Reflexão para Terça-feira da 21ª Semana do Tempo Comum – (2Ts 2,1-3a.14-17 e Mt 23,23-26)

Por Pe. Hermes A. Fernandes

Introdução

A Liturgia desta Terça-Feira da XXI Semana do Tempo Comum nos apresenta duas perícopes bíblicas de grande importância. Os textos de 2Ts 2,1-3a.14-17 e Mt 23,23-26 convergem em uma denúncia fundamental: a fé cristã não pode ser reduzida a discursos religiosos, práticas externas ou expectativas sobre o futuro, enquanto a realidade concreta dos seres humanos permanece marcada pela injustiça. A Segunda Carta aos Tessalonicenses chama a comunidade à firmeza diante de discursos que provocam medo e desorientação; o Evangelho de Mateus, por sua vez, apresenta Jesus denunciando uma religiosidade que observa minúcias cultuais, mas negligencia “a justiça, a misericórdia e a fidelidade”.

Lidos a partir da Teologia Latino-Americana, esses textos adquirem uma força particularmente atual. A fé não pode ser alienante nem indiferente diante da pobreza, da exclusão e das estruturas que produzem sofrimento. A opção pelos pobres tornou-se um dos eixos da caminhada da Igreja latino-americana, especialmente a partir de Medellín e Puebla, compreendendo os pobres não apenas como destinatários da ação pastoral, mas como sujeitos da evangelização e da transformação histórica.

1. 2Ts 2,1-3a.14-17: permanecer firmes diante dos discursos que desorientam

A Segunda Carta aos Tessalonicenses situa-se em uma comunidade marcada por expectativas intensas acerca da segunda vinda de Cristo. Alguns discursos aparentemente religiosos estavam provocando perturbação e insegurança. O autor pede aos cristãos que não se deixem facilmente abalar ou alarmar por supostas revelações, palavras ou cartas que anunciem como iminente o “Dia do Senhor”.

O problema não está na esperança escatológica. A esperança cristã é constitutiva da fé. O problema surge quando a expectativa do futuro é utilizada para produzir medo, manipulação ou passividade diante do presente. A comunidade é chamada a discernir, permanecer firme e conservar a tradição recebida.

O trecho escolhido termina com uma afirmação profundamente pastoral: Deus chamou os cristãos para a salvação e para a participação na glória de Cristo. Por isso, Paulo deseja que Deus console os corações e os fortaleça “em toda boa obra e palavra”. A verdadeira esperança, portanto, não conduz à fuga da história, mas fortalece a comunidade para agir concretamente.

Esta perspectiva é particularmente significativa para a Teologia Latino-Americana. Uma espiritualidade que promete apenas uma salvação futura pode tornar-se instrumento de alienação quando leva os pobres a aceitarem resignadamente sua situação. A esperança cristã, ao contrário, permite discernir os sinais do Reino dentro da história e comprometer-se com sua realização. Medellín compreendeu essa missão como uma Igreja capaz de reconhecer as estruturas injustas e assumir concretamente a defesa dos que sofrem.

Assim, 2Ts 2 nos convida a perguntar: quais são hoje os discursos que assustam, confundem ou paralisam os pobres? Quais discursos religiosos transformam a fé em instrumento de controle? Quantas vezes o anúncio do fim do mundo substitui o compromisso com a transformação deste mundo marcado pela fome, pelo racismo, pela violência, pela exploração do trabalho, pela concentração da terra e pela exclusão?

A comunidade cristã é chamada a fazer o movimento contrário: discernir, permanecer firme e transformar a esperança em “boa obra”. A escatologia cristã não pode servir como fuga da realidade, mas como força para construir, desde agora, sinais do Reino de Deus.

2. Mt 23,23-26: quando a religião esquece o essencial

Mateus 23 apresenta uma das mais contundentes críticas de Jesus à liderança religiosa de seu tempo. O contexto é o conflito entre Jesus e determinados escribas e fariseus, especialmente em torno da compreensão da Lei e da autenticidade da prática religiosa.

Em Mt 23,23, Jesus reconhece que determinadas práticas religiosas possuem seu valor: pagar o dízimo das ervas não é simplesmente condenado. Entretanto, existe uma inversão de prioridades. Enquanto os religiosos se preocupam com detalhes cultuais, deixam de lado aquilo que é “mais importante na Lei”: justiça, misericórdia e fidelidade.

A crítica é extremamente profunda. Jesus não está simplesmente condenando a religião ou abolindo as práticas espirituais. Ele denuncia uma religião que perde sua finalidade porque se preocupa mais com a aparência do que com a vida. O problema é a desproporção: observa-se o pequeno e negligencia-se o essencial.

A imagem seguinte é igualmente contundente: “limpais por fora o copo e o prato, mas por dentro estais cheios de roubo e de intemperança”. O contraste entre exterior e interior revela a denúncia da hipocrisia. A pureza ritual não pode encobrir relações sociais marcadas pela exploração e pela injustiça.

A palavra “justiça” precisa ser compreendida em seu sentido bíblico. Não se trata apenas de uma virtude individual. Justiça envolve relações corretas, defesa dos vulneráveis e restauração da dignidade daqueles que são submetidos à opressão. A misericórdia, por sua vez, expressa a compaixão ativa diante do sofrimento; e a fidelidade aponta para uma vida coerente com a aliança de Deus.

É precisamente aqui que o texto encontra a tradição da Teologia Latino-Americana. A opção pelos pobres não constitui um tema secundário da evangelização, mas uma expressão concreta da fidelidade ao Deus bíblico. Puebla retomou essa perspectiva afirmando o amor preferencial e a solicitude pelos pobres como sinal de autenticidade evangelizadora.

3. Da crítica de Jesus à transformação da realidade

Os dois textos permitem uma leitura sociotransformadora. 2Ts questiona os discursos religiosos que produzem medo e alienação; Mateus questiona a religião que privilegia aparências e práticas secundárias enquanto abandona a justiça.

Juntos, eles colocam diante da Igreja uma pergunta decisiva: que tipo de religião estamos construindo?

Uma Igreja que celebra solenemente, mas permanece indiferente diante da fome, contradiz Mt 23. Uma Igreja que fala incessantemente sobre o fim dos tempos, mas não se compromete com os sofrimentos concretos dos pobres, corre o risco de transformar a esperança cristã em alienação. Uma Igreja preocupada excessivamente com sua própria imagem, seus privilégios e suas estruturas, mas incapaz de ouvir o clamor dos excluídos, precisa reencontrar aquilo que Jesus chamou de “o mais importante”.

A Teologia Latino-Americana ajuda a realizar esse discernimento através do método ver, julgar, agir e celebrar. Primeiro, é necessário ver a realidade dos pobres, dos migrantes, dos povos indígenas, das populações periféricas, das pessoas em situação de rua, dos trabalhadores precarizados e de todos aqueles que permanecem invisibilizados. Depois, julgar essa realidade à luz do Evangelho, reconhecendo que Deus não é indiferente ao sofrimento humano. Finalmente, agir pastoralmente para que a fé produza libertação. Puebla assumiu precisamente essa perspectiva, articulando a leitura da realidade, o discernimento à luz da fé e a ação transformadora.

Nesse horizonte, a pastoral precisa superar uma concepção assistencialista que considera os pobres apenas como objetos de caridade. A opção pelos pobres exige reconhecer sua dignidade e seu protagonismo. Os pobres são sujeitos sociais, históricos e eclesiais. A caminhada latino-americana das Comunidades Eclesiais de Base demonstrou como a Palavra de Deus pode tornar-se instrumento de consciência, organização comunitária e transformação da realidade.

4. Uma ação pastoral coerente com o Evangelho

A partir desses textos, algumas prioridades pastorais tornam-se fundamentais.

Primeiramente, uma pastoral da escuta. A Igreja precisa ouvir os pobres antes de falar sobre eles. É necessário estar presente nas periferias, nas comunidades indígenas, nos espaços de sofrimento e onde a dignidade humana é ameaçada.

Em segundo lugar, uma pastoral da justiça. A caridade cristã não pode limitar-se a remediar as consequências da pobreza. É preciso questionar suas causas. Alimentar quem tem fome é indispensável; perguntar por que existem pessoas com fome é igualmente evangélico.

Em terceiro lugar, uma pastoral da misericórdia concreta. Misericórdia não é sentimentalismo. É aproximação, cuidado, defesa e compromisso. É assumir a causa daqueles que não possuem poder para defender seus próprios direitos.

Em quarto lugar, uma pastoral da formação crítica. Diante de discursos religiosos que produzem medo, intolerância e desinformação, a comunidade cristã precisa formar homens e mulheres capazes de discernir. A fé madura não se deixa manipular por discursos apocalípticos nem por fundamentalismos religiosos.

Finalmente, é necessária uma pastoral da esperança ativa. O cristão espera o Reino não cruzando os braços, mas colaborando para que seus sinais apareçam na história. A esperança alimentada pela Palavra deve transformar-se em organização comunitária, defesa dos direitos humanos, cuidado da Casa Comum, promoção da paz e compromisso com os pobres.

Conclusão

2Ts 2,1-3a.14-17 e Mt 23,23-26 apresentam uma crítica profética que permanece extremamente atual. O primeiro texto denuncia os discursos que perturbam e paralisam a comunidade; o segundo denuncia uma religião que perdeu sua capacidade de reconhecer o essencial.

À luz da Teologia Latino-Americana, o essencial possui um rosto concreto: o rosto do pobre, do excluído, do marginalizado e de todos aqueles cuja dignidade é negada. A opção pelos pobres é compreendida como eixo transversal da vida cristã e como consequência da própria fé no Deus de Jesus Cristo.

Jesus não condena a religião porque ela é religiosa; condena-a quando ela deixa de servir à vida. Não rejeita a prática da fé; rejeita uma fé que se fecha em si mesma e esquece a justiça, a misericórdia e a fidelidade.

Por isso, o grande desafio pastoral de hoje é recuperar o essencial. Mais importante que uma Igreja preocupada apenas com sua aparência é uma Igreja que se suja os pés caminhando com os pobres. Mais importante que discursos sobre o fim dos tempos é a construção cotidiana de sinais do Reino. Mais importante que a aparência de santidade é a prática concreta da justiça.

A pergunta de Jesus continua diante de nossas comunidades: de que adianta limpar o exterior do copo se, por dentro, permanecem o roubo, a injustiça e a indiferença?

A resposta cristã somente poderá ser verdadeira quando a fé se transformar em compromisso, a esperança em ação e a misericórdia em justiça. É assim que a Igreja se torna sinal do Reino: não protegendo aparências, mas defendendo vidas.


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