Por Karina Moreti
Após ouvir mais de 2.900 pessoas e reunir mais de 1.700 participantes em 19 pré-assembleias, a Arquidiocese de Londrina apresenta seu XVIII Plano de Ação Evangelizadora e assume o desafio de transformar escuta em participação, missão e compromisso com a vida
Uma Igreja em saída começa pela escuta. Foi dessa disposição que nasceu o processo de construção do XVIII Plano de Ação Evangelizadora da Arquidiocese de Londrina, elaborado a partir da participação de comunidades, pastorais, movimentos, juventudes, mulheres, religiosas e religiosos, presbíteros, diáconos e diferentes segmentos da sociedade. Entre respostas, encontros e assembleias, a Arquidiocese procurou reconhecer a realidade que a cerca, discernir seus desafios à luz do Evangelho e definir caminhos para sua ação pastoral no período de 2026 a 2029.
Os números ajudam a dimensionar a experiência. Mais de 2.900 respostas foram recolhidas por meio de questionários aplicados em todas as paróquias, considerando diferentes realidades territoriais e a participação de jovens, idosos, homens e mulheres. As respostas às 19 questões — 15 objetivas e quatro subjetivas — tornaram-se matéria-prima para a elaboração do Texto Base, organizado a partir do método do Ver, Julgar e Agir.
A escuta ganhou corpo nos encontros presenciais. Entre o final de abril e o início de julho de 2025, 19 pré-assembleias reuniram mais de 1.700 participantes, envolvendo mulheres, juventudes, religiosas e religiosos, presbíteros, diáconos, movimentos, equipes administrativas, pastorais sociais e decanatos. Nesse percurso, as propostas foram discutidas, avaliadas, reorganizadas e encaminhadas para a Assembleia Sinodal Arquidiocesana, realizada em outubro de 2025.
O resultado é um plano que se apresenta menos como um manual de atividades e mais como uma pergunta dirigida à própria Igreja: que Igreja queremos ser diante da realidade que encontramos?
Quando a escuta revela as feridas
Toda escuta verdadeira corre o risco de revelar aquilo que nem sempre se deseja ouvir. Entre as vozes recolhidas apareceram dores relacionadas à solidão, à exclusão social, ao desemprego, à crise de fé, à violência e ao desrespeito à Casa Comum. Ao lado dessas feridas, surgiram sinais de vitalidade: a força das comunidades, a fé popular, a presença das juventudes, o testemunho das mulheres e experiências concretas de solidariedade.
A realidade apresentada pelo caminho sinodal não é simples. O documento reconhece desigualdades sociais marcadas pela fome, pela precarização do trabalho e pela exclusão territorial. Identifica desafios culturais, como a solidão juvenil e o uso ambíguo das tecnologias digitais, além de feridas estruturais como racismo, xenofobia, machismo e clericalismo. No horizonte de tudo isso está a crise ecológica, compreendida não como uma questão isolada, mas em relação direta com a vida dos pobres e dos grupos mais vulneráveis.
O dado mais importante, portanto, talvez não seja apenas a quantidade de pessoas ouvidas, mas aquilo que esse movimento permitiu enxergar. O método do Ver, Julgar e Agir procura impedir que a ação pastoral permaneça no campo das generalidades. O Ver parte da realidade concreta; o Julgar a confronta com o Evangelho, a teologia e o magistério; e o Agir transforma o discernimento em compromissos.
Essa passagem é decisiva. Uma Igreja que escuta não pode simplesmente arquivar aquilo que ouviu.
Uma Igreja que não quer falar sozinha
Entre as conclusões mais fortes está a necessidade de fortalecer uma cultura permanente da escuta. O plano propõe espaços de escuta ativa e reconciliação, a criação e o fortalecimento da Pastoral da Escuta, a formação de agentes e a presença junto a grupos marginalizados e migrantes. A visitação das famílias, a organização dos conselhos pastorais e a realização periódica de assembleias nas paróquias aparecem como caminhos para uma Igreja mais corresponsável.
A proposta amplia o significado de escutar. Não se trata apenas de ouvir quem já participa regularmente da vida eclesial. O documento chama a atenção para mulheres marginalizadas, populações indígenas, pessoas em situação de rua, migrantes e refugiados, jovens em busca de sentido e comunidades que permanecem invisibilizadas. Sugere ainda equipes paroquiais de escuta ativa capazes de visitar famílias, conhecer ocupações e compreender a realidade de trabalhadores informais.
É uma mudança importante de perspectiva: a periferia deixa de ser apenas um lugar para onde a Igreja vai levar uma mensagem e passa a ser um lugar onde a Igreja precisa aprender.
Cinco caminhos para uma Igreja em travessia
O XVIII Plano organiza essa caminhada em cinco grandes eixos: Comunhão, Participação, Missão, Juventudes e Ecologia Integral. Todos são atravessados pelas perspectivas da Justiça e da Profecia. Na dimensão pessoal, aparecem compromissos com a espiritualidade, a conversão ecológica e a justiça; na dimensão comunitária, o fortalecimento dos conselhos, dos círculos de escuta e da participação de juventudes, mulheres e pessoas excluídas; na dimensão social, o enfrentamento das injustiças, a defesa dos pobres, o cuidado da Casa Comum e a promoção da dignidade humana.
A escolha dos eixos revela uma compreensão de Igreja que não pretende separar evangelização e realidade. A fé é apresentada como força capaz de produzir compromisso com a vida concreta. Por isso, o plano afirma que a opção preferencial pelos pobres não é acessório do Evangelho e que não há neutralidade diante das injustiças. A ecologia integral, por sua vez, une o cuidado da Terra ao cuidado dos pobres.
Nesse horizonte, o protagonismo das mulheres é apresentado como irrenunciável para uma Igreja sinodal, enquanto a superação do clericalismo e a construção da corresponsabilidade aparecem como exigências do caminho proposto.
Juventudes, mulheres e periferias no centro da conversa
Um dos sinais mais significativos do plano está na tentativa de deslocar algumas pessoas e grupos das margens para o centro da vida eclesial. Mulheres, jovens, leigos e leigas e populações historicamente excluídas aparecem não apenas como destinatários da ação pastoral, mas como sujeitos capazes de participar da construção da Igreja.
O documento reconhece a diversidade de expressões de fé presente na Arquidiocese, das comunidades eclesiais de base às novas comunidades e movimentos. O desafio colocado é fazer dessa diversidade uma riqueza capaz de produzir comunhão, sem transformar a sinodalidade em simples método administrativo.
A juventude, nesse contexto, não aparece apenas como promessa para o futuro. Sua presença é compreendida a partir dos desafios do presente: a solidão, a busca de sentido, as transformações culturais e as novas formas de relacionamento. Escutar os jovens significa permitir que suas perguntas também provoquem a Igreja.
Da escuta à profecia
Há, no documento, uma palavra que atravessa todo o caminho: profecia.
Uma Igreja profética não é aquela que simplesmente denuncia o mundo a partir de fora. É aquela que se deixa interpelar pelo que acontece e assume posição diante dele. O plano fala de uma Igreja chamada a enfrentar o racismo, o machismo, o colonialismo econômico, a destruição ambiental e outras estruturas de dominação, mantendo o compromisso com a paz, a verdade do Evangelho, os direitos humanos, a equidade e a inclusão.
A proposta é exigente porque impede que a evangelização seja reduzida à manutenção das estruturas existentes. Se o Evangelho provoca conversão, a pastoral também precisa estar disposta a rever práticas, linguagens e relações de poder.
Por isso, a sinodalidade apresentada pelo XVIII Plano não pode ser compreendida apenas como um acontecimento ocorrido em 2025. O próprio documento insiste que o caminho permanece em construção e que sua concretização deverá ser acompanhada por novos ciclos de “ver, julgar e agir”.
O plano começa a percorrer a Arquidiocese
A publicação do XVIII Plano de Ação Evangelizadora marca o início de uma nova etapa: levar aquilo que foi construído coletivamente para dentro das comunidades e transformá-lo em reflexão, formação e compromisso. Nesse movimento, Dom Geremias Steinmetz, Arcebispo de Londrina, iniciou uma série de formações decanais que percorrerá os diferentes decanatos da Arquidiocese de Londrina, apresentando o novo plano e promovendo a reflexão sobre as Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil.
A primeira formação aconteceu no Decanato Ibiporã, no dia 22 de agosto de 2026. Uma semana depois, em 29 de agosto, foi a vez do Decanato Norte, na Paróquia Santa Cruz. São os primeiros passos de um percurso que pretende aproximar o plano das diferentes realidades da Arquidiocese e favorecer que suas propostas sejam conhecidas, discutidas e assumidas pelas comunidades.
As próximas formações já estão programadas. No Decanato Centro, o encontro acontecerá nos dias 9 e 10 de setembro de 2026, às 19h30, na Paróquia Nossa Senhora Auxiliadora. O Decanato Leste terá sua formação no dia 10 de outubro, às 14h30, na Paróquia Nossa Senhora de Lourdes. Em Cambé, o encontro será realizado no dia 17 de outubro, às 14h30, no Instituto Nossa Senhora Auxiliadora (INSA), com encerramento na celebração da Missa, às 18h.
O percurso seguirá em 2027. O Decanato Oeste realizará sua formação no dia 13 de março, às 14h30, na Paróquia Santo Antônio de Pádua, também com encerramento na Missa, às 18h. No dia 20 de março, será a vez do Decanato Porecatu, às 14h30, na Paróquia Cristo Rei, em Lupionópolis.
Mais do que uma agenda de encontros, esse percurso representa uma etapa fundamental para a recepção do plano. Um documento construído a partir da escuta precisa agora voltar às comunidades, encontrar seus diferentes territórios e provocar novas perguntas. A formação decanal torna-se, assim, espaço de aproximação entre aquilo que foi discernido pela Arquidiocese e a vida concreta de suas paróquias, pastorais, movimentos e comunidades.
O verdadeiro desafio começa agora
Todo plano pastoral corre o risco de permanecer no papel. Talvez essa seja a principal tensão colocada pelo XVIII Plano de Ação Evangelizadora: depois de ouvir tantas vozes, será preciso transformar palavras em práticas. As formações que agora percorrem os decanatos representam justamente esse primeiro movimento de passagem entre o documento e a vida, entre aquilo que foi discernido e aquilo que deverá ser assumido pelas comunidades.
O documento propõe uma Igreja que visita, acolhe, cria espaços de participação, fortalece conselhos, abre lugar para mulheres e juventudes, aproxima-se dos pobres, enfrenta as injustiças e assume o cuidado da Casa Comum. São compromissos que ultrapassam a organização interna das paróquias e alcançam a sociedade.
Nesse sentido, o XVIII Plano não é apenas ponto de chegada de um processo iniciado anos antes. É um ponto de chegada em partida. O próprio texto o define como um chamado à conversão pastoral e missionária e como convite para que cada batizado e cada batizada viva o Evangelho no cotidiano.
A pergunta que permanece, então, não é mais se a Igreja ouviu. Ela ouviu. Há números, encontros, assembleias e propostas que testemunham esse caminho.
A pergunta agora é outra: o que a Igreja fará com aquilo que ouviu?
Uma Igreja em saída começa pela escuta. Porém, se a escuta não produzir conversão, participação, compromisso e presença junto às pessoas que mais precisam ser ouvidas, ela corre o risco de se transformar apenas em memória.
O XVIII Plano de Ação Evangelizadora da Arquidiocese de Londrina coloca a Igreja diante de uma travessia. E toda travessia exige movimento. Exige coragem para deixar lugares conhecidos, disposição para encontrar quem está fora dos centros e humildade para reconhecer que o Espírito também fala pelas vozes que, durante muito tempo, permaneceram nas margens.
No fim, talvez seja essa a grande novidade do caminho: não se trata apenas de perguntar o que a Igreja quer dizer ao mundo, mas de perguntar o que Deus está dizendo à Igreja por meio do mundo que ela é chamada a escutar.
Uma Igreja em saída começa pela escuta. E talvez seja justamente aí que comece sua verdadeira conversão.
Foto: Pascom da Arquidiocese de Londrina
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