Por Pe. Hermes A. Fernandes
Introdução
A vocação do profeta Jeremias constitui um dos relatos vocacionais mais profundos de toda a Sagrada Escritura. Em poucas linhas, o texto de Jr 1,4-8 revela que toda vocação nasce da iniciativa gratuita de Deus, é destinada ao serviço do povo e exige coragem para enfrentar as estruturas de pecado que se opõem ao Reino.
Na tradição cristã, este relato ultrapassa a figura histórica de Jeremias e torna-se um verdadeiro paradigma para compreender o chamado de todo discípulo e discípula de Jesus Cristo. A Igreja caminha a partir da convocação de Deus e existe para anunciar sua Palavra. Contudo, este anúncio jamais pode ser reduzido a um discurso abstrato ou espiritualista. A Palavra de Deus sempre se encarna na história concreta, especialmente na vida dos pobres, dos pequenos, dos excluídos e daqueles que mais sofrem as consequências da injustiça.
A Teologia Latino-Americana, especialmente a partir da Conferência de Medellín (1968), reafirmada por Puebla (1979), Santo Domingo (1992) e Aparecida (2007), recorda que evangelizar significa tornar presente o Reino de Deus na história, assumindo a defesa da dignidade humana, da justiça e da vida. Sob esta perspectiva, Jeremias continua sendo um mestre da vocação cristã.
“Antes de formar-te no ventre materno, eu te conheci”
A vocação do Profeta Jeremias nos anime e provoca. O relato inicia afirmando:
“Antes de formar-te no ventre materno, eu te conheci; antes que saísses do seio de tua mãe, eu te consagrei e te constituí profeta para as nações” (Jr 1,5).
Esta declaração manifesta que a vocação não nasce da iniciativa humana. É Deus quem toma a iniciativa.
O verbo “conhecer”, na linguagem bíblica, não significa simplesmente possuir informações sobre alguém. Trata-se de um conhecimento amoroso, de uma relação íntima, de aliança. Jeremias existe porque foi desejado por Deus.
A vocação cristã também nasce deste amor primeiro. Antes de qualquer mérito, capacidade ou santidade, Deus chama. O discípulo não conquista sua missão; ele a recebe como Dom.
Entretanto, esse chamado não possui finalidade individualista. Jeremias não é escolhido para seu crescimento pessoal, mas para servir ao povo. Toda eleição bíblica conduz necessariamente ao serviço.
Na Teologia Latino-Americana, esta verdade adquire enorme importância. Deus chama pessoas concretas para colaborarem com seu projeto histórico de libertação. A vocação não consiste em fugir do mundo, mas em transformar a realidade segundo o Evangelho.
A resistência humana diante do chamado
Jeremias responde:
“Ah! Senhor Deus! Eu não sei falar, porque sou muito jovem.”
Aqui aparece uma característica comum a quase todas as vocações bíblicas. Moisés dizia não saber falar. Isaías afirmava possuir lábios impuros. Gideão considerava-se pequeno. Pedro reconhecia-se pecador. Maria perguntava como aquilo seria possível. Todos experimentam medo diante da missão.
Jeremias apresenta duas limitações: sua juventude e sua falta de experiência. Na verdade, o profeta expressa a insegurança humana diante de uma missão que ultrapassa suas forças.
Também hoje muitos cristãos acreditam que evangelizar é responsabilidade exclusiva de padres, religiosos ou pessoas “mais preparadas”. Esquecem que o Batismo faz de cada fiel um missionário.
O medo continua sendo uma das maiores barreiras para a evangelização. Teme-se perder prestígio. Teme-se ser criticado. Teme-se enfrentar conflitos. Teme-se denunciar injustiças. Teme-se defender os pobres. Entretanto, Deus não escolhe pessoas prontas. Deus prepara aqueles que escolhe.
“Não digas: sou muito jovem”
A resposta divina é decisiva:
“Não digas: sou muito jovem. A todos aqueles a quem eu te enviar irás; tudo quanto eu te mandar dirás.”
Aqui aparece uma característica essencial da missão profética. O profeta não anuncia suas opiniões. Não defende interesses pessoais. Não busca popularidade. Sua missão consiste em tornar-se voz da Palavra de Deus.
Na Bíblia, o verdadeiro profeta jamais procura agradar aos poderosos. Ele anuncia a verdade, ainda que isso lhe custe perseguições. Jeremias enfrentará reis, sacerdotes, falsos profetas e autoridades políticas. Sua fidelidade terá um preço elevado.
Da mesma forma, o discípulo missionário é chamado a anunciar o Evangelho mesmo quando isso contraria interesses econômicos, políticos e culturais.
Jesus viverá exatamente esta experiência. Ele anuncia o Reino aos pobres. Denuncia a hipocrisia religiosa. Questiona estruturas de exclusão. Defende mulheres, estrangeiros, crianças, doentes e pecadores. Por isso será rejeitado.
A cruz não foi um acidente. Foi consequência da fidelidade ao Reino.
Jeremias e Jesus: duas vocações, uma mesma missão
Jeremias prepara o caminho da missão realizada plenamente em Jesus Cristo. Ambos conhecem a solidão. Ambos choram por Jerusalém. Ambos enfrentam perseguições. Ambos denunciam a corrupção religiosa. Ambos proclamam que Deus deseja misericórdia e justiça. Jesus leva às últimas consequências aquilo que Jeremias anunciava.
Enquanto Jeremias proclama a Palavra de Deus, Jesus é a própria Palavra feita carne (Jo 1,14). Por isso, toda vocação cristã encontra seu modelo definitivo na vida de Cristo. Seguir Jesus significa assumir seu modo de viver. Significa aproximar-se dos pobres. Escutar os esquecidos. Caminhar com os que sofrem. Construir fraternidade. Promover justiça. Anunciar esperança.
A vocação cristã à luz da Teologia Latino-Americana
A Teologia Latino-Americana insiste que Deus continua chamando profetas dentro da história. Não se trata apenas de prever acontecimentos futuros. O verdadeiro profeta interpreta a realidade à luz da Palavra de Deus.
Por isso, a missão da Igreja não pode limitar-se aos templos. Ela acontece: nas periferias; nas comunidades rurais; nas ocupações urbanas; nas aldeias indígenas; entre os migrantes; nos hospitais; nas prisões; nas escolas; nas universidades; nos sindicatos; nas pastorais sociais; nas Comunidades Eclesiais de Base.
Ali Deus continua pronunciando sua Palavra. A vocação cristã torna-se inseparável da solidariedade. Quem anuncia Cristo precisa reconhecer sua presença nos pobres.
Recordemos as palavras de Jesus em Mateus 25: “Tive fome… Tive sede… Era estrangeiro… Estava preso…” O encontro com Cristo passa inevitavelmente pelo encontro com aqueles cuja dignidade foi ferida.
Por isso, a missão da Igreja não pode ser neutra diante da pobreza, da violência, da fome, do racismo, da destruição ambiental e das diversas formas de exclusão.
O anúncio do Evangelho implica compromisso com a vida.
As Comunidades Eclesiais de Base: escolas de vocação profética
As Comunidades Eclesiais de Base constituem uma das expressões mais fecundas da vocação profética na América Latina. Nelas, a Palavra é lida a partir da vida. Os pobres tornam-se sujeitos da evangelização. A comunidade discerne coletivamente os apelos de Deus. A missão deixa de ser privilégio de poucos. Cada batizado descobre-se chamado. Cada família torna-se espaço missionário. Cada celebração fortalece o compromisso com a transformação social.
Neste sentido, Jeremias continua vivo em cada comunidade que escuta o clamor do povo e responde com fidelidade ao Evangelho.
Provocações para os cristãos de hoje
A vocação de Jeremias interpela profundamente a Igreja contemporânea. Não basta conservar estruturas. É necessário conservar a fidelidade ao Evangelho.
Não basta repetir fórmulas religiosas. É preciso escutar o grito dos pobres.
Não basta defender tradições. É necessário discernir onde Deus continua falando hoje.
Somos chamados a perguntar: Quem são os Jeremias do nosso tempo? Quem denuncia a violência contra os pobres? Quem anuncia esperança nas periferias? Quem defende os povos indígenas? Quem protege a Casa Comum? Quem acolhe os migrantes? Quem luta contra toda forma de exclusão? Quem permanece fiel ao Evangelho mesmo sendo incompreendido?
Essas perguntas não procuram identificar heróis individuais. Elas dirigem-se à própria comunidade cristã. Toda Igreja é chamada a assumir uma vocação profética.
Conclusão
O chamado de Jeremias permanece extraordinariamente atual. Deus continua chamando homens e mulheres para anunciar sua Palavra em meio às alegrias e sofrimentos da história. A vocação cristã não é um privilégio reservado a alguns, mas um dom concedido a todo batizado, enviado a testemunhar o Evangelho com a vida.
À luz da Teologia Latino-Americana, compreendemos que este anúncio não pode ser separado da realidade concreta do povo. O Deus que chama Jeremias é o mesmo Deus que escuta o clamor dos pobres, caminha com os oprimidos e suscita profetas para denunciar a injustiça e anunciar a esperança. Em Jesus Cristo, essa missão alcança sua plenitude: a Palavra torna-se carne e habita entre nós, revelando que evangelizar é servir, acolher, libertar e amar.
Assim, cada comunidade cristã é convidada a renovar sua resposta vocacional, superando o medo e a acomodação. Como Jeremias, somos enviados não para falar em nosso próprio nome, mas para tornar visível, com palavras e gestos, a vontade de Deus. Quando a Igreja caminha ao lado dos pobres, escuta seus clamores e luta pela vida plena de todos, ela continua a tradição dos profetas e manifesta, no coração da história, a presença libertadora do Reino de Deus.
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