Deus nos chama a partir da história — Parte 41: Estêvão, quando servir se torna testemunho


Por Karina Moreti

Depois da morte, ressurreição e ascensão de Jesus, a comunidade dos seus discípulos começou a se organizar em Jerusalém. A experiência de Pentecostes havia reunido pessoas de diferentes lugares, e a pregação dos apóstolos fazia crescer continuamente o número daqueles que aderiam ao caminho de Jesus. Os primeiros capítulos do livro de Atos dos Apóstolos apresentam esse período inicial da comunidade, marcado pela partilha, pela oração, pelo anúncio do Evangelho e também pelas primeiras tensões com as autoridades religiosas. À medida que o grupo crescia, surgiam necessidades que exigiam novas formas de organização e de responsabilidade comunitária. Em Jerusalém, apareceu então uma reclamação entre os discípulos de língua grega contra os de língua hebraica, porque as viúvas do primeiro grupo estavam sendo esquecidas na distribuição diária (cf. At 6,1). É justamente nesse momento da história da comunidade que Estêvão aparece.

Seu chamado começa no meio de uma necessidade concreta. A comunidade precisava encontrar uma maneira de cuidar daqueles que estavam ficando à margem, e os apóstolos reconheceram que não poderiam concentrar em si todas as responsabilidades. Reuniram a comunidade e propuseram a escolha de sete homens, conhecidos por sua boa reputação, cheios do Espírito e de sabedoria, para assumir aquela tarefa (cf. At 6,2-3). Entre eles estava Estêvão, apresentado como “homem cheio de fé e do Espírito Santo” (At 6,5).

Antes de ser conhecido por seu discurso, antes de ser lembrado diante do Sinédrio e antes de se tornar o primeiro mártir da comunidade cristã, Estêvão foi alguém chamado para servir. Sua vocação nasceu de uma crise comunitária. Nasceu quando a fé precisou se transformar em cuidado, quando a fraternidade precisou enfrentar a desigualdade e quando a comunidade percebeu que anunciar Jesus também significava cuidar das pessoas que estavam sendo esquecidas.

Há algo profundamente significativo nisso. A primeira tarefa atribuída a Estêvão não aconteceu em um espaço de prestígio. Aconteceu na distribuição diária. O serviço às mesas, tantas vezes considerado secundário, revela uma das primeiras preocupações da comunidade de Jesus: ninguém deveria ser invisibilizado pela própria comunidade que anunciava o Reino de Deus.

Estêvão, porém, não permaneceu limitado à função para a qual havia sido escolhido. Atos afirma que ele, “cheio de graça e poder, Estêvão fazia grandes prodígios e sinais entre o povo” (At 6,8). Sua atuação foi adquirindo uma dimensão pública, e sua palavra passou a incomodar aqueles que não conseguiam resistir à sabedoria e ao Espírito com que falava (cf. At 6,9-10). O servidor das mesas tornou-se testemunha da Palavra.

A tensão cresceu. Estêvão foi acusado por algumas pessoas de falar contra Moisés e contra Deus, contra o Templo e contra a Lei (cf. At 6,11-14). As acusações revelam que sua pregação havia alcançado um ponto sensível: a maneira como a comunidade compreendia a presença de Deus e sua própria história religiosa. Estêvão não estava simplesmente repetindo fórmulas religiosas. Seu testemunho reinterpretava a história de Israel à luz de Jesus.

Diante do Sinédrio, sua resposta ocupa praticamente todo o capítulo 7 do livro de Atos. Estêvão percorre a história de Abraão, José, Moisés, o êxodo, o deserto, Davi e Salomão. Sua memória não é uma simples recordação do passado. Ele mostra que Deus nunca esteve preso a um único lugar e que, ao longo da história, seu povo frequentemente resistiu àqueles que Deus enviava. O Deus que chamou Abraão foi o mesmo Deus que acompanhou José no Egito, Moisés no deserto e o povo em sua caminhada.

O ponto central de sua defesa é também sua denúncia: não se pode transformar a presença de Deus em propriedade de uma instituição, de um território ou de uma construção. “O Altíssimo não mora em casa feita por mãos humanas” (At 7,48). A afirmação não despreza a história de Israel nem simplesmente rejeita o Templo. Estêvão questiona uma compreensão de Deus que poderia reduzir sua presença a um espaço controlado pelos seres humanos.

Por isso, seu discurso termina de maneira tão contundente. Estêvão acusa seus interlocutores de resistirem ao Espírito Santo, repetindo a atitude de seus antepassados diante dos profetas e daqueles que anunciavam a vontade de Deus (cf. At 7,51-53). Aquele que havia começado servindo às mesas agora se encontra diante das estruturas religiosas de seu tempo, anunciando uma palavra profética. Sua vocação havia crescido junto com a realidade que o cercava: quanto mais a missão o colocava em contato com as necessidades da comunidade, mais sua responsabilidade diante da história se ampliava.

Estêvão não procurou o conflito. O conflito surgiu quando sua fidelidade ao serviço o colocou diante das desigualdades presentes na comunidade, quando sua palavra começou a questionar certezas estabelecidas e quando seu testemunho anunciou que Deus continuava agindo na história. Aquele que havia sido escolhido para cuidar das necessidades concretas de pessoas esquecidas tornou-se uma testemunha capaz de enfrentar estruturas que já não conseguiam silenciar sua voz. O serviço o levou à palavra, a palavra o levou ao confronto, e o confronto revelou a dimensão profética de sua vocação.

Então acontece uma das cenas mais fortes de Atos. Repleto do Espírito Santo, Estêvão olhou para o céu e viu a glória de Deus, e Jesus, de pé, à direita de Deus (At 7,55). Suas últimas palavras retomam a confiança daquele que sabe que sua vida não está abandonada: “Senhor Jesus, recebe o meu espírito” (At 7,59). E, antes de morrer, ainda pede: “Senhor, não os condenes por este pecado” (At 7,60).

Aquele que havia sido escolhido para servir termina sua caminhada servindo até o último instante: sua última palavra não é de vingança, mas de entrega e perdão.

Estêvão nos lembra que a vocação não chega pronta. Ela vai se revelando enquanto a pessoa responde às necessidades de seu tempo. O chamado que começou diante de uma mesa chegou até o lugar do testemunho público. O serviço tornou-se palavra; a palavra tornou-se resistência; e a resistência tornou-se testemunho de vida.

Talvez seja essa uma das grandes forças da história de Estêvão. Ele não foi chamado para ocupar um lugar de destaque. Foi chamado porque havia pessoas sendo esquecidas. Não começou sua missão procurando ser reconhecido. Começou servindo. E foi justamente nesse serviço que sua voz encontrou força.

A história de Estêvão também nos recorda que a comunidade de Jesus não pode separar espiritualidade e realidade. Uma fé que celebra o Espírito, mas não percebe quem está sendo deixado de lado, perde justamente aquilo que Estêvão compreendeu. O Espírito que o encheu para falar foi o mesmo Espírito que o conduziu primeiro ao serviço.

E sua morte não encerrou sua história. Aos pés daqueles que apedrejavam Estêvão estava um jovem chamado Saulo, que aprovava sua execução (cf. At 7,58; 8,1). O homem que naquele momento participava da perseguição contra os seguidores de Jesus ainda seria alcançado pelo próprio Cristo e se tornaria um dos maiores anunciadores do Evangelho. A narrativa de Atos parece guardar, silenciosamente, uma ironia da história: a voz de Estêvão foi silenciada, mas seu testemunho continuaria atravessando a comunidade.

Deus nos chama a partir da história. Estêvão surgiu no interior de uma comunidade que crescia, enfrentava suas primeiras tensões e precisava aprender a repartir o cuidado. Sua vocação nasceu junto daqueles que estavam sendo esquecidos e amadureceu à medida que a realidade lhe exigia novas respostas. O serviço que começou entre as mesas alcançou a palavra, a palavra o levou ao confronto e o confronto revelou a dimensão profética de seu testemunho. Estêvão descobriu, no próprio caminho, que servir a uma comunidade também poderia significar permanecer fiel quando sua palavra incomodasse aqueles que desejavam conservar as coisas como estavam.

Sua história começa junto a uma mesa e termina diante do céu aberto, e entre esses dois momentos está uma vida que nos lembra que a vocação não vem acompanhada de um roteiro pronto. Ela se revela enquanto caminhamos, respondendo às necessidades que encontramos pelo caminho. Estêvão não sabia onde aquele primeiro gesto de serviço o levaria. Apenas respondeu ao que a realidade colocava diante dele. Foi nessa resposta que sua vocação ganhou rosto, voz e testemunho, conduzindo-o de uma tarefa concreta no cotidiano da comunidade até a experiência extrema de permanecer fiel ao Evangelho quando sua própria vida estava em jogo.


Karina Moreti: é bacharel em Teologia pela Universidade Católica Dom Bosco (2022) e em Comunicação Social – Jornalismo, pelo Centro Universitário Sagrado Coração (2007). Atualmente é jornalista do Blog Eclesialidade & Missão, e assessora movimentos eclesiais. Tem experiência na área de jornalismo impresso, jornalismo televisivo, jornalismo radiofônico e em jornalismo nas redes sociais e blogs. Em teologia, dedica-se ao estudo das Sagradas Escrituras.


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