Por Pe. Hermes A. Fernandes
Introdução
O Sermão da Montanha (Mt 5–7) constitui o coração do Evangelho de Mateus e pode ser considerado a síntese mais completa do projeto do Reino de Deus anunciado e vivido por Jesus. Não se trata de um conjunto de normas morais abstratas nem de uma espiritualidade intimista. Pelo contrário, o sermão apresenta um novo modo de viver, fundado na justiça, na misericórdia, na fraternidade e na fidelidade ao Deus da vida.
Na perspectiva da Teologia Latino-americana, o Sermão da Montanha é o manifesto do Reino, proclamado a partir da realidade dos pobres, dos perseguidos e dos que sofrem injustiça. A Leitura Popular da Bíblia, por sua vez, compreende essas palavras como dirigidas às comunidades que enfrentam situações de exclusão, violência e exploração, convidando-as a organizar sua esperança e sua resistência.
I. Contexto histórico e literário
1. O Evangelho de Mateus
Grande parte dos estudiosos situa sua redação entre os anos 80 e 90 d.C., provavelmente na Síria, possivelmente em Antioquia.
A comunidade de Mateus vivia uma profunda crise:
- separação entre cristãos e sinagoga;
- perseguições;
- pobreza;
- conflitos internos;
- expectativa da segunda vinda de Cristo.
Mateus apresenta Jesus como:
- novo Moisés;
- novo legislador;
- Messias prometido;
- Emanuel (“Deus conosco”).
Assim como Moisés sobe o Sinai para receber a Lei, Jesus sobe a montanha para anunciar a nova Torá.
A montanha, portanto, simboliza:
- revelação;
- encontro com Deus;
- nova aliança.
II. Estrutura do Sermão da Montanha
O Sermão possui uma organização muito cuidadosa.
Introdução
Mt 5,1-2
Jesus sobe a montanha.
As Bem-aventuranças
Mt 5,3-12
Programa do Reino.
Sal da terra e luz do mundo
Mt 5,13-16
Missão dos discípulos.
Justiça maior
Mt 5,17-48
Interpretação da Lei.
A verdadeira piedade
Mt 6
Esmola, oração e jejum.
Confiança na Providência
Mt 6,19-34
O Reino acima das riquezas.
Relações fraternas
Mt 7,1-12
Não julgar.
Escolha do caminho
Mt 7,13-27
Porta estreita.
Conclusão
Mt 7,28-29
Jesus ensina com autoridade.
III. A montanha: novo Sinai
Do ponto de vista exegético, Mateus faz um paralelo intencional entre Jesus e Moisés.
Moisés
- sobe o Sinai;
- recebe a Lei;
- entrega os Mandamentos.
Jesus
- sobe a montanha;
- proclama o Reino;
- oferece uma interpretação definitiva da vontade de Deus.
Não se trata de abolir a Lei.
Mt 5,17: “Não penseis que vim abolir a Lei.” A novidade está na interpretação.
Jesus desloca a religião:
- do ritual para a vida;
- da observância para a misericórdia;
- do templo para as relações humanas.
IV. As Bem-aventuranças (Mt 5,3-12)
Este é o texto programático do Reino.
“Bem-aventurados os pobres em espírito”
Na tradição latino-americana, esta expressão nunca pode ser reduzida a uma pobreza interior.
O evangelho de Lucas diz simplesmente: “Bem-aventurados os pobres.” Mateus escreve para uma comunidade diferente e amplia a compreensão. “Pobres em espírito” são aqueles que:
- dependem de Deus;
- não colocam sua segurança nas riquezas;
- permanecem solidários aos pobres.
Não significa resignação. Muito menos pobreza idealizada.
A Teologia da Libertação entende que Deus faz uma opção preferencial pelos pobres porque eles são vítimas da injustiça.
Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça
No mundo bíblico, justiça (dikaiosýnē) significa:
- fidelidade à Aliança;
- relações corretas;
- libertação dos oprimidos;
- defesa do pobre.
Não é apenas justiça jurídica. É justiça social.
Bem-aventurados os perseguidos
Mateus conhece comunidades perseguidas.
Hoje podemos reconhecer:
- lideranças indígenas;
- agentes pastorais;
- defensores dos direitos humanos;
- comunidades ameaçadas pelo agronegócio ou pela mineração predatória;
- pessoas criminalizadas por defenderem os pobres.
V. A justiça maior (Mt 5,17-48)
Jesus repete seis vezes: “Ouvistes o que foi dito…” Depois afirma: “Eu, porém, vos digo.” Não corrige Moisés. Aprofunda o sentido da Lei.
Por exemplo:
Não basta não matar.
É preciso eliminar:
- ódio;
- violência;
- desprezo.
Não basta evitar adultério.
É necessário transformar as relações humanas.
Não basta amar quem ama.
É preciso amar os inimigos.
Aqui está a revolução ética do Reino.
VI. A oração, a esmola e o jejum (Mt 6)
Mateus denuncia uma religião baseada na aparência.
Jesus critica:
- ostentação religiosa;
- busca de prestígio;
- espiritualidade usada para conquistar poder.
A verdadeira oração aproxima do Pai.
A verdadeira esmola produz solidariedade.
O verdadeiro jejum rompe as estruturas da injustiça.
Isaías 58 aparece como pano de fundo.
VII. O Pai-Nosso
O Pai-Nosso resume toda a espiritualidade do Reino. Cada pedido possui forte dimensão comunitária.
Venha o teu Reino
Não significa fugir para o céu. Significa transformar a história.
Seja feita tua vontade
É a vontade revelada:
- na justiça;
- na misericórdia;
- no cuidado da vida.
O pão nosso
O termo grego epiousios é raro e admite diferentes interpretações (“de cada dia”, “necessário”, “para o amanhã”), mas em qualquer delas remete à confiança em Deus e à partilha do sustento. O pedido é comunitário: ninguém deve ter pão enquanto outro passa fome.
VIII. Não podeis servir a Deus e ao dinheiro (Mt 6,24)
A palavra “Mamom” representa o poder econômico transformado em ídolo. Jesus não condena simplesmente possuir bens.
Condena:
- acumulação;
- exploração;
- idolatria do mercado.
Na América Latina, esse texto dialoga diretamente com:
- desigualdade;
- concentração de renda;
- exclusão social;
- mercantilização da vida.
IX. Não julgueis (Mt 7)
Jesus não proíbe discernimento. Condena a hipocrisia. A imagem da trave e do cisco denuncia sistemas religiosos que condenam os pequenos enquanto escondem seus próprios pecados.
X. A casa construída sobre a rocha
A rocha não representa apenas a fé. Representa colocar em prática o Evangelho. A verdadeira espiritualidade produz compromisso. A casa permanece porque:
- pratica justiça;
- acolhe os pobres;
- vive a misericórdia.
XI. A leitura da Teologia Latino-americana
Desde a Conferência Episcopal de Medellín (1968), o Sermão da Montanha passou a ser lido como um chamado à transformação histórica.
Algumas chaves fundamentais:
1. O Reino começa na história
Não é apenas realidade futura. É prática cotidiana.
2. Os pobres são sujeitos
Não são objetos de caridade. São protagonistas da história da salvação.
3. Justiça e espiritualidade caminham juntas
Não existe verdadeira oração sem compromisso.
4. O seguimento de Jesus implica conflito
Quem anuncia justiça enfrenta oposição.
5. A comunidade é espaço do Reino
O Sermão não forma indivíduos isolados. Forma comunidades alternativas.
XII. A Leitura Popular da Bíblia
Carlos Mesters frequentemente recorda que a Bíblia nasceu da vida do povo e deve voltar para a vida do povo. Assim, o Sermão da Montanha pode ser lido em quatro passos:
Ver
Como vivem hoje os pobres? Quem sofre violência? Quem está sem terra? Sem trabalho? Sem moradia?
Julgar
O que Jesus diz diante dessa realidade?
Agir
Como transformar essa situação? Que iniciativas pastorais e comunitárias podem ser assumidas?
Celebrar
Onde Deus continua caminhando conosco?
XIII. Desafios pastorais para hoje
O Sermão da Montanha interpela as comunidades cristãs a:
- superar uma fé reduzida a devoções privadas;
- promover comunidades acolhedoras e fraternas;
- assumir a defesa da vida dos pobres e excluídos;
- fortalecer pastorais sociais e iniciativas de solidariedade;
- educar para a paz, a reconciliação e a justiça;
- cultivar uma espiritualidade que una oração, compromisso e esperança.
Mais do que um ideal inalcançável, o Sermão da Montanha apresenta um caminho concreto de discipulado. Sua autoridade nasce da prática de Jesus, que viveu as bem-aventuranças até as últimas consequências. Lido à luz da Teologia Latino-americana e da Leitura Popular da Bíblia, esse discurso revela-se como um projeto de transformação pessoal, comunitária e social, convocando a Igreja a ser sinal do Reino por meio da defesa da dignidade humana, da justiça e da misericórdia.
Bibliografia
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BÍBLIA DE JERUSALÉM. Nova edição, revista e ampliada. São Paulo: Paulus, 2002.
COMBLIN, José. O Sermão da Montanha. São Paulo: Paulus, 2012.
GUTIÉRREZ, Gustavo. Teologia da Libertação: Perspectivas. Petrópolis: Vozes, 1975.
MESTERS, Carlos. Por Trás das Palavras: Um Estudo sobre a Porta de Entrada no Mundo da Bíblia. Petrópolis: Vozes, 1984.
PAGOLA, José Antonio. Jesus: Aproximação Histórica. Petrópolis: Vozes, 2010.
PIXLEY, Jorge; BOFF, Clodovis. Opção pelos Pobres. Petrópolis: Vozes, 1986.
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SOBRINO, Jon. Jesus, o Libertador: Leitura Histórico-Teológica de Jesus de Nazaré. Petrópolis: Vozes, 1996
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