Por Pe. Hermes A. Fernandes
Os textos de 1Cor 3,1-9 e Lc 4,38-44 apresentam duas dimensões fundamentais da experiência cristã: a necessidade de construir comunidades reconciliadas e a urgência de colocar a vida, especialmente a vida dos que sofrem, no centro da missão. Paulo enfrenta uma comunidade marcada por disputas e partidarismos; Lucas apresenta Jesus entrando na casa, aproximando-se dos enfermos, libertando pessoas de seus sofrimentos e anunciando que o Reino de Deus deve alcançar outras cidades.
Lidos a partir da Teologia Latino-Americana e da experiência das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), esses textos questionam uma Igreja fechada em si mesma, dividida por disputas internas ou distante dos sofrimentos concretos do povo. A Palavra de Deus conduz a uma comunidade que supera protagonismos pessoais, fortalece a participação de todos e assume a missão de cuidar da vida dos pobres, marginalizados e excluídos.
1. 1Cor 3,1-9: uma comunidade que precisa superar divisões
A Primeira Carta aos Coríntios foi escrita para uma comunidade situada numa cidade marcada pela diversidade cultural, pelo comércio, pelas atividades econômicas e também pelas desigualdades sociais. O contexto de 1Cor 3,1-9 é o das divisões existentes na comunidade, especialmente em torno da identificação com diferentes líderes: “Eu sou de Paulo”, “eu sou de Apolo” (cf. 3,4). A perícope integra uma ampla reflexão de Paulo sobre a polarização e exorta para a necessidade de compreender corretamente o ministério cristão.
Paulo começa utilizando uma linguagem pedagógica: trata os coríntios como “crianças em Cristo” que ainda necessitam de “leite”, incapazes de alimento sólido (3,1-2). Essa metáfora sinaliza alguém cuja caminhada de fé ainda está imatura. O problema, porém, não está simplesmente na falta de conhecimento intelectual. A imaturidade aparece concretamente nas invejas, contendas e divisões (3,3). Para Paulo, uma comunidade pode conhecer muitas coisas sobre a fé e, ao mesmo tempo, continuar espiritualmente imatura quando reproduz relações de competição, rivalidade e poder.
Aqui encontramos uma importante chave para a realidade das CEBs. A maturidade cristã não pode ser medida pela quantidade de atividades religiosas, pelo prestígio de suas lideranças ou pelo número de pessoas que acompanham determinado agente pastoral. Ela se manifesta na capacidade de construir comunhão, participação, serviço e compromisso com a vida.
O problema de Corinto também estava na transformação dos ministros em referências de pertencimento. Paulo desmonta essa lógica perguntando: “Quem é Apolo? Quem é Paulo?” (3,5). Eles são apenas servidores. Paulo plantou, Apolo regou, mas “Deus é quem fez crescer” (3,6). A imagem agrícola é profundamente comunitária: ninguém realiza sozinho a obra de Deus. Cada pessoa possui uma função, mas o crescimento pertence a Deus.
A conclusão é decisiva: “nós somos cooperadores de Deus, e vós sois lavoura de Deus, construção de Deus” (3,9). O ministério cristão, portanto, não é propriedade particular de ninguém. Não há lugar para personalismos, clericalismos ou disputas pelo controle da comunidade. Todos são chamados a cooperar.
Para a Teologia Latino-Americana, essa perspectiva possui forte dimensão sociotransformadora. A Igreja não pode gastar suas melhores energias disputando espaços internos enquanto milhões de pessoas enfrentam fome, desemprego, violência, racismo, exclusão, falta de moradia, abandono e outras formas de negação da dignidade humana. Uma comunidade dividida internamente perde força para testemunhar o Evangelho na sociedade.
As CEBs são chamadas a cultivar uma espiritualidade de corresponsabilidade. O agente de pastoral não é dono da comunidade; o padre não é dono da missão; o bispo não é dono da Igreja; nenhuma liderança deve transformar seu serviço em instrumento de poder. Todos são servidores da comunidade e colaboradores na construção do Reino.
2. Lc 4,38-44: Jesus coloca a vida dos sofredores no centro da missão
Lucas apresenta Jesus saindo da sinagoga e entrando na casa de Simão. Ali encontra a sogra de Simão doente, com febre. Jesus se inclina sobre ela, repreende a febre e a mulher recupera a saúde. Em seguida, ao pôr do sol, numerosas pessoas levam seus enfermos até Jesus, e ele os cura. O texto termina apresentando Jesus retirando-se para um lugar deserto e afirmando que precisa anunciar a Boa Nova do Reino também em outras cidades (4,42-43).
A sequência narrativa é importante: sinagoga, casa, cidade, lugar deserto e outras cidades. A missão de Jesus não permanece confinada ao espaço religioso. O Reino de Deus entra na vida cotidiana, encontra pessoas concretas e toca as feridas do povo.
A cura da sogra de Simão é particularmente significativa. Jesus aproxima-se de uma mulher enferma, numa sociedade em que mulheres, doentes e outros grupos considerados socialmente vulneráveis podiam experimentar diferentes formas de marginalização. A ação de Jesus restitui-lhe a vida e a capacidade de participar da comunidade. O texto não apresenta a pessoa enferma como objeto passivo, mas como alguém que, recuperada, retoma sua participação.
Depois, Lucas amplia o horizonte: “todos os que tinham doentes atingidos por diversos males, os levaram a Jesus” (4,40). A missão de Jesus alcança uma multidão de pessoas que carregavam doenças e sofrimentos. A salvação proclamada pelo Reino manifesta-se concretamente na defesa e recuperação da vida.
A dimensão política e social dessa passagem aparece quando compreendemos que o Evangelho não reduz a salvação a uma experiência exclusivamente interior. Jesus enfrenta aquilo que desumaniza, liberta pessoas de forças que as oprimem e devolve-lhes dignidade e possibilidade de participação. A Boa Nova do Reino possui, portanto, consequências concretas para a vida social.
O texto alcança seu ponto culminante quando Jesus afirma: “É necessário que eu anuncie a Boa Nova do Reino de Deus também a outras cidades, porque para isso fui enviado” (4,43). Jesus não permite que sua missão seja privatizada. A multidão queria retê-lo, mas ele permanece livre para ir ao encontro de outros necessitados.
3. Da comunidade dividida à comunidade samaritana da vida
A aproximação entre 1Cor 3,1-9 e Lc 4,38-44 produz uma mensagem pastoral muito atual. Paulo pergunta à comunidade: por que vocês estão divididos? Jesus mostra: para quem vocês devem caminhar?
O primeiro texto combate uma Igreja centrada em seus líderes; o segundo apresenta uma missão centrada nas pessoas feridas. Juntos, eles propõem uma Igreja que supera o protagonismo individual e coloca-se a serviço da vida.
Essa perspectiva encontra forte ressonância na caminhada das CEBs. A comunidade cristã é chamada a ser espaço de escuta, partilha, participação e organização popular. A leitura da Bíblia não termina na reunião comunitária: ela conduz à transformação da realidade.
A pergunta fundamental deixa de ser apenas “quem está certo dentro da Igreja?” e passa a ser: quem está sofrendo ao nosso redor e o que podemos fazer para defender sua vida?
Nesse sentido, a espiritualidade das CEBs deve conduzir ao encontro com os pobres, trabalhadores explorados, pessoas em situação de rua, migrantes, indígenas, comunidades quilombolas, mulheres vítimas de violência, crianças e jovens vulnerabilizados, idosos abandonados, pessoas discriminadas e todos aqueles cuja dignidade é ameaçada.
A comunidade pode organizar ações concretas de solidariedade, defesa de direitos, combate à fome, acompanhamento das famílias vulneráveis, apoio às pastorais sociais, defesa dos territórios, cuidado com a Casa Comum e participação cidadã. A fé torna-se, assim, força de organização e esperança.
4. Uma Igreja que planta, rega e cuida
Paulo recorda que ninguém deve apropriar-se da obra de Deus: “Eu plantei, Apolo regou, mas Deus é quem fez crescer”. Jesus, por sua vez, mostra que o Reino precisa ser anunciado e concretizado em muitos lugares.
A pastoral inspirada nesses textos precisa superar tanto o personalismo eclesial quanto uma evangelização indiferente ao sofrimento social. Não basta construir comunidades numerosas; é necessário construir comunidades capazes de defender a vida.
A Igreja latino-americana encontra aqui uma de suas grandes vocações: ser presença junto aos pobres e excluídos, não como mera assistência ocasional, mas como companheira de caminhada, fortalecendo sua dignidade, sua consciência, sua organização e sua esperança.
Nas CEBs, isso significa recuperar permanentemente a relação entre Bíblia, vida e compromisso. A Palavra ilumina a realidade; a realidade interpela a Palavra; e ambas conduzem à ação transformadora.
Conclusão
1Cor 3,1-9 e Lc 4,38-44 apresentam duas exigências inseparáveis para a Igreja: superar as divisões internas e colocar-se a serviço da vida. Paulo denuncia uma comunidade imatura porque está presa à inveja, às disputas e aos partidarismos. Jesus revela uma comunidade missionária que sai de seus espaços habituais, aproxima-se dos enfermos e anuncia o Reino às outras cidades.
À luz da Teologia Latino-Americana, esses textos recordam que a maturidade da fé se verifica na capacidade de amar, servir, organizar-se, defender a vida e transformar relações injustas.
As CEBs são chamadas a ser comunidades onde ninguém seja dono da Palavra, onde os ministérios sejam compreendidos como serviços e onde os pobres não sejam apenas destinatários da ação pastoral, mas sujeitos da evangelização e da transformação da sociedade.
Assim, plantar, regar e fazer crescer significa assumir juntos a missão de Deus. E curar, libertar e anunciar significa fazer com que o Reino alcance as periferias da existência. Uma Igreja verdadeiramente evangélica é aquela que, reconciliada internamente, sai de si mesma para encontrar os que sofrem e, com eles, construir sinais concretos de justiça, fraternidade, dignidade e vida em abundância.
Deixe um comentário