Mateus 13,44-52: O Reino que transforma a vida

Por Pe. Hermes A. Fernandes

Introdução

O Evangelho de Mateus apresenta, no capítulo 13, um conjunto de parábolas que procuram revelar o mistério do Reino de Deus. Nos versículos 44-52 encontramos quatro pequenas parábolas: o tesouro escondido, a pérola de grande valor, a rede lançada ao mar e a conclusão do discurso parabólico sobre o escriba que se torna discípulo do Reino.

Embora breves, essas parábolas condensam uma profunda reflexão sobre a natureza do Reino de Deus, sua radicalidade, seu valor absoluto e sua dimensão escatológica. Lidas à luz da Teologia Latino-americana e da Leitura Popular da Bíblia, deixam de ser apenas ensinamentos espirituais para se tornarem um convite à transformação das estruturas injustas da sociedade. O Reino anunciado por Jesus não é uma realidade distante, mas um projeto histórico que começa aqui e agora, especialmente entre os pobres, os excluídos e aqueles que lutam por justiça.

1. Contexto histórico e literário

Mateus escreve seu Evangelho entre os anos 80 e 90 d.C., quando as comunidades cristãs enfrentavam profundas tensões. Por um lado, experimentavam a perseguição do Império Romano; por outro, sofriam conflitos internos com o judaísmo rabínico que se reorganizava após a destruição do Templo de Jerusalém, em 70 d.C.

Nesse cenário, o evangelista procura fortalecer a esperança das comunidades. As parábolas do Reino revelam que Deus continua conduzindo a história, mesmo quando a realidade parece dominada pela violência e pela injustiça.

A comunidade mateana era formada, em sua maioria, por pessoas simples, trabalhadores rurais, pescadores, artesãos e famílias pobres que viviam nos recôncavos da Palestina. São exatamente essas pessoas que compreendem melhor as imagens utilizadas por Jesus.

2. O tesouro escondido (Mt 13,44)

“O Reino dos Céus é semelhante a um tesouro escondido num campo.”

No mundo antigo não existiam bancos. Em tempos de guerra era comum esconder moedas e objetos preciosos debaixo da terra. Muitas vezes ali ficavam, debaixo da terra, a ser descobertos por outra pessoa, que não enterrou esse tesouro. Assim se entende a parábola. A descoberta desse tesouro muda completamente a vida do homem. Ele vende tudo para adquirir o campo.

A parábola não exalta o lucro nem a riqueza. O centro está na descoberta de algo infinitamente maior que todas as posses.

Na tradição latino-americana, o Reino é precisamente esse tesouro. Não se trata de uma religião intimista. É o projeto de Deus para uma humanidade reconciliada.

Gustavo Gutiérrez afirma que o Reino significa a irrupção da justiça de Deus na história. Encontrar esse Reino exige abandonar tudo aquilo que sustenta relações de opressão.

Na prática pastoral, isso significa colocar a dignidade humana acima do dinheiro, do prestígio ou do poder.

3. A pérola de grande valor (Mt 13,45-46)

O comerciante procura pérolas. Diferentemente do homem do campo, aqui existe uma busca consciente. Quando encontra a pérola perfeita, vende tudo para possuí-la.

Mateus apresenta dois caminhos. Alguns encontram o Reino inesperadamente. Outros passam anos procurando sentido para a vida. Em ambos os casos, a resposta exige radicalidade.

Não é possível seguir Jesus pela metade. A Teologia da Latino-americana insiste que essa radicalidade possui consequências sociais. Quem encontra Cristo descobre também os crucificados da história. Não existe experiência autêntica de Deus sem solidariedade.

Como afirmava Dom Pedro Casaldáliga: “A fé cristã é inseparável da justiça.”

4. A rede lançada ao mar (Mt 13,47-50)

A terceira parábola muda completamente de cenário. Agora estamos diante dos pescadores da Galileia. A rede recolhe peixes de toda espécie. Somente depois ocorre a separação.

A imagem fala do julgamento final. Entretanto, Mateus não pretende alimentar medo. O foco está na responsabilidade histórica. Enquanto a rede permanece no mar, todos convivem. A separação pertence a Deus. Isso impede que a comunidade se considere dona da salvação. É Deus quem julga. Essa perspectiva possui enorme importância pastoral.

Ao longo da história muitos grupos religiosos utilizaram a Bíblia para excluir pessoas. Jesus faz exatamente o contrário. A comunidade acolhe. O julgamento pertence exclusivamente ao Senhor.

A Leitura Popular da Bíblia recorda que a rede recolhe “peixes de toda espécie”. Essa diversidade representa a humanidade inteira. O Reino não é privilégio de um grupo religioso, cultural ou econômico.

5. O escriba discípulo do Reino (Mt 13,51-52)

A conclusão do discurso apresenta uma figura surpreendente. O escriba, tradicional intérprete da Lei, agora torna-se discípulo do Reino. Ele tira do seu tesouro coisas novas e antigas.

Mateus não propõe ruptura entre Antigo e Novo Testamento. Propõe uma releitura. Tudo deve ser reinterpretado à luz de Jesus. A tradição permanece viva quando favorece a vida. Quando produz morte, necessita conversão.

Na América Latina essa imagem possui enorme relevância. A Igreja é chamada continuamente a atualizar sua tradição diante das novas formas de pobreza.

As “coisas novas” são os desafios contemporâneos:

  • crise ecológica;
  • migração;
  • racismo estrutural;
  • violência urbana;
  • feminização da pobreza;
  • povos indígenas;
  • trabalhadores precarizados;
  • pessoas em situação de rua.

As “coisas antigas” são o patrimônio da fé. A missão consiste em unir ambas.

6. Uma leitura desde a Teologia Latino-americana

A Teologia Latino-americana insiste que o Reino anunciado por Jesus possui dimensão histórica. Não é apenas promessa futura.

Ele começa sempre que:

  • um pobre recupera sua dignidade;
  • um trabalhador conquista seus direitos;
  • uma comunidade vence a fome;
  • uma mulher rompe ciclos de violência;
  • um povo indígena recupera seu território;
  • uma criança encontra educação;
  • uma família conquista moradia.

As parábolas do Reino revelam que vale a pena “vender tudo” para participar desse projeto. Isso não significa abandonar bens materiais de forma irresponsável. Significa reorganizar prioridades. A riqueza deixa de ser centro. O ser humano ocupa esse lugar.

7. A Leitura Popular da Bíblia

Frei Carlos Mesters costuma afirmar que a Bíblia nasceu da vida do povo e retorna ao povo. Essas parábolas devem ser lidas nas comunidades.

Quando um agricultor lê sobre o tesouro escondido, reconhece seu próprio trabalho. Quando um pescador lê sobre a rede, compreende imediatamente a imagem. A Palavra torna-se viva porque dialoga com a realidade cotidiana.

As Comunidades Eclesiais de Base sempre compreenderam que o Reino cresce na organização popular, na solidariedade e na defesa da vida.

Encontrar o tesouro significa descobrir que Deus caminha junto dos pobres.

8. Dimensão sociotransformadora

As parábolas desafiam profundamente nossa sociedade.

Vivemos numa cultura que transforma tudo em mercadoria. Jesus afirma exatamente o contrário. Existe algo que não possui preço. Esse algo é o Reino.

Na prática isso implica:

  • combater a desigualdade social;
  • defender políticas públicas voltadas aos pobres;
  • promover economia solidária;
  • fortalecer movimentos populares;
  • acolher migrantes e refugiados;
  • defender os povos originários;
  • preservar a Casa Comum;
  • combater toda forma de racismo;
  • denunciar estruturas que produzem exclusão.

O Reino torna-se visível quando a justiça supera a exploração.

9. Pistas para a ação pastoral

As comunidades cristãs podem atualizar essa passagem por meio de diversas iniciativas:

1. Formação Bíblica Popular

Promover círculos bíblicos que relacionem a Palavra com os desafios concretos das comunidades.

2. Economia do Reino

Estimular cooperativas, bancos comunitários, hortas coletivas e experiências de economia solidária.

3. Defesa da dignidade humana

Apoiar iniciativas que combatam a fome, promovam moradia, saúde, educação e trabalho digno.

4. Ecologia Integral

Reconhecer que o Reino também se manifesta no cuidado da criação, conforme propõe o magistério recente da Igreja.

5. Fortalecimento das Comunidades Eclesiais de Base

Valorizar espaços participativos onde todos possam discernir juntos os sinais do Reino e assumir compromissos concretos com os pobres.

Conclusão

As parábolas de Mateus 13,44-52 sintetizam o coração do Evangelho. O Reino de Deus é o maior tesouro que uma pessoa pode encontrar; sua beleza supera qualquer riqueza; sua justiça alcança todos os povos; e sua novidade exige discípulos capazes de reinterpretar continuamente a tradição à luz da vida.

A Teologia Latino-americana recorda que esse Reino não permanece restrito ao âmbito espiritual. Ele se concretiza na história, sobretudo quando a Igreja escolhe caminhar com os pobres, os marginalizados e os excluídos, tornando-se sinal da presença libertadora de Deus no mundo. A Leitura Popular da Bíblia, por sua vez, ajuda as comunidades a reconhecerem, nas parábolas de Jesus, um chamado permanente à conversão pessoal e social.

Assim, o tesouro escondido e a pérola preciosa não simbolizam uma espiritualidade de fuga, mas a descoberta de um projeto de vida que transforma prioridades, desafia estruturas de injustiça e inspira uma prática pastoral comprometida com a dignidade humana. A rede lançada ao mar recorda que o Reino acolhe a diversidade da humanidade e que o julgamento pertence a Deus, enquanto a imagem do escriba discípulo do Reino convoca a Igreja a unir a riqueza da tradição com a criatividade necessária para responder aos desafios do presente.

Hoje, como ontem, o Reino continua escondido nos lugares onde muitos não olham: nas periferias urbanas, nos campos, entre povos indígenas, migrantes, trabalhadores precarizados, mulheres vítimas de violência, pessoas em situação de rua e todos aqueles cuja dignidade é constantemente ameaçada. Encontrar esse tesouro significa reconhecer a presença de Cristo nos “pequeninos” (Mt 25,40) e assumir, com alegria e coragem, o compromisso de construir uma sociedade mais justa, fraterna e solidária. É nesse caminho que a comunidade cristã se torna verdadeiro sinal do Reino de Deus já presente entre nós, ainda que em plenitude venha a manifestar-se no futuro prometido por Deus.

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