Por Pe. Hermes A. Fernandes
Introdução
Na Liturgia de hoje, 2Ts 3,6-10.16-18 e Mt 23,27-32 apresentam duas questões que, embora provenientes de contextos diferentes, convergem em uma mesma exigência: a fé cristã precisa manifestar-se em uma vida coerente com o Evangelho. A Primeira leitura aborda o trabalho, a responsabilidade comunitária e o cuidado para que a expectativa da vinda de Cristo não produza acomodação. O Evangelho, por sua vez, denuncia uma religiosidade que conserva uma aparência de santidade enquanto encobre práticas de injustiça e morte.
Lidos à luz da Teologia Latino-Americana, esses textos questionam tanto a espiritualização da fé quanto a religião reduzida à aparência. A Palavra de Deus conduz ao compromisso histórico com a vida, especialmente com aqueles que sofrem as consequências da pobreza, da exploração e da exclusão.
1. 2Ts 3,6-10.16-18: trabalho, responsabilidade e solidariedade
A comunidade de Tessalônica atravessava dificuldades relacionadas à compreensão da expectativa escatológica. Alguns membros, aparentemente influenciados por uma expectativa intensa acerca da vinda do Senhor, haviam abandonado suas responsabilidades cotidianas. Paulo critica aqueles que vivem “desordenadamente” e apresenta o próprio comportamento como exemplo: trabalhou com esforço, “noite e dia”, para não ser pesado à comunidade.
O versículo 10 tornou-se conhecido pela afirmação: “Se alguém não quer trabalhar, também não coma”. Entretanto, uma leitura sociotransformadora exige cuidado para que esse texto não seja utilizado contra os pobres, desempregados ou pessoas impossibilitadas de trabalhar. O alvo da exortação são aqueles que não querem trabalhar, e não aqueles que não podem trabalhar. O próprio contexto distingue a recusa deliberada do trabalho das situações de necessidade.
Há, portanto, uma diferença fundamental entre o Evangelho do trabalho e a ideologia que transforma o trabalho em instrumento de exploração. Paulo apresenta seu próprio trabalho como testemunho de autonomia e responsabilidade. Ele não deseja tornar-se peso para a comunidade, embora reconheça que teria direito ao sustento pelo ministério.
Essa dimensão é particularmente importante para a Teologia Latino-Americana. O trabalho é dimensão da dignidade humana, mas não pode ser compreendido fora das relações sociais concretas. No continente latino-americano, milhões de pessoas trabalham duramente e, mesmo assim, permanecem pobres. Há trabalhadores submetidos à informalidade, baixos salários, precarização, desemprego e condições indignas.
Por isso, não se pode utilizar 2Ts 3,10 para culpabilizar quem sofre com a ausência de trabalho. A pergunta evangélica precisa ser outra: por que uma sociedade que necessita do trabalho de tantos permite que tantos trabalhadores permaneçam sem direitos, sem salário digno e sem segurança?
A Palavra de Deus não legitima a exploração do trabalhador. Ao contrário, exige que o trabalho seja organizado em função da vida e da dignidade. A comunidade cristã deve combater tanto a acomodação de quem pode contribuir e deliberadamente não o faz quanto, sobretudo, as estruturas que enriquecem poucos à custa do trabalho de muitos.
2. Mt 23,27-32: a denúncia dos “sepulcros caiados”
Mateus 23 reúne uma série de denúncias de Jesus contra escribas e fariseus. Nos versículos 27-32, aparecem os dois últimos “ais” dirigidos contra uma religiosidade marcada pela hipocrisia. A imagem dos “sepulcros caiados” é particularmente forte: por fora, os túmulos eram brancos e visíveis; por dentro, continham ossos e impureza. A metáfora denuncia aqueles que apresentam exteriormente uma aparência de justiça, enquanto interiormente estão dominados pela hipocrisia e pela injustiça.
A imagem possui também um significado ritual. Os sepulcros eram caiados para que pudessem ser facilmente identificados e evitassem que alguém os tocasse inadvertidamente, tornando-se ritualmente impuro. Jesus utiliza justamente essa imagem para denunciar uma religiosidade preocupada com a pureza exterior, mas incapaz de perceber a corrupção que se encontra em seu interior.
A segunda denúncia é ainda mais profunda. Os líderes religiosos constroem e ornamentam os túmulos dos profetas, afirmando que jamais teriam participado da violência praticada contra eles. Entretanto, segundo Jesus, essa própria atitude demonstra a continuidade da mesma lógica de seus antepassados. Eles homenageiam os profetas mortos, mas não acolhem a mensagem profética que denunciava a injustiça.
Aqui encontramos uma das grandes ironias do texto: é possível venerar profetas mortos e, ao mesmo tempo, rejeitar os profetas vivos.
A advertência possui enorme atualidade. Uma comunidade pode homenagear mártires da justiça, construir monumentos e celebrar sua memória, mas permanecer indiferente diante das injustiças que continuam produzindo novas vítimas. Pode falar de misericórdia sem acolher o migrante, celebrar a fraternidade sem combater o racismo, defender a vida em discursos abstratos sem proteger aqueles cuja vida é ameaçada pela fome, pela violência e pela exclusão.
3. A crítica à religião que encobre a morte
A aproximação entre os dois textos permite perceber uma questão central: Deus não deseja uma religião que apenas mantenha uma aparência de santidade. A fé precisa produzir vida.
Em 2Ts, a comunidade é chamada a uma responsabilidade concreta diante do cotidiano. Em Mateus, Jesus denuncia uma religião que se preocupa com sua própria imagem enquanto reproduz injustiça. Em ambos os casos, existe uma crítica à incoerência entre aquilo que se professa e aquilo que se pratica.
A Teologia Latino-Americana lê essa incoerência a partir do clamor dos pobres. A pergunta decisiva não é simplesmente se nossas instituições religiosas possuem aparência de vitalidade, mas se elas estão efetivamente a serviço da vida ameaçada.
Nesse sentido, o “sepulcro caiado” pode assumir formas contemporâneas. É sepulcro caiado uma Igreja que fala muito sobre Deus, mas pouco sobre os pobres. É sepulcro caiado uma pastoral que celebra a santidade dos mártires, mas não assume as causas pelas quais eles deram a vida. É sepulcro caiado uma sociedade que homenageia trabalhadores enquanto lhes nega direitos. É sepulcro caiado uma religião que defende a moralidade privada, mas permanece silenciosa diante da corrupção, da concentração da riqueza, da violência contra os vulneráveis e da destruição da Casa Comum.
A leitura popular da Bíblia nos ajuda a inverter a perspectiva: não começamos perguntando simplesmente “o que o texto significava?”, mas também “o que esse texto está dizendo à nossa realidade?”. A resposta é exigente: Deus deseja comunidades nas quais a fé seja reconhecida pela prática da justiça e pela defesa da vida.
4. Dimensão sociotransformadora e ação pastoral
A partir desses textos, a ação pastoral precisa superar tanto o moralismo individualista quanto a espiritualização da pobreza.
Primeiro, é necessário defender o direito ao trabalho digno. A Igreja deve estar próxima dos trabalhadores, desempregados, trabalhadores informais, agricultores familiares, trabalhadores rurais e urbanos, denunciando relações de exploração e promovendo iniciativas de economia solidária e organização comunitária.
Segundo, é preciso não culpabilizar os pobres. O texto de 2Ts não autoriza afirmar que toda pessoa pobre é responsável por sua pobreza. Existem estruturas econômicas e sociais que produzem desemprego, desigualdade e exclusão. O compromisso cristão consiste em discernir essas estruturas e trabalhar por sua transformação.
Terceiro, é necessário recuperar a dimensão profética da Igreja. Mt 23 recorda que os profetas não devem ser apenas homenageados depois de mortos. A comunidade cristã precisa reconhecer e proteger aqueles que hoje levantam sua voz em favor dos pobres, dos povos indígenas, dos trabalhadores, das pessoas em situação de rua, dos migrantes e de todos os grupos vulnerabilizados.
Quarto, a pastoral precisa promover uma espiritualidade da coerência. A liturgia, a oração e a devoção são indispensáveis, mas devem conduzir ao compromisso. A Eucaristia que celebra o Cristo que entrega sua vida precisa formar discípulos dispostos a entregar sua vida em favor dos irmãos e irmãs.
Finalmente, é indispensável uma pastoral da esperança ativa. O final de 2Ts é significativo: Paulo deseja que “o Senhor da paz” conceda paz continuamente à comunidade e encerra com uma bênção. A paz bíblica não significa mera ausência de conflitos; envolve plenitude de vida, relações justas e comunhão. Por isso, a Igreja é chamada a ser construtora de paz através da justiça.
Conclusão
2Ts 3,6-10.16-18 e Mt 23,27-32 nos colocam diante de uma exigência essencial do Evangelho: a fé precisa tornar-se vida concreta.
Paulo chama a comunidade à responsabilidade e ao trabalho digno, mas seu ensinamento jamais deve ser convertido em acusação contra aqueles que não conseguem encontrar trabalho. Jesus, por sua vez, denuncia uma religião que parece bela exteriormente, mas que esconde “ossos” e “imundície” em seu interior.
A Teologia Latino-Americana ajuda-nos a compreender que a autenticidade da Igreja passa necessariamente pelo compromisso com os pobres. O Evangelho não permite uma espiritualidade indiferente diante daqueles que são vítimas da história. A fé verdadeira não ornamenta sepulcros enquanto os pobres continuam morrendo; ela procura retirar as pedras que impedem a vida.
Hoje, talvez a pergunta mais incômoda de Jesus seja esta: que aparência religiosa estamos tentando preservar enquanto, ao nosso redor, pessoas continuam sendo sacrificadas pela pobreza, pela exploração e pela exclusão?
Ser Igreja, à luz desses textos, significa abandonar os “sepulcros caiados”, assumir a verdade, defender a dignidade do trabalho, reconhecer os profetas do nosso tempo e colocar-se ao lado daqueles que lutam para viver.
A verdadeira santidade não está na aparência impecável, mas na coerência entre fé e vida. O Evangelho torna-se credível quando a comunidade cristã consegue fazer aquilo que Jesus fez: aproximar-se dos que sofrem, denunciar aquilo que produz morte e trabalhar incansavelmente para que a vida prevaleça.
Deixe um comentário