“A sabedoria de Deus e a missão que nasce das periferias” | Reflexão para Quinta-feira da 22ª Semana do Tempo Comum

Por Pe. Hermes A. Fernandes

Hoje celebramos a Memória Litúrgica de São Gregório Magno, Papa e Doutor da Igreja. Os textos de 1Cor 3,18-23 e Lc 5,1-11 apresentam duas faces inseparáveis do discipulado cristão: a necessidade de superar os critérios de sucesso, poder e prestígio próprios da sociedade e a disponibilidade para colocar a própria vida a serviço da missão. Paulo questiona uma comunidade marcada por disputas e pela valorização da “sabedoria” segundo os critérios do mundo; Lucas, por sua vez, apresenta Jesus entrando no cotidiano de trabalhadores que haviam experimentado o fracasso e transformando sua realidade em lugar de vocação.

Lidos a partir da Teologia Latino-Americana, esses textos interpelam uma Igreja chamada a abandonar a lógica da competição, do privilégio e da autorreferencialidade para assumir o caminho do Evangelho junto aos pobres, marginalizados e excluídos. Nas Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), essa Palavra pode tornar-se força de discernimento, organização comunitária e compromisso sociotransformador.

1. “A sabedoria deste mundo é loucura diante de Deus” — 1Cor 3,18-23

A Primeira Carta aos Coríntios nasce em uma comunidade atravessada por conflitos e divisões. Os cristãos de Corinto haviam transformado seus líderes — Paulo, Apolo e outros — em referências de identificação e disputa. Por isso, Paulo procura desmontar a lógica que estava fragmentando a comunidade. Em 1Cor 3,18-23, ele retoma o tema da verdadeira sabedoria e conclui que ninguém deve “gloriar-se nos homens”, porque “tudo é vosso”, mas “vós sois de Cristo”.

O problema, portanto, não é possuir conhecimento ou inteligência. O que Paulo critica é uma sabedoria organizada segundo os critérios de prestígio, poder e reconhecimento social. Estudos exegéticos observam que 3,18-23 funciona como conclusão do argumento desenvolvido anteriormente sobre a sabedoria e as divisões da comunidade. Paulo propõe uma inversão dos critérios pelos quais os coríntios avaliavam a realidade.

Quando afirma que é necessário “tornar-se insensato” para tornar-se sábio, Paulo utiliza uma linguagem paradoxal. A verdadeira sabedoria consiste em romper com aquilo que o mundo considera sucesso. A Cruz de Cristo já havia revelado que Deus não se manifesta segundo os padrões de poder e prestígio. A lógica divina coloca no centro aquilo que a sociedade frequentemente despreza.

Aqui encontramos uma profunda convergência com a opção pelos pobres própria da Teologia Latino-Americana. O sistema social tende a considerar “sábios” os que acumulam riqueza, influência, títulos e poder, enquanto frequentemente trata os pobres como incapazes, descartáveis ou responsáveis pela própria pobreza. A sabedoria do Evangelho, porém, desloca o centro: Deus manifesta sua força justamente a partir dos pequenos e daqueles que não contam.

Por isso, a advertência paulina possui também uma dimensão eclesial. A comunidade cristã não pode reproduzir dentro de si as mesmas relações de competição existentes na sociedade. Nem o ministro ordenado, nem o teólogo, nem o agente de pastoral, nem o líder comunitário podem tornar-se centro absoluto. “Tudo é vosso; mas vós sois de Cristo” significa que nenhuma pessoa, grupo ou liderança pode apropriar-se da comunidade. Paulo quer uma Igreja fundada em Cristo e não em personalidades, grupos ou interesses particulares.

Essa palavra é particularmente significativa para as CEBs. Uma comunidade de base é chamada a ser espaço onde a dignidade de cada pessoa seja reconhecida, especialmente daqueles que historicamente tiveram sua voz silenciada. A sabedoria cristã nasce também da capacidade de escutar o povo, aprender com sua experiência e discernir, à luz da Palavra, os mecanismos que produzem pobreza e exclusão.

2. “Avança para águas mais profundas” — Lc 5,1-11

O Evangelho de Lucas apresenta Jesus junto ao lago de Genesaré. A multidão se aproxima para escutar o anúncio da Boa-nova. Jesus entra na barca de Simão e dali ensina. Depois, dirige-se ao pescador: “Avança para águas mais profundas e lançai vossas redes para a pesca”.

A cena acontece no ambiente concreto do trabalho. Simão e seus companheiros haviam trabalhado durante toda a noite sem conseguir nada. As redes estavam sendo lavadas. A narrativa, portanto, não apresenta uma vocação desencarnada: Jesus encontra pessoas cansadas, inseridas nas dificuldades da vida cotidiana. A história combina ensino, experiência de fracasso, pesca abundante e chamado ao discipulado.

O detalhe é importante para uma hermenêutica latino-americana: Jesus entra na barca dos trabalhadores. Não chama seus discípulos a partir dos espaços de privilégio, mas do mundo do trabalho, da luta pela sobrevivência e da experiência concreta de quem conhece o esforço e também o fracasso.

Simão responde: “Mestre, nós trabalhamos a noite inteira e nada pescamos. Mas, em atenção à tua palavra, vou lançar as redes”. Sua resposta revela uma tensão fundamental: a realidade parece dizer “não há mais nada a fazer”, enquanto a Palavra de Jesus abre uma possibilidade nova.

A pesca abundante não deve ser interpretada simplesmente como promessa de prosperidade material. O próprio relato desloca rapidamente a atenção da pesca para a vocação e a missão. A experiência transforma Simão. Ele reconhece sua pequenez diante de Jesus e recebe a palavra: “Não tenhas medo”. A partir daquele momento, sua existência deverá ser orientada para uma missão nova. Estudos recentes ressaltam justamente essa dimensão transformadora: o episódio não é apenas um relato de vocação, mas uma narrativa de transformação e discipulado.

É significativo também que Lucas não utilize exatamente a conhecida expressão de Mateus e Marcos “pescadores de homens”. Em Lucas, o verbo utilizado no grego significa, de maneira mais ampla, “capturar para a vida” ou “trazer vivos”. Isso permite uma leitura pastoral muito rica: a missão cristã não consiste em capturar pessoas para uma instituição, mas em participar da missão de Deus que gera vida, resgata dignidade e reúne pessoas para uma existência nova.

3. Da barca das CEBs às águas profundas da realidade

A aproximação dos dois textos oferece uma mensagem particularmente forte para as Comunidades Eclesiais de Base.

Em 1Cor 3, Paulo denuncia uma comunidade contaminada pela lógica da competição e da valorização dos poderosos. Em Lc 5, Jesus encontra trabalhadores frustrados e, a partir de sua realidade, abre um novo horizonte de missão. Em ambos os textos, o Evangelho propõe uma inversão de valores.

A Igreja não pode medir sua fidelidade pelo prestígio social, pela quantidade de recursos acumulados, pelo poder institucional ou pela capacidade de influenciar os poderosos. Sua sabedoria está em colocar-se ao lado daqueles que o mundo considera “loucos”, “inúteis” ou “insignificantes”.

Essa perspectiva toca diretamente a realidade dos pobres, desempregados, trabalhadores precarizados, moradores das periferias, pessoas em situação de rua, migrantes, indígenas, comunidades quilombolas, mulheres vítimas de violência e tantos outros grupos que continuam sofrendo processos de exclusão.

Para as CEBs, “avançar para águas mais profundas” significa não permanecer na superficialidade religiosa. Significa entrar nas águas concretas da realidade: compreender as causas da pobreza, denunciar as estruturas injustas, defender os direitos humanos, cuidar da Casa Comum, fortalecer a participação popular e construir alternativas de solidariedade.

A barca pode tornar-se imagem da própria comunidade. Uma barca parada na margem pode simbolizar uma Igreja acomodada. Uma barca que se lança às águas representa uma Igreja missionária, capaz de correr riscos por causa do Evangelho. Mas essa missão não é individual: há redes, barcos e companheiros. A missão é comunitária.

4. Dimensão sociotransformadora e ação pastoral

A Palavra desses dois textos pode inspirar algumas atitudes concretas:

1. Escutar a realidade antes de falar sobre ela. As CEBs são chamadas a ouvir o clamor dos pobres e a reconhecer neles sujeitos da evangelização e da transformação social.

2. Romper com a lógica do poder. A Igreja deve evitar clericalismo, autoritarismo e personalismos. “Vós sois de Cristo” significa que nenhum líder é proprietário da comunidade.

3. Valorizar o mundo do trabalho. A barca de Pedro recorda que Jesus encontra trabalhadores concretos. A pastoral deve defender trabalho digno, salário justo, direitos trabalhistas e condições humanas de existência.

4. Transformar a indignação em organização. O fracasso de uma noite inteira não pode gerar conformismo. A fé deve ajudar as comunidades a organizar-se para enfrentar as causas estruturais da pobreza.

5. Fazer das CEBs espaços de participação. Mulheres, jovens, trabalhadores, pobres, idosos, indígenas, negros e pessoas historicamente marginalizadas devem encontrar na comunidade não apenas assistência, mas voz, protagonismo e reconhecimento.

6. Cuidar da Casa Comum. A imagem da pesca permite também perceber que a vida humana está vinculada à preservação dos rios, lagos, florestas, terras e territórios. A missão cristã inclui defender a criação contra práticas predatórias que atingem sobretudo os pobres.

Conclusão

1Cor 3,18-23 e Lc 5,1-11 nos convidam a uma verdadeira conversão pastoral. Paulo chama a comunidade a abandonar a sabedoria baseada no prestígio e na competição. Jesus chama trabalhadores cansados a lançar novamente as redes e transformar sua experiência em missão.

Para a Teologia Latino-Americana, essa Palavra revela uma Igreja que encontra sua sabedoria não no poder, mas na cruz; não na riqueza, mas na solidariedade; não no privilégio, mas na opção pelos pobres. Nas CEBs, essa conversão significa fazer da Palavra de Deus uma força capaz de iluminar a realidade e mobilizar pessoas para transformá-la.

O desafio permanece atual: não basta estar na margem contemplando as águas; é necessário entrar na barca, lançar as redes e avançar para águas mais profundas. A missão da Igreja é participar da ação de Deus que chama, reúne, liberta e devolve dignidade aos que foram deixados para trás.

Assim, a verdadeira sabedoria cristã consiste em reconhecer que “tudo é nosso”, porque todos pertencemos a Cristo, e que a abundância desejada pelo Evangelho não pode ser privilégio de poucos, mas deve tornar-se vida digna partilhada por todos. Essa é a missão sociotransformadora das Comunidades Eclesiais de Base: fazer da fé uma experiência de comunhão, resistência, esperança e compromisso concreto com os pobres, marginalizados e excluídos de ontem e de hoje.


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