Reflexão para Terça-feira da 17ª Semana do Tempo Comum – (Mt 13,36-43)

Mateus 13,36-43: O joio e o trigo na história

Por Pe. Hermes A. Fernandes

Introdução

A explicação da parábola do joio e do trigo (Mt 13,36-43) figura entre os textos mais conhecidos do Evangelho de Mateus. Frequentemente, sua interpretação esteve marcada por uma leitura espiritualista que enfatiza exclusivamente o juízo final: Deus recompensará os bons e castigará os maus. Embora essa dimensão esteja presente no texto, ela não esgota sua riqueza teológica nem responde plenamente às perguntas da comunidade para a qual o evangelho foi escrito.

A Teologia Latino-Americana e a Leitura Popular da Bíblia propõem outra perspectiva. Perguntam: quem são o joio e o trigo na história? Por que Deus parece permitir que a injustiça continue existindo? Como a comunidade cristã deve agir diante da violência, da exploração e da exclusão?

Essas perguntas conduzem a uma compreensão mais profunda do texto. O Reino de Deus não é uma realidade alienada da história. Ele cresce em meio às contradições sociais, políticas, econômicas e religiosas. O discípulo é chamado a discernir essas contradições sem perder a esperança nem recorrer à violência.

1. Contexto literário

Mateus reúne, no capítulo 13, um conjunto de sete parábolas sobre o Reino de Deus. Depois de narrar a parábola do joio e do trigo (13,24-30), o evangelista registra que Jesus deixa a multidão e entra na casa. É nesse espaço reservado aos discípulos que eles pedem:

“Explica-nos a parábola do joio do campo.”

Essa mudança de cenário possui grande significado. A multidão ouviu a narrativa; os discípulos recebem a tarefa de compreendê-la para viver sua missão. O Reino exige não apenas escutar, mas interpretar a realidade à luz da Palavra.

2. Contexto histórico da comunidade de Mateus

O Evangelho de Mateus foi escrito entre os anos 80 e 90 d.C., quando as comunidades cristãs enfrentavam profundas dificuldades.

Jerusalém havia sido destruída pelos romanos. O Templo deixara de existir. A perseguição política e religiosa aumentava. Os cristãos eram expulsos de diversas sinagogas. Além disso, surgiam tensões internas, falsas lideranças e conflitos sobre a identidade da comunidade.

Era inevitável perguntar: Se Jesus inaugurou o Reino de Deus, por que o mal continua tão presente? A resposta de Mateus não é filosófica, mas pastoral. O Reino cresce lentamente. O mal continua atuando. Entretanto, ele não terá a última palavra!

3. Exegese do texto

“Aquele que semeia a boa semente é o Filho do Homem”

Jesus identifica o semeador consigo mesmo. A expressão “Filho do Homem” remete à visão de Daniel 7, na qual um representante do povo santo recebe de Deus o domínio sobre todos os impérios opressores. Assim, Jesus aparece como aquele que inaugura uma nova humanidade fundada na justiça e na misericórdia.

Sua semeadura consiste em criar comunidades que vivam os valores do Reino.

“O campo é o mundo”

Esse detalhe é decisivo. Jesus não afirma que o campo é a Igreja. O campo é o mundo inteiro. Isso impede qualquer interpretação sectária que procure dividir a humanidade entre “bons” e “maus”.

A missão dos discípulos ultrapassa os limites da instituição religiosa. O Reino está voltado para toda a criação.

“A boa semente são os filhos do Reino”

Na linguagem bíblica, ser “filho” significa participar das características de alguém. Os filhos do Reino são aqueles que praticam a justiça, a misericórdia, a solidariedade e a compaixão. Não se trata de um privilégio religioso. Trata-se de uma maneira concreta de viver.

“O joio são os filhos do maligno”

O joio (zizania) era uma planta muito semelhante ao trigo durante seu crescimento. Somente na maturação tornava-se evidente sua diferença. A imagem é extremamente significativa. O mal raramente se apresenta de maneira explícita. Ele costuma vestir-se de piedade. De moralidade. De patriotismo. De legalidade. Até mesmo de religiosidade.

A comunidade precisa desenvolver discernimento para reconhecer aquilo que produz morte, mesmo quando aparece revestido de boas intenções.

“O inimigo é o diabo”

Na tradição bíblica, o diabo não deve ser entendido apenas como um ser individual. A palavra grega diábolos significa “aquele que divide”. Tudo aquilo que rompe a comunhão desejada por Deus participa dessa lógica diabólica. Hoje podemos reconhecer essa ação nas estruturas que alimentam:

  • a fome;
  • o racismo;
  • o patriarcado;
  • a concentração de riquezas;
  • a destruição ambiental;
  • a violência contra os povos indígenas;
  • a exploração do trabalho;
  • a mercantilização da vida.

Essas realidades não são apenas falhas individuais; configuram estruturas de pecado que se opõem ao projeto do Reino.

“Deixai crescer ambos juntos”

Essa é talvez a afirmação mais surpreendente da parábola. Os servos desejam arrancar imediatamente o joio. O proprietário impede. Não porque aceite o mal. Mas porque sabe que a violência produz novas injustiças.

O Reino não se constrói pela eliminação das pessoas, mas pela transformação da história. Jesus rejeita tanto a indiferença diante do mal quanto o desejo de purificação violenta.

A colheita

Na Bíblia, a colheita simboliza o tempo da manifestação definitiva da justiça de Deus. Não significa passividade diante da injustiça. Significa confiar que Deus conduz a história para sua plenitude. Essa esperança impede tanto o desespero quanto o triunfalismo.

“Os justos brilharão como o sol”

A expressão recorda Daniel 12,3. Os justos são aqueles que permaneceram fiéis mesmo em tempos difíceis. Não são perfeitos. São perseverantes. Brilham porque refletem a luz do próprio Deus em sua prática histórica de justiça.

4. A leitura da Teologia Latino-Americana

A Teologia Latino-Americana compreende o Reino de Deus como realidade histórica que começa no presente e orienta a construção de uma sociedade mais justa.

Nessa perspectiva, o joio não pode ser identificado simploriamente com determinadas pessoas ou grupos. O joio manifesta-se sobretudo nas estruturas de pecado denunciadas pela tradição latino-americana: sistemas econômicos que concentram riqueza, modelos políticos excludentes, práticas culturais marcadas pelo racismo, pelo patriarcado, pela xenofobia e pela devastação da Casa Comum.

Gustavo Gutiérrez recorda que o pecado possui uma dimensão pessoal e também social. Jon Sobrino mostra que seguir Jesus significa colocar-se ao lado das vítimas da história, enquanto José Comblin insiste que o Espírito suscita comunidades comprometidas com a transformação da realidade. Frei Carlos Mesters, por sua vez, demonstra que a Palavra ganha força quando é lida a partir da experiência concreta do povo pobre, que reconhece na Bíblia um caminho de esperança e organização.

A parábola convida a resistir ao mal sem reproduzir sua lógica. O Reino cresce mediante a solidariedade, a justiça e a fidelidade ao projeto de Deus.

5. A Leitura Popular da Bíblia

A Leitura Popular da Bíblia começa perguntando: Onde estamos nesta narrativa? Somos os trabalhadores que olham para um campo cheio de ambiguidades. Somos comunidades que convivem com sinais do Reino e, ao mesmo tempo, com a violência das estruturas de morte.

Nas periferias urbanas, o joio aparece na ausência de políticas públicas, na violência cotidiana e na negação de direitos básicos.

No campo, manifesta-se na concentração fundiária, na expulsão de comunidades tradicionais, na destruição ambiental e no assassinato de lideranças.

Nas relações sociais, revela-se no racismo estrutural, na desigualdade de gênero, na exploração do trabalho e na criminalização da pobreza.

Contudo, também cresce o trigo. Ele aparece nas Comunidades Eclesiais de Base. Nas pastorais sociais. Nos movimentos populares. Nas redes de economia solidária. Nos grupos que defendem os direitos humanos. Nas iniciativas de agroecologia. Nas comunidades indígenas e quilombolas que resistem em defesa da vida e do território.

O Reino cresce silenciosamente onde a vida é promovida.

6. Atualização pastoral e sociotransformadora

A principal tentação das comunidades cristãs é responder ao mal utilizando os mesmos mecanismos de exclusão que criticam. Jesus propõe outro caminho. A comunidade deve denunciar a injustiça com clareza. Defender as vítimas. Promover a justiça restaurativa. Organizar a solidariedade. Educar para a paz. Construir relações fraternas.

Inspiradas por essa parábola, as pastorais podem fortalecer ações concretas:

  • apoiar iniciativas de combate à fome e à insegurança alimentar;
  • defender os direitos dos trabalhadores e trabalhadoras;
  • acolher migrantes, refugiados e pessoas em situação de rua;
  • promover a participação das mulheres e dos jovens nos espaços eclesiais;
  • atuar em defesa dos povos indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais;
  • incentivar práticas de cuidado com a Casa Comum;
  • fortalecer a formação bíblica e política das comunidades.

Essas iniciativas não “substituem” a evangelização. São expressão concreta do Evangelho do Reino.

Conclusão

Mateus 13,36-43 não foi escrito para alimentar o medo do castigo divino, mas para fortalecer a esperança de comunidades que enfrentavam tempos de crise. A presença do joio não significa o fracasso do Reino; revela apenas que a história permanece um espaço de disputa entre projetos de vida e projetos de morte.

À luz da Teologia Latino-Americana e da Leitura Popular da Bíblia, o texto convida a Igreja a cultivar o trigo da justiça, da solidariedade e da misericórdia, sem sucumbir à tentação da intolerância ou da violência. O discernimento cristão consiste em reconhecer as estruturas de pecado que geram exclusão e, ao mesmo tempo, colaborar com tudo aquilo que faz florescer a vida em abundância.

A promessa final de que “os justos brilharão como o sol no Reino de seu Pai” (Mt 13,43) não aponta para uma fuga da história. Ao contrário, constitui um chamado para viver, já no presente, a luminosidade do Reino por meio do compromisso com os pobres, marginalizados e excluídos. Assim, cada gesto de partilha, cada defesa da dignidade humana, cada ação em favor da justiça e da paz torna-se uma antecipação da colheita definitiva que Deus prepara para toda a criação.


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