Reflexão para Sábado da 23ª Semana do Tempo Comum

Entre a Mesa do Senhor e os Frutos da Vida

Por Pe. Hermes A. Fernandes

A Liturgia da Palavra da Quinta-feira da 23ª Semana do Tempo Comum apresenta dois textos que, embora provenientes de contextos diferentes, convergem para uma mesma questão fundamental: a fé cristã não pode permanecer reduzida a palavras, ritos ou declarações religiosas; ela precisa tornar-se uma forma concreta de viver, escolher e construir relações segundo o projeto de Deus. Paulo fala da participação na mesa do Senhor e da incompatibilidade com a idolatria. Lucas, por sua vez, apresenta Jesus ensinando que a qualidade da árvore se reconhece pelos frutos e que o verdadeiro discípulo é aquele que escuta sua Palavra e a coloca em prática.

Essa perspectiva possui grande importância para as Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), pois a fé celebrada na comunidade precisa transformar-se em compromisso com a vida, especialmente com os pobres, marginalizados e excluídos.

1. A mesa do Senhor e a denúncia das idolatrias — 1Cor 10,14-22

A Primeira Carta aos Coríntios nasce no contexto de uma comunidade cristã situada em uma cidade marcada pela pluralidade religiosa, pela circulação de riquezas e pelas profundas desigualdades sociais. Paulo enfrenta diversas dificuldades vividas pelos cristãos de Corinto e, no capítulo 10, aborda particularmente a questão da participação em banquetes ligados aos cultos pagãos.

Seu primeiro apelo é direto: “Fugi da idolatria” (1Cor 10,14). Não se trata simplesmente de uma advertência contra imagens ou divindades pagãs. A idolatria, na perspectiva bíblica, significa colocar no lugar de Deus aquilo que pretende dominar a vida humana. Por isso, a advertência paulina conserva extraordinária atualidade.

Paulo estabelece um contraste entre a mesa do Senhor e as mesas idolátricas. O cálice e o pão da comunidade são participação no sangue e no corpo de Cristo. E há uma consequência comunitária decisiva: “porque há um só pão, nós, embora muitos, somos um só corpo” (1Cor 10,17). A Eucaristia, portanto, não é uma experiência meramente individual ou devocional. Ela cria comunhão e responsabilidade recíproca.

A partir da Teologia Latino-americana, essa afirmação ganha uma força social extraordinária. Participar do corpo de Cristo significa reconhecer que o corpo de Cristo continua presente na história, especialmente nos corpos feridos dos pobres, dos famintos, dos sem-terra, dos sem-teto, dos migrantes, dos povos indígenas, dos quilombolas, das populações periféricas e de tantas pessoas vítimas da exclusão. A mesa eucarística não pode ser separada da mesa da vida.

Paulo afirma categoricamente que não é possível participar simultaneamente da mesa do Senhor e da mesa dos demônios (1Cor 10,21). Em linguagem contemporânea, poderíamos perguntar: que mesas frequentamos? A mesa da partilha, da solidariedade e da justiça ou as mesas estruturadas pela exploração, pelo acúmulo, pelo individualismo e pela exclusão?

Os “ídolos” atuais podem assumir muitos nomes: dinheiro transformado em absoluto, poder político utilizado para dominar, mercado colocado acima da dignidade humana, racismo, patriarcado, consumismo, nacionalismos excludentes e uma religiosidade que busca Deus sem compromisso com o próximo. Quando tais realidades passam a determinar nossas escolhas, tornam-se formas contemporâneas de idolatria.

A Eucaristia, ao contrário, anuncia que somos um só corpo. Por isso, uma comunidade que celebra o pão partido deve tornar-se também comunidade que reparte o pão da vida. A celebração litúrgica encontra sua autenticidade quando conduz à solidariedade, à defesa da dignidade humana e à transformação das estruturas que produzem exclusão. O próprio texto evidencia a relação entre participação na mesa e comunhão: comer do mesmo pão significa constituir-se em um único corpo.

2. “Cada árvore se conhece pelo seu fruto” — Lc 6,43-45

O Evangelho de Lucas está inserido no grande discurso de Jesus dirigido aos discípulos. Pouco antes, Jesus havia proclamado as bem-aventuranças, chamado ao amor aos inimigos, à misericórdia e à superação do julgamento condenatório. Agora, utilizando imagens simples da vida cotidiana, ele ensina a discernir a autenticidade da vida.

“Não existe árvore boa que dê fruto ruim, nem árvore ruim que dê fruto bom” (Lc 6,43). A árvore é conhecida pelo fruto. Jesus desloca a atenção da aparência para a realidade concreta. Não basta parecer bom; é necessário produzir frutos de bondade.

A segunda imagem aprofunda a primeira: “A boca fala daquilo de que o coração está cheio” (Lc 6,45). Na linguagem bíblica, o coração não corresponde apenas aos sentimentos. É o centro da pessoa, lugar das decisões, pensamentos e opções. O que exteriorizamos revela aquilo que alimenta interiormente nossa existência.

Essa Palavra questiona profundamente uma religiosidade baseada apenas em discursos. É possível falar muito sobre Deus e, simultaneamente, produzir frutos de intolerância, violência, preconceito, exclusão e indiferença diante do sofrimento humano.

Para as CEBs, o critério evangélico é muito concreto: quais frutos estamos produzindo? Uma comunidade cristã precisa ser reconhecida pela capacidade de acolher, organizar, defender a vida, escutar os pobres, cuidar da Casa Comum, combater as injustiças e criar espaços de participação.

A leitura popular da Bíblia sempre procura perguntar: o que este texto diz à nossa realidade? Assim, a imagem da árvore pode ser aplicada também às estruturas sociais. Existem frutos que revelam árvores envenenadas: fome, violência, desemprego, concentração de terra e renda, destruição ambiental, racismo, violência contra as mulheres e abandono das periferias. O Evangelho convida-nos a discernir as raízes que produzem esses frutos.

Não basta combater somente os sintomas. É necessário tocar as raízes.

3. “Por que me chamais Senhor, Senhor, e não fazeis o que eu digo?”

A conclusão do Evangelho radicaliza a mensagem: “Por que me chamais: ‘Senhor! Senhor!’, e não fazeis o que eu digo?” (Lc 6,46).

Aqui está uma das críticas mais fortes de Jesus a uma religião que separa confissão de fé e prática. Chamar Jesus de “Senhor” não constitui, por si só, discipulado. O verdadeiro discípulo é aquele que vem, escuta e pratica.

Jesus então apresenta a imagem da casa construída sobre a rocha. Aquele que escuta e pratica é comparado a alguém que cava profundamente e coloca os fundamentos sobre a rocha. Quando chega a enchente, a casa permanece. Já aquele que escuta e não pratica constrói sem fundamento e vê sua casa ruir.

A metáfora possui uma dimensão profundamente social. Construir sobre a rocha significa estabelecer a existência sobre fundamentos sólidos: justiça, solidariedade, misericórdia, verdade, defesa da vida e compromisso com os pequenos. Uma sociedade edificada sobre a exploração dos vulneráveis pode parecer forte durante algum tempo, mas carrega dentro de si as causas de sua própria ruína.

Também as comunidades cristãs precisam perguntar sobre seus fundamentos. Estamos construindo comunidades abertas aos pobres ou comunidades fechadas em si mesmas? Estamos formando discípulos missionários ou apenas consumidores de celebrações religiosas? Nossa pastoral ajuda as pessoas a interpretar a realidade à luz da Palavra e a transformá-la?

A resposta não se encontra apenas em nossas palavras, mas nos frutos.

4. Uma espiritualidade eucarística que se transforma em compromisso

Os dois textos se iluminam mutuamente. Paulo fala da mesa; Jesus fala dos frutos e dos fundamentos. A mesa do Senhor forma um corpo; os frutos revelam a qualidade desse corpo. A Eucaristia não pode ser separada da prática do Evangelho.

Aqui se encontra uma contribuição fundamental da Teologia Latino-americana e das CEBs: a fé cristã é compreendida como seguimento histórico de Jesus. A Palavra de Deus não é apenas objeto de estudo; é Palavra que ilumina a realidade e convoca à transformação.

A comunidade que participa do único pão precisa reconhecer o rosto de Cristo nos pobres. Aquele que recebe o corpo de Cristo é chamado a defender os corpos ameaçados pela fome, pela violência, pelo racismo, pela exploração do trabalho e pela destruição da Casa Comum.

Por isso, a ação pastoral das CEBs pode partir de perguntas muito concretas:

Que formas de idolatria estão presentes em nossa realidade? Quem são hoje os pobres e excluídos que não encontram lugar à mesa? Que frutos nossa comunidade está produzindo? Sobre que fundamentos estamos construindo nossa Igreja e nossa sociedade?

Essas perguntas podem alimentar círculos bíblicos, encontros comunitários, celebrações, ações solidárias e processos de organização popular. A leitura orante da Palavra pode conduzir ao discernimento da realidade e, posteriormente, à ação transformadora.

5. Construir sobre a rocha: uma Igreja comprometida com os últimos

A Palavra proclamada nesta Quinta-feira da 23ª Semana do Tempo Comum recorda que não existe verdadeira comunhão com Cristo quando a vida permanece indiferente aos que sofrem.

O pão e o cálice anunciam uma comunidade reconciliada e solidária. A árvore e seus frutos revelam a autenticidade das escolhas. A casa sobre a rocha simboliza uma existência fundamentada na prática da Palavra.

Para as Comunidades Eclesiais de Base, isso significa recuperar continuamente a centralidade de Jesus e de seu Evangelho, colocando a vida dos pobres no centro do discernimento pastoral. Não se trata de transformar a Igreja em mera instituição sociopolítica, mas de reconhecer que o próprio Evangelho possui consequências sociais, econômicas, políticas, ambientais e culturais.

Uma Igreja que celebra a Eucaristia e escuta a Palavra precisa tornar-se Igreja samaritana, próxima dos que foram deixados à margem. Precisa estar onde a vida é ameaçada e onde os pobres lutam por dignidade. Precisa defender a Casa Comum e fortalecer aqueles que resistem à destruição de seus territórios.

A pergunta de Jesus continua ecoando: “Por que me chamais Senhor, Senhor, e não fazeis o que eu digo?”

A resposta não será encontrada somente em nossos discursos religiosos. Ela aparecerá nos frutos de nossa vida e nos fundamentos sobre os quais construímos nossas comunidades.

Que a mesa do Senhor nos torne verdadeiramente um só corpo; que a Palavra produza em nós frutos de justiça e misericórdia; e que nossas CEBs continuem cavando profundamente, construindo sobre a rocha do Evangelho uma Igreja comprometida com os pobres, os marginalizados, os excluídos e com toda a criação.

A fé celebrada no altar precisa continuar na vida. O pão partido precisa tornar-se pão repartido. E a Palavra ouvida precisa transformar-se em prática de amor, justiça e libertação.


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