Uma leitura de Ap 11,19a; 12,1-6a.10; 1Cor 15,20-27a e Lc 1,39-56 à luz da Teologia Latino-americana
Por Pe. Hermes A. Fernandes
Introdução: quando Deus visita a história dos pequenos
Há textos bíblicos que não podem ser lidos apenas como relatos religiosos destinados a alimentar uma espiritualidade individual. Eles precisam ser escutados a partir da história concreta dos povos, de seus conflitos, de suas dores e de suas esperanças. É justamente essa perspectiva que caracteriza a Leitura Popular da Bíblia e que encontra profunda afinidade com a Teologia Latino-Americana.
A liturgia que reúne Apocalipse 11,19a; 12,1-6a.10ab; 1Coríntios 15,20-27a e Lucas 1,39-56 oferece uma extraordinária síntese da esperança cristã. Em todos esses textos aparece, de diferentes maneiras, a afirmação de que a morte, a opressão e os poderes que pretendem dominar a história não terão a última palavra.
No Apocalipse, uma mulher aparece como sinal no céu, ameaçada por um dragão que deseja devorar seu filho. Em Paulo, Cristo ressuscitado é apresentado como primícia daqueles que morreram: a ressurreição inaugura uma nova humanidade. No Magnificat, Maria proclama que Deus derruba os poderosos de seus tronos e eleva os humildes, sacia os famintos e despede os ricos de mãos vazias.
Não se trata, portanto, de três textos isolados. Eles formam uma unidade teológica profundamente significativa: a mulher ameaçada → o Filho perseguido → a vitória da vida → a queda dos poderes opressores → a exaltação dos humildes.
É uma verdadeira teologia da esperança histórica.
A partir da América Latina, essa Palavra ganha rostos concretos: mulheres violentadas, crianças ameaçadas, povos indígenas expulsos de suas terras, trabalhadores explorados, pessoas em situação de rua, migrantes, camponeses sem terra, comunidades periféricas, populações negras vítimas do racismo, pessoas descartadas por uma economia que coloca o lucro acima da vida.
A Bíblia, lida a partir dos pobres, pergunta à Igreja: de que lado estamos quando o dragão ameaça a vida?
1. O contexto do Apocalipse: uma comunidade ameaçada pelos poderes do Império
O livro do Apocalipse nasce em um contexto de conflito. Não é simplesmente um livro sobre acontecimentos futuros. É, antes de tudo, uma mensagem de resistência e esperança dirigida às comunidades cristãs que experimentavam as consequências do poder imperial.
O texto de Ap 11,19 apresenta uma imagem decisiva: “Abriu-se o templo de Deus que está no céu, e apareceu no templo a arca da sua aliança.”
A abertura do templo revela que Deus não abandonou seu povo. A “arca da aliança” evoca a presença fiel de Deus junto à humanidade.
Logo depois, Apocalipse 12 apresenta: “um grande sinal no céu: uma Mulher vestida de sol, tendo a lua debaixo dos pés e sobre a cabeça uma coroa de doze estrelas.” A mulher está grávida. Ela sofre as dores do parto. Diante dela aparece outro sinal: um grande dragão vermelho.
A oposição é evidente. De um lado, a mulher e a vida que está para nascer. Do outro, o dragão e a força da morte. O texto utiliza linguagem simbólica para falar de uma realidade histórica.
O dragão representa os poderes que pretendem controlar a história, dominar os povos e impedir o nascimento de uma nova realidade. No horizonte do Apocalipse, essa imagem possui relação com a experiência das comunidades diante do poder imperial.
O Império apresenta-se como absoluto. Pretende decidir quem vive e quem morre. Determina valores, organiza a economia, controla territórios e estabelece mecanismos de dominação.
O Apocalipse, entretanto, afirma algo revolucionário: o Império não é Deus. O poder político não é absoluto. A violência não é soberana. A morte não terá a última palavra.
2. Quem é a mulher do Apocalipse?
Uma leitura simplista poderia identificar imediatamente a mulher exclusivamente com Maria. A tradição cristã posteriormente encontrou nela uma profunda referência mariana. Entretanto, exegeticamente, o símbolo possui uma amplitude maior.
A mulher representa, em primeiro lugar, o Povo de Deus, a comunidade que gera a esperança em meio às dores da história. Ela também pode ser relacionada a Israel, à comunidade messiânica e, posteriormente, à Igreja.
Por isso, Maria pode ser contemplada nesse símbolo, mas não deve ser reduzida a ele. A mulher representa todas as forças históricas que geram vida em meio a um sistema de morte. Essa interpretação é particularmente fecunda para a Teologia Latino-Americana.
Quantas mulheres latino-americanas continuam gerando vida em condições de extrema precariedade? Mulheres que sustentam famílias. Mulheres que organizam comunidades. Mulheres que enfrentam a violência. Mulheres que lutam pela terra. Mulheres indígenas que defendem seus territórios. Mulheres negras que enfrentam o racismo. Mães que lutam para que seus filhos não sejam vítimas da violência. Mulheres que, apesar de tudo, continuam acreditando que a vida pode nascer.
O Apocalipse oferece uma imagem poderosa para essa realidade: a história dos pobres não é uma história sem Deus.
3. O dragão: quando estruturas de morte se organizam
O dragão é descrito como aquele que deseja devorar a criança. Não se trata apenas de uma maldade individual. O símbolo aponta para uma estrutura de poder.
O dragão possui sete cabeças e dez chifres. A linguagem simbólica expressa força, poder e capacidade de dominação. O conflito, portanto, não é simplesmente entre indivíduos bons e maus.
É um conflito entre projetos de sociedade.
Há um projeto que deseja gerar vida. E há projetos que procuram preservar estruturas de morte. Essa percepção é fundamental para a Teologia Latino-Americana.
A pobreza não pode ser compreendida somente como resultado de escolhas individuais. Existem estruturas econômicas, políticas e sociais que produzem exclusão.
Existe uma pobreza involuntária. Existe concentração de riqueza, desigualdade, racismo estrutural, exploração do trabalho. E ainda: violência contra povos indígenas, destruição ambiental, exclusão de migrantes, abandono das periferias por falta de recursos mínimos para uma vida digna.
Quando a Bíblia denuncia os poderes que ameaçam a vida, ela oferece à Igreja uma chave para discernir também os “dragões” contemporâneos.
4 “Agora realizou-se a salvação”: a esperança nasce da resistência.
O trecho do Apocalipse culmina com uma proclamação: “Agora realizou-se a salvação, a força e o Reino do nosso Deus.” A vitória de Deus não significa fuga da história.
O Apocalipse não está dizendo às comunidades: “não se preocupem com a realidade, porque um dia Deus resolverá tudo”. Ao contrário.
O livro foi escrito para fortalecer comunidades que precisavam resistir. A esperança cristã não é anestesia. É força para continuar caminhando.
É por isso que a Leitura Popular da Bíblia insiste na relação entre Bíblia e vida.
O texto pergunta:
- Quem são hoje os que sofrem as dores de parto?
- Quem são os que procuram proteger a vida?
- Quem são os dragões que ameaçam as comunidades?
- Quais estruturas devoram crianças?
- Quais sistemas expulsam famílias de suas terras?
- Quais mecanismos econômicos produzem fome?
- Quais poderes transformam pessoas em mercadorias?
Ler Apocalipse hoje é aprender a desmascarar os ídolos contemporâneos.
5. 1Coríntios 15: Cristo ressuscitado é a primícia da nova humanidade
A segunda leitura oferece a chave cristológica para compreender a esperança anunciada no Apocalipse. Paulo escreve: “Cristo ressuscitou dos mortos como primícias dos que morreram.”
A palavra “primícias” é fundamental. Cristo não é apresentado simplesmente como alguém que voltou individualmente à vida. Sua ressurreição inaugura uma realidade nova.
Paulo pensa a ressurreição como um acontecimento que alcança toda a criação humana. Cristo é o primeiro. Depois virá a plenitude. Por isso, a ressurreição de Jesus possui uma dimensão profundamente comunitária.
O destino de Cristo é promessa para aqueles que pertencem a ele. A vida venceu a morte. Mas essa vitória ainda precisa alcançar toda a realidade.
6. “Até que tenha colocado todos os inimigos debaixo dos seus pés”
Paulo afirma: “É preciso que ele reine, até que tenha posto todos os inimigos debaixo de seus pés.” O último inimigo a ser destruído é a morte. Essa afirmação possui uma enorme força sociopolítica.
Se Deus quer vencer a morte, a Igreja não pode ser indiferente às situações que produzem morte. Não podemos proclamar a ressurreição aos domingos e aceitar estruturas de morte durante a semana. A fé na ressurreição precisa produzir compromisso com a vida.
A ressurreição questiona:
- a fome;
- o desemprego;
- a violência;
- a exploração;
- o racismo;
- a destruição ambiental;
- a exclusão social;
- o abandono dos idosos;
- a violência contra as mulheres;
- a expulsão dos povos originários;
- a criminalização dos pobres.
A ressurreição é incompatível com uma espiritualidade indiferente.
7. A Páscoa como projeto histórico
A Teologia Latino-Americana compreendeu profundamente essa relação entre Páscoa e história.
A ressurreição não elimina a cruz. Ela revela que a cruz não conseguiu derrotar a vida. Por isso, a experiência pascal torna-se critério de discernimento histórico.
- Onde a vida está sendo destruída, a Igreja deve estar presente.
- Onde os pobres estão sendo humilhados, a Igreja deve escutar.
- Onde pessoas estão sendo descartadas, a Igreja deve levantar sua voz.
- Onde comunidades estão resistindo, a Igreja deve caminhar junto.
A fé pascal transforma-se, assim, em compromisso histórico.
8. O Evangelho: Maria vai ao encontro de Isabel
O Evangelho de Lucas oferece a dimensão concreta dessa esperança. Maria recebe o anúncio do anjo e imediatamente parte para casa de sua prima, Isabel.
O texto diz: “Naqueles dias, Maria partiu para a região montanhosa, dirigindo-se apressadamente a uma cidade da Judeia.” Maria não fica encerrada em sua experiência espiritual. Ela coloca-se a caminho.
A experiência de Deus conduz à missão. Maria vai ao encontro de Isabel. Aqui encontramos uma das características fundamentais da espiritualidade bíblica: Deus encontrado conduz ao irmão e à irmã encontrados.
A fé verdadeira não produz isolamento. Produz encontro.
9. Maria: mulher pobre, mulher peregrina, mulher profética
É significativo que Lucas não apresente Maria em um palácio. Ela está no caminho. Está entre pessoas simples. Sua experiência de Deus acontece no cotidiano. Maria pertence ao mundo dos pequenos.
E é justamente essa mulher que proclama uma das mais radicais declarações socioteológicas da Bíblia: “Derruba do trono os poderosos e eleva os humildes.” O Magnificat não é uma oração desencarnada. É um cântico de transformação.
Maria proclama que Deus:
- olha para os humildes;
- derruba os poderosos;
- eleva os pequenos;
- sacia os famintos;
- despede os ricos de mãos vazias;
- recorda sua misericórdia.
O Deus do Magnificat não é neutro diante da desigualdade. Ele toma partido da vida ameaçada.
10. O Magnificat e a opção pelos pobres
Aqui encontramos uma das maiores convergências entre a Bíblia e a Teologia Latino-Americana. A opção preferencial pelos pobres não é invenção recente da Igreja latino-americana. Ela possui raízes profundamente bíblicas.
O Magnificat revela que Deus vê aqueles que o mundo não vê.
- Deus escuta aqueles que não possuem voz.
- Deus visita aqueles que foram abandonados.
- Deus se aproxima dos pequenos.
Essa perspectiva tornou-se fundamental para a Teologia Latino-americana. Os pobres não são apenas destinatários da evangelização. Eles são também sujeitos da evangelização.
- Possuem saberes.
- Possuem experiências.
- Possuem espiritualidade.
- Possuem capacidade de interpretar a realidade.
- Possuem uma palavra sobre Deus.
A Leitura Popular da Bíblia parte justamente dessa convicção: quando a comunidade pobre lê a Bíblia a partir de sua própria realidade, descobre que sua vida está presente na Palavra.
11. A Bíblia lida a partir dos pobres
A Leitura Popular da Bíblia realiza um movimento em três dimensões: vida → Bíblia → vida.
Primeiro, olha-se a realidade. Depois, escuta-se a Palavra. Finalmente, retorna-se à realidade com uma nova consciência e uma nova prática.
Maria canta o Magnificat porque aprendeu a perceber a ação de Deus dentro da história.
- O Deus do Êxodo continua atuando.
- O Deus que escuta os escravos continua ouvindo.
- O Deus que derruba os poderosos continua libertando.
- O Deus que alimenta os famintos continua chamando seu povo para repartir o pão.
Por isso, o Magnificat não pode ser reduzido a uma oração devocional. Ele é também uma profissão de fé no Deus libertador.
12. A inter-relação entre as três leituras
As três leituras podem ser compreendidas como diferentes momentos de uma mesma revelação.
Apocalipse: Deus vence os poderes da morte
A mulher está ameaçada. O dragão representa os poderes que desejam devorar a vida. Mas o dragão não vence.
1Coríntios: Deus vence definitivamente a morte
Cristo ressuscitou. A ressurreição é a primícia da nova humanidade. A morte será o último inimigo destruído.
Lucas: Deus começa a transformar a história a partir dos pequenos
Maria canta: os humildes são elevados, os famintos são saciados, os poderosos são derrubados.
Assim, podemos sintetizar: Apocalipse denuncia o poder que mata. Paulo anuncia a vitória da vida. Maria proclama a transformação da história.
13. Da mulher do Apocalipse à mulher do Magnificat
Existe uma profunda ligação entre a mulher do Apocalipse e Maria no Evangelho de Lucas.
No Apocalipse, a mulher sofre dores de parto. Em Lucas, Maria carrega em seu ventre aquele que vem inaugurar o Reino. Em ambos os casos, a vida aparece ameaçada. Mas a ameaça não consegue impedir o nascimento.
Essa é uma das grandes mensagens da Bíblia: Deus faz nascer esperança precisamente onde os poderes da morte acreditam ter vencido. Essa esperança é fundamental para os pobres. Porque o pobre frequentemente vive em situações em que o futuro parece impossível.
A Bíblia anuncia: a história não está fechada.
- Há futuro.
- Há esperança.
- Há ressurreição.
- Há Reino.
- Há possibilidade de transformação.
14. A dimensão sociotransformadora da liturgia
Uma liturgia verdadeiramente celebrada à luz desses textos não pode terminar simplesmente quando a celebração termina. O altar envia para a vida. A Palavra convoca à missão. A Eucaristia exige compromisso.
Se celebramos Cristo ressuscitado, precisamos escolher a vida. Se cantamos o Magnificat, precisamos perguntar quem são os humildes de nosso território. Se contemplamos a mulher ameaçada pelo dragão, precisamos identificar quem hoje está sendo ameaçado pelos poderes da morte.
A liturgia precisa tornar-se escola de compromisso social.
15. Quem são os pobres hoje?
A pergunta bíblica não pode ser abstrata. É necessário perguntar: Quem são os pobres em nosso território?
Podem ser:
- famílias em situação de fome;
- moradores das periferias;
- pessoas em situação de rua;
- trabalhadores submetidos à precarização;
- desempregados;
- migrantes e refugiados;
- povos indígenas;
- comunidades quilombolas;
- agricultores familiares;
- mulheres vítimas de violência;
- crianças e adolescentes abandonados;
- idosos solitários;
- pessoas com deficiência;
- populações negras vítimas do racismo;
- dependentes químicos abandonados;
- pessoas encarceradas e suas famílias;
- vítimas da destruição ambiental.
O Magnificat obriga a Igreja a enxergar aqueles que a sociedade prefere não enxergar.
16. O compromisso com os povos originários e a defesa da terra
A mulher do Apocalipse também pode inspirar uma leitura ecológica. Ela aparece vinculada ao céu, à terra, ao parto e à vida. O conflito bíblico não diz respeito apenas à sobrevivência individual. A criação inteira está envolvida no projeto de Deus.
A Teologia Latino-Americana, especialmente a partir da perspectiva da ecologia integral, reconhece que a destruição da natureza atinge primeiramente os pobres. Quando uma floresta é destruída, não se destrói apenas madeira. Destrói-se território. Destrói-se cultura. Destrói-se memória. Destrói-se a possibilidade de vida de comunidades inteiras.
Por isso, defender a criação é também defender os pobres. A defesa da Casa Comum é uma dimensão da fé pascal.
17. Maria e a espiritualidade do caminho
Maria não apenas canta. Maria caminha. Essa dimensão é fundamental para a pastoral.
Uma Igreja que permanece fechada em seus templos pode proclamar o Magnificat, mas ainda não compreendeu plenamente sua mensagem.
Maria sai. Vai para a região montanhosa. Encontra Isabel. Serve. Escuta. Celebra.
A Igreja precisa recuperar essa espiritualidade do caminho. Uma pastoral inspirada nesses textos deveria perguntar: Onde precisamos ir?
Talvez seja necessário ir:
- às periferias;
- às aldeias indígenas;
- às ocupações urbanas;
- aos hospitais;
- às prisões;
- às comunidades rurais;
- às famílias enlutadas;
- aos lugares onde a violência está destruindo vidas;
- aos territórios onde a esperança parece ter desaparecido.
18. A ação pastoral como resposta ao Magnificat
Uma pastoral sociotransformadora poderia organizar-se em torno de algumas atitudes concretas.
1. Escutar os pobres
Antes de falar sobre os pobres, é necessário ouvi-los. A comunidade precisa aprender a reconhecer os pobres como sujeitos.
2. Ler a Bíblia com o povo
A Bíblia deve voltar às mãos das comunidades. Não apenas como livro de devoção, mas como instrumento de discernimento da realidade.
3. Identificar os “dragões” contemporâneos
A pastoral precisa desenvolver consciência crítica diante das estruturas que produzem morte.
4. Organizar a solidariedade
A fé deve produzir ações concretas: campanhas contra a fome, apoio a migrantes, defesa de moradores em situação de rua, proteção de mulheres vítimas de violência e apoio a comunidades vulneráveis.
5. Defender os territórios
A Igreja precisa estar próxima dos povos ameaçados pela expulsão de suas terras e pela destruição ambiental.
6. Formar consciência cidadã
Evangelizar também significa ajudar as comunidades a conhecer seus direitos e a participar da construção do bem comum.
7. Construir redes
Nenhuma comunidade pode enfrentar sozinha estruturas de exclusão. É necessário estabelecer alianças com movimentos populares, pastorais sociais, organizações comunitárias e iniciativas de defesa da vida.
19. A espiritualidade da esperança ativa
Há uma diferença fundamental entre esperança cristã e conformismo.
O conformismo diz: “É assim mesmo.” A esperança diz: “Pode ser diferente.” O conformismo aceita o sofrimento dos pobres como inevitável. A esperança pascal trabalha para que ninguém precise morrer de fome. O conformismo naturaliza a violência. A esperança denuncia. O conformismo olha para a exclusão e diz: “Não há nada a fazer.” A esperança responde: Deus ainda está fazendo nascer vida.
- Por isso, a esperança cristã é ativa.
- É uma esperança que organiza.
- É uma esperança que luta.
- É uma esperança que serve.
- É uma esperança que resiste.
20. O Magnificat como programa pastoral
Talvez uma das maneiras mais fecundas de ler o Evangelho seja compreender o Magnificat como um verdadeiro programa pastoral.
“Olhou para a humildade de sua serva.” → A Igreja precisa olhar para os pequenos.
“Derrubou os poderosos de seus tronos.” → A Igreja precisa questionar estruturas de dominação.
“Elevou os humildes.” → A pastoral precisa promover protagonismo popular.
“Aos famintos encheu de bens.” → A evangelização precisa enfrentar a fome.
“Aos ricos despediu de mãos vazias.” → A Igreja precisa denunciar a acumulação que produz exclusão.
O Magnificat não é simplesmente uma oração para ser rezada.
- É uma visão de mundo.
- É uma espiritualidade.
- É uma profecia.
- É um compromisso.
21. A Igreja diante dos poderes de morte
Apocalipse, Paulo e Lucas colocam a Igreja diante de uma escolha. Não existe neutralidade absoluta diante da vida e da morte.
- Quando uma criança passa fome, a Igreja precisa escolher.
- Quando uma família é despejada, a Igreja precisa escolher.
- Quando um trabalhador é explorado, a Igreja precisa escolher.
- Quando um povo indígena é expulso de sua terra, a Igreja precisa escolher.
- Quando uma mulher sofre violência, a Igreja precisa escolher.
- Quando a natureza é destruída em nome do lucro, a Igreja precisa escolher.
A opção pelos pobres nasce dessa consciência. Não significa odiar os ricos. Significa colocar a vida acima da riqueza. Significa afirmar que nenhum sistema econômico pode ser mais importante que a dignidade humana.
22. A Eucaristia e a partilha da vida
A liturgia cristã possui uma dimensão profundamente social.
Na Eucaristia, o pão é repartido. O gesto é aparentemente simples, mas contém uma enorme força simbólica. Deus não deseja uma comunidade na qual alguns tenham excesso enquanto outros carecem do necessário. A mesa eucarística aponta para a mesa da humanidade.
Celebrar o Corpo de Cristo implica reconhecer o corpo ferido dos pobres. Aqui está uma provocação pastoral fundamental: como podemos comungar o Corpo de Cristo e permanecer indiferentes aos corpos feridos pela fome, pela violência e pela exclusão?
A espiritualidade eucarística precisa tornar-se espiritualidade da partilha.
23. Maria, mulher do povo e discípula missionária
Maria não aparece como uma personagem distante da realidade. Ela é mulher do povo. Ela conhece a vulnerabilidade. Conhece a pobreza. Conhece o deslocamento. Conhece a ameaça. Conhece a dor. Mas conhece também a esperança.
Por isso, sua espiritualidade é profundamente missionária. Ela recebe Deus e imediatamente coloca-se a serviço. Essa é uma das maiores lições marianas para a Igreja latino-americana: não existe verdadeira devoção a Maria sem compromisso com aqueles pelos quais ela canta.
Quem reza o Magnificat precisa aprender a reconhecer os humildes. Quem venera Maria precisa aprender a defender a vida. Quem contempla a mãe de Jesus precisa aproximar-se dos filhos e filhas feridos pela história.
24. Uma Igreja que gera vida
A mulher do Apocalipse é uma mulher que gera. Maria é uma mulher que gera. A Igreja também é chamada a gerar vida. Não apenas gerar sacramentalmente, mas gerar:
- esperança;
- solidariedade;
- justiça;
- fraternidade;
- consciência;
- participação;
- cuidado;
- libertação.
Uma comunidade cristã deveria ser reconhecida não apenas pela quantidade de pessoas que frequentam suas celebrações, mas pela quantidade de vidas que consegue ajudar a reconstruir.
Uma paróquia verdadeiramente evangelizadora deveria ser um espaço onde os pobres encontram acolhida, os excluídos encontram voz e os sofredores encontram companheiros de caminhada.
25. Da celebração à transformação
A pergunta final não deve ser apenas: “O que a Palavra significa?” A Leitura Popular da Bíblia acrescenta outra pergunta: “O que essa Palavra nos chama a fazer?” E ainda: “Com quem vamos caminhar?” Essas perguntas conduzem a uma pastoral concreta.
- A comunidade pode organizar círculos bíblicos nas periferias.
- Pode fortalecer pastorais sociais.
- Pode acompanhar famílias vulneráveis.
- Pode apoiar a agricultura familiar.
- Pode defender povos indígenas e comunidades tradicionais.
- Pode criar ações de combate à fome.
- Pode promover formação política e cidadã.
- Pode criar espaços de escuta para mulheres vítimas de violência.
- Pode desenvolver projetos de cuidado ambiental.
- Pode aproximar-se das pessoas em situação de rua.
- Pode transformar suas próprias estruturas internas para que os pobres tenham voz e participação.
Assim, a Bíblia deixa de ser apenas objeto de estudo e torna-se Palavra que gera prática libertadora.
Conclusão: o dragão não terá a última palavra
As três leituras desta liturgia anunciam uma verdade fundamental: Deus é o Deus da vida.
No Apocalipse, o dragão ameaça a mulher, mas não consegue impedir o nascimento.
Em Paulo, a morte parece definitiva, mas Cristo ressuscita como primícia da nova humanidade.
Em Lucas, Maria proclama que Deus olha para os humildes, derruba os poderosos e sacia os famintos.
É uma mesma história contada de três maneiras. A história da resistência da vida contra a morte. A história de Deus entrando na história dos pequenos. A história da esperança que nasce onde os poderosos acreditam ter colocado um ponto final.
Por isso, a Igreja latino-americana é chamada a ser uma Igreja que escuta o clamor dos pobres, lê a Bíblia a partir da realidade, discerne os sinais dos tempos e transforma a fé em compromisso histórico.
A mulher do Apocalipse continua presente onde a vida insiste em nascer. Maria continua presente onde mulheres e homens pobres cantam sua esperança. Cristo ressuscitado continua presente onde comunidades lutam para que a morte não seja a última palavra. E o Magnificat continua sendo cantado toda vez que os pequenos descobrem que Deus não os abandonou.
Talvez essa seja a grande mensagem desta liturgia para nosso tempo: não basta esperar o Reino de Deus; é preciso começar a construí-lo nos lugares onde a vida está ameaçada.
Não basta denunciar o dragão; é preciso proteger a mulher, a criança, o pobre, a terra e todos os que estão sob ameaça.
Não basta anunciar a ressurreição; é preciso lutar contra tudo aquilo que produz morte.
Não basta rezar o Magnificat; é preciso assumir sua profecia.
A Igreja será fiel ao Evangelho quando conseguir fazer da esperança uma prática, da fé uma solidariedade e da liturgia um compromisso com a vida. Porque o Deus que Maria anuncia continua olhando para os humildes. O Cristo que Paulo proclama continua vencendo a morte. E o Espírito que anima a Igreja continua suscitando comunidades capazes de dizer, em meio às contradições da história: a vida vencerá.
E, quando os pobres puderem viver com dignidade, quando os excluídos forem acolhidos, quando os povos tiverem seus direitos reconhecidos, quando a terra for respeitada e quando ninguém mais precisar ser descartado para que poucos acumulem, então o Magnificat terá deixado de ser apenas uma oração e terá se tornado realidade histórica.
Essa é a esperança cristã. Essa é a força transformadora da Palavra. Essa é a missão de uma Igreja que deseja seguir Jesus no caminho dos pobres.
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