“Convertei-vos, porque o Reino dos Céus está próximo.” (Mt 4,17)
Por Pe. Hermes A. Fernandes
Introdução
Ler o Evangelho de Mateus é entrar numa profunda experiência de conflito entre dois projetos de sociedade. De um lado está o projeto do Império Romano, sustentado pelo poder militar, pela concentração da riqueza, pela exploração econômica e pela ideologia imperial. De outro, encontra-se o Reino dos Céus anunciado por Jesus, fundado na misericórdia, na justiça, na fraternidade e na fidelidade ao projeto de Deus.
Na perspectiva da Leitura Popular da Bíblia, não se começa perguntando apenas “o que o texto significa”, mas “qual era a realidade concreta das pessoas que ouviram esse Evangelho?”. Como recorda Carlos Mesters, a Palavra de Deus nasce da vida e retorna para a vida. O texto bíblico responde a conflitos históricos vividos por comunidades concretas.
Mateus escreve para cristãos provenientes do judaísmo, provavelmente entre os anos 80 e 90 d.C., quando Jerusalém e o Templo já haviam sido destruídos pelos romanos (70 d.C.). Essas comunidades enfrentavam simultaneamente a opressão do Império Romano e as tensões com o judaísmo rabínico em reorganização. O Evangelho é, portanto, uma catequese para fortalecer comunidades perseguidas, ensinando-lhes como viver o discipulado de Jesus em um contexto de dominação política e religiosa.
I. O MUNDO EM QUE JESUS VIVEU
A ocupação romana
Quando Jesus nasceu, a Palestina não era um país livre. Desde 63 a.C., após a conquista realizada por Pompeu, encontrava-se submetida ao Império Romano. Roma governava por meio de uma combinação de força militar e colaboração das elites locais.
O imperador era reconhecido como senhor do mundo (Kyrios) e promotor da chamada Pax Romana. Essa paz, entretanto, era garantida pela violência das legiões, pela cobrança de pesados impostos e pela eliminação de qualquer foco de resistência. A crucifixão, pena reservada principalmente para escravos e rebeldes políticos, era um instrumento de terror destinado a desencorajar revoltas.
Na Palestina, a população camponesa sustentava sucessivas cargas tributárias: impostos ao Império, tributos cobrados pelos governantes herodianos, taxas do Templo e obrigações para com grandes proprietários de terras. Muitos pequenos agricultores perdiam suas propriedades por endividamento e tornavam-se diaristas ou mendigos. Esse contexto ilumina as numerosas parábolas de Jesus sobre dívidas, trabalhadores, proprietários de vinhas, administradores e credores.
II. A SOCIEDADE JUDAICA DO SÉCULO I
A Palestina era marcada por grande diversidade religiosa e política. Não existia uma única maneira de compreender como Deus restauraria Israel. Diversos grupos apresentavam respostas distintas à questão da dominação romana e seu fim.
Os Fariseus
Os fariseus eram um movimento leigo de renovação religiosa. Valorizavam a Torá escrita e a tradição oral, acreditando que a fidelidade rigorosa à Lei prepararia Israel para a ação definitiva de Deus.
Ao contrário de uma caricatura frequentemente difundida, muitos fariseus eram sinceramente piedosos e respeitados pelo povo. Jesus compartilha com eles algumas convicções importantes, como a crença na ressurreição dos mortos. Os conflitos registrados em Mateus dizem respeito sobretudo à interpretação da Lei e ao risco de uma religiosidade centrada na observância exterior, negligenciando “a justiça, a misericórdia e a fidelidade” (Mt 23,23).
Os Saduceus
Os saduceus pertenciam à aristocracia sacerdotal ligada ao Templo de Jerusalém. Detinham grande poder econômico e político e colaboravam estreitamente com Roma para preservar seus privilégios.
Aceitavam apenas o Pentateuco como autoridade normativa e rejeitavam crenças como a ressurreição. Para eles, a estabilidade institucional era prioridade. Não surpreende que tenham participado ativamente das articulações que levaram à condenação de Jesus.
Os Essênios
Os essênios romperam com o sacerdócio oficial por considerá-lo corrompido. Retiraram-se para comunidades no deserto, vivendo de maneira austera e aguardando a intervenção iminente de Deus.
Os manuscritos encontrados em Qumran revelam uma espiritualidade marcada pela expectativa escatológica e pela oposição radical entre os “filhos da luz” e os “filhos das trevas”. Embora compartilhe a esperança da intervenção divina, Jesus não adota a separação característica dos essênios. Ao contrário, permanece inserido no meio do povo, comendo com pecadores, acolhendo marginalizados e percorrendo cidades e aldeias, muitas delas discriminadas e marginalizadas.
Os Zelotas
Os zelotas defendiam que somente Deus era Senhor de Israel. Consideravam ilegítima a dominação romana e acreditavam que a libertação deveria ocorrer por meio da resistência armada.
Inspiravam-se nas antigas tradições dos Macabeus e viam na violência um instrumento legítimo para restaurar a soberania nacional. A grande revolta judaica iniciada em 66 d.C., culminando com a destruição de Jerusalém em 70 d.C., expressa em parte essa perspectiva.
Jesus, entretanto, não segue esse caminho. Seu Reino confronta Roma, mas não reproduz sua lógica de violência.
III. A EXPECTATIVA MESSIÂNICA
No tempo de Jesus, não existia uma única expectativa sobre o Messias. Alguns esperavam um novo Davi que expulsaria os romanos. Outros aguardavam um sacerdote purificador. Havia quem esperasse um profeta semelhante a Moisés. Outros ainda imaginavam uma figura celestial.
Jesus surpreende todos esses modelos.
Ele entra em Jerusalém montado num jumento (Mt 21,1-11), evocando Zacarias 9,9: o rei messiânico é humilde e manso, não um conquistador militar montado em cavalo de guerra. Em vez de organizar um exército, reúne discípulos. Em vez de convocar à insurreição armada, proclama: “Bem-aventurados os que promovem a paz” (Mt 5,9). Quando um dos discípulos recorre à espada no Getsêmani, Jesus ordena: “Guarda tua espada” (Mt 26,52).
IV. O SIGNIFICADO DO REINO DOS CÉUS
A expressão grega basileia tōn ouranōn significa literalmente “reinado” ou “governo dos céus”. O termo basileia designa antes o exercício da soberania do que um território geográfico.
Mateus utiliza “Reino dos Céus” por respeito à tradição judaica de evitar pronunciar diretamente o nome de Deus. Em Marcos e Lucas encontramos a expressão equivalente “Reino de Deus”. O conteúdo é o mesmo.
Assim, quando Jesus anuncia que o Reino dos Céus está próximo, não está falando de um lugar para onde as pessoas irão depois da morte. Está proclamando que Deus começa a exercer seu senhorio na história por meio da ação de Jesus.
Essa realidade possui dimensão presente e futura. O Reino já está atuando onde a vida é restaurada, os excluídos são acolhidos, os pecadores encontram perdão, os doentes são curados e a justiça floresce. Mas ainda aguarda sua plenitude escatológica, quando Deus será “tudo em todos” (cf. 1Cor 15,28).
V. O REINO NÃO É ALIENAÇÃO
Uma leitura superficial pode imaginar que “Reino dos Céus” significa simplesmente “ir para o céu”. Essa interpretação, porém, não encontra apoio no conjunto do Evangelho de Mateus.
Jesus ensina seus discípulos a rezar:
“Venha o teu Reino; seja feita a tua vontade, assim na terra como no céu.” (Mt 6,10)
O céu não é o destino exclusivo da esperança cristã; é o paradigma da vontade divina que deve transformar a terra.
As Bem-aventuranças (Mt 5,3-12) também confirmam isso. Os pobres, os mansos, os misericordiosos e os promotores da paz são declarados felizes porque Deus já inaugura entre eles uma nova ordem de relações. Não se trata de uma promessa alienante, mas de uma convocação para viver, desde agora, segundo a lógica do Reino.
VI. O REINO TAMBÉM NÃO É UM PROJETO POLÍTICO NO SENTIDO PARTIDÁRIO OU REVOLUCIONÁRIO
Ao mesmo tempo, seria igualmente equivocado reduzir o Reino a um programa político de tomada do poder. Jesus jamais organiza uma insurreição. Nunca convoca um levante armado. Nunca pretende ocupar o palácio de Herodes. Nunca procura substituir César por outro imperador.
Sua proposta é mais profunda. Ela questiona as próprias raízes da dominação.
Enquanto Roma impõe sua autoridade mediante violência, Jesus exerce autoridade servindo.
Enquanto César exige tributos, Jesus multiplica o pão.
Enquanto Roma crucifica, Jesus perdoa.
Enquanto os poderosos acumulam riqueza, Jesus proclama felizes os pobres.
O Reino, portanto, possui profundas consequências políticas — porque transforma as relações de poder, denuncia a injustiça e exige uma sociedade fundada na dignidade humana —, mas não se identifica com um regime político específico nem com a conquista violenta do Estado.
Como sintetiza José Comblin, o Reino não é um sistema político alternativo, mas a presença eficaz de Deus transformando a humanidade desde dentro, por meio da conversão, da justiça e da fraternidade.
VII. A HEMENÊUTICA LATINO-AMERICANA DO REINO
A Teologia Latino-americana insiste que o Reino anunciado por Jesus possui uma dimensão histórica inseparável da fé.
Gustavo Gutiérrez recorda que a salvação oferecida por Deus alcança a pessoa inteira e todas as dimensões da existência, incluindo as relações sociais e econômicas. Leonardo Boff sublinha que o Reino é o horizonte da ação de Jesus e da missão da Igreja. José Comblin enfatiza que ele cresce por meio da liberdade, da conversão e da organização fraterna das comunidades, nunca pela imposição.
Nesse horizonte, a Leitura Popular da Bíblia convida cada comunidade a perguntar:
- Quais “Césares” continuam produzindo exclusão em nosso tempo?
- Quem são hoje os crucificados da história?
- Como nossas comunidades podem tornar visível o Reino por meio da solidariedade, da defesa da vida e da promoção da justiça?
A resposta não será a fuga do mundo nem a violência revolucionária, mas o seguimento do Messias crucificado e ressuscitado, pobre, servo e desarmado.
Conclusão
O Evangelho de Mateus apresenta Jesus como o novo Moisés, que sobe ao monte para proclamar a Lei definitiva do Reino. Esse Reino confronta tanto a dominação imperial quanto as distorções religiosas de seu tempo, mas o faz por um caminho inteiramente novo.
O Messias esperado não entra em Jerusalém à frente de legiões, mas montado num jumento. Não conquista cidades pela espada, mas corações pela misericórdia. Não funda um império, mas reúne uma comunidade de discípulos e discípulas chamada a ser sal da terra e luz do mundo (Mt 5,13-16). Por isso, o Reino dos Céus não é alienação espiritual nem projeto de conquista política. É a soberania de Deus que irrompe na história através da vida, das palavras e das ações de Jesus, convidando homens e mulheres de todos os tempos a viverem uma nova humanidade fundada na justiça, na misericórdia, na reconciliação e na paz. Nessa perspectiva, o Reino é profundamente histórico, porque transforma as relações humanas; profundamente escatológico, porque aponta para a plenitude futura; e profundamente evangélico, porque seu Rei é o Servo sofredor que vence não pela força das armas, mas pela força do amor.
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