João 20,1-2.11-18: “Eu vi o Senhor!” — A Ressurreição como Esperança Libertadora na Perspectiva da Teologia Latino-Americana e da Leitura Popular da Bíblia
Por Pe. Hermes A. Fernandes
Introdução
A ressurreição de Jesus constitui o centro da fé cristã. No entanto, a Teologia Latino-americana insiste que a ressurreição não pode ser reduzida a uma verdade abstrata ou apenas espiritual. Ela representa a vitória definitiva da vida sobre todas as formas de morte, da justiça sobre a opressão, da esperança sobre o desespero.
Gustavo Gutiérrez afirma que a ressurreição é a confirmação histórica de que Deus toma partido das vítimas e rejeita definitivamente os projetos de morte. Jon Sobrino acrescenta que a fé pascal nasce quando se reconhece que Deus ressuscitou aquele que os poderes políticos e religiosos assassinaram.
Nesse sentido, João 20 não apresenta apenas uma experiência íntima de Maria Madalena, mas inaugura uma nova maneira de compreender a missão da Igreja: anunciar que a vida venceu a morte e que o Reino continua acontecendo na história.
Contexto histórico do Evangelho de João
O Evangelho foi escrito entre os anos 90 e 100 d.C., quando as comunidades joaninas enfrentavam graves conflitos.
Viviam:
- perseguição do Império Romano;
- expulsão das sinagogas;
- divisões internas;
- sofrimento pela morte de diversas lideranças.
A morte de Jesus parecia repetir-se continuamente na vida das comunidades. Era preciso responder uma pergunta: Onde está Jesus agora? A resposta joanina é surpreendente: Cristo continua vivo na comunidade que ama, serve e testemunha.
Estrutura do texto
A narrativa pode ser dividida em quatro movimentos:
1. O túmulo vazio (vv.1-2)
Maria encontra a pedra da porta do túmulo retirada. Ainda não compreende a ressurreição. Interpreta tudo como o roubo do corpo de Jesus.
2. O choro diante do túmulo (vv.11-13)
Maria permanece. Enquanto os discípulos retornam para casa, ela fica. É a permanência da discípula fiel.
3. O encontro com Jesus (vv.14-16)
Ela vê Jesus. Mas não o reconhece. Somente quando é chamada pelo nome: “Maria!”
A identidade nasce da relação.
4. A missão (vv.17-18)
Maria torna-se a primeira missionária da Ressurreição. Vai anunciar: “Eu vi o Senhor.”
A figura de Maria Madalena
Na tradição joanina, Maria ocupa um lugar absolutamente singular. Ela é:
- discípula fiel;
- mulher perseverante;
- primeira testemunha da Ressurreição;
- primeira enviada.
Não por acaso diversos autores a chamam de: “Apóstola dos Apóstolos”. Isso possui enorme importância. Numa sociedade patriarcal, Deus escolhe justamente uma mulher para inaugurar o anúncio pascal. João apresenta aqui uma profunda inversão das estruturas de poder. Na lógica de Deus, os últimos tornam-se os primeiros.
A pedra removida
O primeiro sinal é a pedra retirada. No simbolismo joanino, a pedra representa tudo aquilo que aprisiona a vida.
Pode significar:
- medo;
- pecado;
- violência;
- exclusão;
- opressão;
- desesperança.
A ressurreição começa quando as pedras começam a ser removidas. A pedra do túmulo continua sendo removida hoje sempre que alguém luta pela dignidade humana.
Maria permanece chorando
João insiste: “Maria ficou do lado de fora, chorando.” O verbo permanecer (ménein) é central no Quarto Evangelho. Permanecer significa continuar amando mesmo quando tudo parece perdido. A comunidade joanina aprende que a esperança nasce da perseverança.
O não reconhecimento de Jesus
Maria vê Jesus. Mas pensa tratar-se do jardineiro. Por quê? Porque o Ressuscitado não pode ser reconhecido apenas pelos olhos. Ele só pode ser reconhecido pela experiência do amor. Isso também acontece com os discípulos de Emaús (Lc 24). E conosco.
Frequentemente esperamos encontrar Cristo em lugares extraordinários. Enquanto isso, Ele continua presente:
- na periferia;
- na favela;
- nos povos indígenas;
- entre migrantes;
- nas comunidades tradicionais;
- junto aos trabalhadores explorados.
O chamado pelo nome
O ponto culminante da narrativa é simples. Jesus diz apenas: “Maria.” Ela responde: “Rabunni!”
O Bom Pastor conhece suas ovelhas pelo nome (Jo 10). O Ressuscitado não chama multidões. Chama pessoas concretas.
Na Bíblia, conhecer o nome significa reconhecer a dignidade. Deus não vê números. Vê pessoas.
“Não me retenhas”
Esta frase sempre provocou muitas interpretações. O verbo grego mē mou haptou pode ser traduzido como: “Não continues me segurando.” Jesus não está rejeitando Maria. Está ensinando que a relação mudou.
Agora sua presença acontecerá:
- na comunidade;
- na missão;
- no Espírito Santo;
- nos pobres;
- na Palavra.
A fé não consiste em possuir Cristo. Consiste em segui-lo.
A missão nasce da experiência
Maria torna-se missionária porque encontrou Jesus. Não anuncia uma doutrina. Anuncia uma experiência. “Ide dizer aos meus irmãos.” A missão nasce da alegria do encontro.
Leitura Popular da Bíblia
Quando as Comunidades Eclesiais de Base leem este texto, normalmente perguntam:
- Quem continua chorando hoje?
- Quem permanece diante dos túmulos?
- Quais pedras ainda precisam ser removidas?
- Onde o Ressuscitado continua sendo confundido com um simples jardineiro?
- Quem são as Marias Madalenas do nosso tempo?
São inúmeras:
- mães que perderam filhos para a violência;
- mulheres vítimas de feminicídio e de suas consequências familiares;
- trabalhadores explorados;
- pessoas em situação de rua;
- indígenas expulsos de seus territórios;
- quilombolas;
- migrantes;
- refugiados;
- idosos abandonados;
- jovens sem oportunidades.
A ressurreição acontece quando essas pessoas recuperam sua dignidade.
A Ressurreição na Teologia Latino-Americana
Jon Sobrino afirma que a ressurreição significa que Deus faz justiça às vítimas. Gustavo Gutiérrez insiste: A fé pascal exige compromisso histórico.
Não basta celebrar o Domingo da Ressurreição. É preciso ressuscitar os crucificados da história. A ressurreição não elimina a cruz. Transforma seu significado. A cruz deixa de ser derrota. Torna-se passagem para uma nova humanidade.
Dimensão sociotransformadora
O Ressuscitado continua aparecendo:
- onde uma comunidade organiza uma pastoral social;
- onde um povo conquista terra para viver com dignidade;
- onde uma criança volta à escola;
- onde uma mulher rompe o ciclo da violência;
- onde um dependente químico reencontra sentido para viver;
- onde uma família recupera sua esperança;
- onde a Casa Comum é defendida da devastação.
Toda ação que gera vida torna-se sinal da Páscoa.
Caminhos pastorais
A partir deste Evangelho, algumas práticas pastorais podem fortalecer uma Igreja comprometida com o Reino:
- Valorizar o protagonismo das mulheres, reconhecendo seus dons, ministérios e liderança nas comunidades, à semelhança de Maria Madalena, primeira anunciadora da Ressurreição.
- Fortalecer as Comunidades Eclesiais de Base e os círculos bíblicos, onde a Palavra é lida a partir da vida do povo e inspira compromisso comunitário.
- Cultivar uma pastoral da esperança, especialmente junto às famílias enlutadas, às vítimas da violência, aos doentes, às pessoas privadas de liberdade e às populações em situação de vulnerabilidade, testemunhando que Deus não abandona quem sofre.
- Assumir uma presença profética nas periferias existenciais e geográficas, reconhecendo o Cristo Ressuscitado nas pessoas empobrecidas, migrantes, indígenas, quilombolas, trabalhadores precarizados e em todos os que têm sua dignidade negada.
- Integrar a defesa da Casa Comum à espiritualidade pascal, compreendendo que a ressurreição inaugura uma nova criação e chama a Igreja a promover uma ecologia integral.
- Transformar a liturgia pascal em compromisso social, para que a celebração da vitória da vida sobre a morte se traduza em ações concretas de promoção da justiça, da paz e da solidariedade.
Conclusão
João 20,1-2.11-18 proclama que a ressurreição começa quando alguém permanece fiel junto aos lugares de sofrimento, escuta o chamado pessoal do Senhor e se deixa enviar em missão. Maria Madalena torna-se a primeira testemunha porque não abandona o túmulo, mas permanece buscando aquele que ama. O Ressuscitado revela-se não aos poderosos, mas a uma discípula cuja fidelidade vence o medo e o desânimo.
Na perspectiva da Teologia Latino-americana, essa narrativa anuncia que Deus continua fazendo surgir vida onde os sistemas de exclusão decretam morte. A Páscoa é a confirmação de que os crucificados da história não têm a última palavra; Deus permanece comprometido com sua libertação. A Leitura Popular da Bíblia convida as comunidades a reconhecer o Ressuscitado nos rostos dos pobres, das mulheres invisibilizadas, dos povos originários, dos migrantes, das vítimas da violência e de todos aqueles cuja dignidade é negada.
Assim, a profissão de fé de Maria — “Eu vi o Senhor!” (Jo 20,18) — deixa de ser apenas memória de um acontecimento passado para tornar-se compromisso presente. A Igreja é chamada a ser sinal da ressurreição quando remove as pedras da injustiça, acompanha os que choram, proclama a esperança e participa da construção de uma sociedade mais fraterna, justa e solidária. Celebrar a Páscoa é testemunhar, com palavras e ações, que a vida inaugurada por Cristo Ressuscitado continua transformando a história e antecipando, já no presente, os sinais do Reino de Deus.
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