu significado como sacramento da vida, da esperança e da solidariedade. Ao ungir os enfermos, a Igreja anuncia que Deus permanece presente nas dores da humanidade e que a comunidade cristã é chamada a tornar visível essa presença por meio do cuidado concreto.

A unção, nessa perspectiva, torna-se um gesto profundamente pascal. Ela une a cruz e a ressurreição, o sofrimento e a esperança, a oração e a ação. Ao mesmo tempo em que conforta a pessoa enferma, interpela a sociedade e a própria Igreja a combater as causas estruturais da doença, da pobreza e da exclusão.

Uma autêntica pastoral da Unção dos Enfermos não se limita à celebração sacramental. Ela se prolonga na defesa do direito universal à saúde, no fortalecimento do Sistema Único de Saúde, na promoção de políticas públicas que garantam atendimento digno aos mais vulneráveis e na valorização dos profissionais da saúde. Assim, o óleo da unção torna-se símbolo de uma Igreja que, inspirada pelo Bom Samaritano, unge as feridas do povo com misericórdia e compromisso transformador.

À luz da Teologia Latino-americana, a Unção dos Enfermos revela que o Reino de Deus começa sempre onde a vida é defendida, a dignidade é restaurada e a esperança é reacendida. Celebrar este sacramento é proclamar que Cristo continua presente nos leitos dos hospitais, nas casas dos enfermos, nas periferias, nos asilos, nas comunidades tradicionais e em todos os lugares onde seres humanos lutam pela vida. A Igreja, ungida pelo Espírito, é chamada a ser sinal dessa presença libertadora, fazendo da compaixão um caminho de justiça, da solidariedade uma expressão da fé e do cuidado com os enfermos um testemunho concreto do Evangelho.


Colaborou: Verbo Filmes


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