Por Pe. Hermes A. Fernandes
Introdução
Estamos da terça-feira da XXII Semana do Tempo Comum. Os textos de 1Cor 2,10b-16 e Lc 4,31-37, presentes na Liturgia de hoje, apresentam uma profunda unidade teológica: o Espírito de Deus permite discernir a realidade a partir da sabedoria de Deus, enquanto a Palavra de Jesus se manifesta como autoridade que liberta e restaura a vida. Em ambos os textos, a ação de Deus não permanece no plano abstrato ou meramente religioso. Ela produz um novo modo de compreender a realidade e de enfrentar aquilo que desumaniza.
Esta perspectiva encontra especial ressonância na Teologia Latino-Americana e na experiência das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs). O Espírito capacita a comunidade a ler os acontecimentos com os olhos da fé e, ao mesmo tempo, a Palavra de Jesus impulsiona uma prática libertadora em favor daqueles cuja dignidade é ferida pelas diversas formas de exclusão.
1. “O Espírito tudo perscruta”: discernir a realidade com os olhos de Deus — 1Cor 2,10b-16
Paulo escreve à comunidade de Corinto, uma cidade marcada por diversidade cultural, desigualdades sociais e forte valorização da retórica, do prestígio e da sabedoria humana. No contexto imediatamente anterior, Paulo havia apresentado a “sabedoria de Deus” manifestada na cruz de Cristo, em contraste com os critérios de poder e prestígio do mundo (1Cor 1,18–2,9).
É nesse contexto que afirma: “Deus a tudo revelou pelo Espírito” (2,10). O Espírito “Espírito esquadrinha tudo, mesmo as profundezas de Deus.”. O conhecimento cristão, portanto, não é simplesmente resultado de capacidade intelectual ou domínio de informações religiosas. É fruto de uma abertura à ação do Espírito. Estudos sobre o texto destacam precisamente essa função reveladora e mediadora do Espírito: ele possibilita conhecer e compreender os dons gratuitamente concedidos por Deus.
Nos versículos 12-13, Paulo estabelece um contraste entre o “espírito do mundo” e o Espírito que vem de Deus. Não se trata simplesmente de rejeitar a razão ou o conhecimento humano. O problema está em adotar como critério absoluto os valores de um mundo organizado pelo poder, pelo prestígio e pela competição. A sabedoria do Evangelho nasce de outra lógica: a lógica do Crucificado, que revela Deus na solidariedade com os pequenos.
O ponto culminante encontra-se no versículo 16: “Nós temos o pensamento de Cristo”. Ter o “pensamento de Cristo” não significa possuir uma espécie de conhecimento secreto ou superior. Significa aprender a ver, avaliar e agir segundo os critérios de Jesus.
Aqui se encontra uma importante contribuição para a Leitura Popular da Bíblia. A comunidade cristã não lê a realidade apenas para compreendê-la, mas para discernir onde estão os sinais da vida e onde estão as forças que produzem morte. A pergunta fundamental torna-se: como Cristo olha para esta realidade? Quem está sendo excluído? Quem está sofrendo? Quais estruturas produzem esse sofrimento? O que o Espírito nos chama a fazer?
É justamente nesse sentido que as Comunidades Eclesiais de Base podem ser compreendidas como comunidades de discernimento comunitário. Ao reunir Bíblia, vida e comunidade, elas possibilitam que a Palavra ilumine a experiência concreta dos pobres. A leitura bíblica deixa de ser uma atividade individualista e passa a ser instrumento de conscientização, organização, solidariedade e compromisso.
2. “Que palavra é esta?”: Jesus e a autoridade que liberta — Lc 4,31-37
Lucas situa o episódio imediatamente depois da passagem de Jesus pela sinagoga de Nazaré (Lc 4,16-30), onde Jesus apresentou seu programa missionário: anunciar a Boa-Nova aos pobres, libertar os cativos, recuperar a vista aos cegos e proclamar o ano da graça do Senhor.
Agora, em Cafarnaum, Jesus ensina na sinagoga aos sábados. O povo fica admirado porque “Jesus falava com autoridade” (Lc 4,32). A narrativa passa imediatamente do ensino à ação: um homem dominado por um “espírito impuro” grita no meio da assembleia. Jesus repreende o espírito: “Cala-te e sai dele!” (4,35). O espírito deixa o homem, e o povo pergunta: “Que palavra é essa?”
A questão fundamental do texto não é simplesmente explicar o fenômeno da possessão segundo as categorias modernas ou antigas. Lucas está apresentando uma afirmação cristológica: a Palavra de Jesus possui poder para confrontar aquilo que escraviza o ser humano. A mesma autoridade presente em seu ensinamento manifesta-se em sua ação libertadora.
O detalhe de o episódio acontecer dentro da sinagoga é significativo. O conflito com o mal não acontece em um espaço distante da vida religiosa, mas no coração da comunidade. Lucas mostra, assim, que a missão de Jesus envolve também enfrentar tudo aquilo que, inclusive no interior das estruturas religiosas e sociais, impede a pessoa de viver plenamente.
O homem não é apresentado simplesmente como alguém portador de um problema individual. Ele está em uma situação de perda de liberdade e de autonomia. A intervenção de Jesus devolve-lhe a possibilidade de existir livremente no meio da comunidade.
Para uma hermenêutica latino-americana, esse elemento é particularmente importante. Sem reduzir automaticamente os “espíritos impuros” bíblicos às estruturas sociais contemporâneas, podemos reconhecer uma dimensão teológica fundamental: o Evangelho identifica-se com a libertação daquilo que desumaniza. A Boa-Nova não pode ser separada da vida concreta.
3. O Espírito e a libertação: uma leitura a partir das CEBs
A aproximação entre os dois textos revela um caminho pastoral muito significativo.
Em 1Cor 2, o Espírito concede discernimento para reconhecer a sabedoria de Deus. Em Lc 4, Jesus utiliza sua autoridade para libertar uma pessoa dominada por uma força que a desumaniza. Portanto, discernimento e ação libertadora pertencem à mesma missão.
Uma comunidade que possui o “pensamento de Cristo” não pode permanecer indiferente diante da pobreza, da fome, do racismo, da violência, da exploração dos trabalhadores, da violência contra as mulheres, da situação das populações em situação de rua, dos migrantes, dos povos indígenas, dos encarcerados e de tantos outros grupos marginalizados.
A espiritualidade das CEBs pode contribuir para superar uma compreensão intimista da fé. O Espírito Santo não é dado para que a comunidade se refugie em uma experiência religiosa fechada sobre si mesma. Ele conduz à capacidade de discernir a realidade e transformá-la à luz do Evangelho.
Nesse sentido, a pergunta de Cafarnaum — “Que palavra é essa?” — pode tornar-se hoje uma pergunta dirigida às próprias comunidades: que palavra estamos anunciando? É uma palavra que consola os pobres, mas também denuncia as causas da pobreza? É uma palavra que acolhe os excluídos, mas também confronta os mecanismos de exclusão? É uma palavra que fala de Deus, mas também defende a vida concreta de seus filhos e filhas?
A autoridade cristã, segundo o Evangelho, não nasce da imposição, do prestígio ou do poder. Nasce de uma Palavra que serve, cura, liberta e devolve dignidade
4. Dimensão sociotransformadora e compromisso pastoral
A leitura desses textos pode conduzir as Comunidades Eclesiais de Base a uma prática pastoral organizada em quatro movimentos.
Primeiro: escutar a realidade. O Espírito nos ensina a discernir “as profundezas” da realidade. A comunidade precisa ouvir o clamor dos pobres e identificar as situações concretas de sofrimento presentes em seu território.
Segundo: iluminar a realidade com a Palavra. A Bíblia deve ser lida em diálogo com a vida. Os Círculos Bíblicos podem perguntar: quem são hoje os que estão sem voz? Quais são os “espíritos” — pessoais, culturais, econômicos e sociais — que produzem exclusão e morte?
Terceiro: organizar a solidariedade e a defesa da vida. A oração e a reflexão precisam desembocar em práticas concretas: visitas às famílias vulnerabilizadas, defesa dos direitos, combate à fome, apoio aos trabalhadores, cuidado com os idosos, acolhida dos migrantes, defesa dos povos indígenas, enfrentamento do racismo e da violência e cuidado da Casa Comum.
Quarto: testemunhar uma Igreja servidora. A comunidade cristã é chamada a ser presença de libertação no território. Assim, evangelizar significa também criar espaços onde os pobres recuperem voz, participação, dignidade e esperança.
Conclusão
1Cor 2,10b-16 e Lc 4,31-37 apresentam uma Igreja que discerne e age. O Espírito concede à comunidade a capacidade de enxergar a realidade com o “pensamento de Cristo”; Jesus, por sua vez, manifesta uma Palavra que confronta aquilo que escraviza e devolve ao ser humano a liberdade.
Para a Teologia Latino-Americana e para as CEBs, essa mensagem possui enorme força sociotransformadora. Não basta conhecer a Palavra; é necessário permitir que ela transforme a maneira como vemos a realidade e nos comprometa com sua transformação.
Ter o “pensamento de Cristo” significa aprender a olhar o mundo a partir dos pobres e excluídos. Significa reconhecer que a glória de Deus está inseparavelmente ligada à vida digna de seus filhos e filhas. E significa fazer das comunidades espaços onde a Palavra seja novamente pronunciada com autoridade: uma Palavra que liberta, cura, organiza a esperança e devolve voz aos que foram silenciados.
Assim, a pergunta de Cafarnaum permanece atual: “Que palavra é essa?” A resposta das CEBs deverá ser dada não apenas com discursos, mas com uma prática pastoral capaz de tornar visível, no meio dos pobres, a força libertadora do Evangelho.
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