“Onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome”: comunidade, reconciliação e justiça em Mt 18,15-20
Por Pe. Hermes A. Fernandes
Introdução
O Evangelho de Mateus 18,15-20 apresenta uma das passagens mais importantes do Novo Testamento para compreender a vida comunitária dos discípulos de Jesus. O texto fala de conflito, correção fraterna, discernimento comunitário, autoridade e oração. À primeira vista, poderia ser interpretado simplesmente como um conjunto de normas disciplinares destinadas a preservar a ordem interna da comunidade. Entretanto, uma leitura mais atenta, iluminada pela Leitura Popular da Bíblia e pela Teologia Latino-Americana, revela algo muito mais profundo: Jesus está formando uma comunidade capaz de enfrentar os conflitos sem reproduzir a lógica da violência, da exclusão, da vingança e da dominação.
O texto não apresenta uma comunidade idealizada, sem problemas. Pelo contrário, parte de uma realidade muito concreta: “Se o teu irmão pecar contra ti…” (Mt 18,15). A comunidade cristã nasce e cresce no meio das contradições humanas. Onde existem pessoas, existem conflitos. A questão fundamental, portanto, não é saber como construir uma comunidade sem conflitos, mas como lidar com os conflitos sem destruir as pessoas e sem permitir que a injustiça se torne normal.
Essa perspectiva possui enorme atualidade. Vivemos em sociedades marcadas pela polarização, pelo individualismo, pela violência, pelo discurso de ódio e pela exclusão social. Muitas vezes, também nossas comunidades cristãs experimentam divisões, disputas de poder, silenciamentos, autoritarismos e afastamento dos mais pobres.
Por isso, Mt 18,15-20 pode ser lido como um verdadeiro itinerário de reconciliação, responsabilidade comunitária e construção da justiça.
A pergunta que orientará nossa reflexão é simples e exigente: Como construir comunidades cristãs capazes de enfrentar o conflito, proteger os vulneráveis, restaurar relações e permanecer fiéis ao projeto de Jesus, especialmente junto aos pobres e excluídos?
1. O contexto do capítulo 18 de Mateus: uma comunidade que aprende a ser comunidade
Mt 18 constitui aquilo que muitos estudiosos chamam de “discurso comunitário” ou “discurso eclesial” de Mateus. O evangelista reúne ensinamentos de Jesus relacionados à vida daqueles que desejam segui-lo em comunidade.
O capítulo começa com uma pergunta: “Quem é o maior no Reino dos Céus?” (Mt 18,1).
Jesus responde colocando uma criança no centro (Mt 18,2-5). Depois adverte contra o escândalo dos pequenos (Mt 18,6-9), fala da busca da ovelha perdida (Mt 18,10-14), trata da correção fraterna (Mt 18,15-20) e, posteriormente, da necessidade do perdão (Mt 18,21-35).
Existe, portanto, uma unidade temática muito importante. Jesus está construindo uma comunidade na qual:
- os pequenos são valorizados;
- os vulneráveis são protegidos;
- quem se perde é procurado;
- os conflitos são enfrentados;
- a comunidade participa do discernimento;
- o perdão ocupa lugar central.
A correção fraterna de Mt 18,15-20 não pode ser separada desse contexto.
- Ela não é uma autorização para humilhar o outro.
- Ela não é uma legitimação do autoritarismo.
- Ela não é um mecanismo para expulsar pessoas inconvenientes.
Ela é parte de um projeto comunitário no qual a pessoa humana vale mais que o conflito e a reconciliação vale mais que a vingança.
2. “Se o teu irmão pecar contra ti”: o conflito faz parte da vida comunitária
Jesus começa: “Se o teu irmão pecar contra ti, vai procurá-lo em particular e mostra-lhe o erro” (Mt 18,15).
A primeira palavra que merece atenção é “irmão”. O conflito não é apresentado entre inimigos, mas entre irmãos. Isso significa que a comunidade cristã não elimina as diferenças, mas procura enfrentá-las a partir de uma nova lógica de relacionamento.
Na tradição bíblica, o termo “irmão” possui uma dimensão profundamente ética. O outro não é simplesmente um adversário. Ele pertence à mesma comunidade humana e espiritual. Essa perspectiva contrasta radicalmente com a cultura contemporânea da eliminação do adversário.
Nas redes sociais, na política, na vida institucional e até nas comunidades religiosas, frequentemente passamos rapidamente do desacordo à desqualificação da pessoa.
Jesus propõe outro caminho: não destruir o outro, mas procurar o outro.
O verbo utilizado por Mateus indica uma ação concreta de aproximação. O conflito não deve ser alimentado à distância.
Jesus não recomenda: “fale dele com os outros”. Não diz: “exponha-o publicamente”. Não diz: “espalhe sua culpa”. Diz: “vai procurá-lo em particular”. Existe aqui uma pedagogia profundamente humana.
3. “Vai procurá-lo em particular”: a ética da dignidade
A primeira etapa é privada. Isso possui enorme importância pastoral. Quando existe um conflito, a primeira preocupação de Jesus é preservar a dignidade da pessoa. A correção não deve transformar-se em espetáculo. A pessoa não pode ser reduzida ao seu erro. A comunidade não pode transformar a fragilidade humana em instrumento de humilhação.
A Teologia Latino-Americana ajuda-nos a perceber que essa preocupação com a dignidade está intimamente relacionada à opção pelos pobres.
O pobre não pode ser tratado como objeto de assistência. O marginalizado não pode ser reduzido à sua situação. O preso não pode ser identificado apenas com seu crime. O migrante não pode ser reduzido à sua condição jurídica. A pessoa em situação de rua não pode ser definida por sua pobreza.
A fé cristã olha para cada pessoa como alguém portador de dignidade. Por isso, uma pastoral inspirada em Mt 18 precisa perguntar: Como nossas comunidades tratam aqueles que erram? Criamos caminhos de restauração? Ou produzimos mecanismos de exclusão? Corrigimos para recuperar? Ou corrigimos para punir?
A pergunta é fundamental porque existem formas de “correção” que são, na verdade, práticas de violência.
4. “Se ele te ouvir, ganhaste o teu irmão”: a finalidade é recuperar, não vencer
A frase seguinte é decisiva: “Se ele te ouvir, ganhaste o teu irmão” (Mt 18,15).
Jesus não diz: “você ganhou a discussão”. Diz: “ganhaste o teu irmão”. Essa diferença é extraordinária. É recuperar a relação. A finalidade da correção cristã não é estabelecer quem venceu.
A comunidade cristã não deveria ser um espaço no qual as pessoas disputam permanentemente para provar quem está certo. Deve ser um espaço onde a verdade seja buscada com a finalidade de preservar a vida. Aqui encontramos uma importante convergência com a tradição profética.
Os profetas bíblicos denunciam a injustiça porque desejam a conversão do povo. A denúncia profética não é mera acusação. É um chamado à mudança.
A verdade, na Bíblia, possui uma finalidade libertadora. Por isso, a correção cristã precisa estar ligada à justiça.
Perdoar não significa negar a injustiça. Reconciliação não significa encobrir a violência. Amor não significa silêncio diante da opressão. Pelo contrário: justamente porque a vida do outro possui valor, é necessário enfrentar aquilo que destrói a vida.
5. Uma leitura popular: quem são hoje os “irmãos” que precisam ser ouvidos?
A Leitura Popular da Bíblia parte da vida concreta. A pergunta não é apenas: “O que o texto significava?” Mas também: “O que este texto está dizendo à nossa comunidade hoje?”
Quando uma comunidade lê Mt 18,15-20 a partir da vida dos pobres, novas perguntas surgem.
- Quem são aqueles que foram feridos dentro de nossas comunidades?
- Quem são aqueles que não conseguem falar?
- Quem são os que têm sua palavra sistematicamente desconsiderada?
- Quem são aqueles que abandonaram a Igreja porque não encontraram acolhida?
- Quem são aqueles que foram julgados por sua condição social?
- Quem são as mulheres que tiveram sua voz silenciada?
- Quem são os pobres que foram tratados como problema?
- Quem são os migrantes, indígenas, negros, moradores das periferias e pessoas socialmente marginalizadas que não encontram espaço para participar das decisões?
A Leitura Popular da Bíblia impede que o texto seja transformado em uma norma abstrata. Ela coloca a Palavra de Deus no meio da vida.
6. “Toma contigo mais uma ou duas pessoas”: a comunidade entra no processo
Jesus continua: “Se não te ouvir, toma contigo mais uma ou duas pessoas, para que toda questão seja decidida mediante o depoimento de duas ou três testemunhas” (Mt 18,16).
Mateus retoma aqui o princípio de Dt 19,15. O objetivo é impedir acusações arbitrárias. A comunidade não pode funcionar segundo rumores.
Não basta ouvir uma versão. Não basta uma autoridade declarar alguém culpado. É necessário discernimento. Essa dimensão é extremamente importante para a vida eclesial.
A comunidade cristã precisa desenvolver uma cultura do diálogo, da escuta e do discernimento.
- Não podemos construir relações comunitárias sobre fofocas.
- Não podemos tomar decisões importantes baseadas em informações não verificadas.
- Não podemos condenar pessoas sem escutá-las.
- Não podemos transformar suspeitas em sentenças.
A tradição bíblica apresenta uma pedagogia comunitária para lidar com conflitos. Primeiro, diálogo. Depois, testemunho. Finalmente, discernimento comunitário.
7. Uma crítica ao autoritarismo religioso
A partir da Teologia Latino-Americana, esse aspecto ganha uma dimensão crítica.
A Igreja não pode reproduzir estruturas autoritárias presentes na sociedade. Se o Evangelho deseja formar uma comunidade de irmãos e irmãs, não é coerente construir relações baseadas na concentração absoluta de poder. A autoridade cristã não existe para dominar. Existe para servir. Essa compreensão encontra fundamento no próprio Jesus, que coloca os pequenos no centro do capítulo 18.
A autoridade pastoral precisa ser exercida como serviço à comunhão, à verdade e à vida. Por isso, uma comunidade madura não é aquela em que ninguém questiona. É aquela em que todos podem falar sem medo. Não é aquela em que a autoridade sempre tem a última palavra. É aquela em que a autoridade sabe escutar. Não é aquela em que o pobre recebe ordens. É aquela em que o pobre participa do discernimento.
8. “Se ele não vos ouvir, comunica-o à comunidade”: o conflito torna-se responsabilidade coletiva
Jesus afirma: “Se ele não os ouvir, comunica o caso à comunidade” (Mt 18,17). O problema deixa de ser exclusivamente privado.
A comunidade inteira passa a ter responsabilidade. Aqui encontramos uma dimensão essencial para a Teologia Latino-Americana: a fé possui uma dimensão social.
Não existe uma espiritualidade cristã completamente desligada da vida concreta. Quando uma relação é destruída, a comunidade é afetada. Quando alguém é violentado, toda a comunidade é interpelada. Quando uma criança sofre fome, a Igreja não pode dizer que isso é apenas um problema familiar. Quando um trabalhador é explorado, a comunidade cristã não pode considerar que isso nada tem a ver com sua missão. Quando uma mulher sofre violência, quando uma população indígena é expulsa de seu território, quando uma pessoa negra é vítima de racismo, quando uma família é destruída pela pobreza, o Evangelho não pode permanecer indiferente.
A fé possui consequências sociais.
9. “Se nem mesmo à comunidade ele ouvir”: existe também a ruptura
Jesus acrescenta: “Se nem mesmo à comunidade ele ouvir, seja para ti como o pagão ou o publicano” (Mt 18,17).
Esta frase exige cuidado. Uma leitura superficial poderia utilizá-la para justificar exclusões definitivas. Mas isso seria contraditório com o próprio Evangelho de Mateus. Quem são os “pagãos” e os “publicanos” na prática de Jesus? São precisamente pessoas com quem Jesus se relaciona.
- Jesus come com publicanos.
- Jesus acolhe pessoas consideradas pecadoras.
- Jesus ultrapassa fronteiras religiosas e sociais.
Portanto, “tratar como pagão ou publicano” não significa necessariamente abandonar alguém à própria sorte. Pode significar reconhecer que a comunhão foi rompida e que existe uma situação que precisa ser enfrentada com seriedade. A comunidade não pode fingir que nada aconteceu. Há momentos em que a convivência precisa estabelecer limites. Isso é especialmente importante quando existem situações de abuso, violência ou exploração.
A misericórdia cristã não pode ser utilizada para proteger o agressor em detrimento da vítima.
10. Misericórdia e justiça caminham juntas
Aqui aparece uma questão pastoral de enorme importância. Durante muito tempo, em determinados contextos religiosos, falou-se de perdão de uma maneira que acabava responsabilizando a vítima.
- “Perdoe.”
- “Esqueça.”
- “Não provoque escândalo.”
- “Não fale disso.”
- Mas isso não corresponde à lógica do Evangelho.
O perdão cristão não pode ser instrumento para perpetuar estruturas de violência. A reconciliação verdadeira pressupõe verdade, justiça, responsabilidade e mudança. Por isso, uma Igreja comprometida com os pobres precisa desenvolver uma pastoral que saiba distinguir:
- perdão de impunidade;
- reconciliação de silêncio;
- misericórdia de conivência;
- amor de submissão;
- comunhão de cumplicidade.
A verdadeira misericórdia protege a vida.
11. “Tudo o que ligardes na terra será ligado no céu”: a responsabilidade da comunidade
Jesus continua: “Tudo o que ligardes na terra será ligado no céu, e tudo o que desligardes na terra será desligado no céu” (Mt 18,18). Essa expressão aparece também em Mt 16,19, relacionada à autoridade de Pedro. Aqui, porém, ela aparece no contexto comunitário. Isso significa que o discernimento da comunidade possui uma dimensão espiritual.
A comunidade participa da construção do Reino. Suas decisões não são indiferentes. A Igreja precisa perguntar permanentemente: Estamos ligando aquilo que Deus deseja ligar? Estamos desligando aquilo que Deus deseja libertar?
Uma comunidade pode “ligar” pessoas a estruturas de opressão ou pode “desligá-las” das correntes que as aprisionam. Pode reforçar preconceitos ou pode libertar. Pode reproduzir a exclusão ou pode construir acolhida. Pode legitimar a violência ou pode defender a vida.
Nesse sentido, a missão pastoral possui uma dimensão profundamente política — não no sentido partidário, mas no sentido bíblico de cuidar da vida coletiva.
12. A autoridade da comunidade precisa estar submetida ao Evangelho
A expressão “ligar e desligar” não pode ser interpretada como poder ilimitado. Nenhuma autoridade eclesial pode reivindicar para si uma espécie de soberania absoluta. A autoridade cristã está subordinada ao Evangelho. O critério é Jesus. E o Jesus de Mateus é aquele que coloca os pequenos no centro. É aquele que anuncia misericórdia. É aquele que cura. É aquele que acolhe. É aquele que denuncia a hipocrisia. É aquele que se identifica com os famintos, sedentos, estrangeiros, nus, enfermos e presos em Mt 25,31-46. Portanto, qualquer exercício de autoridade que humilhe os pequenos contradiz o espírito do Evangelho.
13. “Onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome”: a comunidade como lugar da presença de Jesus
Chegamos ao centro espiritual do texto: “Pois onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, eu estou aí no meio deles.]” (Mt 18,20). Esta frase é frequentemente utilizada para afirmar que Jesus está presente quando poucas pessoas se reúnem para rezar. Isso é verdadeiro. Mas o contexto permite perceber algo ainda mais profundo.
Jesus está falando de uma comunidade reunida para enfrentar conflitos, buscar a verdade, discernir e reconstruir relações. A presença de Cristo não está apenas na celebração litúrgica. Ela também se manifesta no processo comunitário de reconciliação.
- Jesus está no meio daqueles que procuram a verdade.
- Jesus está no meio daqueles que defendem a vítima.
- Jesus está no meio daqueles que procuram recuperar o irmão.
- Jesus está no meio daqueles que não desistem da comunidade.
- Jesus está no meio dos pequenos.
Jesus está no meio daqueles que lutam para que a dignidade humana seja respeitada.
14. A comunidade como espaço de resistência
A Teologia Latino-Americana acrescenta uma dimensão decisiva. Em contextos de pobreza e exclusão, reunir-se em nome de Jesus pode constituir uma forma de resistência.
As Comunidades Eclesiais de Base testemunharam isso de maneira muito concreta na história latino-americana. Homens e mulheres simples reuniram-se para ler a Bíblia e interpretar a própria vida à luz da Palavra. A Bíblia deixou de ser apenas um livro distante. Tornou-se Palavra viva no meio da comunidade. O Êxodo começou a falar da luta contra a opressão. Os profetas começaram a denunciar a injustiça. Jesus começou a ser reconhecido como aquele que anuncia libertação aos pobres. Atos dos Apóstolos tornou-se inspiração para comunidades solidárias.
E Mt 18 pode ser compreendido como uma pedagogia para construir comunidades capazes de resolver seus conflitos e proteger a vida.
15. Da Bíblia para a vida: a metodologia da Leitura Popular
A Leitura Popular da Bíblia propõe um movimento fundamental: vida → Bíblia → vida transformada.
Não começamos apenas com uma pergunta acadêmica. Começamos com a vida. Quais são os conflitos de nossa comunidade? Quem está sofrendo? Quem está sendo excluído? Quem não tem voz? Quem está sendo injustiçado? Depois vamos ao texto bíblico. O que Jesus diz diante dessa realidade? E finalmente retornamos à vida: o que precisamos transformar? Essa dinâmica impede que a Bíblia seja utilizada para justificar a realidade existente.
A Palavra de Deus passa a ser instrumento de discernimento e transformação.
16. A inter-relação com Mt 18,1-14
Embora o texto litúrgico seja Mt 18,15-20, ele só pode ser compreendido plenamente quando relacionado ao restante do capítulo.
Nos versículos anteriores, Jesus apresenta a criança como paradigma do Reino. Depois afirma: “Não desprezeis nenhum desses pequeninos.” (Mt 18,10). E apresenta a parábola da ovelha perdida. Isso ilumina Mt 18,15-20.
A correção fraterna existe para proteger a comunidade, mas também para não perder o irmão. O horizonte não é a exclusão. É a recuperação. Aquele que erra continua sendo alguém que deve ser procurado. Essa é a lógica do pastor que procura a ovelha.
É também a lógica do pai que acolhe. É a lógica do próprio Jesus.
17. A relação com Mt 18,21-35: a correção desemboca no perdão
Logo depois, Pedro pergunta: “Senhor, quantas vezes devo perdoar ao meu irmão?” (Mt 18,21). Jesus responde: “Não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete” (Mt 18,22).
A sequência é significativa. Primeiro: confrontar o conflito. Depois: buscar a reconciliação. Finalmente: perdoar. Isso demonstra que a correção fraterna não é uma pedagogia de punição. Ela pertence a uma pedagogia de misericórdia.
A comunidade cristã precisa aprender a dizer a verdade sem deixar de amar. Precisa aprender a denunciar a injustiça sem transformar o outro em inimigo absoluto. Precisa aprender a perdoar sem negar a responsabilidade.
18. O pobre como sujeito da comunidade
A Teologia Latino-Americana insiste em uma mudança fundamental de perspectiva.
- Não basta falar sobre os pobres.
- É necessário falar com os pobres.
- Não basta trabalhar pelos pobres.
- É necessário trabalhar com os pobres.
- Não basta oferecer assistência.
É preciso reconhecer os pobres como sujeitos históricos e eclesiais. Essa perspectiva transforma a leitura de Mt 18. Quando Jesus fala de comunidade, precisamos perguntar:
- Quem participa dessa comunidade?
- Quem toma as decisões?
- Quem ocupa os espaços de fala?
- Quem organiza as pastorais?
- Quem interpreta a realidade?
- Quem define as prioridades?
Se os pobres permanecem apenas como destinatários das ações pastorais, ainda não construímos plenamente uma Igreja comunitária. A opção pelos pobres exige participação.
19. Uma Igreja que sabe escutar
Mt 18,15-20 pode ser lido como um chamado à escuta. Primeiro, escuta-se o irmão. Depois, escuta-se com outras pessoas. Finalmente, escuta-se a comunidade. A comunidade cristã precisa recuperar a capacidade de escutar.
- Escutar o pobre.
- Escutar a mulher.
- Escutar o jovem.
- Escutar o idoso.
- Escutar o indígena.
- Escutar o migrante.
- Escutar o trabalhador.
- Escutar aqueles que estão afastados da Igreja.
- Escutar também aqueles que discordam de nós.
Uma Igreja que não sabe escutar corre o risco de falar muito sobre Deus sem conseguir ouvir aqueles aos quais Deus dirige sua Palavra.
20. Dimensão sociotransformadora: transformar conflitos em caminhos de justiça
O texto possui grande potencial para uma pastoral sociotransformadora. Podemos transformar Mt 18,15-20 em uma verdadeira pedagogia comunitária.
20.1 Criar círculos comunitários de escuta
As comunidades podem estabelecer espaços regulares para que as pessoas apresentem conflitos, necessidades e propostas.
Não se trata apenas de reuniões administrativas. Trata-se de criar espaços de escuta da vida.
20.2 Formar agentes para mediação de conflitos
As pastorais podem capacitar pessoas para atuar na mediação comunitária.
O objetivo não é simplesmente “resolver problemas”, mas restaurar relações.
20.3 Criar mecanismos de proteção dos vulneráveis
Uma comunidade inspirada no capítulo 18 precisa possuir procedimentos claros para enfrentar situações de violência e abuso.
O silêncio não pode ser confundido com prudência.
20.4 Fortalecer a participação dos pobres
Os pobres precisam participar das decisões pastorais. Não apenas receber benefícios. Sua experiência deve contribuir para o discernimento da comunidade.
20.5 Desenvolver uma cultura de diálogo
As comunidades podem promover rodas de conversa sobre temas que provocam divisão social:
- pobreza;
- racismo;
- violência;
- migração;
- questão indígena;
- meio ambiente;
- desemprego;
- violência contra a mulher;
- desigualdade social;
- saúde pública;
- moradia.
A Bíblia precisa ser colocada em diálogo com a realidade.
21. Uma pastoral da reconciliação que não fuja da justiça
Uma das maiores contribuições desse texto para a Igreja contemporânea consiste em recuperar uma pastoral da reconciliação. Mas reconciliação não significa simplesmente fazer as pessoas “voltarem a se falar”. Reconciliação bíblica implica transformação.
- Onde existe injustiça, é preciso justiça.
- Onde existe violência, é preciso proteção.
- Onde existe exploração, é preciso mudança das relações.
- Onde existe racismo, é preciso conversão pessoal e estrutural.
- Onde existe pobreza, é preciso solidariedade e transformação social.
- Onde existe exclusão, é preciso reconstruir a comunidade.
- Por isso, a reconciliação cristã possui uma dimensão social.
22. O desafio das redes sociais
Mt 18,15-20 possui uma atualidade impressionante em uma sociedade dominada pelas redes sociais. Quantas vezes fazemos exatamente o contrário do que Jesus ensina?
- Em vez de procurar a pessoa em particular, publicamos.
- Em vez de conversar, atacamos.
- Em vez de ouvir, compartilhamos.
- Em vez de verificar, acusamos.
- Em vez de buscar reconciliação, construímos tribunais virtuais.
A lógica do Evangelho é diferente. Antes de publicar: converse. Antes de acusar: escute. Antes de condenar: verifique. Antes de romper: procure reconciliar. Antes de transformar alguém em inimigo: lembre-se de que ele é irmão.
23. A comunidade cristã diante da polarização
A polarização contemporânea constitui um desafio pastoral. Há pessoas que já não conseguem conversar com quem pensa diferente. Também dentro da Igreja existem divisões profundas.
Mt 18 não recomenda relativizar a verdade. Mas ensina uma maneira diferente de buscar a verdade. A verdade cristã não é uma arma para destruir o outro. É um caminho para construir comunhão. Uma comunidade que só convive com quem pensa exatamente como ela corre o risco de tornar-se uma bolha religiosa.
Jesus chama seus discípulos para uma comunidade capaz de atravessar conflitos sem perder a fraternidade.
24. A dimensão política do Evangelho
A leitura latino-americana recorda que a Bíblia não é neutra diante da história. Quando Jesus ensina uma nova maneira de resolver conflitos, está também formando pessoas para uma nova sociedade. A comunidade cristã deve ser uma espécie de laboratório do Reino de Deus.
Aquilo que desejamos para a sociedade precisa começar a ser experimentado em nossas comunidades:
- respeito;
- participação;
- diálogo;
- justiça;
- solidariedade;
- cuidado com os vulneráveis;
- igualdade fundamental;
- defesa da dignidade humana.
Se dentro da Igreja reproduzimos as mesmas estruturas de dominação existentes na sociedade, nosso anúncio perde credibilidade.
25. “Em meu nome”: o critério cristológico
Existe uma expressão decisiva no versículo 20: “reunidos em meu nome”. Não basta estar reunido. É preciso estar reunido em nome de Jesus. Isso significa que a comunidade precisa perguntar continuamente: Nossa maneira de agir corresponde a Jesus? Porque podemos nos reunir para defender interesses pessoais. Podemos nos reunir para proteger privilégios. Podemos nos reunir para manter estruturas de poder. Podemos até utilizar a linguagem religiosa para justificar práticas contrárias ao Evangelho. O critério é Jesus. E Jesus está do lado dos pequenos. Jesus toca os excluídos. Jesus acolhe os pecadores. Jesus denuncia os poderosos quando o poder é utilizado contra a vida. Jesus anuncia o Reino como boa notícia aos pobres.
Portanto, estar reunido em seu nome significa assumir seu modo de viver.
26. Uma espiritualidade comunitária da presença
A promessa de Jesus é: “Eu estou aí no meio deles.” Essa é uma das mais belas afirmações da espiritualidade cristã. Jesus não diz: “Eu estarei apenas nos grandes”. Não diz: “Estarei apenas onde houver multidões”. Não diz: “Estarei apenas nos lugares de prestígio”. Diz: “onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome”. Isso significa que uma pequena comunidade de periferia pode ser lugar da presença de Cristo.
Uma roda de mulheres pobres pode ser lugar da presença de Cristo. Um grupo de trabalhadores reunidos para refletir sobre seus direitos pode ser lugar da presença de Cristo. Uma comunidade indígena reunida para defender sua terra pode ser lugar da presença de Cristo. Uma comunidade reunida para defender uma família ameaçada pode ser lugar da presença de Cristo.
A presença de Cristo se manifesta onde sua lógica é assumida.
27. Para uma ação pastoral concreta
A partir de Mt 18,15-20, podemos propor um itinerário pastoral em cinco passos.
1. Escutar
Antes de julgar, escutar.
2. Dialogar
Antes de excluir, dialogar.
3. Discernir
Antes de decidir, discernir comunitariamente.
4. Proteger
Diante da violência, proteger os vulneráveis.
5. Restaurar
Sempre que possível, reconstruir relações.
Esse itinerário pode ser assumido pelas paróquias, CEBs, pastorais, movimentos e organismos eclesiais.
28. A pergunta fundamental: que tipo de comunidade estamos construindo?
Mt 18,15-20 nos obriga a olhar para nossas comunidades.
- Somos comunidades que acolhem?
- Somos comunidades que escutam?
- Somos comunidades que perdoam?
- Somos comunidades que enfrentam a injustiça?
- Somos comunidades onde os pobres possuem voz?
- Somos comunidades onde os conflitos podem ser tratados sem violência?
- Somos comunidades onde as autoridades sabem ouvir?
- Somos comunidades nas quais as vítimas são protegidas?
- Somos comunidades que conseguem discordar sem deixar de amar?
Se não conseguimos responder afirmativamente, talvez precisemos voltar ao Evangelho.
Conclusão: uma comunidade onde Cristo possa permanecer
Mt 18,15-20 não é simplesmente um manual para resolver problemas internos da Igreja. É uma proposta de humanidade nova. Jesus ensina uma comunidade que não ignora o conflito, mas também não permite que o conflito destrua a fraternidade. Ensina a conversar antes de acusar. A escutar antes de condenar. A discernir antes de decidir. A corrigir para recuperar. A estabelecer limites sem transformar a pessoa em inimigo. A perdoar sem proteger a injustiça. A exercer autoridade como serviço. E, sobretudo, a reconhecer que Cristo está presente no meio daqueles que se reúnem em seu nome.
A Teologia Latino-Americana nos ajuda a dar um passo a mais. Se Cristo está no meio da comunidade, então precisamos perguntar: onde estão os pobres nessa comunidade? onde estão os excluídos? onde estão os pequenos? onde estão aqueles que não possuem voz?
Porque o capítulo 18 de Mateus começou justamente com eles.
A comunidade de Jesus não pode esquecer os pequenos. Não pode construir sua segurança à custa dos vulneráveis. Não pode confundir unidade com uniformidade. Não pode confundir autoridade com dominação. Não pode confundir perdão com impunidade. Não pode confundir paz com silêncio diante da injustiça.
A verdadeira comunidade cristã é aquela que, reunida em nome de Jesus, transforma os conflitos em oportunidade de conversão, a diferença em diálogo, a fragilidade em cuidado, a exclusão em acolhida e a injustiça em compromisso pela transformação.
Por isso, a pergunta final de Mt 18,15-20 não é simplesmente: “Como devemos corrigir nosso irmão?” A pergunta mais profunda é: “Como devemos construir uma comunidade na qual ninguém seja descartado, os pequenos sejam protegidos, a verdade seja buscada, a justiça seja praticada e Cristo possa verdadeiramente estar no meio de nós?” Essa é a comunidade sonhada pelo Evangelho. Essa é a comunidade que as CEBs são chamadas a testemunhar. Essa é a comunidade que a Leitura Popular da Bíblia procura construir quando coloca a Palavra de Deus no chão da vida. E essa é a comunidade que pode tornar visível, no meio dos pobres e excluídos de ontem e de hoje, a presença viva do Ressuscitado. “Onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, eu estou aí no meio deles.” (Mt 18,20).
Que nossas comunidades sejam, portanto, lugares onde os pobres encontrem dignidade, os feridos encontrem acolhida, os injustiçados encontrem defesa, os conflitos encontrem caminhos de diálogo e todos possam reconhecer, no meio da comunidade, a presença libertadora de Jesus.
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