Por Pe. Hermes A. Fernandes
Introdução
Para compreender a missão de Jesus de Nazaré é indispensável conhecer o contexto histórico em que ele viveu. Os Evangelhos não foram escritos em um vazio social. Pelo contrário, apresentam Jesus inserido em uma sociedade profundamente marcada pela dominação política romana, pela exploração econômica, por conflitos religiosos e por diversos movimentos populares que buscavam respostas para a crise vivida pelo povo.
A exegese moderna demonstra que o anúncio do Reino de Deus nasce justamente nesse contexto de sofrimento coletivo. A Teologia Latino-Americana, especialmente por meio da Leitura Popular da Bíblia, insiste que o texto bíblico deve ser interpretado levando em consideração a realidade histórica tanto dos primeiros ouvintes quanto das comunidades atuais. Assim como o povo da Palestina do século I enfrentava opressão, também os povos latino-americanos convivem com desigualdades estruturais, violência, concentração de renda e exclusão social.
Conhecer os movimentos religiosos, políticos e populares do tempo de Jesus ajuda a compreender melhor sua proposta e impede que sua mensagem seja reduzida a uma espiritualidade individualista.
1. A Palestina sob o domínio romano
Desde o ano 63 a.C., quando Pompeu conquistou Jerusalém, a Palestina passou a integrar o Império Romano. No tempo de Jesus, governavam inicialmente Herodes, o Grande, e posteriormente seus filhos, além dos procuradores romanos, entre eles Pôncio Pilatos.
Roma exercia seu poder por meio de:
- pesados impostos;
- presença militar permanente;
- repressão aos movimentos populares;
- alianças com as elites religiosas de Jerusalém.
A consequência era uma sociedade profundamente desigual.
A maioria da população era composta por:
- pequenos agricultores;
- pescadores;
- diaristas;
- artesãos;
- viúvas;
- órfãos;
- doentes;
- mendigos.
Muitos perdiam suas terras devido às dívidas e eram obrigados a trabalhar como empregados nas propriedades dos grandes proprietários.
A exegese social dos Evangelhos mostra que a pobreza presente nos textos bíblicos não era apenas consequência da falta de recursos naturais, mas resultado de um sistema político e econômico profundamente injusto.
É precisamente nesse cenário que Jesus anuncia: “Felizes os pobres, porque deles é o Reino de Deus” (Lc 6,20). Essa afirmação possui um evidente caráter histórico e político antes mesmo de sua dimensão espiritual.
2. Os principais movimentos religiosos
2.1 Os Fariseus
Os fariseus eram um movimento leigo surgido aproximadamente dois séculos antes de Cristo.
Características principais:
- rigorosa observância da Lei;
- valorização da tradição oral;
- crença na ressurreição;
- forte presença nas sinagogas;
- preocupação com a pureza religiosa.
A tradição cristã frequentemente os apresenta como adversários de Jesus. Entretanto, a exegese contemporânea mostra que essa imagem precisa ser relativizada.
Jesus compartilha com eles diversas crenças:
- ressurreição;
- existência dos anjos;
- importância da oração;
- esperança messiânica.
O conflito ocorre principalmente quando a observância da Lei passa a excluir os pequenos.
Na perspectiva latino-americana, esse conflito permanece atual sempre que normas religiosas se tornam mais importantes do que a dignidade humana.
2.2 Os Saduceus
Os saduceus pertenciam às famílias sacerdotais mais ricas.
Representavam:
- a aristocracia do Templo;
- grandes proprietários;
- colaboradores do poder romano.
Características:
- aceitavam apenas o Pentateuco;
- negavam a ressurreição;
- controlavam o culto do Templo;
- preservavam os próprios privilégios.
Jesus entra diversas vezes em conflito com esse grupo.
A expulsão dos vendedores do Templo (Mc 11) constitui um gesto profundamente simbólico contra um sistema religioso transformado em instrumento econômico.
A Teologia Latino-Americana identifica aqui uma crítica permanente às estruturas religiosas quando estas deixam de servir aos pobres e passam a servir ao poder.
2.3 Os Escribas
Eram especialistas na Lei de Moisés.
Exerciam funções como:
- intérpretes da Escritura;
- juristas;
- professores.
Nem todos pertenciam aos fariseus.
Sua autoridade derivava do conhecimento religioso. Jesus frequentemente denuncia o uso desse conhecimento para impor cargas insuportáveis ao povo. A crítica não é dirigida ao estudo da Lei, mas ao uso da religião como mecanismo de dominação.
2.4 Os Essênios
Os essênios formavam comunidades retiradas da sociedade.
Os manuscritos encontrados em Qumran revelam algumas características:
- vida comunitária;
- forte disciplina religiosa;
- expectativa do fim dos tempos;
- separação do restante do povo.
Embora não sejam mencionados diretamente nos Evangelhos, muitos estudiosos reconhecem semelhanças entre alguns aspectos de sua espiritualidade e a pregação de João Batista.
Jesus, entretanto, segue outro caminho.
Enquanto os essênios se afastam da sociedade, Jesus entra nas aldeias, visita casas, participa de refeições e convive com pecadores.
3. Os movimentos políticos
3.1 Os Herodianos
Os herodianos apoiavam a dinastia de Herodes.
Defendiam:
- colaboração com Roma;
- estabilidade política;
- manutenção da ordem estabelecida.
Os Evangelhos mostram que chegaram a unir-se aos fariseus para tentar eliminar Jesus (Mc 3,6).
3.2 Os Zelotas
Talvez o movimento político mais conhecido.
Defendiam:
- luta armada;
- independência nacional;
- expulsão dos romanos;
- revolução.
A revolta judaica de 66 d.C. teve forte participação desse grupo.
Um dos discípulos de Jesus é chamado Simão, o Zelota (Lc 6,15), indicando que pessoas provenientes desse movimento encontraram em Jesus um novo caminho. Entretanto, Jesus não assume a estratégia da violência. Sua proposta é profundamente transformadora, mas não militar.
3.3 Os Sicários
Eram uma ala radical dos zelotas. Realizavam atentados contra colaboradores do Império. Recebem esse nome pelo punhal (sica) que escondiam sob as vestes. Representavam uma forma extrema de resistência.
Jesus rejeita claramente essa lógica. Quando Pedro utiliza a espada no Getsêmani, Jesus responde: “Quem usa a espada pela espada morrerá.”
A libertação proposta por Jesus rompe tanto com a passividade quanto com a violência.
4. Os movimentos populares
Além dos grupos organizados, existiam movimentos populares de caráter messiânico.
Muitos líderes prometiam:
- libertação nacional;
- milagres;
- novo êxodo;
- restauração de Israel.
Diversos deles foram mortos pelos romanos. O próprio Jesus foi confundido com um desses líderes. Sua diferença consiste em anunciar um Reino cuja transformação começa entre os pobres, os doentes, os pecadores e os excluídos.
Seu movimento nasce nas periferias da Galileia, longe dos centros de poder.
5. O povo da terra
Um dos conceitos mais importantes para compreender os Evangelhos é o chamado “povo da terra”.
Eram:
- camponeses;
- pescadores;
- mulheres;
- trabalhadores;
- pessoas consideradas impuras;
- doentes;
- estrangeiros.
A elite religiosa frequentemente desprezava esse povo. Jesus faz exatamente o contrário. É entre eles que chama seus discípulos. É com eles que partilha a mesa. É deles que afirma: “Deles é o Reino de Deus.”
A Leitura Popular da Bíblia reconhece nesse dado histórico uma chave hermenêutica fundamental. Os pobres deixam de ser apenas destinatários da evangelização.
Tornam-se sujeitos da história da salvação.
6. A originalidade do movimento de Jesus
Jesus não pertence plenamente a nenhum dos grupos existentes. Ele dialoga com todos. Critica todos. Aprende com alguns. Rompe com outros.
Sua prática revela características inéditas.
a) Um Reino para os pobres
A prioridade de Jesus são os últimos. Sua missão começa afirmando: “O Espírito do Senhor está sobre mim… enviou-me para anunciar a Boa Nova aos pobres” (Lc 4,18).
b) Uma nova compreensão da Lei
A Lei existe para favorecer a vida. Nunca para destruir pessoas. “O sábado foi feito para o ser humano.”
c) Uma comunidade igualitária
Mulheres acompanham Jesus. Pecadores tornam-se discípulos. Publicanos tornam-se evangelizadores. Estrangeiros tornam-se exemplos de fé. Trata-se de uma profunda ruptura com a organização social da época.
d) Uma economia da partilha
A multiplicação dos pães mostra uma comunidade onde ninguém passa necessidade. Mais do que um milagre extraordinário, o episódio revela o projeto econômico do Reino: partilhar para que todos vivam.
7. Atualidade para a Teologia Latino-Americana
A Teologia Latino-Americana reconhece profundas semelhanças entre o contexto de Jesus e a realidade latino-americana.
Hoje também encontramos:
- concentração de riqueza;
- exclusão social;
- violência institucional;
- fundamentalismos religiosos;
- manipulação política da fé;
- criminalização dos movimentos populares.
Nesse contexto, a Leitura Popular da Bíblia pergunta: Quem ocupa hoje o lugar do povo da terra?
São:
- moradores das periferias;
- povos indígenas;
- comunidades quilombolas;
- trabalhadores precarizados;
- migrantes;
- população em situação de rua;
- mulheres vítimas da violência;
- juventudes excluídas;
- pessoas negras marcadas pelo racismo estrutural.
A opção preferencial pelos pobres, assumida pelas Conferências Episcopais de Medellín, Puebla, Santo Domingo, Aparecida e reafirmada pelo magistério do Papa Francisco, não constitui uma inovação moderna, mas o prolongamento histórico da prática de Jesus.
A missão da Igreja consiste em tornar presente esse Reino por meio da defesa da dignidade humana, da justiça social, da participação popular e da promoção da paz fundada na justiça.
Conclusão
Os movimentos religiosos, políticos e populares do tempo de Jesus revelam uma sociedade profundamente dividida entre poder e exclusão. Fariseus, saduceus, escribas, essênios, herodianos, zelotas e diversos movimentos messiânicos ofereciam respostas distintas para a crise vivida por Israel. Jesus conheceu essas correntes, dialogou com algumas e confrontou outras, mas não se deixou aprisionar por nenhuma delas.
Sua originalidade consistiu em inaugurar um movimento centrado no Reino de Deus, cuja força transformadora nasce da misericórdia, da justiça e da solidariedade. Em vez de reproduzir os mecanismos de dominação, Jesus reuniu uma comunidade formada por pobres, mulheres, trabalhadores, doentes, estrangeiros e pecadores, mostrando que os últimos são chamados a ocupar o centro do projeto divino.
À luz da Leitura Popular da Bíblia, essa memória histórica interpela as comunidades cristãs da América Latina a discernirem quais são, hoje, os “movimentos” que promovem a vida e quais reproduzem a exclusão. A fidelidade ao Evangelho exige uma Igreja capaz de dialogar criticamente com a realidade, denunciar estruturas injustas e caminhar ao lado dos pobres, não apenas como destinatários da ação pastoral, mas como protagonistas da construção do Reino de Deus na história. Assim, o seguimento de Jesus permanece inseparável do compromisso com a justiça, a fraternidade e a transformação das estruturas que negam a vida plena prometida por Deus.
Bibliografia
AGUIRRE, Rafael. A pesquisa dos Evangelhos Sinóticos. São Paulo: Paulinas, 1996.
COMBLIN, José. O Espírito Santo e a Libertação. Petrópolis: Vozes, 1988.
COMBLIN, José. Jesus, Enviado do Pai. Petrópolis: Vozes, 1995.
CROSSAN, John Dominic. O Jesus Histórico. Rio de Janeiro: Imago, 1994.
FABRIS, Rinaldo. Jesus de Nazaré: História e Interpretação. São Paulo: Loyola, 1988.
GUTIÉRREZ, Gustavo. Teologia da Libertação. Petrópolis: Vozes, 1975.
MESTERS, Carlos. Flor sem Defesa. Petrópolis: Vozes, 1983.
MESTERS, Carlos; OROFINO, Francisco. Leitura Popular da Bíblia. São Paulo: Paulus, 2007.
PIXLEY, Jorge. O Reino de Deus. Petrópolis: Vozes, 1986.
SCHIAVO, Luigi; SILVA, Valmor da. Jesus: História e Interpretação. São Paulo: Paulinas, 2000.
THEISSEN, Gerd; MERZ, Annette. O Jesus Histórico. São Paulo: Loyola, 2002.
Deixe um comentário