Deus se revela na brisa, fortalece a esperança e chama a caminhar sobre as águas, enfrentando as tempestades da história
Por Pe. Hermes A. Fernandes
Introdução
A liturgia deste domingo apresenta três textos profundamente interligados pela temática da presença de Deus em tempos de crise. Elias experimenta um Deus diferente daquele esperado pelas antigas tradições do poder; Paulo manifesta a dor diante da incredulidade de seu próprio povo; e Pedro aprende que somente a confiança em Jesus permite atravessar as tempestades da vida.
Lidos conjuntamente, esses textos oferecem uma profunda catequese sobre a esperança. Deus não abandona seu povo quando tudo parece perdido. Pelo contrário, revela-se precisamente onde os poderosos não conseguem percebê-lo: no silêncio, na fragilidade, na travessia e na solidariedade.
Para a Teologia Latino-Americana, esta liturgia torna-se um chamado à resistência dos povos pobres, dos trabalhadores explorados, das comunidades periféricas, dos povos indígenas, dos migrantes, dos sem-terra, dos sem-teto e de todos aqueles cuja existência continua marcada pelas tempestades produzidas pela injustiça estrutural.
1. Elias encontra Deus na brisa suave (1Rs 19,9a.11-13a)
Contexto histórico
O capítulo 19 do Primeiro Livro dos Reis acontece logo após a vitória de Elias sobre os profetas de Baal no Monte Carmelo (1Rs 18). Esperava-se uma profunda conversão nacional. Nada disso acontece. Jezabel continua perseguindo Elias. O profeta precisa fugir para salvar sua vida. Seu entusiasmo missionário transforma-se em profunda depressão.
Chega ao monte Horeb (na Península do Sinai), a montanha da Aliança, exatamente como Moisés fizera séculos antes. O autor estabelece um paralelo intencional entre Moisés e Elias. Entretanto, a experiência agora será diferente.
A desconstrução do Deus do poder
O texto afirma: “O Senhor não estava no vento.” Depois: “O Senhor não estava no terremoto.” Depois: “O Senhor não estava no fogo.”
Todos esses elementos eram, tradicionalmente, sinais clássicos das teofanias do Antigo Oriente. Esperava-se um Deus espetacular. Mas Deus surpreende. Ele aparece numa “voz de um silêncio suave“, expressão hebraica extremamente difícil de traduzir.] Não é apenas uma “brisa leve”. É um silêncio carregado de presença. Deus fala onde ninguém imagina.
Como compreender 1Rs 19,9a.11-13a em nossas vidas?
As comunidades populares da América Latina reconhecem imediatamente esta pedagogia divina. Deus não costuma aparecer nos palácios. Nem nos centros do poder. Nem nas estruturas de dominação.
Ele aparece: na pequena comunidade; na partilha; na resistência dos pobres; nas mães solo que sustentam suas famílias; nos agentes de pastoral; nas lideranças perseguidas; nos mártires da caminhada. O Deus da Bíblia prefere a humildade. É justamente por isso que tantos poderosos não conseguem percebê-lo.
2. Paulo sofre por seu povo (Rm 9,1-5)
Contexto da Carta
Romanos 9 inaugura uma nova seção da carta. Depois de apresentar a justificação pela fé, Paulo enfrenta uma questão dramática: Como explicar que grande parte de Israel não acolheu Jesus?
A questão não é apenas teológica. É profundamente afetiva. Paulo ama seu povo. Seu sofrimento é quase insuportável. Chega a afirmar que desejaria ser separado de Cristo caso isso pudesse salvar seus irmãos. É uma das declarações mais intensas do Novo Testamento.
A eleição de Deus continua sendo Dom
Paulo recorda todos os privilégios de Israel: a adoção filial; a glória; as alianças; a Lei; o culto; as promessas; os patriarcas; o próprio Cristo.
Nada disso é negado. Ao contrário. A fidelidade de Deus permanece. A eleição nunca foi privilégio. Sempre foi missão.
Entendendo a Carta aos Romanos por uma hermenêutica latino-americana
Aqui surge uma importante provocação pastoral. Toda comunidade cristã corre o risco de acreditar que possui Deus exclusivamente para si. Paulo desmonta essa lógica. A eleição gera responsabilidade. Nunca superioridade.
Da mesma forma, nossas Igrejas precisam perguntar: estamos servindo aos pobres? Ou apenas defendendo privilégios religiosos? Quando a religião deixa de produzir compaixão, perde seu sentido evangélico.
3. Jesus caminha sobre as águas (Mt 14,22-33)
Contexto do Evangelho
Esta narrativa acontece logo após a multiplicação dos pães. Enquanto Jesus permanece em oração, os discípulos atravessam o lago.
A barca representa claramente a comunidade cristã. O mar simboliza, na tradição bíblica, o caos, o mal e todas as forças que ameaçam a vida. O vento contrário representa as perseguições enfrentadas pela Igreja de Mateus.
A quarta vigília
Jesus aproxima-se durante a quarta vigília da noite. Entre três e seis horas da manhã. É o momento mais escuro da noite. Entretanto, também o instante imediatamente anterior ao nascer do sol. Mateus quer dizer: mesmo quando tudo parece perdido, Jesus continua vindo ao encontro da comunidade.
“Sou eu”
Em grego: Ego eimi. Não significa apenas: “Sou eu.” A expressão recorda diretamente o nome divino revelado a Moisés. Jesus manifesta a presença do próprio Deus. Por isso acrescenta: “Não tenham medo.” O medo paralisa.
A fé coloca novamente a comunidade em movimento.
Pedro representa toda a Igreja
Pedro não é apresentado como herói. É discípulo. Como qualquer outro. Enquanto olha para Jesus, caminha. Quando fixa os olhos na violência do vento, afunda. A cena descreve toda experiência cristã.
A comunidade não afunda porque existam tempestades. Afunda quando perde de vista o Reino.
“Homem de pouca fé”
Mateus usa repetidas vezes esta expressão. Não significa ausência de fé. Mas fé ainda imatura. Pedro acredita. Entretanto, ainda precisa amadurecer. É exatamente o caminho de toda comunidade cristã.
O diálogo entre as duas leituras e o evangelho da liturgia
As três leituras constroem um extraordinário itinerário espiritual e pastoral. Elias foge da violência. Os discípulos enfrentam a tempestade. Paulo sofre pela incredulidade. São três experiências diferentes da mesma crise. Entretanto, Deus responde de forma semelhante. Não elimina imediatamente a tempestade. Antes, oferece sua presença. A presença de Deus torna possível continuar caminhando.
A verdadeira fé não consiste em escapar da realidade. Consiste em permanecer nela sem perder a esperança.
A tempestade da América Latina
A Leitura Popular da Bíblia convida-nos a perguntar: quais são hoje as tempestades? São muitas. A fome. O desemprego. A violência urbana. O feminicídio. O racismo estrutural. A destruição ambiental. O avanço do garimpo ilegal. A expulsão de povos indígenas. A concentração da terra. A precarização do trabalho. A migração forçada. As fake news que alimentam o ódio. A mercantilização da fé. A instrumentalização política da religião.
Em muitas comunidades, o povo sente exatamente o que sentiram Elias e Pedro: “Não conseguiremos sobreviver.”
É justamente aí que ressoa a palavra de Jesus: “Coragem. Sou eu. Não tenham medo.”
A crítica da Teologia Latino-Americana
A Teologia Latino-Americana insiste que Deus continua caminhando sobre as águas da história. Não permanece distante. Está presente nas comunidades que organizam mutirões. Nas cozinhas solidárias. Nos assentamentos. Nas ocupações urbanas. Nas Comunidades Eclesiais de Base. Nas pastorais sociais. Nos grupos de mulheres. Nos movimentos populares. Nos jovens que lutam por dignidade. Nos povos originários que defendem seus territórios. Nos defensores da Casa Comum.
Ali Deus continua dizendo: “Sou eu.” Não através do espetáculo religioso. Mas através da solidariedade organizada.
Pistas para a ação pastoral
Esta liturgia desafia nossas comunidades a assumir compromissos concretos.
Primeiro, aprender a reconhecer Deus nos pequenos sinais da história, cultivando uma espiritualidade do silêncio, da escuta e do discernimento, em vez de buscar apenas manifestações extraordinárias da fé.
Segundo, fortalecer comunidades que não se deixem dominar pelo medo. A barca da Igreja permanece em travessia e sua missão não é buscar segurança institucional, mas acompanhar os que enfrentam as tempestades da exclusão.
Terceiro, cultivar uma pastoral profundamente compassiva, à semelhança de Paulo, que sofre com seu povo. A evangelização não pode ser indiferente ao sofrimento social; ela nasce da solidariedade e da disposição de carregar as dores da humanidade.
Quarto, reafirmar a opção preferencial pelos pobres como critério de autenticidade evangélica. Caminhar sobre as águas significa enfrentar, com esperança e organização comunitária, as forças que produzem morte, denunciando as estruturas injustas e anunciando alternativas de vida.
Quinto, fortalecer as Comunidades Eclesiais de Base, as pastorais sociais e os espaços de participação popular, onde a fé se traduz em compromisso concreto com a justiça, a paz, o cuidado da criação e a defesa da dignidade humana.
Conclusão
A liturgia deste domingo revela um Deus profundamente diferente daquele imaginado pelos sistemas religiosos do poder. Ele não se manifesta na violência, nem na ostentação, nem no domínio sobre os outros. Revela-se no silêncio que reanima Elias, na compaixão que faz Paulo sofrer por seu povo e na presença de Jesus que sustenta Pedro em meio às águas agitadas.
Essa unidade das leituras conduz a uma convicção fundamental: a fé cristã não é fuga da história, mas força para atravessá-la. Deus não promete ausência de tempestades; promete sua presença nelas. A comunidade discípula é chamada a manter os olhos fixos em Cristo e os pés comprometidos com a realidade dos pobres, transformando o medo em esperança organizada e a esperança em ação libertadora.
À luz da Teologia Latino-Americana e da Leitura Popular da Bíblia, a travessia da barca simboliza a caminhada da Igreja junto aos crucificados da história. Onde homens e mulheres resistem à fome, à violência, ao racismo, à exclusão e à destruição da Casa Comum, ali continua soprando a “voz de um silêncio suave” que fortaleceu Elias e continua ecoando nas palavras de Jesus: “Coragem! Sou eu. Não tenham medo.” Essa certeza sustenta a missão de uma Igreja samaritana, pobre com os pobres e comprometida com a construção do Reino de Deus na história.
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