Reflexão para Segunda-feira da 21ª Semana do Tempo Comum – (Ap 21,9b-14 e Jo 1,45-51)

Por Pe. Hermes A. Fernandes

Hoje a Igreja celebra o martírio de São Bartolomeu, Apóstolo. Natanael e Bartolomeu são considerados a mesma pessoa pelos estudiosos da Bíblia e pela tradição cristã. O nome deste apóstolo é Natanael, enquanto Bartolomeu é um título a ele concedido, que significa “filho de Tolmai” ou “filho do agricultor”. A palavra vem do aramaico Bar-tolmai. Bar quer dizer filho, e Tolmai significa agricultor ou arado. A palavra Tholmai também pode ter ligação com o elemento água, tão necessário à agricultura. A exegese do título dado a Natanael é significativa para se compreender as origens deste apóstolo. Natanael era um camponês.

O contexto das primeiras comunidades é de fundamental determinância para se compreender os textos bíblicos oriundos deste tempo. Compreender a vida de São Bartolomeu é compreender a experiência de Jesus feita pelos que o seguiram e se dispuseram à continuidade do anúncio do Evangelho após a Ascenção e o Pentecostes.

A Palavra de Deus nasce dentro da história e nela continua produzindo sentido. A Teologia Latino-Americana, particularmente em sua opção pelos pobres e na Leitura Popular da Bíblia, parte da convicção de que a realidade dos povos constitui um lugar teológico: é a partir da vida concreta, sobretudo da vida ameaçada, que a comunidade cristã escuta novamente a voz de Deus. Por isso, ler Ap 21,9b-14 e Jo 1,45-51, primeira leitura e evangelho da liturgia de hoje, exige aproximar o texto bíblico das experiências dos pobres, marginalizados e excluídos, reconhecendo neles aqueles que muitas vezes permanecem invisíveis aos olhos dos poderes deste mundo. A hermenêutica latino-americana articula realidade, Escritura e comunidade, buscando uma interpretação capaz de conduzir à transformação da vida.

1. A cidade que desce do céu: Ap 21,9b-14

O texto do Apocalipse apresenta João diante da visão da “Esposa do Cordeiro”, identificada com a “cidade santa, Jerusalém”. Não se trata simplesmente de uma descrição arquitetônica análoga ao Céu, mas de uma poderosa imagem teológica de uma humanidade reconciliada com Deus. O contexto do Apocalipse é marcado por comunidades cristãs submetidas a pressões sociais, políticas e religiosas dentro do mundo imperial romano. Em contraste com a lógica do Império, que construía sua grandeza mediante poder, dominação e concentração de riquezas, João anuncia uma cidade cuja origem é divina e cuja identidade está fundamentada na presença de Deus.

A cidade possui doze portas, sobre as quais estão escritos os nomes das doze tribos de Israel, e doze fundamentos, nos quais estão os nomes dos doze apóstolos do Cordeiro. O simbolismo é evidente: a cidade de Deus é construída sobre a memória de um povo e sobre o testemunho daqueles que receberam a missão de continuar a obra de Jesus. O antigo Israel e a comunidade apostólica não são apagados; tornam-se fundamentos da nova humanidade.

A imagem possui uma dimensão profundamente social. A cidade santa não é apresentada como espaço reservado a uma elite religiosa. Ela representa a realização do projeto de Deus para toda a humanidade. A salvação bíblica não consiste na fuga da história, mas na transformação da realidade histórica em espaço de vida, comunhão e justiça.

Para a Teologia Latino-Americana, essa perspectiva impede que a esperança cristã seja reduzida a uma recompensa individual depois da morte. A “nova Jerusalém” denuncia, por contraste, as cidades humanas construídas sobre desigualdade, violência, exclusão e abandono. Se Deus prepara uma cidade na qual sua presença é fundamento, a Igreja não pode conformar-se com cidades onde alguns vivem em condomínios protegidos enquanto outros sobrevivem nas periferias, nas ruas, nas favelas, nos acampamentos, nas aldeias indígenas ou em situações de extrema vulnerabilidade.

A esperança apocalíptica, portanto, torna-se força histórica. O futuro prometido por Deus questiona o presente e convoca a Igreja a colaborar na construção de sinais antecipadores dessa cidade nova. A Bíblia, lida a partir dos pobres, torna-se Palavra que denuncia estruturas produtoras de morte e alimenta a esperança daqueles que lutam por justiça.

2. “De Nazaré pode sair alguma coisa boa?”: Jo 1,45-51

No Evangelho de João, Filipe encontra Natanael e anuncia ter encontrado aquele de quem escreveram Moisés e os profetas: “Jesus de Nazaré”. A resposta de Natanael é reveladora: “De Nazaré pode sair alguma coisa boa?” A pergunta carrega o preconceito diante de uma pequena localidade sem prestígio. O Messias esperado dificilmente seria associado a um lugar considerado insignificante.

A resposta de Filipe é extraordinariamente simples: “Vem e vê.” A fé cristã não se impõe por argumentos abstratos; convida ao encontro. É no contato com Jesus que os preconceitos começam a ser superados.

Aqui encontramos uma chave fundamental para a Leitura Popular da Bíblia: Deus frequentemente se manifesta a partir dos lugares que os poderosos consideram insignificantes. A pergunta de Natanael poderia ser atualizada em inúmeras situações: “Pode sair alguma coisa boa da favela?”, “Pode sair alguma coisa boa da periferia?”, “Pode haver sabedoria numa comunidade indígena?”, “Pode existir verdadeira experiência de Deus entre pessoas em situação de rua?”, “Pode o pobre ser sujeito de evangelização e não apenas destinatário de assistência?”

O Evangelho responde afirmativamente.

Jesus vê Natanael antes mesmo de ser reconhecido por ele. E declara: “Eis um verdadeiro israelita, em quem não há dolo.” O verbo “ver” possui importância teológica no Evangelho de João. Jesus não olha superficialmente; conhece a pessoa em sua verdade. O olhar de Cristo atravessa as aparências e reconhece a dignidade que os preconceitos frequentemente negam.

A resposta de Natanael culmina numa profissão de fé: “Rabi, tu és o Filho de Deus, tu és o Rei de Israel”. Entretanto, Jesus conduz seu discípulo para além de uma compreensão meramente política ou triunfalista de sua identidade: “Verás coisas maiores”. O clímax ocorre no versículo 51, com a imagem do céu aberto e dos anjos subindo e descendo sobre o Filho do Homem, evocando o sonho de Jacó em Gn 28,12.

Jesus é apresentado como o lugar do encontro entre Deus e a humanidade. O céu não está distante da terra: em Cristo, Deus se aproxima da história humana. Por isso, toda espiritualidade cristã autêntica precisa possuir consequências concretas na vida dos seres humanos.

3. Do “vem e vê” ao compromisso com os excluídos

A aproximação entre os dois textos revela uma profunda unidade. O Apocalipse apresenta uma cidade nova, enquanto João apresenta um olhar novo. De um lado, Deus transforma a realidade; de outro, Jesus transforma o modo de olhar para as pessoas e para os lugares considerados insignificantes.

Essa é uma das grandes contribuições da Teologia Latino-Americana: ensinar a Igreja a perguntar não somente “onde está Deus?”, mas também “quem são aqueles que não estamos conseguindo enxergar?”. A leitura bíblica libertadora procura perceber os rostos concretos ocultados pelos mecanismos sociais de exclusão. Na América Latina, essa hermenêutica se desenvolveu particularmente entre comunidades populares, indígenas, negras, camponesas, operárias, mulheres, moradores das periferias e outros grupos historicamente marginalizados.

Natanael precisou superar a pergunta preconceituosa sobre Nazaré. Também nós precisamos superar os preconceitos que impedem reconhecer a presença de Deus nos lugares pobres e marginalizados. Uma Igreja verdadeiramente evangélica não pode olhar para a periferia somente como lugar de carência. Precisa reconhecê-la também como lugar de fé, sabedoria, resistência, solidariedade e presença de Deus.

Nesse sentido, o “vem e vê” de Filipe transforma-se em programa pastoral. É preciso ir ao encontro dos que vivem onde normalmente não queremos ir. É preciso ver os rostos concretos da pobreza, ouvir suas histórias e permitir que suas experiências interpelem nossa maneira de compreender o Evangelho.

4. Uma pastoral que antecipa a cidade de Deus

A visão da Jerusalém celeste não autoriza a passividade. Ao contrário, oferece à Igreja uma imagem do mundo que Deus deseja e, por isso, um critério para avaliar o mundo que estamos construindo.

Uma pastoral inspirada nesses textos deverá ser uma pastoral que acolhe, escuta, protege, organiza e transforma. Não basta oferecer assistência aos pobres se permanecem intactas as estruturas que produzem pobreza. A caridade cristã precisa caminhar juntamente com a justiça, a defesa dos direitos humanos, a promoção da dignidade, a proteção da Casa Comum e a participação social dos sujeitos historicamente excluídos.

As comunidades cristãs são chamadas a ser pequenas antecipações da nova Jerusalém: lugares onde ninguém seja descartado, onde a mesa seja partilhada, onde mulheres, crianças, idosos, migrantes, povos indígenas, comunidades quilombolas, trabalhadores, pessoas em situação de rua e todos os grupos vulnerabilizados sejam reconhecidos como sujeitos de dignidade e de direitos.

A ação pastoral pode concretizar-se no fortalecimento das pastorais sociais, das Comunidades Eclesiais de Base, da defesa dos povos originários, da Pastoral da Terra, da Pastoral Carcerária, da Pastoral da Ecologia Integral e de tantas iniciativas que fazem da fé uma presença solidária no meio dos pobres. O método latino-americano de “ver, julgar e agir” permite que a Palavra ilumine a realidade e conduza a compromissos concretos.

Conclusão

Ap 21,9b-14 e Jo 1,45-51 apresentam duas imagens fundamentais para a missão da Igreja: uma cidade nova e um olhar novo. A nova Jerusalém revela o horizonte do projeto de Deus; Natanael aprendendo a reconhecer Jesus em Nazaré revela a necessidade de superar preconceitos e reconhecer a presença divina onde os olhos humanos frequentemente não conseguem enxergar.

A Teologia Latino-Americana nos convida, portanto, a ler esses textos a partir dos crucificados da história. A pergunta “pode sair alguma coisa boa de Nazaré?” precisa transformar-se em uma pergunta pastoral dirigida a nós mesmos: somos capazes de reconhecer a presença de Deus nos lugares e nas pessoas que a sociedade considera sem valor?

O Evangelho responde com um convite: “Vem e vê.” Ver é aproximar-se. Aproximar-se é escutar. Escutar é reconhecer a dignidade. Reconhecer a dignidade é comprometer-se com a transformação.

E a visão do Apocalipse nos recorda o horizonte dessa caminhada: Deus deseja uma cidade onde sua presença seja fundamento e onde a vida possa florescer. A missão da Igreja é tornar visível, desde agora, essa esperança, colocando-se ao lado dos pobres, dos excluídos e dos vulneráveis e trabalhando para que a história humana se aproxime cada vez mais do sonho de Deus: uma humanidade reconciliada, fraterna e sem descartados.


Deixe um comentário

Crie um site ou blog no WordPress.com

Acima ↑