“Eu sou a Ressurreição e a Vida” (João 11,19-27): esperança que gera compromisso
Por Pe. Hermes A. Fernandes
Introdução
O Evangelho de João apresenta, no capítulo 11, um dos episódios mais significativos da vida pública de Jesus: a morte e a ressurreição de Lázaro. A liturgia, porém, destaca os versículos 19-27, que narram o encontro entre Jesus e Marta antes mesmo de Lázaro sair do túmulo. Trata-se de um diálogo profundamente humano, marcado pela dor da perda, pela experiência da ausência, pela esperança e pela profissão de fé.
Ao longo da história, este texto foi frequentemente interpretado apenas como uma afirmação da vida após a morte. Embora essa dimensão esteja presente, a riqueza do Evangelho de João aponta para uma realidade muito mais ampla: Jesus revela-se como aquele que comunica vida plena já no presente e inaugura uma nova maneira de enfrentar todas as formas de morte que atingem as pessoas e os povos.
A Teologia Latino-americana e a Leitura Popular da Bíblia ajudam-nos a perceber que a ressurreição anunciada por Jesus não diz respeito somente ao destino final da humanidade, mas constitui uma força libertadora capaz de transformar a história. Onde a vida é negada, Deus continua chamando seu povo para sair dos túmulos da exclusão, da pobreza, da violência e da desesperança.
1. O contexto histórico do Evangelho de João
O Evangelho de João foi escrito, muito provavelmente, entre os anos 90 e 100 d.C., quando as comunidades cristãs viviam momentos de grande tensão. Muitos discípulos haviam sido expulsos das sinagogas, experimentavam perseguições e enfrentavam dúvidas sobre a presença de Cristo depois de sua morte e ressurreição.
A narrativa de Lázaro responde justamente a essa crise. João deseja fortalecer a fé da comunidade, mostrando que Jesus continua presente, vencendo as forças da morte e comunicando vida abundante.
Não é por acaso que o episódio ocorre poucos dias antes da Paixão. A vitória sobre Lázaro antecipa a vitória definitiva de Cristo sobre a morte.
2. Exegese de João 11,19-27
2.1 O ambiente do luto
O texto inicia dizendo que muitos judeus haviam ido consolar Marta e Maria pela morte do irmão.
No judaísmo do primeiro século, o luto possuía forte dimensão comunitária. A dor nunca era vivida isoladamente. A presença dos vizinhos manifestava solidariedade e sustentava a esperança da família. Essa informação não é secundária. João apresenta uma comunidade que sofre junto.
Hoje, porém, muitas pessoas vivem o sofrimento em profunda solidão. A cultura individualista enfraquece os laços comunitários, tornando ainda mais pesada a experiência da perda.
2.2 Marta: uma mulher de fé e ação
Frequentemente Marta foi apresentada como símbolo da pessoa excessivamente ocupada, em contraste com Maria (Lc 10,38-42). João, entretanto, oferece outra perspectiva.
Ao saber da chegada de Jesus, Marta vai ao seu encontro. Ela toma a iniciativa. Ela dialoga. Ela questiona. Ela faz uma profunda profissão de fé. Marta torna-se uma das grandes discípulas do Quarto Evangelho.
Sua primeira afirmação expressa dor e confiança ao mesmo tempo: “Senhor, se estivesses aqui, meu irmão não teria morrido.” Não há acusação. Há sofrimento. E, também, esperança.
Ela continua: “Mesmo agora sei que Deus te concederá tudo o que pedires.” Sua fé permanece viva mesmo diante da morte.
2.3 A ressurreição no presente
Jesus responde: “Teu irmão ressuscitará.”
Marta entende essa afirmação segundo a esperança judaica tradicional: “Sei que ressuscitará na ressurreição do último dia.”
Então Jesus realiza uma das maiores revelações do Evangelho: “Eu sou a Ressurreição e a Vida.” O verbo está no presente. Jesus não afirma apenas que dará vida futuramente. Ele é vida agora.
No Evangelho de João, a vida eterna começa quando a pessoa entra em comunhão com Cristo. Trata-se de uma existência renovada, marcada pela liberdade, pela fraternidade e pelo amor.
2.4 “Quem crê em mim”
Na tradição joanina, crer não significa apenas aceitar uma doutrina. Crer é aderir à pessoa de Jesus. É reorganizar toda a vida segundo seu projeto. Quem crê participa da própria vida de Deus. Essa participação transforma a maneira de viver, de relacionar-se e de organizar a sociedade.
2.5 A profissão de fé de Marta
Marta responde: “Sim, Senhor. Eu creio que tu és o Cristo, o Filho de Deus que devia vir ao mundo.” Essa profissão de fé possui importância comparável à confissão de Pedro nos Evangelhos Sinóticos.
Curiosamente, é uma mulher quem faz essa declaração. João rompe diversos preconceitos culturais do seu tempo ao colocar Marta como modelo de discípula. Sua fé nasce da experiência concreta do sofrimento.
3. Uma leitura a partir da Teologia Latino-americana
A Teologia Latino-americana pergunta: Quais são os túmulos que aprisionam nossos povos hoje? A resposta vai muito além da morte biológica.
Há povos inteiros vivendo experiências de morte antecipada.
São túmulos:
- a fome;
- o desemprego;
- a concentração de renda;
- o racismo estrutural;
- a violência contra mulheres;
- o abandono da juventude;
- a situação dos povos indígenas;
- a exclusão das pessoas em situação de rua;
- a destruição ambiental;
- as migrações forçadas;
- a cultura do descarte.
Quando Jesus afirma ser “a Ressurreição e a Vida”, proclama que Deus não aceita nenhuma dessas formas de morte. A ressurreição começa quando a dignidade humana é restaurada.
4. A Leitura Popular da Bíblia
Frei Carlos Mesters recordava frequentemente que a Palavra de Deus precisa ser lida com “um olho na Bíblia e outro na vida”.
Ao ouvir este Evangelho, o povo pergunta: Quem continua chorando como Marta? Quem ainda permanece dentro dos túmulos? Quem precisa ouvir novamente: “Sai para fora!”?
A Palavra ilumina a realidade. Ao mesmo tempo, a realidade ajuda a compreender a Palavra.
Essa interação faz da Bíblia uma fonte permanente de esperança e compromisso.
5. A dimensão sociotransformadora do texto
A profissão de fé de Marta conduz naturalmente ao compromisso. Crer em Jesus significa colaborar com sua obra.
Hoje isso implica:
- defender políticas públicas que garantam vida digna;
- combater todas as formas de discriminação;
- fortalecer iniciativas de economia solidária;
- apoiar comunidades tradicionais e povos originários;
- cuidar da Casa Comum;
- acolher migrantes e refugiados;
- fortalecer a participação popular;
- promover cultura de paz;
- denunciar estruturas econômicas geradoras de exclusão.
A fé cristã jamais pode limitar-se ao espaço privado. Ela possui consequências sociais inevitáveis. A ressurreição transforma pessoas. Pessoas transformadas transformam comunidades. Comunidades renovadas transformam a sociedade.
6. Pistas para a ação pastoral
Este texto oferece importantes inspirações para a missão da Igreja.
Em primeiro lugar, convida as comunidades a serem espaços de acolhida e consolação. Assim como Marta e Maria foram cercadas por pessoas solidárias, as paróquias, comunidades e pastorais são chamadas a acompanhar quem sofre, oferecendo escuta, presença e esperança.
Em segundo lugar, o diálogo entre Jesus e Marta incentiva uma formação bíblica que valorize o protagonismo das mulheres. O Evangelho apresenta Marta como discípula madura, capaz de professar a fé e de dialogar com Jesus em pé de igualdade. Essa perspectiva desafia a Igreja a reconhecer e fortalecer os inúmeros ministérios exercidos pelas mulheres em nossas comunidades.
Além disso, a afirmação “Eu sou a Ressurreição e a Vida” impulsiona uma pastoral comprometida com a defesa da vida em todas as suas dimensões. Isso inclui o cuidado com os pobres, a promoção da justiça social, a proteção da criação e a defesa da dignidade humana.
Por fim, a comunidade cristã é chamada a anunciar esperança concreta. Não uma esperança alienante, que adia toda transformação para o futuro, mas uma esperança que fortalece a organização popular, incentiva a solidariedade e testemunha que Deus continua vencendo as forças da morte presentes na história.
Conclusão
João 11,19-27 revela que Jesus não permanece distante da dor humana. Ele encontra Marta em seu sofrimento, acolhe suas perguntas, fortalece sua esperança e conduz sua fé a uma compreensão mais profunda do Reino de Deus. Ao afirmar: “Eu sou a Ressurreição e a Vida”, Jesus proclama que a vida nova começa já no presente, onde homens e mulheres acolhem seu projeto de amor, justiça e fraternidade.
À luz da Teologia Latino-americana, esse anúncio torna-se um chamado para enfrentar todas as formas de morte que continuam ferindo nossos povos. A fome, a violência, a exclusão, o racismo, a destruição ambiental e a negação de direitos contradizem o projeto do Deus da vida. Por isso, a fé na ressurreição conduz inevitavelmente ao compromisso com a transformação da realidade.
A Leitura Popular da Bíblia recorda que Cristo continua chamando seu povo para sair dos túmulos da desesperança e caminhar rumo à vida plena. Cada comunidade que promove justiça, acolhe os marginalizados, fortalece os pequenos e luta pela dignidade humana torna-se sinal da presença daquele que venceu a morte e continua dizendo: “Quem crê em mim, ainda que morra, viverá” (Jo 11,25).
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